João Ubaldo Ribeiro

O escritor João Ubaldo Ribeiro morreu na sexta-feira passada, já tinha lido um livro dele e contei no post “Li um imortal”, ele fazia parte da Academia Brasileira de Letras. Também vi o João Ubaldo, pessoalmente, quando fui à Flip, não consegui assistir à mesa em que ele participou, mas o vi de bem pertinho, andando pelas ruas de Paraty.

Fiquei triste, a morte é uma coisa bastante chata, muito triste pra quem fica e bem estranha pra quem vai, meu primo tem uma opinião curiosa sobre a morte, sobre a própria morte, até anotei pra não esquecer: “num instante a gente é, no seguinte, deixa de ser”, meu primo é ateu. Às vezes penso muito nessas coisas, ano passado perdi meu tio, gostava muito dele, fiquei mal, até faltei uns dias na escola, meus pais conversaram comigo, ajuda, mas não adianta muito, a morte é uma perda para sempre, e leva um tempo pra passar essa dor.

Li tudo que saiu no jornal

Neste final de semana, li no jornal tudo que escreveram sobre o João Ubaldo, e também li mais dois livros dele. Foi minha forma de fazer uma homenagem particular a um escritor que parecia feliz em viver e escrever, vi algumas de suas entrevistas na TV, ele contava histórias e ria, uma risada tão gostosa, que eu acabava rindo também, às vezes, nem tanto pela história contada, mas, principalmente, por sua voz, pelo jeito que falava e pela cara engraçada que fazia.

Li muita coisa sobre sua vida e suas obras-primas, o Viva o povo brasileiro, que vai sair uma edição especial agora, em novembro, comemorando os 30 anos da obra, o livro tem quase 700 páginas, ele quis escrever um livro grande, para responder ao pai, que não gostava de livros que não parassem pé.

Os outros são o Sargento Getúlio, seu primeiro romance, de 1971, que ganhou o Jabuti e virou filme com o ator Lima Duarte; O sorriso do lagarto, de 1989, que virou série de TV, com Maitê Proença e Tony Ramos; o Casa dos budas ditosos, que foi para o teatro, com Fernanda Torres; entre outros. Ele deixou um livro inacabado, com histórias que se passam nos bares do Rio de Janeiro, cidade onde morava.

Muitos de seus livros foram escritos na Ilha de Itaparica, na Bahia, onde nasceu e passou a infância e a adolescência, depois se mudou para o Rio de Janeiro, se formou em Direito, fez Administração Pública, foi professor universitário, viveu um tempo nos Estados Unidos e na Alemanha, mas sempre voltava à sua cidade natal, para passar férias ou para escrever um romance. Por enquanto só li os infantojuvenis, quero crescer logo pra poder ler todos os livros do João Ubaldo.

Os livros que li

O livro do João Ubaldo Ribeiro que já tinha lido é o Vida e paixão de Pandonar, o cruel, que contei no post “Li um imortal”, e os que li nesse final de semana são Dez bons conselhos de meu pai e A vingança de Charles Tiburone. Peguei estes dois emprestados da biblioteca, fui no sábado de manhã passear na Anne Frank,  encontrei meu amigo, o coordenador Gustavo, e conversamos sobre o João Ubaldo e sobre o PMLLLB, o plano municipal do livro que falei no post anterior. Adoro passear na biblioteca do meu bairro, tem muitas histórias por lá e, em breve, vou contar algumas, em detalhes, aguardem! Agora vou falar desses dois livros do João Ubaldo.

O livro Dez bons conselhos de meu pai, escrito por João Ubaldo Ribeiro, com lindas ilustrações de Bruna Assis Brasil, e publicado pela Editora Objetiva conta, em seu texto de orelha, que o autor cresceu numa casa cheia de livros, a biblioteca de seu pai ocupava todos os cômodos, e tinha de tudo, romance, filosofia, poesia, política, esoterismo. Sem que ninguém mandasse, o menino João Ubaldo vivia mergulhado em histórias, e seu pai era rigoroso, fazia o menino decorar versos, e quando não conhecia alguma palavra, tinha que correr ao dicionário.

Foi o pai que ensinou o menino a amar os livros, a gostar de estudar e aprender sempre mais, ele também lhe dava conselhos, que o João Ubaldo apresenta nesse livro. O autor explica no texto de apresentação, que os conselhos de seu pai não eram de forma sistematizada, como estão no livro, “mas deu todos, inclusive mostrando como era que se fazia”. Dos conselhos de Manuel Ribeiro – esse era o nome do pai de João Ubaldo -, o que mais gostei foi o oitavo: ‘Não seja intolerante’. “Alegre-se com a diversidade humana. Procure honestamente entender os outros. Só não seja tolerante com os inimigos conscientes e comprometidos com o seu fim.”

A edição que li do livro A vingança de Charles Tiburone, escrito por João Ubaldo Ribeiro e ilustrado com os desenhos de Gerson Conforto foi publicada pela Editora Nova Fronteira, a Editora Objetiva já está preparando uma nova edição desse livro.

Quando estava na Ilha de Itaparica, João Ubaldo gostava de passear com os filhos, sobrinhos e seus amiguinhos e ficar na beira da praia, contando histórias. A aventura desse livro pode ter sido inventada num desses passeios.

As crianças Juva, Bolota, Mino, Tonhão, Neca e Quica são agentes do Centro de Contra-Espionagem Danger People e possuem identidades secretas. “Como em toda turma que se preza, surgem implicâncias, chantagens, brigas, mas quando aparece uma missão secretíssima, prevalece a regra de ‘todos por um, um por todos’”.

São muito engraçadas as brigas e confusões dessa turma, têm a cara do João Ubaldo, mesmo. Imagino ele contando essas histórias para as crianças, na beira da praia, devia ser bem divertido. A aventura vivida por essa turma, segue caminhos “fantásticos”, com batalhas no fundo do mar, no final o autor revela o segredo que torna a história mais fantástica ainda.

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As minhocas e o plano do livro

Hoje vou falar de um livro que ganhei da própria escritora, um livro que fala de minhocas, não essas que vivem debaixo da terra, mas aquelas que criamos nas nossas cabeças. Já li o livro, adorei e descobri que também crio algumas, atrás da minha testa. Também vou falar da minha nova luta política, a luta pela criação de um plano do livro, da leitura, da literatura e da biblioteca, na minha cidade. Nesses dias participei de algumas reuniões, fui a uma audiência pública, fiz muitas anotações e hoje vou contar tudo aqui no blog.

CONHECI MAIS UMA ESCRITORA

Outro dia fui a um lançamento com o pessoal da Sintaxe, vi um monte de gente famosa e importante, ganhei um livro autografado e conheci mais uma escritora. O lançamento era de um livro chamado Matrizes impressas do oral, de Jerusa Pires Ferreira, publicado pela Ateliê Editorial, eles trabalham pra essa editora e fizeram a divulgação desse livro. A Professora Jerusa, autora do livro, é casada com o Professor Boris Schnaiderman, que também foi ao lançamento. A Miriam, filha do Professor Boris, que conhece o pessoal da Sintaxe, foi quem me apresentou à Luana, sua filha escritora e autora do livro, não o do lançamento, o outro, que eu ganhei, li, adorei, e vou falar dele, e um pouco dela, também, da Luana.

Blogs e literatura

Conversei com a Luana, ela me disse que também é professora, dá aula no Colégio Equipe e fez um trabalho, em sala de aula, para aproximar a literatura de seus alunos. Ela me contou que usou as “novas tecnologias” para aproximar suas turmas das crônicas de Fernando Sabino, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga. Ela fez esse trabalho com o 8º ano, os estudantes tinham que descobrir relações nos textos desses autores com os relatos encontrados nos blogs da internet. Depois, eles tiveram que construir os seus próprios blogs, “utilizando a crônica para relatar seus dramas cotidianos”.

Ela me disse que “com os blogs, a produção de textos fez mais sentido, saiu do eixo sala de aula e foi para o mundo público de fato, como expressão das ideias e da experiência de cada um. As crônicas ganharam um novo significado, não como um gênero congelado a ser aprendido na escola, mas como um gênero vivo”. Achei muito legal esse trabalho que ela fez com seus alunos, depois quero saber mais dele. Nessa hora, aproveitei e falei do meu blog, que já fiz trabalhos com alunos de três escolas, e contei pra ela dos nossos clubes de leitura.

O minhocário do Carlos Alberto

O livro Minhocas, escrito por Luana Chnaiderman de Almeida, ilustrado por Deco Farkas e publicado pela editora Cosac Naify conta a história de Carlos Alberto de Souza Vasconcellos. Carlos Alberto era um criador de minhocas profissional, criava diversos tipos de minhocas, e dependendo das características, lhe dava um nome. Havia a Retardoca, a Bolota, a Musculoca, a Ignoroca, a Fofococa, a Tinhoca, a Feioca, e muitas outras, e cada uma com sua função. O menino vivia alimentando essas suas minhocas, quando tinha um problema (ele tinha vários problemas), guardava em segredo e não percebia que cada vez que deixava de contar uma coisa que o chateasse, uma nova minhoca nascia na cabeça dele, e se a coisa voltasse a incomodar, a minhoca crescia, e se acontecesse de novo, a minhoca engordava, e uma outra vez, a minhoca inchava, “e se ele só lembrasse e ficasse incomodado com a memória da coisa ruim, a minhoca ficava obesa de tão gorda.”

Sempre que fazia aniversário, Carlos Alberto pedia um presente especial, neste ano seu pedido foi simples e bem diferente, e viveu uma grande aventura, junto com seu melhor amigo, o Léo. Será que no fim ele vai conseguir se livrar das minhocas?

Os desenhos de Deco Farkas nas ilustrações do livro são muito bonitos, o Deco é grafiteiro e esse é o seu primeiro trabalho como ilustrador de livro infanti. O João Gordo, da banda Ratos de Porão escreveu o texto da 4ª capa e disse que também já criou e alimentou algumas minhocas. A Luana, no autógrafo que fez pra mim, no livro, me perguntou se eu também tenho minhocas, e disse que eu podia ficar amigo do Carlos Alberto. Já sou amigo do Carlos Alberto, gostei muito dele, achei ele da hora! Agora, quanto às minhocas, tenho muitas, até já falei de algumas aqui, mas, me disseram, que este não é o “espaço adequado” pra isso. Será que estou engordando as minhas minhocas? Olha aí mais uma minhoca!

LUTAS POLÍTICAS

Quem me conhece ou acompanha o meu blog, sabe que eu participei da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, a Anne Frank, a biblioteca que frequento e que o prefeito (não esse, o anterior) queria demolir e vender o terreno pra construir prédios de apartamentos. Depois aprendi que isso se chama “especulação imobilária”, ele queria vender todo o quarteirão! No terreno, além da biblioteca tem um teatro, duas escolas, duas unidades de saúde, uma creche e a APAE.

Derrotamos o prefeito e todos os “equipamentos públicos” continuam lá, atendendo a população e, ainda, no começo deste ano, o Condephaat tombou a biblioteca e o teatro. Essa foi minha primeira luta política de verdade, gostei tanto dela, que agora estou participando de outra, a luta pela criação do PMLLLB, o Plano Municipal do Livro, da Leitura, da Literatura e da Biblioteca na cidade de São Paulo. Meu pai que sempre me incentiva a “fazer política”, me disse outro dia: “Essa sua luta começou no nosso bairro, Heitor, e agora está ganhando a cidade… A luta continua, companheiro!” Adorei o comentário dele!

Grupo de Discussão (GD)

Como faz tempo que não falo do PMLLLB no blog, hoje vou fazer uma retrospectiva, algumas partes dessa história, já contei aqui, outras, ainda é novidade.

Participo do movimento pela criação do PMLLLB desde um evento que aconteceu na praça da biblioteca Monteiro Lobato, o “Quarteirão Literário”. Quem me convidou pra essa festa foi a minha amiga Luciana, coordenadora da Biblioteca Hans Christian Andersen.  Depois desse dia, comecei a frequentar as reuniões e a participar das atividades do GD – Grupo de Discussão do plano. Nessas reuniões fiz novos amigos e aprendi um monte de coisas sobre o livro e a leitura.

Descobri que já existe um Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) e que outras cidades do Brasil também estão construindo os seus. Aprendi que o Plano Nacional é referência para os planos municipais e tem quatro “eixos estratégicos”: o eixo da “democratização do acesso”, do “fomento à leitura e à formação de mediadores”, da “valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico”, e do “desenvolvimento da economia do livro”. Na discussão para a construção do plano da cidade de São Paulo, acrescentamos mais um eixo, o da “literatura”, agora temos cinco eixos estratégicos para construir o nosso PMLLLB.

Portaria cria o GT

O GD se reunia quase toda semana e, no final do ano passado, organizou um grande encontro, no Centro Cultural São Paulo. Esse encontro, que também teve a participação de representantes das secretarias de Cultura e Educação, além de entidades e pessoas preocupadas com a questão do livro e da leitura, decidiu que a prefeitura ia fazer uma “portaria” pra criar um Grupo de Trabalho (GT). E numa cerimônia que aconteceu em abril deste ano, com os secretários da Educação, César Callegari, e da Cultura, Juca Ferreira, o GT foi criado com a finalidade de elaborar o PMLLLB. Formado por representantes de muitas entidades ligadas ao livro e à leitura, o GT vai ouvir os diversos setores, das diversas regiões da cidade, pra fazer um diagnóstico e depois, junto com a sociedade, elaborar o PMLLLB da cidade de São Paulo.

Infelizmente, não faço parte do GT, não represento nenhuma entidade, mas, pedi aos meus amigos, se podia continuar participando das reuniões, mesmo que fosse como “café com leite”. Prometi que ia ficar bem quietinho, nem iam perceber minha presença. Eles deixaram! Não é legal? Vou poder acompanhar de perto a construção do Plano do Livro, da Leitura, da Literatura e da Biblioteca da minha cidade, um momento histórico! E prometo contar tudo aqui no blog!

A audiência pública

Nas primeiras reuniões do GT descobrimos que já tinha um Projeto de Lei (PL) para criar um plano do livro, “tramitando” na Câmara Municipal. Esse PL é do vereador Antonio Donato e até tinha uma audiência pública marcada (toda vez que a câmara encaminha um projeto importante, ela marca uma audiência pra discutir com a população). O pessoal do GT agendou uma reunião com o vereador pra falar do nosso trabalho de construção do PMLLLB e contar que já estamos discutindo esse projeto, há mais de um ano.

Eu não participei dessa reunião, mas eles me disseram que fomos muito bem recebidos, e que o vereador nos convidou a participar da audiência, também. Essa eu não podia perder! Fui à audiência pra discutir o plano do livro da minha cidade, minha segunda audiência pública, a outra foi pra discutir a venda do terreno da biblioteca do meu bairro.

O vereador Antonio Donato abriu a audiência pública e falou sobre o PL, disse que o projeto foi elaborado em 2010, mas ficou parado e só voltou a ser discutido neste ano. Já foi aprovado em primeira votação, ganhou um “substitutivo” e poderia virar lei, logo, mas ele disse que prefere esperar, pra discutir com a sociedade e com os movimentos organizados e enriquecer mais o projeto.

No final ele falou sobre “protagonismo”, e o que eu entendi é que se esse plano tem um dono, o dono é a cidade, a população de São Paulo. E ainda disse que quem vai tocar o trabalho daqui pra frente será o GT, todo processo será conduzido pelo Grupo de Trabalho, e ele vai acompanhar. É nóis!

O José Castilho, secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) também estava na audiência e disse que existe um movimento muito grande nas cidades e nos estados do Brasil, para a implantação de planos do livro e da leitura. Disse que o plano nacional só vai ter eficiência, quando os planos municipais e estaduais se “estabelecerem”.

O Castilho contou que as grandes cidades já estão se mobilizando, que São Paulo pode contribuir muito pra esse processo, e que o plano nacional foi elaborado em 2006 e é muito ambicioso: “Apenas 26% dos brasileiros alfabetizados são leitores plenos, número extremamente importante para ser quebrado”.

Além do Donato e do Castilho, também estavam à mesa, representantes das secretarias de Cultura e Educação, do sindicato da Educação Infantil, da OAB, dos Saraus, o professor Edmir Perrotti, e Paulo Farah, o nosso representante do Grupo de Trabalho. O Paulo fez um histórico do GT e disse que é muito importante “estabelecer um cronograma de trabalho conjunto com a câmara para assegurar as várias etapas necessárias de aprovação do PMLLLB”.

No final ele destacou a presença na audiência de mais de dez integrantes do GT, entre representantes de saraus, bibliotecários, professores, escritores, representantes de biblioteca comunitárias, representantes das secretarias que integram o GT e pessoas e entidades que atuam com bibliodiversidade (diversidade temática, de editoras, autores, etc.) “conceito essencial para o PMLLLB”.

As reuniões do GT

Já participei de umas quatro reuniões do GT, anotei quase tudo que foi falado e ainda recebi as atas por e-mail, nos próximos posts vou contando o andamento das reuniões e do “processo” de construção do nosso PMLLLB, mas já posso ir adiantando alguma coisa.

Organizamos o grupo de trabalho – são dois representantes por entidade, e aprovamos o Regimento Interno. Estamos planejando a mobilização por setores, segmentos e regiões, vamos ouvir a população da cidade para construir o PMLLLB. Discutimos a “questão orçamentária” e definimos a estrutura de trabalho.

Estamos elaborando a metodologia para as audiências regionais e definindo as regiões da cidade, com informações das secretarias de educação e cultura. Formulando questionários para levantar o diagnóstico, escrevendo os roteiros, e definindo a agenda dos fóruns e dos debates regionias. Também estamos construindo um site e criando um slogan. Sempre considerando a questão da acessibilidade às pessoas portadoras de deficiência. Temos muito trabalho pela frente, no próximo post, conto mais.

A MINHOCA DE ÚLTIMA HORA

Achei que o post de hoje ficou grande e que ninguém ia ler. Antes de publicar, mostrei pro meu amigo Lipe, que disse:

- O livro Minhocas é bem legal, o PMLLLB é muito importante e ainda você fez uma restrospectiva, não dava pra ser pequeno, eu li e gostei!

Ainda bem que meu amigo tirou essa minhoca da minha cabeça, em tempo.

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Participei de mediação de leitura

Aquela visita que fiz ao pessoal da Sintaxe, e que rendeu o post anterior, também vai render o post de hoje. Naquele dia eles me contaram, também, que faziam um curso:

- Heitor, estamos fazendo um curso de mediação de leitura numa biblioteca da prefeitura e acho que vai ser útil para o seu blog.

- Como, assim?

- Você já não fez posts e transformou seu blog em clubes de leitura?

- Fiz vários posts com clubes de leitura, com três escolas, uma de São Paulo, outra de Belo Horizonte e outra de São José dos Campos. Vocês sabem disso, no começo, me ajudaram, muito.

- Então… Agora estamos pensando em transformar seu blog em mediador de leitura. O que acha?

- Como é isso? Já ouvi falar de mediação de leitura, mas não sei direito o que é… Mas, se for pra agitar o blog, eu topo!

Tem tanta coisa pra eu aprender sobre livros, que acho que vou precisar daquela “vida inteira pela frente” que minha mãe sempre fala que tenho, quando estou com pressa de fazer as coisas.

Eles me explicaram o que é mediação de leitura, me deram “um curso intensivo” e me disseram que eu ia aprender na prática, e na marra. No final do curso, eles teriam que fazer uma medição, como conclusão, e me convocaram a participar dessa prova final. A mediação de leitura já estava marcada, ia ser na Biblioteca Anne Frank, e com os alunos da EMEI Tide Setubal, escola que fica ao lado da biblioteca. Fiquei mais tranquilo, pelo menos estaria “em casa”, na biblioteca do meu bairro, e com o meu amigo Gustavo, o coordenador da Anne Frank.

Biblioteca Anne Frank

Tirando minhas dúvidas

No dia da mediação de leitura, cheguei meia hora antes da hora marcada e fiquei conversando com o Gustavo, contei pra ele que também ia participar da mediação, disse que estava ansioso e preocupado, achando que não ia dar certo, ele falou pra eu ficar tranquilo e que se tivesse qualquer dúvida, era só perguntar, “estamos aqui pra ajudar”. O Gustavo fez formação em mediação de leitura com A Cor da Letra, que é um Centro de Estudos em Leitura, Literatura e Juventude, e que “formou muitos multiplicadores na prefeitura, inclusive a Ângela, a Márcia, o Cleo, e a Sandra, que estão dando a formação na Biblioteca Viriato Corrêa para o seu amigo”. Aproveitei o tempo que tinha, antes que chegassem as crianças, a professora e o meu amigo, para tirar todas as dúvidas com o Gustavo.

31 crianças e quatro mediadores de leitura

Na hora combinada, chegaram o meu amigo da Sintaxe, a professora Bete, e os 31 alunos da EMEI Tide Setubal, e fomos pra sala de leitura. As crianças se sentaram no chão e a professora começou a conversar com eles, apresentou o meu amigo pra turma e disse que eu era o seu convidado. O Gustavo já é um velho amigo deles, essa escola sempre leva seus alunos na biblioteca Anne Frank. O meu amigo se apresentou, falou do curso de medição de leitura que estava fazendo, que essa seria sua prova final, e passou a palavra pra mim. Eu me apresentei, disse que tenho 12 anos (tenho o dobro da idade deles, eles têm 6), que escrevo um blog e que ia falar desse nosso encontro no meu blog, e depois passava o link pra eles. Feitas as apresentações começamos nossa mediação de leitura, com quatro mediadores e 31 crianças.

A professora organiza a nossa mediação

A professora Bete começou a nossa mediação, combinou com a gente e pediu aos alunos que escolhessem algum livro das estantes, folhassem, e depois trocassem com seus amigos. No final todos iriam escolher um único livro para ela ler pra toda turma.

A procura de seu mediador

Ficamos observando, todos escolheram um livro, alguns trocaram entre si, outros pegaram o livro escolhido, saíram da roda, e foram procurar um mediador, disposto a ler aquele livro, naquela hora, pra eles.

Foi mediação pra todo lado

Cauã, João Vitor, Artur, Luna, Pietro, Nicole, Bernardo, Lucas e Pedro foram alguns dos alunos que saíram da roda a procura de seu mediador, cada um, abraçado ao seu livro. Contando com Ninoca, Cabun, O Soluço do Lúcio, Nas Nuvens, Comilança, Um Amor de Botas, O Casal Perfeito, O Macacão Espantado, Pega Ladrão no Planeta Zog, Rodolfo e o Tesouro Perdido foram alguns dos livros que trouxeram pra gente ler.

Muitos não ficavam até o fim da história

Às vezes o livro escolhido não prendia a atenção da criança, ela saía, ia para outra roda, ou buscava outro livro na esperança de encontar uma história mais interessante. Alguns voltavam com revistas “Recreio” ou gibis do Maurício de Sousa.

Leitura de livro

Quando algumas crianças chegaram com revistas e me pediram pra ler, eu não soube o que fazer. Perguntei aos meus amigos, que fizeram o curso, se devia ler ou não. Eles disseram para eu sugerir a troca da revista por um livro, “nossa mediação é de leitura de livros”. E concluíram: Mas se não tiver jeito, leia a revista, mesmo.

Um livro bem legal

No final encontrei um livro bem legal pra fazer mediação, e foi por acaso. Quem me trouxe esse livro foi o Artur, se chama Ponto de Vista e foi escrito por Sonia Salerno Forjaz. Li esse livro para o Artur e só não cheguei até o final da história porque a aula terminou e eles tiveram que ir embora. O livro é escrito em rimas, rimas muito engraçadas. O Artur estava adorando, tanto, que no final, me disse:

- Quero ficar aqui com você e terminar de ouvir a história.

- Você tem que ir embora, eu volto outro dia e termino de contar essa história pra você. Combinado?

- Combinado! – ele me respondeu, animado.

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Memórias de um sargento de milícias

Outro dia fui visitar o pessoal da Sintaxe, eles estavam escrevendo um artigo para uma revista, gosto muito de ir lá, e sempre aprendo alguma coisa. Para quem não sabe, a Sintaxe é a assessoria de imprensa que criou e me deu de presente este blog, me apresentou a um monte de escritores, e hoje, são meus amigos. O artigo que escreviam era sobre o escritor Manuel Antônio de Almeida, para a revista da ANL, Associação Nacional de Livrarias. Ainda não conhecia esse escritor e eles me falaram um pouco dele, disseram que ele escreveu para o teatro, fez poesia, mas seu único romance é o Memórias de um sargento de milícias, sua grande obra.

"Pacotilha" com as Memórias

Eles me disseram, também, que esse romance foi publicado, inicialmente, como folhetim, que era tipo umas crônicas que saiam nos jornais de antigamente. As Memórias de um sargento de milícias saíram em forma de capítulos, entre os dias 27 de julho de 1852 e 31 de julho de 1853, no folhetim “Pacotilha”, do jornal do Rio de Janeiro, Correio Mercantil, nesses folhetins não apareceu o nome do autor. Depois, foi publicado em livro, em dois volumes, o primeiro, no final de 1854 e o segundo, no começo de 1855, nesses o autor aparece como “Um brasileiro”. Eles me contaram que a “autoria desse romance só foi atribuída a Manuel Antônio de Almeida, numa edição de 1863, publicada depois de sua morte”.

- Heitor, foi com este livro que aprendi a gostar de ler – meu amigo levantou e balançou um exemplar na minha frente – Nos meus tempos de escola a gente só lia os clássicos, com Memórias de um sargento de milícias descobri que havia alegria na literatura e na leitura dos clássicos.

Um Brasileiro

- Que legal!

- Você vai ter que ler esse livro quando chegar ao ensino médio, ele sempre está na lista do vestibular.

- Vou ter que esperar todo esse tempo… Queria ler agora!

- Tudo bem, eu te empresto… O texto deste é da primeira edição, tem muitas palavras que hoje nem se usam mais, mas tem notas no final do livro, explicando essas palavras. Vai te dar trabalho, mas acho que você vai gostar. O Leonardo, o personagem principal desta história, é uma figura!

As aventuras de um traquinas

A edição que li do livro Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, foi publicada pela Ateliê Editorial, tem apresentação e notas de Mamede Mustafa Jarouche, especialista no autor e na obra; ilustrações de Marcelo Cipis e imagens de edições da época. O pessoal da Sintaxe tinha razão, deu bastante trabalho ler esse livro, mas foi muito bom, adorei! Além de a história ser bem divertida – o Leonardo é uma figura, mesmo! – aprendi um monte de palavras diferentes. Toda hora eu tinha que consultar as notas, ao final do livro, para entender as palavras que eu não conhecia, li o livro com dois marcadores de página.

Assim era Leonardo, personagem central da história (seu pai também se chamava Leonardo, o Pataca):

“Logo que pôde andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão. Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os móveis, punha-lhe dentro tudo que encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa; até que Maria, exasperada, pelo que aquilo lhe havia custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancava-lhe das mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava comia. A Maria não lhe perdoava, trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas.”

Leonardo, o pai, e Maria, a mãe, se separaram, e o menino Leonardo foi viver com o padrinho, o dono da barbearia.

M. A. D'Almeida

Cresceu e continuou a aprontar, deu muito trabalho ao Major Vidigal, responsável por manter a lei e a ordem na cidade. Namorou duas moças, Vidinha e Luisinha. Perdeu Luisinha para José Manuel, que logo depois morreu, e Leonardo acabou se casando com a viúva, sua antiga namorada.

Do primeiro namoro de Leonardo e Luisinha tem um capítulo que eu gostei muito e se chama “Declaração”. Ele declara seu amor a ela, não foi fácil fazer isso, e o capítulo conta todos os detalhes dessa luta. Sim, foi uma luta, como está no final do capítulo: “Quando ela desapareceu, soltou o rapaz um suspiro de desabafo e assentou-se, pois se achava tão fatigado como se tivesse acabado de lutar braço a braço com um gigante.”

Manuel Antônio de Almeida nasceu no Rio de Janeiro em 1830 e morreu em 1861, filho de portugueses, enquanto fazia faculdade de Medicina, com dificuldades financeiras, foi trabalhar como jornalista e escritor. Formou-se em Medicina em 1855, mas nunca exerceu a profissão. Escreveu a peça de teatro “Dois Amores”, fez poesia e, além de Memórias de um sargento de milícias, publicou a tese de doutoramento em Medicina e um libreto de ópera. Foi Administrador da Tipografia Nacional, onde conheceu Machado de Assis, que trabalhava como aprendiz de tipógrafo.

Também foi 2º Oficial da Secretaria da Fazenda, e em 1861, quando se preparava para entrar em campanha como candidato à Assembléia Provincial do Rio de Janeiro, morreu no naufrágio do navio Hermes, próximo a Macaé (RJ). Não se interessava pelo sucesso nem pela moda literária, escreveu seu romance sem compromissos e apresentou, em tom direto, bem humorado e com tendências realistas, a sociedade de então, principalmente a gente simples que povoava o Rio de Janeiro. Memórias de um sargento de milícias fez sucesso pelo humor imparcial e amoral, o estilo coloquial e, principalmente, por seu grande talento como narrador. (Fonte: Página 3 Pedagogia & Comunicação)

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David Almond no clube de leitura

De todas as coisas que faço com este blog uma das que mais gosto é o clube de leitura. Fora os livros que leio pra escola é difícil encontrar e conversar com alguém que tenha lido o mesmo que eu, no clube de leitura eu encontro muitos, pois nele fazemos o caminho inverso, primeiro formamos um grupo, depois escolhemos o livro, lemos e no final compartilhamos nossas leituras.

Hoje vou começar a compartilhar aqui no blog a leitura que fiz do livro Meu pai é um homem-pássaro, vou escrever o post e esperar os comentários. Quem sugeriu esse livro foi a professora Luciana da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte – é ela quem organiza o clube lá na escola. A professora e os seus alunos já leram e trabalharam com esse livro em sala de aula, na semana passada recebi um e-mail dela me avisando: “Já acabamos a leitura e a atividade… agora estamos só aguardando o post.” E eu respondi ao seu e-mail dizendo que publicaria hoje.

No ano passado fizemos dois encontros do clube de leitura da Luiz Gatti, um foi com o livro A professora encantadora, de Márcio Vassalo e outro com Os herdeiros do Lobo, de Nelson Cruz, neste até entrevistamos o autor. Foi muito bom, adorei! Está tudo publicado aqui no blog, inclusive os comentários dos alunos sobre os livros. Quem quiser ler depois esses posts é só procurar pela ferramenta de busca do blog.

Nossa roda de conversa

Já li o Meu pai é um homem-pássaro e conversei com o Lipe, que também leu. Sempre que tem clube de leitura, peço a ajuda do meu amigo:

- Você gostou do livro, Lipe?

- Gostei… No começo achei meio estranho, o pai pensava que podia voar…

- Eu também… E achei que ele estava ficando louco…

- Então… A filha nem queria deixar o pai sozinho em casa…

- Até a tia veio cuidar dele…

- Mas depois achei legal, a filha entrou na fantasia do pai e a história ficou da hora.

- Ouvi dizer que isso se chama realismo mágico… Na minha pesquisa, li que o David Almond é o Gabriel García Márquez da literatura juvenil.

- Quem? Esse que morreu na semana passada?

- Sim, esse mesmo! Um dia ainda vou ler um livro dele!

O pai voador

O livro Meu pai é um homem-pássaro, escrito por David Almond, ilustrado por Polly Dunbar e publicado pela Editora WMF Martins Fontes conta a história de Jackie, pai de Lizzie, que certo dia, durante o café-da-manhã, disse à filha que iria voar: “Vou entrar numa competição… a Grande Competição do Passáro Humano”. O primeiro a atravessar voando o rio Tyne ganharia mil libras, o pai ia se inscrever, dizia que ia ganhar e, finalmente, ficar famoso.

Lizzie não acreditou na história do pai, disse que ele podia até voar, mas não podia deixar de “tomar ar puro e de comer todo o seu almoço”. A filha via que seu pai não se cuidava, ele não fazia a barba, vivia de pijama e não comia mais, pelo menos comida de gente, pois, escondido, comia insetos feito os pássaros, queria emagrecer: “Você já viu pássaro gordo?” – perguntou à filha. Nesse dia a filha resolveu faltar à escola e ficar vigiando o pai.

David Almond diz que sempre soube que queria ser escritor, quando ainda era criança escrevia histórias e costurava seus próprios livros, seus tios enchiam uma sala de amigos para ouvir essas histórias, e ele conta que eles choravam de tanto rir.

A história do livro continua e entram em cena outros personagens: O senhor Poop, o gorducho que andava pelas ruas com um megafone, anunciando e fazendo as inscrições da competição – o pai de Lizzie, o senhor Jackie Corvo, fez a dele; o senhor Mint, o diretor da escola, que, preocupado, veio até a casa de Lizzie para “ficar a par do que estava acontecendo”; e a tia Doreen que achava um absurdo essa ideia de pássaro humano, dizia que a cidade estava enlouquecendo, e que as pessoas deviam se preocupar em ser pessoas, e manter os pés em terra firme.

No começo Lizzie concordava com a tia, mas aos poucos foi mudando, foi entrando na fantasia do pai, e também fez sua inscrição para a competição. Será que foi por amor ou ela acreditou, mesmo, que eles podiam voar? E a história segue, com os preparativos e a chegada do grande dia. Será que eles voaram? Eu não vou contar, só quem ler o livro vai saber.

Adorei as ilustrações desse livro, os desenhos da Polly Dunbar são muito bonitos e divertidos, ela contou que foi muito gostoso ilustrar Meu pai é um homem-pássaro, disse que ficou “engraçado, colorido, e ao mesmo tempo comovente”. Também gostei de saber que o David Almond adorava a biblioteca do seu bairro – eu também adoro a minha -, e ele ainda contou que sonhava um dia ter livros com seu nome na capa… Conseguiu e ainda ganhou o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio mundial da literatura infantil!

David Almond mora em Northumberland, na Inglaterra e é um dos escritores britânicos mais importantes de literatura infantojuvenil. Foi criado numa família grande e animada, numa cidade de minas de carvão às margens do rio Tyne, onde muitas histórias se tornaram partes de sua vida. Além de O meu pai é um homem-pássaro, publicado no Brasil, escreveu outros livros infantojuvenis traduzidos para o português e publicados em Portugal como, O meu nome é Mina, Um cantinho no paraíso, O grande jogo, e o seu primeiro livro, O segredo do senhor ninguém, que logo fez muito sucesso de público e crítica e ganhou os prêmios “Carnegie Medal” e o “Whitbread Children’s Book Award”. Escreveu outros livros de sucesso como Skellig, The fire-eaterse, e muitas histórias e peças teatrais. Também ganhou os prêmios “Smarties Prize”, “Eleanor Farjeon” e o “Hans Christian Andersen”.

Polly Dunbar estudou na Brighton Art School e mora em Brighton, na Inglaterra. Autora e ilustradora dos livros Dog blue, Flyaway Katie, Here´s a little poem e Penguin, ela acha que as cores são uma maneira maravilhosa de dar ânimo às pessoas. “Foi tão gostoso ilustrar Meu pai é um homem-pássaro! É engraçado, colorido, e ao mesmo tempo comovente.” Sempre que está triste, veste seu melhor vestido cor-de-rosa e pinta. E, quando não está desenhando, adora fazer marionetes.

Extra… Extra! Fotos das turmas da Escola Municipal Luiz Gatti no clube de leitura

Lendo o livro no pátio da escola

Lendo o blog na sala de informática

Outra turma na sala de informática lendo o blog

E depois, ainda, escreveram seus comentários aqui!


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Encontro com Luiz Ruffato e novos amigos

No post passado falei que queria fazer treze anos, logo, pra poder ler livros mais maneiros, não fiz treze anos, ainda, mas nesses dias li um livro bem maneiro do escritor Luiz Ruffato, o livro se chama Estive em Lisboa e lembrei de você. Li esse livro por (quase) sugestão da minha amiga Bel, já falei dela aqui no blog, ela faz parte do LiteraSampa, uma ONG que trabalha com incentivo a leitura, que tem uma biblioteca comunitária no bairro de Parelheiros, aqui na cidade de São Paulo.

Eles também fazem um clube de leitura e neste mês leram esse livro, não pude ir no dia que eles conversaram sobre o livro mas, na semana passada, a editora do livro, a Companhia das Letras, promoveu um encontro do autor com os meninos e meninas que frequentam essa biblioteca, a Bel me convidou e eu fui. Nesse dia conheci o Luiz Ruffato, fiz novos amigos, passei uma tarde da hora e hoje vou contar tudo, primeiro vou contar o encontro e no final vou falar do livro.

O escritor do discurso de Frankfurt

Quando a Bel me contou do encontro com o Luiz Ruffato, eu logo fiquei a fim de ir, perguntei a ela quando seria e anotei na minha agenda, no ano passado ele fez um discurso na abertura da Feira de Frankfurt e deu a maior polêmica. Nunca tinha lido nada desse escritor, que eu saiba, ele não escreve literatura juvenil, mas mesmo assim perguntei a Bel que livro ela sugeria para eu ler dele. Foi quando ela me contou do clube de leitura e que os meninos estavam lendo o Estive em Lisboa e lembrei de você, mas que eu não precisa ler pra participar desse encontro com o autor.

Acho que ela pensou que eu era muito pequeno para ler esse livro, mesmo assim fui atrás dele: Como eu ia participar de um encontro sem ter lido nada do escritor? Encontrei o livro e mostrei para o meu pai, ele já conhecia, disse que eu podia ler, sim, e que se tivesse alguma dúvida era só perguntar pra ele. Encarei o livro, li e adorei, o Luiz Ruffato escreve de um jeito legal e bem diferente, mas como disse, ainda não vou falar do livro, primeiro vou contar o encontro.

O caminho da biblioteca

“Heitor, você pega um ônibus para o Terminal Santo Amaro, lá você pega o Terminal Parelheiros e desce no final – a viagem é um pouquinho longa. Dentro do Terminal Parelheiros, na segunda plataforma, você vai pegar o ônibus Barragem, aí pede para o motorista ou cobrador te deixar no ponto da igreja católica do bairro Colônia. Descendo nesse ponto, você procura o cemitério mais próximo, que fica ao lado da igreja, suba a rua do cemitério, a biblioteca fica ao lado, Rua Sachio Nakao, 28, Colônia, Parelheiros, São Paulo, SP”. Com esse e-mail o Du, meu novo amigo de Parelheiros, me orientou a chegar à Biblioteca Caminhos da Leitura, que fica no terreno do cemitério.

O caminho do ônibus é bem bonito, passa pela avenida da represa – parece que a gente está na praia – e por lugares cheios de ávores e com poucas casas – parece que a gente está no inteiror -, mas estamos na cidade de São Paulo – esta cidade é muito grande! Cheguei na hora marcada, encontrei a Val e o Rafael, que eu já conhecia dos eventos do PMLL, conheci o Kevin, que não ficou para o evento, e fiz novos amigos, o Du (do e-mail), o Rodrigo, o Bruninho, a Sidinéia e a Tamiris, todos frequentam e cuidam dessa biblioteca comunitária.

Não demorou muito chegaram a Bel, o Luiz Ruffato e a Janine, a moça que trabalha na editora e organiza os clubes de leitura. Conversei um pouco com eles e aproveitei para confirmar com a Bel nosso próximo compromisso do PMLL. No dia 10 de abril, finalmente, os secretários vão assinar a portaria que cria o grupo de trabalho – já falei disso aqui, é minha nova luta política, depois do dia 10 conto mais novidades. Mas deixa eu voltar para o assunto de hoje, estou rodeando muito – por falar em “rodear”, o Luiz Ruffato contou uma história bem engraçada sobre isso, que já já eu conto.

O menino que se escondia na biblioteca

O quintal da biblioteca

Vieram outras pessoas, o evento tinha bastante gente, sentamos todos, a Bel fez a apresentação, passou a palavra para a Janine, que abriu o encontro com uma pergunta para o Luiz Ruffato: Como foi seu caminho para virar escritor? Antes de começar a responder, ele ficou muito emocionado e quase chorou, acho que o amor dos meninos e meninas de Parelheiros pelo livro e o cuidado que eles têm com a biblioteca o fez lembrar de sua infância pobre em Cataguases, Minas Gerais. Ele contou que ainda criança ajudou seu pai, pipoqueiro – sua mãe era lavadeira -, trabalhou num botequim, num armarinho, depois entrou numa importante escola pública da sua cidade. Lá se sentia discriminado por ser pobre, até descobrir um lugar para se esconder, a biblioteca.

A bibliotecária lhe emprestava livros pra levar pra casa, mas seu pai não deixava que ele ficasse muito tempo com “coisas dos outros”: – “Leia logo e devolve para ela!” Nesse tempo “foi um inferno minha vida”. Ele tinha que ler o livro bem rápido pra levar de volta à biblioteca, mas com isso, calcula que nesse período, leu uns duzentos livros. No final, por uma injustiça, foi suspenso, saiu dessa escola e perdeu o acesso ao livro, mas já tinha sido “inoculado pelo veneno da leitura”, mas só voltou a ter contato com o livro na faculdade. Estudou jornalismo em Juiz de Fora e depois veio para São Paulo, mas nesse intervalo, muitas coisas aconteceram, que ele conta de um jeito bem gostoso de ouvir.

Fizemos algumas perguntas e ainda conversamos sobre seu discurso em Frankfurt e sobre o seu livro Estive em Lisboa e lembrei de você. Queríamos saber se o personagem se parece com o autor, e ele disse que não é tão ingênuo quanto o Serginho. No final os meninos e meninas deram um presente pra ele, poemas que escreveram, inspirados no livro, dentro de uma caixa feita com colagens, e o Luiz Ruffato quase chorou, de novo. A Janine também ganhou um presente.

Na volta peguei carona de carro com a Bel, viemos a Bel, eu, o Luiz Ruffato, a Janine e outra moça da editora. Fiquei sabendo de um monte de histórias desse mundo do livro, e o Luiz Ruffato ainda contou uma bem legal sobre o seu pai. Disse que para contar alguma coisa ele gostava de “rodear” – sua mãe o criticava muito por isso. O cachorro da vizinha morreu, esta era a notícia. Pra dizer isso ele contava a história de toda a família da vizinha, seus pais, seus irmãos, casamentos, separações, mudanças, etc., até chegar ao final, a morte do cachorro. Para contar a história do pai que rodeava, o Luiz Ruffato também rodeou, inventou na hora e contou uma história interinha, cheia de sotaque mineiro. Adorei, foi boa demais da conta!

Um mineiro em Lisboa

O livro Estive em Lisboa e lembrei de você, escrito por Luiz Ruffato e publicado pela Companhia das Letras faz parte da coleção “Amores Expressos”. Uma produtora junto com a editora selecionou alguns escritores, eles fizeram uma viagem para alguma cidade ao redor do mundo e escreveram um romance, com uma história de amor. A produtora fez um documentário com o escritor nessa cidade, procurando a história, e a editora publicou os livros. Istambul, Cairo, Tóquio, Buenos Aires, Dublin, Havana, Praga foram algumas das cidades escolhidas. Luiz Ruffato queria uma cidade onde pudesse colocar, como personagem, um imigrante mineiro, poderia ser alguma cidade dos Estados Unidos, mas escolheu Lisboa. Serginho é o personagem principal desta história, dividida em dois capítulos, “Como parei de fumar” e “Como voltei a fumar”.

Serginho vivia em Cataguases, sua cidade natal e sua vida não estava nada boa, muita coisa ruim acontecia e ainda tentava parar de fumar, mais uma vez. Queria sair de lá, ir pra outro lugar, ganhar dinheiro e melhorar de vida, mas tinha medo, não conhecia nada. O Rio, de passagem, foi cinco vezes, “molhar o pé em Copacabana, subir no bondinho do Pão de Açucar, ver jogo do Flamengo no Maracanã”, São Paulo, pra sua irmã comprar roupa pra revender, e Juiz de Fora, “que não conta, pois é quintal de Cataguases”. Um dia ouviu falar que em Portugal poderia ganhar muito dinheiro e quem sabe, até encontrar um novo amor. Só de falar que queria ir “pro estrangeiro” o povo da cidade já ficou “puxando-saco” dele, “Serginho isso, Serginho aquilo, Doutor Serginho, só faltava deitarem no chão para eu pisar em cima”.

Para saber das coisas Serginho resolveu explorar a experiência do seu Oliveira, português, dono do Beira Bar, “que ultimamente, de dois em dois anos, viajava pra lá”, encostou no balcão, pediu uma cerveja, um pratinho de azeitona e perguntou: “Como é que um sujeito chega em Portugal?”, “De avião, ora pois”, “Como é um avião por dentro?”, “Apertado”, “De onde sai o avião?”, “Do Rio de Janeiro”, “Quanto tempo demora a ida?”, “Umas nove horas”, E a volta?, “Mesma coisa, ora pois”, e fez muitas outras perguntas. No final, Serginho foi pra Portugal, agora, se conseguiu ganhar dinheiro e encontrar seu verdeiro amor, só lendo o livro, mesmo, pra saber. Adorei esse livro do Luiz Ruffato, gostei muito do jeito que ele escreve e nem precisei fazer tantas perguntas, assim, para o meu pai. Ah, peguei um autógrafo do Luiz Ruffato, mais um para minha coleção de livros autografados.

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi “pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista”. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série de cinco livros Inferno provisório e o aclamado Eles eram muitos cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.

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Juvenil de Mirisola e luta política

No post de hoje vou continuar com um assunto que falei no anterior, ser atraído pelos títulos dos livros. Outro dia saí com o pessoal da Sintaxe, eles foram comprar alguns livros e na lista tinha um título do escritor Marcelo Mirisola, Charque. O moço da livraria foi até a estante, voltou com outro livro do mesmo autor e disse: “Por que vocês não levam este, também, e dão de presente ao menino?” – o menino no caso era eu. “É um infantil do Mirisola?!” – eles perguntaram, surpresos. O livro tem jeito e formato de livro pra criança, mas é juvenil, se chama Teco, o garoto que não fazia aniversário, foi escrito por Marcelo Mirisola e Furio Lonza, e ilustrado por André Berger.

De cara fiquei interessado pelo livro, achei que o título tinha tudo a ver comigo. Também não faço aniversário, nasci no dia 20 de novembro, mas desde que comecei a fazer este blog só fiz aniversário uma vez, tinha onze e agora tenho doze. Neste ano estou pensando em fazer aniversário, novamente, com treze vou poder ler livros mais maneiros. Mas voltando ao assunto, ganhei o livro de presente, li e me surpreendi, o livro não era nada do que estava imaginando. Adorei! Nunca tinha lido um livro juvenil como esse e hoje vou falar um pouco dele.

Mas antes quero contar mais um capítulo da história da minha primeira luta política, a luta em defesa da biblioteca do meu bairro, pois na semana passada fui assistir a uma reunião no Condephaat.

Mais uma vitória da nossa luta

Tivemos mais uma vitória na luta em defesa da biblioteca e do quarteirão do nosso bairro, mas a luta continua… Queremos mais! Todos que acompanham meu blog ou viram, na época, essas notícias nos jornais, devem saber do que estou falando. Esse quarteirão fica no bairro do Itaim Bibi e nele tem uma biblioteca, um teatro, duas escolas, dois serviços de saúde e a APAE. O prefeito queria derrubar tudo – não esse que está aí, o outro – e entregar para uma empreiteira construir apartamentos de luxo. Já aprendi, isso se chama especulação imobilária, um dos grandes males que está acabando com a história e a memória de muitas cidades no Brasil.

Durante nossa luta aprendi muitas outras coisas, fiquei sabendo que esse formato, diversos serviços públicos no mesmo espaço é um projeto de Anísio Teixeira, um dos mais importantes educadores brasileiros; que a biblioteca que atualmente se chama Anne Frank, foi fundada em 1946 e está nesse terreno por sugestão de Monteiro Lobato; que esse quarteirão conta a história de como a cidade foi ocupada, e que já não existem muitos desses em São Paulo. Por tudo isso e muito mais, entramos com pedido de tombamento junto ao Condephaat.

Companheiros de luta nos corredores do Condephaat, não estou aí, na foto, pois fui eu que bati

Em janeiro deste ano eles deram a resposta, tombaram só a biblioteca e o teatro, os outros serviços do quarteirão ainda poderiam ser derrubados por algum prefeito amigo da especulação.  Então fizemos uma “contestação”, entramos com “recurso” contra a decisão do Condephaat, e a nova resposta saiu na reunião da semana passada, o conselho votou e nós assistimos à votação. A Áurea, advogada do nosso movimento, me explicou que, além do tombamento da biblioteca e do teatro, agora eles decidiram “delimitar toda a quadra como área envoltória dos dois bens tombados”.

Acho que foi uma vitória, mas ela disse que isso não garante nada, ainda: “Como não foram divulgados os parâmetros construtivos da área envoltória, corremos o risco de não conseguir preservar todos os equipamentos.” Mas ela disse que já protocolou um “pedido de vista do processo” para esclarecer essas questões. Essas coisas de advogados são complicadas, não entendo muito bem, mas assim que tiver mais notícias, conto aqui.

Estou feliz, já vencemos muitas batalhas e a luta continua. O meu amigo Luiz Gabriel, companheiro do movimento, me disse que esse foi mais um capítulo da nossa luta: “Você que gosta de contar histórias, Heitor, deve entender muito bem dessas coisas de capítulos”. Disso, acho que entendo melhor.

As desventuras de Teco

Teco, o garoto que não fazia aniversário é o primeiro livro juvenil de Marcelo Mirisola, foi escrito em parceria com Furio Lonza, ilustrado por André Berger e publicado pela Editora Barcarolla. Li o livro e pesquisei sobre o Mirisola, dizem que ele faz um texto ‘escatológico’ e violento, e escracha a sociedade com uma linguagem cheia de humor, deboche e muita ironia. Achei irado, adorei esse Mirisola! A aventura desse livro começa numa segunda-feira, num dia bonito, Teco não gostava de festa de aniversário, odiava bolo, detestava brigadeiro, a única coisa que ele gostava um pouco dessas festas era a língua-de-sogra.

Teco se divertia, mesmo, com as palavras que mexiam com sua imaginação: avalanche, enxurrada e desabamento eram suas preferidas. Gostava de ficar trancado em armários, sempre que podia vestia as roupas da mãe, às vezes, se escondia no depósito de materiais de limpeza da escola, adorava cheiro de tinta fresca e de páginas emboloradas de livros antigos. Não gostava de Playcenter, nem montanha-russa, ficava na garagem do prédio ouvindo o barulho das tubulações e lambia azulejos, uma vez até pegou bicho geográfico na língua. Teco era um garoto muito esquisito!

Ilustração de André Berger

Na terça-feira Teco foi ao supermercado com sua mãe, enquanto ela fazia compras, “o garoto mergulhava de cabeça num livro de mistérios”, ia lendo, caminhando, esbarrando nas pessoas e derrubando as latas de leite das gôndolas. Teco também achava chato esse negócio de fazer compras, só queria terminar a história do livro pra saber quem era o assassino. De repente, tirou os olhos da leitura e viu um palhaço de verdade, nariz vermelho, sapatões sete léguas, cabelos espetados, suspensórios amarelos, calças cheias de bolinhas, mas era uma figura meio triste e parecia bêbado.

O palhaço se chamava Cachacinha, eles começaram a conversar, contaram suas vidas, do que mais gostavam e ficaram amigos, mas só até o dia seguinte. Na quarta-feira Chachacinha levou Teco ao centro da cidade, sequestrou o menino, se juntou ao parceiro Alambique e o levou ao cativeiro. Lá Teco ficou amigo do sagui Nico, fugiram, e levaram o boneco inflável do sagui, o Máicon Jackson. No caminho conheceram um grupo de garotos, Mané, Guinza e Nóia, que nasceram e cresceram na malandragem das ruas. Esse é só um pequeno resumo do começo da história, depois, toda turma vive uma aventura irada, um pouco violenta, mas contada no estilo Mirisola, “cheio de humor, deboche e com muita ironia”, como descobri na minha pesquisa. Eu adorei!

Marcelo Mirisola é considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, conhecido pelo estilo inovador, agudo, escancara as contradições do status quo, sobretudo do universo dos intelectuais moderninhos e suas posturas demarcadas pelo que se convencionou politicamente correto. Escreveu contos e romances, além de Teco, o garoto que não fazia aniversário e Charque, Mirisola publicou, O herói devolvido, Joana a contragosto, Bangalô, O banquete (com o cartunista Caco Galhardo), Fátima fez os pés para mostrar na choperia, Proibidão, entre outros, e em maio vai lançar o romance, Hosana poluída.

Furio Lonza nasceu na Itália, veio para o Brasil com cinco anos de idade. Jornalista – chegou a ser repórter – já nos anos 1970 enveredou-se pela literatura. Inicialmente escrevendo contos – um deles premiado no concurso de contos eróticos da revista Status, em 1977 – domina todos os gêneros. Do conto à poesia passando pelo romance. Em 2011 escreveu o seu primeiro texto para o teatro, Patagônia, com montagem dirigida por Xando Graça, com Diana Hime e Joana Lerner, que fez temporada no Teatro Maria Clara Machado (Planetário), Rio de Janeiro.

André Berger é artista plástico e ilustrador, colaborou com diversas publicações independentes do Brasil.

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Li três livros de Ondjaki

Gosto de fuçar nas estantes das livrarias a procura de livros novos pra ler, também faço isso nas bibliotecas, nas duas que mais frequento na minha cidade, a Anne Frank e a Monteiro Lobato. Tem muitas coisas que me chamam a atenção para um livro, a capa, o título, o autor, quando é conhecido. Se gosto do livro assim de cara, já começo a ler os textos; o da quarta capa, que é aquele impresso na parte de trás do livro; e a orelha, que é o texto escrito naquela dobra que tem na capa.

Se o interesse vai aumentando, leio a apresentação, quando tem; ou o começo do primeiro capítulo. Sempre que chego até aí, dá vontade de levar o livro e terminar de ler em casa. Quando estou na biblioteca é fácil, só pegar emprestado; na livraria, nem sempre tenho dinheiro pra comprar, daí fico na vontade. Apesar de que para livros meus pais sempre me dão dinheiro, e depois, eu não peço tanto assim.

Foi o que me aconteceu outro dia, estava fuçando numa livraria e vi, de longe, um livro que tinha uma capa muito bonita, cheguei mais perto e o peguei na mão, Os da minha rua, é o nome do livro. Esse título já me fez lembrar as histórias que sempre ouço de meu pai e de sua rua da infância, inclusive contei uma dessas histórias no post anterior. Também me lembrei do meu amigo e vizinho Lipe, e das nossas histórias, que não são tão emocionantes como as de meu pai, mas que são bem legais também.

Não conhecia o autor. Abri pra ver se o livro era, mesmo, como eu estava pensando – às vezes a gente pensa que um livro é uma coisa, mas ele é outra. Li a orelha, a apresentação e a primeira história, é um livro de contos. Os da minha rua é exatamente como pensei, melhor até. Levei pra casa – nesse dia tinha dinheiro pra comprar – li e gostei tanto, que fui procurar outros livros desse autor. Encontrei, li três livros de Ondjaki e hoje vou falar deles, dos livros e do escritor.

Infância em Luanda de escritor angolano é inspiração para seus livros

Além de Os da minha rua, li A bicicleta que tinha bigodes, e Uma escuridão bonita, que é ilustrado com desenhos de António Jorge Gonçalves. Também quero ler o AvóDezanove e o segredo do Soviético, que ganhou Jabuti de Melhor Livro Juvenil em 2010, mas esse vai ficar pra depois, minha cota pra comprar livros neste mês, já se esgotou. Enquanto lia os três livros, assisti a uma entrevista com Ondjaki na TV, vi outros vídeos na internet, e fiquei sabendo muita coisa de sua vida e de sua obra.

Descobri que muitas histórias que estão em alguns de seus livros são inspiradas em suas próprias histórias, ele disse que sempre gostou de ouvir e de contar histórias e acha que foi por isso que virou escritor. Seu nome verdadeiro é Ndalu de Almeida, nasceu em Angola, na cidade de Luanda, escreve para adultos, mas também já publicou livros juvenis e infantis, e ganhou muitos prêmios literários.

Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo, personagens de "Bom dia camaradas"

Ondjaki tem livros em que o narrador é uma criança, disse que quando escreveu esses livros foi como se essa criança tivesse ditado a história para ele, essas histórias se passam em Luanda e tem personagens que existem, de verdade, como sua avó, seus pais, suas irmãs.

Ele conta que a cidade de Luanda é cheia de histórias, “se uma pessoa chega atrasada a um compromisso, ao invés de, simplesmente, se desculpar, ela vai contar uma história, vai inventar uma história”. A cidade também é inspiração para seus livros, principalmente a Luanda de sua infância: “Se eu lembro de Luanda eu lembro-me de coisas boas, e se eu me lembro de coisas boas, eu fico com vontade de escrever, depois é só decidir se aquilo dá ou não dá para fazer material para um livro”.

A estória que valia uma bicicleta

A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, publicado pela Pallas Editora é um dos seus livros em que o narrador é uma criança, que como disse o autor, ditou toda a história para ele. O livro conta que na rua do menino narrador vivia o tio Rui, um “escritor que inventa estórias e poemas que até chegam a outros países muito internacionais”. O Camaradamudo, “um senhor gordo que fala pouco” e que também vive nessa rua, disse que as estórias do tio Rui viraram peças de teatro num país de nome comprido, “parece que se diz ‘Julgoeslávia’.” Um dia o menino ouviu uma notícia na rádio, que iam dar uma bicicleta colorida, bem bonita, para quem escrevesse a melhor estória.

Mas ele não tinha jeito nenhum para essa coisa das estórias e foi falar com outras crianças pra saber quem tinha ideias e queria participar do concurso nacional da bicicleta colorida. Ninguém quis ajudar, então foi conversar com o Camaradamudo e por fim conseguiu a ajuda de sua amiga Isaura. Juntos, elaboraram um plano, que se ganhassem, dividiriam a bicicleta nos dias da semana. O plano seria pegar alguma história do tio Rui, que ficavam presas em seu bigode e depois eram guardadas em uma caixa pela tia Alice. “Ela esfregava os bigodes, soprava, esperava e aquilo acontecia: pequenas letras caíam do bigode para a caixa, eram vogais de ‘a’, ‘e’, ‘i’, ‘o’, ‘u’, mas também sobras de ‘k’ e ‘w’, alguns ‘t’, e dois ‘h’.”

Essa é só uma parte bem pequena do livro, pois até ele conseguir escrever a estória pra tentar ganhar a bicicleta, acontecem muitas coisas na história desse livro, bonitas e engraçadas. No final ele manda pra rádio a sua estória, que não é bem uma estória, mas que só vai descobrir o que é, quem ler o livro.

Histórias da rua de Ondjaki em Luanda

Li na apresentação de Os da minha rua, de Ondjaki, publicado pela editora Língua Geral, que o livro faz parte da coleção Ponta de Lança, que apresenta “aos leitores brasileiros vozes novas, ou ainda pouco conhecidas”, algumas aqui do Brasil, mesmo, outras da África, da Ásia e da Europa, “expressando-se” em Português. Quando conheci o Museu da Língua Portuguesa e contei aqui no blog, eu disse que adoro essas coisas, saber que posso conversar com pessoas de outras partes do mundo, na minha língua.

Agora, ao ler esse livro de Ondjaki, descobri que não é só na língua que somos parecidos, muitas histórias da sua rua, que fica na cidade de Luanda, em Angola, país da África se parecem com as histórias daqui, que li, ouvi e até vivi, algumas.

Como já disse é um livro de contos, são 22 histórias, uma mais legal que a outra, narradas pelo “miúdo” Ndalu, o nome verdadeiro Ondjaki, têm personagens de sua vida real, sua mãe, seu pai, sua tia, seu tio, seu avô, sua avó, seus professores cubanos e seus amigos de infância. Certamente são histórias de sua própria infância ou, pelo menos, muito parecidas com ela.

Tem histórias engraçadas e divertidas, outras emocionantes e até um pouco tristes – confesso que chorei em algumas, mas todas muito bonitas. Não é um livro juvenil, mas li, adorei e entendi quase tudo. Só algumas palavras do português falado em Angola, que eu não sabia o que eram, mas no final do livro tem um glossário, que explica todas, no A bicicleta que tinha bigodes também tem glossário.

A estória de um beijo

O livro Uma escuridão bem bonita, escrito por Ondjaki e publicado pela Pallas Editora é juvenil. Tem ilustrações de António Jorge Gonçalves, são desenhos muitos bonitos, que ajudam a criar o clima romântico da história, que começa quando a luz elétrica acaba de repente. O narrador da história puxa conversa com uma menina e lhe faz uma pergunta: “Tu não achas que as pessoas são uma coisa tão bonita?”

A menina não responde, só lhe faz “uma festinha rápida na mão”, e ele descobre que “uma pessoa pode dizer coisas sem ser com a voz de falar”. A história continua e ele vai pensando e refletindo sobre outras descobertas, até perceber que a mão da menina estava perto da dele, e sente “uma comichão de ausência na proximidade daquele calor” e tenta esconder que o que ele mais queria naquele momento, era uma “carícia calada” dela.

Ele arrisca outra pergunta: “Achas que pode caber o que no coração das pessoas?” Ela responde: “Muitas coisas. Um poema, uma recordação, um cheiro de infância, um ‘desejo de estrelas’…” “Como é um ‘desejo de estrelas’?” “É olhar para uma estrela e desejar uma coisa.” Eles continuam conversando até voltar o silêncio, que ele interrompe com outra pergunta:

“Achas que o coração das pessoas é pequeno?” “Sim. Pequenino mesmo.” E o silêncio volta novamente, que “fica muito nítido na ausência da luz.”  - Nesses silêncios da história ele reflete sobre umas coisas bem legais. Desta vez ele interrompe o silêncio com um pedido: “Dá-me só um beijo…” “Não posso…” Ele percebe os dentes dela rindo na escuridão. “Porquê?” “Porque não tenho vontade.” E a história continua, com conversas, silêncios, reflexões, cinema imaginário, até chegar… Nem preciso dizer que no final eles se beijam, um beijo tão delicado, que só vendo…

Ondjaki (Ndalu de Almeida) nasceu em Luanda, Angola, em 1977, e atualmente vive no Rio de Janeiro. Escreve romance, contos e às vezes poesia. Também escreve para cinema e correalizou o documentário “Oxalá cresçam Pitangas”, sobre a cidade de Luanda. É membro da União dos Escritores Angolanos, licenciado em Sociologia em Portugal, fez doutorado em Estudos Africanos na Itália. Recebeu os prêmios António Jacinto (Menção Honrosa, Angola); Sagrada Esperança (Angola, 2004); Prêmio Literário António Paulouro (Portugal, 2004); Grande Prêmio do Conto (A.P.E., Portugal, 2007); Grinzane – young african writer (pelo conjunto da obra, Itália/Etiópia, 2008); Prêmio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância (Portugal, 2012); Prêmio Literário José Saramago (Portugal, 2013); FNLIJ – juvenil (Brasil, 2010 e 2013); e Jabuti – juvenil (Brasil, 2010). Seus romances, contos, poesia e livros infantis, foram traduzidos para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, polonês e sueco.

António Jorge Gonçalves é de­senhista, ilustrador e nasceu em Lisboa, Portugal. Faz HQ (história em quadrinhos), ilustração edi­torial, cartoon político e desenho digital ao vivo. Publicou e expôs em Portugal, Austrália, Coreia do Sul, Espanha, França, Bélgica e Itália. Desenha semanalmente um cartoon político (suplemento Inimigo Público, no jornal  Público). Tem trabalhado extensivamente na área performativa criando cenografia para várias peças de teatro e fazendo Desenho Digital ao Vivo com músicos, atores e baila­rinos em Portugal, França, Alemanha, Japão e EUA. Criou o projeto Subway Life desenhando pessoas sentadas em carruagens do Metrô em várias cidades do mundo. Leciona sobre “Es­paços Performativos” no mestrado em artes cênicas da FSCH (Lisboa).

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Abaixo a ditadura

Agora, em 2014 vai completar 50 anos do golpe que tirou João Goulart da presidência do Brasil e implantou a ditadura militar no nosso país, isso aconteceu no dia 31 de março de 1964 e a ditadura durou até 1985. Foram anos difíceis, já li e ouvi muitas histórias a respeito dessa época. Hoje vou falar de um livro que descobri no jornal, li no ano passado e estava esperando uma oportunidade pra falar dele: 1968 – Ditadura Abaixo, escrito por Teresa Urban e ilustrado por Guilherme Caldas.

A autora Teresa Urban morreu em junho de 2013, aos 67 anos, de infarto. Li a matéria do jornal anunciando sua morte e contando que ela era jornalista, defensora do meio ambiente, lutou contra a ditadura, e foi presa e torturada pelo regime militar. Ela queria explicar aos netos por que sua geração lutou contra um regime autoritário, e fez esse livro, que foi lançado em 2008, e junta textos e história em quadrinhos. Hoje vou falar dele, mas antes quero contar uma história bem legal que ouvi de meu pai e tem tudo a ver com esse assunto.

História de meu pai menino

Aprendi a gostar de muitas coisas com meu pai, como ler jornal, jogar futebol e contar histórias. Meu pai gosta de contar histórias e eu adoro ouvir as histórias dele, principalmente as de sua infância. Meu pai viveu a infância numa rua sem saída e sem asfalto, aqui mesmo na cidade de São Paulo. Ele jogava bola na rua com seus amigos e marcava o gol com pedras, só tinham traves quando jogavam no campo do adversário da rua de trás ou numa quadra de futebol-de-salão, que ficava a uns quinhentos metros da casa dele, mas isso era só de vez em quando, o dia-a-dia era no chão batido, mesmo.

A rua também era um ponto de encontro, no começo da noite eles se reuniam pra conversar e contar histórias, até já falei aqui no blog dessas conversas e das competições com histórias de assombração. Na rua de meu pai havia duas turmas, a turma dos mais velhos, que eles chamavam de “grandões” e a dos “pequenos”, que era a que meu pai pertencia. Na época em que aconteceu a história que vou contar agora, meu pai ainda era criança, e alguns dos “grandões” já saiam pra trabalhar e todo dia traziam histórias de fora pra contar na roda. Outros foram servir o exército e à noite voltavam com histórias emocionantes lá dos quartéis.

Meu pai disse que pela localização de seu bairro, todos os “grandões” serviam o exército no quartel de Quitaúna, que ficava na cidade de Osasco. E foi nesse quartel que o Nenéco serviu, “o Nenéco era irmão do Li, um amigo da minha idade” – lembrou meu pai. Um dia já estavam todos reunidos, conversando e o Nenéco chegou com cara de assustado:

- Vocês não vão acreditar o que aconteceu hoje lá no quartel…
- O que foi que aconteceu, Nenéco?
- O capitão enlouqueceu!
- Por quê? O que foi que ele fez?
- Ele mandou a gente carregar uma Kombi com fuzis.
- E o que vocês fizeram?
- Carregamos… E o capitão foi embora, saiu do quartel com a Kombi cheia de fuzis FAL.

Havia censura e essas notícias não saiam no jornal, só depois de alguns anos, estudando História, meu pai descobriu que o que o Nenéco contou era História importante do Brasil. Nesse dia, um capitão do exército saiu do quartel, levou consigo 63 fuzis FAL, três metralhadoras leves e munição, deixou as Forças Armadas e foi para a clandestinidade lutar contra o regime militar.

Sim, o capitão do Nenéco era o Lamarca! O Nenéco driblou a censura e veio dar a notícia na roda da rua de chão batido, onde meu pai e seus amigos jogavam futebol. EXTRA! EXTRA! Ele contou essa história algumas horas depois de ela ter acontecido, a história do dia em que o capitão Lamarca abandonou o exército e foi lutar contra a ditadura militar. E meu pai também estava lá pra ouvir a notícia.

Livro com HQ conta história da luta política contra a ditadura

Quem me conhece sabe que eu adoro uma luta política, depois que participei da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, não quero mais parar. Hoje estou participando de um movimento pra criar o Plano Municipal do Livro e da Leitura na cidade de São Paulo, já falei um pouco dele aqui. Esse processo andava meio parado na prefeitura, mas acabei de saber que a portaria que cria o grupo de trabalho (GT) já está pronta, e a secretaria de cultura quer marcar um evento público pra fazer as assinaturas. OBA! Depois conto mais detalhes.

Também, por tudo isso, adorei ler 1968 – Ditadura Abaixo. Escrito por Teresa Urban, com quadrinhos de Guilherme Caldas, e publicado pela Arte & Letra Editora, o livro é dividido em cinco partes: “Muito, muito antes de 1968”; “Pouco antes”; “1968”; “Depois”; e “2008”; ano em que o livro foi lançado. Em “Muito, muito antes de 1968”, a autora, só com textos, faz um resumo da história do Brasil e do mundo, começando antes do descobrimento, e indo até 1960, quando foi inaugurada a nova capital do Brasil, Brasília. Em “Pouco antes”, ainda em forma de textos, ela conta o período que começa em 1960, fala dos grandes movimentos políticos e culturais no Brasil e no mundo, do golpe em 1964, até chegar em 1967, quando foi criado o Conselho de Segurança Nacional (CSN).

A terceira parte, “1968”, é a maior parte do livro. No formato de quadrinhos de Guilherme Caldas, com “personagens fictícios e fatos, nem tanto”, uma moça “um pouco excêntrica”, um rapaz “bem educado”, “um sujeito misterioso”, um louco por teatro, outro “louco por cinema”, dois “rebeldes”, e um “líder” contam como se organizaram pra enfrentar a ditadura militar, e como viveram aqueles tempos movimentados e difíceis.

Além de mostrar essa história, nessa parte o livro reproduz fotos, capas de revistas, jornais, propagandas, letras de músicas, cartazes de peças de teatro e filmes da época; cartas e documentos da Polícia Federal e da União Paranaense dos Estudantes; manifestos, bilhetes; fichas policiais e lista de pessoas procuradas e perseguidas; e outras referências, que documentam e ilustram a história contada nos quadrinhos.

Na quarta parte, “Depois”, a autora volta à forma de texto e faz um resumo de como foram os anos seguintes à ditadura, até acabar, em 1985, e na quinta e última parte, “2008”, ela mostra como estavam os pesonagem dessa história no ano que o livro foi publicado.

Teresa Urban (1946 – 2013) nasceu e viveu em Curitiba (PR). Formou-se em jornalismo em 1965 pela Universidade Federal do Paraná. Participou dos movimentos estudantis, fez militância política contra a ditadura e ingressou na Organização Revolucionária Marxista (Polop). Foi presa diversas vezes e exilou-se no Chile de 1970 a 1972. Trabalhou no jornal A Voz do Paraná, colaborou com O Estado de S. Paulo, O Globo, revista Veja, entre outros, e foi pioneira, especializando-se em jornalismo ambiental. Também militou nessa área contribuindo para projetos do SOS Mata Atlântica, Mater Natura e ajudou no mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná, e a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conam). Escreveu mais de 20 livros.

Guilherme Caldas é artista plástico e ilustrador, nasceu em Curitiba, frequentou o atelier do pintor paranaense Andrade Lima e cursou Artes Plásticas em São Paulo, na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Viveu em São Paulo por 9 anos, criou fanzines e um deles, o Candyland virou uma linha de camisetas. Voltou para Curitiba em 1999 e passou a tocar a Candyland Comics, marca de roupa e escritório de ilustração e design gráfico. Atua no mercado publicitário, atende agências e produtoras como ilustrador, designer gráfico e projetos de animação. Em quadrinhos publicou Comércio, um dos volumes da coleção Mini Tonto, de Fábio Zimbres, entre outros.

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Encontro de blogueiros e Anne Frank

Hoje vou falar de um encontro de blogueiros de literatura que participei na semana passada, de uma exposição sobre Anne Frank que vi na biblioteca do meu bairro e do livro O diário de Anne Frank.

Na outra semana o pessoal da Sintaxe me ligou.

- E aí, Heitor, beleza?

- Beleza… E vocês?

- Também… Então, a Livraria da Vila e o PublishNews vão promover um encontro de blogueiros literários, entra lá no site e faz sua inscrição.

- Eu vi, eles vão selecionar trinta blogs para esse encontro… Será que eu tenho chance?

- Claro que tem!

Fiz minha inscrição, mas não acreditava que seria selecionado, tem tanto blog bacana por aí… Dois dias antes do encontro recebi um e-mail:

“Boa noite. Estou enviando este email apenas para confirmar que sua inscrição no I Encontro de Blogs de Letras foi confirmada e você foi um dos selecionados para participar. Caso não possa estar presente, por favor, me envie um email para que eu possa colocar outra pessoa em seu lugar. O Encontro será na próxima quarta-feira, às 18h30 no auditório da Livraria da Vila de Pinheiros. Abraços, Matheus.”

Fiquei muito feliz e respondi ao e-mail do Matheus:

“Oi, Matheus. Bom dia. Presença confirmadíssima! Até lá, abraços, Heitor.”

Ganhei presentes e conheci mais um escritor

Peguei um ônibus perto de casa, que me leva até a Livraria da Vila de Pinheiros, chegando lá encontrei o meu amigo escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves, ele tem um blog chamado “Amplexos do JeosaFÁ” e também foi selecionado para esse encontro. Fomos para o auditório da livraria e o Sérgio Pavarini, do “PavaBlog”, que, junto com o PublishNews, a Livraria da Vila e a Editora Record organizaram esse evento, começou a fazer as apresentações. Ele falou de seu trabalho e pediu que a gente se apresentasse, também. Quando chegou minha vez, contei a história do meu blog e, como ouvi alguns dizendo que participavam de clubes de leitura, também falei dos clubes de leitura que a gente faz aqui no blog. Quando terminei de falar o Sérgio fez o seguinte comentário:

- Legal, que as pessoas falam, aproveitam e já fazem o seu marketing.

Fiquei pensando: “Será que fui muito exibido?”

Depois o Sérgio dividiu a turma em cinco grupos de seis e começamos uma competição. Ele fez várias perguntas sobre livro e literatura, e o grupo que acertasse a resposta, ganhava pontos. Se errasse, passava a mesma pergunta para o próximo grupo, valendo mais pontos, ainda. No final da competição, quando faltava apenas uma pergunta, meu grupo não tinha feito nenhum ponto, sequer. Os outros grupos tinham 15, 12, 10, 7 e 5 pontos mais ou menos, e o nosso tinha zero. Que vergonha!

Quando chegou à última pergunta, a regra era apostar os pontos que quisesse, e só haveria um acertador. Apostamos quinze, pois era tudo ou nada, se errássemos, sairíamos devendo 15, se acertássemos, seríamos os grandes campeões. Adivinhem o que aconteceu? Acertamos e ganhamos uma caixa luxuosa de metal com livros da Editora Record. Cada pessoa do grupo ganhou uma caixa, antes a gente já tinha ganhado uma sacola com kits (blocos de anotações, etc) e dois livros do escritor que conheci lá, o Santiago Nazarian: Garotos Malditos e Mastigando Humanos.

Existencialismo bizarro

Existencialismo bizarro, foi o que li quando fui pesquisar sobre Santiago Nazarian, antes de ir para o encontro, não entendi muito bem, mas no bate-papo que teve com a gente, ele explicou melhor. Ele disse que nas suas histórias “mistura referências clássicas da literatura existencialista, com cultura pop, trash e de horror”. Em 2007, Santiago Nazarian foi eleito um dos autores jovens mais importantes da América Latina pelo juri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro.

O seu romance Mastigando Humanos, apesar de não ter sido escrito para o público juvenil, foi adotado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e é leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba. Ele também faz literatura juvenil e o seu romance Garotos Malditos foi contemplado com bolsa de criação literária do programa Petrobras Cultural. São exatamente esses dois livros que ganhei de presente da editora, até peguei autógrafos do autor e conversei um pouquinho com ele. Vou ler os dois e depois vou contar aqui.

A primeira biblioteca a gente nunca esquece

Outro dia passei na biblioteca do meu bairro pra conversar com o meu amigo Gustavo e visitar a exposição sobre a Anne Frank, a menina que escreveu o diário, que virou “um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos”, e deu nome à nossa biblioteca.

Logo na entrada encontrei o meu amigo, que é o coordenador de lá.

- Oi, Gustavo. Tudo bem?

- Tudo… E você, Heitor? Anda sumido!

- Muitas provas na escola…

- Que nada… Agora que você cresceu, só vai na Lobato, se esqueceu da Anne Frank.

- Não me esqueci, não… A primeira biblioteca a gente nunca esquece, e agora eu tenho duas!

Visitei a exposição “Lendo e escrevendo com Anne Frank”, conversei mais um pouco com o Gustavo e ele me falou que na semana seguinte viria uma escola da cidade de Arapeí, interior de São Paulo, ver a exposição, e me perguntou se eu não queria acompanhar, pois essa visita seria monitorada.

- Venho, sim. Quando vai ser?

- Terça-feira da semana que vem, vão chegar às 11 horas.

- Tô nessa!

A turma de Arapeí

Arapeí é uma cidade que fica no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, quase divisa com o Rio de Janeiro. Monteiro Lobato, que era de Taubaté, cidade da mesma região, incluiu Arapeí entre as “cidades mortas” daquela área. Os alunos e professores que vieram visitar a exposição são obrigados a desmentir o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Arapeí está muito viva! Quem me contou essa história de“cidades mortas” foi um dos alunos, eles vieram em vinte, já estão no ensino médio, e estavam acompanhados das professoras Solange, Dagmar e Tânia.

Esse trabalho da escola incluía a leitura de O diário de Anne Frank e alguns já tinham lido o livro. Conversei com esses pra saber se gostaram. Nesse dia eu ainda não tinha lido O diário de Anne Frank, há muito tempo que pensava em ler, mas sempre adiava, achando que seria muito pesado. Depois dessas conversas, criei coragem, eu tinha que ler. Como ainda não li o livro que conta a história da menina que deu nome a minha biblioteca! Então, pensei: leio O diário de Anne Frank, e falo da exposição e do livro. Li, mas agora deixa eu voltar à exposição, que no final do post, eu conto o livro.

Na hora que cheguei à biblioteca, nesse dia, o monitor já estava lá, era o meu amigo Toufic. Fiquei conversando um tempo com ele, até a escola chegar. Ele me contou os detalhes dessa exposição, me disse que ela veio da Holanda e é promovida pela “Anne Frank House”. Assim que a escola chegou fomos para outra sala assistir a um vídeo, depois o Toufic falou do diário e da Anne Frank, passou a palavra para o Gustavo, que falou da nossa biblioteca, a Anne Frank, citou a luta pra ela não ser demolida, disse que eu tinha participado dessa luta e me pediu que eu contasse um pouco dessa história.

Sempre que isso acontece, fico empolgado e acabo fazendo um discurso inflamado. Essa luta mexeu muito comigo! Quando aconteceu, falei dela aqui no blog, e no ano que vem vou contar toda essa história, em detalhes, mas não vai ser aqui no blog, não. Vai ser de outro jeito, de um jeito bem legal. Aguardem!

Voltando a exposição, um painel apresentava a história na ordem cronológica, do lado de fora, a história do mundo, e de dentro, a história de Anne Frank. Fomos acompanhando o Toufic, que foi nos contando todas as etapas dessas duas histórias. No final recebemos um caderno de atividades para testar os nossos conhecimentos e aprender ainda mais sobre o mundo daquela época de guerra e sobre Anne Frank. Na exposição também tinha uma maquete do esconderijo da família Frank, uma reprodução do original do diário e outros livros sobre esse assunto.

Minha querida Kitty

Anne Frank deu o nome de Kitty ao seu diário e escrevia como se contasse a uma amiga. Começou a escrever no diário no dia 12 de junho de 1942, e em julho desse mesmo ano, sua família e outras quatro pessoas foram para um esconderijo em Amsterdã, fugindo da perseguição nazista, Anne tinha 13 anos de idade. Ela queria publicar um livro depois da guerra, usar o diário como base e dar o título de O Anexo Secreto. A última anotação feita no diário de Anne Frank foi no dia 1º de agosto de 1944, três dias depois, na manhã do dia 4, um carro parou em frente à casa onde ficava o esconderijo e os oito moradores do Anexo foram levados para uma prisão em Amsterdã, transferidos para Westerbork, na Holanda, e depois deportados para Auschwitz, na Polônia. Toda a família Frank morrreu nos campos de concentração, exceto o pai, Otto Frank, que escapou de Auschwitz, voltou para a Holanda, se mudou para Suíça, se dedicou a espalhar a mensagem do diário de sua filha e viveu até 1980.

A história de O diário de Anne Frank não é novidade pra ninguém. No livro, ela conta o seu dia-a-dia no esconderijo, fala das dificuldades e faz muitas reflexões:

Digo a mim mesma, repetidamente, para não ligar para o mau exemplo de mamãe. Só quero ver o lado bom, e procurar dentro de mim o que falta nela. Mas isso não funciona, e o pior é que papai e mamãe não percebem suas próprias incapacidades nem como eu os culpo por me deixarem deprimida. Será que existem pais que façam os filhos completamente felizes?

Além de O diário de Anne Frank, ela escreveu algumas histórias e contos, há outras narrativas escritas por ela, publicadas em livros no Brasil. Adorei Anne Frank e o seu diário. Abaixo um dos trechos que me fez gostar tanto desse livro e me apaixonar por Anne.

Eu sei que posso escrever. Algumas de minhas histórias são boas, minhas descrições do Anexo Secreto são bem-humoradas, boa parte de meu diário é vivo e interessante, mas… resta saber se realmente tenho talento.

“O Sonho de Eva” é meu melhor conto de fadas, e o estranho é que não tenho a menor ideia de onde ele surgiu. Algumas partes de “A Vida de Cady” também são boas, mas no todo não é nada especial.

Sou minha crítica melhor e mais feroz. Sei o que é bom e o que não é. A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso; eu sempre reclamava de não conseguir desenhar, mas agora me sinto felicíssima por saber escrever. E se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever para mim mesma. Mas quero conseguir mais do que isso. Não consigo me imaginar vivendo como mamãe, a Sra. vam Daan e todas as mulheres que fazem o seu trabalho e depois são esquecidas.

Preciso ter alguma coisa além de um marido e de filhos a quem me dedicar! Não quero que minha vida tenha sido em vão, como a da maioria das pessoas. Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte! E é por isso que agradeço tanto a Deus por ter me dado este dom, que posso usar para me desenvolver e para exprimir tudo que existe dentro de mim!

Boas Festas

Em janeiro eu volto pra contar as minhas leituras de férias. Desejo a todos e a todas Boas Festas, Bom Natal e Feliz Ano Novo. Estou bem animado com 2014, ele promete muitas novidades!

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