“Corta-Luz”, o livro feito ao vivo

Como prometi no post anterior, hoje vou falar de um livro feito ao vivo. O livro se chama Corta-Luz e os seus autores Sílvia Zatz, Michel Gorski e Eloar Guazzelli se encontraram durante dois meses, duas vezes por semana, para criar juntos esse livro. Os encontros foram promovidos pela Biblioteca Parque Villa-Lobos, e neste domingo, 26 de junho, nessa mesma biblioteca (endereço e horário abaixo), eles compartilharão com o público como foi o processo de criação do livro, e todos são convidados. Eu acompanhei vários encontros e vou adiantar, agora, com exclusividade, alguns segredos do Corta-Luz.

Ideia do livro surgiu de história real

Sílvia Zatz, uma das autoras do livro, comprou um HD novo, de fábrica, e quando foi instalar no seu computador percebeu que ele já tinha um arquivo em sua memória, reclamou, trocou diversos e-mails com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), e no final, apagou o arquivo, sem ao menos investigar o que tinha dentro dele.

Quando a Sílvia foi contar esse caso para o Michel Gorski (seu parceiro na literatura) ficou arrependida e curiosa: “O que seria aquele arquivo que apaguei?” E dessa conversa, eles tiveram uma ideia: “Isso pode dar uma boa história!” E foi o que fizeram.

Inventaram um conteúdo para o arquivo apagado, criaram alguns personagens, escreveram um roteiro e convidaram o ilustrador Eloar Guazzelli para se juntar ao time. Duas vezes por semana, durante dois meses, os três se encontraram na Biblioteca Parque Villa-Lobos, e juntos criaram, ao vivo, um livro que vai se chamar Corta-Luz.

Encontro com os autores

Neste domingo, dia 26 de junho, às 14h30, na Biblioteca Parque Villa-Lobos (avenida professor Fonseca Rodrigues, 2001 – Alto de Pinheiros, São Paulo – SP), os três autores vão conversar com o público e apresentar o resultado desse trabalho.

A história inventada

Na história inventada para o livro Corta-Luz, quem compra o HD “virgem” ocupado por um arquivo é a Thais, mãe do Zeca. O arquivo intruso é de outro personagem do livro, o Claudinei, era a vida do Claudinei que estava nesse arquivo. A Thaís pede para o Zeca apagar o arquivo, mas, ao invés de apagar, ele começa a investigar o Claudinei e descobre muitos segredos desse personagem misterioso.

Mas o Zeca não investiga sozinho, investiga com a sua turma, formada por Nina, Afonso e Danilo. Juntos descobrem que o Claudinei trabalha na Câmara como taquígrafo e nas horas vagas é guia turístico, ofício que aprendeu com o Hiroshi. Ele promove passeios pela cidade de São Paulo e as informações dos roteiros desses passeios são registradas em código, acham os registros muito suspeitos e resolvem continuar a investigação.

O Claudinei começa a ficar desconfiado e por um acaso descobre que suas dicas de passeio foram parar na internet, que alguém estava pegando as suas coisas. Então chama duas adolescentes, feras em informática, para investigar o caso, são as filhas do Hiroshi. Assim formam a outra turma, a turma do Claudinei, com Nara, Mano e Zumi. A turma que investiga também será investigada!

Eu não li a parte do livro que eles já escreveram, só participei da conversa, eles também me contaram alguns trechos da história. Sei que tem uma sociedade secreta que investiga encontros e desencontros e acho que é por aí que vai seguir o livro. Sei também que a narrativa é no formato de um jogo, por isso o livro se chama Corta-Luz, que é uma jogada do futebol.

Outra coisa que descobri ouvindo a conversa dos três autores é que o livro vai começar com as primeiras páginas só com imagens, mas já contando a história. Será uma apresentação para entrar na narrativa, eles me disseram. O livro é um jogo, por isso os 26 capítulos serão apresentados com a palavra Jogo escrita em diversos códigos, em japonês, chinês, grego, morse, criptografia, esperanto, braile, taquigrafia, etc..

Me sinto como um personagem

Também descobri que os personagens vão circular por diversos lugares da cidade de São Paulo e que em alguns momentos, pelo livro ser quase um jogo, serão representados como personagens de games. Fiquei curioso em saber como vão ficar esses personagens!

Agora, terminando de escrever este post, me sinto como um personagem dessa história, pois também fiz a minha investigação e contei tudo pra vocês. Espero que eles não fiquem chateados comigo, afinal, não cometi nenhum spoiler, o livro será muito mais do que tudo que contei. Não vejo a hora de poder ler!

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Um livro ao vivo

Nesses dias eu estava navegando aqui, no meu próprio blog, lendo posts antigos e me deu um sentimento gostoso, de saudade, de satisfação das tantas coisas boas que já fiz. Ganhei este blog de presente só pra falar dos livros que eu lia, e as coisas foram acontecendo, conheci vários escritores, ilustradores, editores de livros e fiz muitos amigos de verdade.

Fui a lançamentos e feiras de livros, organizei clubes de leitura, participei de lutas políticas, enfim, vivi grandes aventuras, e a mais legal de todas foi que acabei virando narrador do meu próprio livro. Quer saber? Este blog mudou a minha vida! Posso dizer, com certeza, sem risco de errar ou exagerar: antes de começar a escrever nele, eu não era ninguém!

Foram tantas alegrias, que nem deu tempo de contar todas. E hoje eu vou falar de mais uma alegria, outra aventura que estou vivendo e está me deixando muito feliz.

O primeiro a saber

Adoro saber de um livro antes de ele ser publicado, isso já aconteceu comigo, algumas vezes, lembro de duas. Uma vez foi numa palestra com o escritor Ignácio de Loyola Brandão, ele disse que estava escrevendo um livro sobre umas bolinhas de gude, pra fazer uma confissão ao seu avô. Um tempo depois eu o encontrei numa Bienal, perguntei a ele desse livro, e ele me contou que já tinha acabado de escrever e que logo seria publicado. O livro já saiu e se chama “Os olhos cegos dos cavalos loucos”, mas ainda não li.

A outra vez foi com um livro do escritor Liev Tolstói, que se chama “Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura”, e foi mais legal ainda. Eu estava escrevendo um post sobre o Tolstói, pois tinha acabado de ler um livro dele chamado “De quanta terra precisa o homem”, era o primeiro livro que lia desse famoso autor russo. Quando a editora Ateliê soube que eu ia falar do Tolstói no blog, me contaram desse outro livro, que ele tinha sido ilustrado por crianças russas, alunas de uma escola infantil da cidade de Ijevsk. Fiquei curioso pra ler e falar dele nesse mesmo post, mas como ainda ia demorar pra ficar pronto, me mandaram o pdf do livro. Li o livro no pdf, antes de ser publicado!

Livro ao Vivo

Essa minha aventura de agora é parecida com esses dois casos, só que é bem melhor, não estou só descobrindo um livro que ainda não está pronto, mais do que isso, desta vez estou acompanhando a criação dele. Foi a Rose Riemma, uma amiga editora, que me apresentou aos três autores desse livro. Conversei com eles, mostrei meu blog, disse que gostaria de acompanhar o trabalho deles para depois contar aqui, e eles toparam. Os três autores se encontram uma vez por semana na Biblioteca Parque Villa-Lobos para fazer o livro.Vou acompanhar a criação de um livro, ao vivo! Sim, é assim mesmo que estão chamando esse trabalho: “Livro ao Vivo”. Os autores são Sílvia Zatz, Michel Gorski e Eloar Gazzelli, meus novos amigos.

Sílvia Zatz e Michel Gorski são escritores parceiros com diversos livros publicados em coautoria. Sílvia nasceu em 1969 em São Paulo, estudou cinema e trabalhou com produção de filmes e criação de jogos de tabuleiro. Antes de encontrar Michel, ela já tinha publicado mais de uma dezena de livros infantojuvenis. O Michel nasceu em São Paulo, em 1952, é arquiteto e projeta espaços de entretenimento para crianças, ele também escreve sobre urbanismo e turismo. Juntos já publicaram livros para o público juvenil, infantil e adulto.

Eloar Guazzelli nasceu em 1962 na cidade de Vacaria, no Rio Grande do Sul. É formado em Artes Plásticas pela UFRGS com mestrado na ECA-USP. Mora em São Paulo onde atua com ilustrador, diretor de arte para cinema de animação e quadrinista. Participou de exposições e foi premiado em festivais de cinema e humor na Alemanha, Argentina, Bélgica, Cuba, Espanha, França, Japão, Porto Rico, Portugal, Turquia e Uruguai.

O livro ao vivo vai se chamar “Corta-Luz”, sim, o título tem a ver com a jogada de futebol, eu já sei muitas coisas da história, e na semana que vem, na próxima visita que fizer a eles, vou descobrir ainda mais. Mas ainda não vou contar nada, contarei tudo no próximo post, que será especial, sobre essa minha mais nova aventura.

Conhecendo os autores

E para conhecer melhor os autores li dois livros deles. Um foi o “Por um Triz”, romance juvenil do Michel Gorski e da Sílvia Zatz, primeiro livro que escreveram juntos, e o outro foi o quadrinho “Apólogo brasileiro sem véu de alegoria”, de Eloar Guazzelli, adaptado de um conto de Alcântara Machado. E hoje vou falar desses livros.

Por um Triz – O enigma dos gnomos pigmeus, escrito por Michel Gorski e Sílvia Zatz e publicado pela Editora Rocco conta, por meio de dois diários escritos em épocas diferentes, que se entrelaçam, histórias misteriosas vividas em um hospital, a Santa Casa de São Paulo. Ana Rendel caiu de um muro quando tinha 11 anos, bateu a cabeça e quebrou o osso da bacia, ficou alguns meses internada no hospital, com problemas de visão e imobilizada. A história de Ana se passa em 1931 e foi contada pelo diário que passou a escrever, por sugestão de sua tia, para ocupar o tempo.

A outra história que se entrelaça com essa é a do Tadeu, um estudante de medicina que ao pesquisar os arquivos do Museu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo encontra o diário de Ana e passa a escrever o seu próprio diário, em uma espécie de diálogo com a menina que esteve por lá em 1931, a história de Tadeu se passa em 2002. Uma terceira história aparece na narrativa, a de Paulo Nakashima, policial que irá investigar o desaparecimento de um personagem. A história ainda tem a participação de gnomos pigmeus, companheiros de Ana durante sua estada no hospital, e um final bem emocionante, mas que só lendo para descobrir.

Já o Apólogo brasileiro sem véu de alegoria é um conto do escritor paulista Alcântara Machado, adaptado para os quadrinhos por Eloar Guazzelli. Essa HQ faz parte de um livro publicado pela Editora DCL, que se chama Domínio Público – Literatura em Quadrinhos. Nesse livro, além de Alcântara Machado, foram adaptados textos de Olavo Bilac (Sete vidas), por Mário Hélio e João Lin; Lima Barreto (O homem que sabia javanês), por Júlio Cavani e Jarbas; Augusto dos Anjos (A ilha de Cipango), por Samuel Casal; Machado de Assis (A cartomante), por André Dib e Kleber Sales; e Medeiros e Albuquerque (O soldado Jacob), por Lydia Barros e Mascaro.

Li na apresentação escrita por Guazzelli, para esse quadrinho, que o conto Apólogo brasileiro sem véu de alegoria é um dos mais conhecidos de Alcântara Machado. O autor nasceu em São Paulo e morreu jovem, aos 34 anos, o tema de sua obra é bem paulista e os seus principais livros são Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China. Esse apólogo conta a história de uma rebelião dentro de um trem, motivada pela falta de luz nos vagões e quem encabeça a rebelião é um cego: “Não pode ser! Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! Luz! Luz! Luz!”. Os quadrinhos do Guazzelli mostram muito bem o clima de escuridão e rebelião dessa história.

No próximo post vou contar tudo do Corta-Luz, o Livro ao Vivo!

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A democracia pode ser assim – um livro e um lado

Acabei de ler A democracia pode ser assim. Esse livro tem ideia e texto de Equipo Plantel, ilustrações de Marta Pina, foi publicado no Brasil pelo selo Boitatá da Boitempo Editorial e faz parte de uma série de quatro livros chamada “Livros para o Amanhã”. Dirigida a jovens leitores, série foi publicada pela primeira vez na Espanha, entre 1977 e 1978. Depois de ler esse livro e conversar com o meu amigo Lipe, escolhemos o lado que vamos combater na luta política que está acontecendo em todo o Brasil.

O livro e uma conversa com o meu amigo

Na semana passada conversei a sério com o meu amigo Lipe, ele é o meu melhor amigo, moramos na mesma rua e estudamos na mesma escola, o Lipe sempre me ajuda quando faço os nossos clubes de leitura. Falei dele algumas vezes aqui no blog, já no livro “Os meninos da biblioteca”, ele aparece direto, é o personagem coadjuvante mais importante da história e foi o meu grande companheiro na luta contra o fechamento da biblioteca do nosso bairro.

- Le (ele me chama pelo meu apelido da escola), achei arriscado você falar de política no último post.

- Por que…?

- Sei lá, o clima anda tão pesado…

- A gente tem que se posicionar, Lipe… Depois, eu não disse nada demais, meu pai que deu a opinião dele.

- E a sua opinião, qual é?

- Temos que conversar, Lipe… Tenho uma proposta: Acabei de ler um livro bem bacana que se chama A democracia pode ser assim, empresto pra você ler e depois conversamos sobre o livro e sobre a política. Você topa?

- Claro que eu topo, falar de literatura e política com você é sempre da hora! Dá aí o livro que eu vou ler hoje mesmo e amanhã volto pra conversar.

- Fechado!

O dia seguinte

No dia seguinte o Lipe voltou à minha casa, com o livro lido e uma posição tomada.

- Li o livro, Le, adorei e fiz algumas anotações. Tem uma parte que ele diz que na democracia, “(…) é preciso ser tolerante, igualitário, justo. É preciso saber ganhar e saber perder”.

- Pois é, e a oposição não aceitou até hoje a derrota nas eleições, não sabem perder.

- Em outra parte, o livro diz que “E, como o governo é eleito pela maioria, todos têm de aceitar o que o governo faz enquanto governa”.

- É claro, menos “crime de responsabilidade”, foi o que eu andei lendo nos jornais, mas a presidente não cometeu nenhum crime desses, ao contrário dos que pedem o impeachment dela, estão mais sujos que pau de galinheiro.

- Pelo jeito você já escolheu o seu lado.

- Já escolhi, sim, estou ao lado da presidente Dilma, contra o impeachment. E você, Lipe, de que lado está?

- Mais uma vez estamos do mesmo lado, juntos, em outra luta política. A da biblioteca nós ganhamos, e vamos lutar pra ganhar essa também.

- Topa ir à manifestação de domingo?

- Demorô!

- Já sei! Vamos juntos com o Book Bloc.

- Boa ideia! Eles vão se encontrar às 11h30 na praça da República, depois, vamos todos juntos para o Anhangabaú.

- Combinado! Vamos à luta, companheiro!

- Isso aí… NÃO VAI TER GOLPE. VAI TER LUTA!

Agora vou falar do livro e da série Livros para o Amanhã

A coleção Livros para o Amanhã traz uma série de quatro livros: A democracia pode ser assim, A ditadura é assim, O que são classes sociais? e As mulheres e os homens. Essa série é dirigida a jovens leitores. Por enquanto eu só li o primeiro da série, A democracia pode ser assim, quero ler os outros, também.

“Livros para o Amanhã” foi publicada pela primeira vez entre os anos de 1977 e 1978, pela editora La Gaya Ciencia, de Barcelona, na Espanha. Aqui no Brasil, a série foi publicada no final do ano passado, pela Boitempo Editorial (selo Boitatá). Quando esses livros saíram na Espanha, fazia menos de três anos que o ditador Francisco Franco havia morrido.

Franco governou a Espanha por quase quarenta anos, de 1936 até sua morte, em 1975, quando o país começou a viver um período de transição, com as primeiras mudanças democráticas. Nesse tempo o Brasil era uma ditadura, que durou mais uns anos, ainda, e esses livros, certamente, seriam censurados por aqui.

O livro A democracia pode ser assim com os textos de Equipo Plantel e as ilustrações de Marta Pina explica como funciona esse sistema político. Na democracia há liberdade, “todos podem brincar de tudo”, também podem pensar o que quiser, dizer o que quiser, encontrar e se reunir com quem quiser.

Mas existem regras e leis que devem ser obedecidas. O livro também fala de eleições e de partidos políticos, existem os conservadores e os progressistas. Cada grupo tem o seu programa, que é apresentado a toda população para ver quem serão os escolhidos para governar. O eleitor escolhe e a maioria vence.

Essas são só algumas partes, o livro tem muito mais. Achei bem legal ler e poder conversar com o meu amigo. Essa é uma leitura que merece ser compartilhada. No final do livro tem um texto do filósofo Leandro Konder, contando um pouco da história da democracia, tem também outro texto, que fala um pouco do que mudou de 1977, quando o livro saiu pela primeira vez, para os dias de hoje, e ainda tem mais, cinco questões sobre o tema para refletir e debater. Fizemos um bom debate eu e o meu amigo Lipe!

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Li “O fazedor de velhos”, de Rodrigo Lacerda

Acabei de ler um livro do Rodrigo Lacerda, O fazedor de velhos, e gostei muito. Gosto de ler de tudo, mas adoro quando um livro me emociona e eu me reconheço na história, e foi o que aconteceu com esse livro. Também gosto quando um livro me faz pensar sobre outros assuntos, às vezes, assuntos que nada tem a ver com a história do livro, e também foi o que aconteceu com esse livro. A história do avô do autor, que é assunto de outro livro dele, me fez pensar sobre a situação da política atual do Brasil, e fui conversar com o meu pai.

A História se repete

- Pai, estou lendo um livro do Rodrigo Lacerda, ele é neto do Carlos Lacerda, o livro se chama O fazedor de velhos.

- Está gostando?

- Estou adorando, mas não é sobre o livro que eu quero falar agora, não.

- …

- Pesquisei na internet e li que o Rodrigo escreveu outro livro, A república das abelhas, em que ele conta a história de seu avô.

Getúlio Vargas

- Sim, é um romance histórico e biográfico sobre o Carlos Lacerda. Você quer ler?

- Ainda não…

- O que você quer, então?

- As histórias que li na internet me fizeram pensar um monte de coisas.

- O que, por exemplo?

- Quando Carlos Lacerda fez campanha contra o Getúlio Vargas, a imprensa o apoiou, os jornais diziam que Getúlio era corrupto e ladrão e que tinha sido o responsável pelo atentado contra o Lacerda. Getúlio Vargas se matou e nada disso foi provado. Não é mais ou menos o que está acontecendo hoje em dia? Sem provas, a imprensa diz que as pessoas são culpadas, coloca nas manchetes e até veste com roupas de prisioneiro e põe na capa da revista. Você acha isso certo, pai?

- Você, que já teve experiências em lutas políticas, o que acha disso, meu filho?

Carlos Lacerda

- Não sei, preciso pensar.

Odeio quando o meu pai me responde com outra pergunta, mas, no dia seguinte, ele retomou essa conversa e me disse uma coisa, que estou pensando nela até agora.

- Você tem razão, meu filho, não está certo o que essa imprensa está fazendo, repetindo o que fez em 1954, com Getúlio Vargas e em 1964, com João Goulart. Quase toda a imprensa foi contra Getúlio, em 54 e apoiou o golpe de 64, uma parte dela, apoiou a própria ditadura. Recentemente até fizeram uma mea culpa envergonhada. Será que pretendem repetir o mesmo papel histórico dessas épocas? O pior é que essa perseguição só é feita a alguns políticos, outros são protegidos, e a imprensa parece estar mancomunada com setores da burocracia do Estado e com esse juiz parcial e arbitrário. E isso está produzindo ódio entre as pessoas. Essa não é uma luta contra a corrupção, meu filho, é, sim, uma luta política, uma luta de classes.

Agora vou falar do livro O fazedor de velhos

O fazedor de velhos, escrito por Rodrigo Lacerda, com ilustrações de Adrianne Gallinari e publicado de editora Cosac Naify conta a história de Pedro, que aos vinte anos cursava faculdade de História, mas não tinha certeza se era isso mesmo que ele queria para a sua vida. É o próprio Pedro quem conta a história, ele é o narrador.

O livro começa com suas lembranças da infância, seus pais o obrigavam – ele e sua irmã mais velha – a lerem livros. “Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo. Mas foi cedo. Lembro das sessões de leitura de poesia a que eu e minha irmã éramos submetidos pela nossa mãe…” No começo ele não gostava, mas depois foi descobrindo alguns autores de sua preferência e as sessões de leitura começaram a ficar mais divertidas.

Tem uma parte muito importante da história, ainda no início, Pedro tinha dezesseis anos e estava de viagem marcada com a irmã para São Paulo, eles moravam no Rio de Janeiro e iam viajar sozinhos. Por ter menos de 18 anos, precisava de uma “Autorização de Viagem para Menores Desacompanhados”, ele já tinha esse documento, mas estava vencido e não pôde embarcar. Quase chorou de desespero, mas segurou o choro na raça e de vergonha, pois um velho barbudo e mal-encarado estava lhe observando.

Voltou pra casa decepcionado e lá teve uma ideia. Mudou de roupa para parecer mais velho, pegou um livro bem grosso, com as obras completas de William Shakespeare, em inglês, e voltou ao aeroporto. O plano deu certo! Conseguiu pegar o cartão de embarque no guichê. Feliz da vida foi até a lanchonete tomar uma coca-cola e lá encontrou novamente o velho barbudo e mal-encarado. O velho puxou conversa: “Foi uma boa ideia. O seu disfarce ficou ótimo. O paletó, a calça, os óculos. Parece mesmo um jovem bem-sucedido, um advogado, ou coisa assim. Mas, na minha opinião, o toque de mestre foi o livro. Foi o livro que te envelheceu.”

É claro que toda essa parte do livro que acabei de contar é contada em detalhes, de um jeito bem gostoso de ler, que prende a atenção da gente. Mas isso é só o começo, esse velho barbudo e mal-encarado será um personagem muito importante dessa história, mas só lendo o livro para descobrir.

Livro também me fez mais velho

Eu disse lá no começo deste post que adoro quando um livro me emociona e eu me reconheço na história. Tem uma hora que o velho diz o seguinte a Pedro: “Quando você pega um livro para ler, sua postura não é a de um cientista. Você não lê primeiro para depois saber se concorda com o que o livro diz ou não. Você já vai para a leitura com a predisposição de aceitar tudo. Você procura sempre o que é comum a você.” E completou: “Isso porque você não se propõe a analisar e criticar o autor. Jamais como um ‘objeto’ de estudo. Você se propõe a gostar dele. E de quem você gosta você aceita tudo, menos deslealdade.”

Eu sou assim, igualzinho! Sempre procuro num livro o que é comum a mim. Se quiser conferir, basta ler os posts aqui do blog, sobre os livros que eu li. Outra coisa, o fazedor de velhos acho que também me influenciou, estou me sentindo mais velho depois de ter lido esse livro.

O autor

Rodrigo Lacerda nasceu no Rio de Janeiro em 1969. Doutor em Teoria Literária, além desse seu livro juvenil O fazedor de velhos, já publicou duas novelas – O Mistério do Leão Rampante (Ateliê Editorial, 1995; vencedor dos prêmios Certas Palavras e Jabuti) e A dinâmica das larvas (Nova Fronteira, 1996) – e um livro de contos – Tripé (Ateliê Editorial, 1999).

Publicou também os romances Vista do Rio (Cosac Naify, 2005; finalista dos prêmios Jabuti, Portugal Telecom e Zaffari & Bourdon), e Outra vida (Alfaguara, 2009; prêmios da Academia Brasileira de Letras e Portugal Telecom). Seu livro mais recente é o romance histórico A república das abelhas (Companhia das Letras, 2013).

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Li Macunaíma, de Mário de Andrade, em HQ

Depois de umas longas férias do blog, hoje estou de volta e vou falar de Macunaíma, de Mário de Andrade, a Editora Peirópolis acabou de lançar uma HQ, de Angelo Abu e Dan X, desse clássico da literatura brasileira.

Mas antes quero dar uma notícia, que me deixou muito feliz: os meninos da biblioteca vão pra Bolonha! Sim, o livro Os meninos da biblioteca, escrito por João Luiz Marques, ilustrado por Rômolo, publicado pela Editora Biruta e narrado por mim, vai participar da feira do livro de Bolonha deste ano.

Vejam como foi que recebi essa ótima notícia.

OS MENINOS DA BIBLIOTECA EM BOLONHA

Outro dia vi um post no Facebook contando que a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a FNLIJ já tinha feito a seleção e publicado o catálogo dos livros que vão participar da Feira de Bolonha 2016, no post tinha o link para o pdf do catálogo. Já sabia desse catálogo, mas não lembrava que ele estava para ser publicado e que em breve aconteceria a mais importante feira do livro infantil e juvenil do mundo, a Feira de Bolonha, que acontecerá entre os dias 4 e 7 do próximo mês de abril. Sinceramente, nunca pensei que o livro “Os meninos da biblioteca” pudesse estar nesse catálogo, cliquei no link e comecei a olhar o pdf, só por curiosidade. Na abertura apareceram alguns autores consagrados, sendo homenageados.

Vendo esses autores, logo deixei de lado qualquer possibilidade de sonho, nunca estaria à altura de compartilhar um catálogo com gente tão importante e famosa. Em seguida, começaram a aparecer os livros selecionados, por categorias e ordem alfabética. Primeiro os infantis, alguns livros conhecidos, que eu já tinha lido. Nessa hora me deu uma pontinha de esperança: – Por que não eu? Mas ainda só tinha uma única certeza: – Nunca poderia estar lá! Quando começaram a aparecer os juvenis, vi o livro de uma escritora amiga, e então achei que eu também merecia e me bateu um sentimento muito ruim, de inveja: – Bandida, ela está lá e eu não!  Nem consegui ficar feliz por ela, a tristeza de ser excluído era maior. Continuei olhando, chegou à letra m e apareceu a imagem abaixo, a capa do livro e um texto em inglês:

VIVA! A história que contei, que virou um livro e que me transformou num personagem de literatura vai pra Bolonha, o livro “Os meninos da biblioteca” vai participar da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha 2016. Na mesma hora liguei para o João Luiz, o meu amigo, autor do livro. Ele também estava muito feliz, disse que já tinha ligado para a editora e que já ia ligar pra mim, também. Festejamos juntos! Pena que o João não vai pra Bolonha, eu tenho certeza de que se ele fosse, me levaria junto. Mas tudo bem, o mais importante é que o nosso livro vai.

MACUNAÍMA, O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Já vinha pensando em ler Macunaíma, nesses dias vi matérias no jornal sobre o Mário de Andrade e sobre seu livro mais famoso, fez setenta anos da morte do autor e sua obra entrou em “domínio público”. Comentei com o meu pai, que disse que devia ter esse livro na estante aqui de casa, procurei, mas não o encontrei, ele jurava que tinha, leu no colegial, o ensino médio da sua época. Ainda não cheguei ao ensino médio, mesmo assim estava muito a fim de encarar “o herói sem nenhum caráter” e contar essa experiência aqui no blog.

Por coincidência, nessa mesma semana recebi um e-mail da Carol Cassiano, da CommunicaBrasil, a assessoria de imprensa da Editora Peirópolis:

“A Editora Peirópolis acaba de lançar a adaptação para quadrinhos de Macunaíma, uma das mais importantes obras da literatura nacional, escrita por Mário de Andrade (1893- 1945), expoente do modernismo brasileiro. A obra entrou em domínio público em 1° de Janeiro de 2016 e esta é a sua primeira quadrinização”. Junto veio o release da HQ.

Pensei que talvez fosse mais fácil enfrentar o Macunaíma em HQ, arrisquei e pedi um exemplar pra Carol. Ela mandou! Já li o Macunaíma, achei difícil, mas adorei, e hoje vou contar como foi a minha primeira vez com Mário de Andrade.

MACUNAÍMA EM QUADRINHOS

Macunaíma, de Mário de Andrade – em Quadrinhos, de Angelo Abu e Dan X faz parte da coleção “Clássicos em HQ”, da Editora Peirópolis, que já lançou Dom Quixote; Os Lusíadas; O corvo; Frankenstein; Demônios; Conto de escola; Auto da barca do inferno; A divina comédia; I-Juca Pirama; Eu, Fernando Pessoa; Odisseia; A mão e a luva; e A morte de Ivan Ilitch.

Antes de contar a história de Macunaíma, que Angelo Abu e Dan X contaram nessa HQ, quero começar pelo fim e falar do posfácio do livro. No final do livro, os autores criaram outra história em quadrinhos, mostrando os bastidores do trabalho deles, do mesmo jeito e com a mesma linguagem que Mário de Andrade usou para escrever o Macunaíma.

Angelo Abu conta que “uma feita” estava com muita fome, não havia comida no “mocambo” e estava com “uma baita duma preguiça de sair pra caçar”, também não queria pescar nem “armar arapuca pra presa alguma não”, estava fugindo dessas obrigações. Nesse quadrinho, ele está deitado na rede, bem folgado e um cachorro ao lado. Então ele resolve “visitar a cidade macota de São Paulo por amor de arranjar trabalho”. Chegando na cidade, ele “matutou matutou e então resolveu que ia fingir de artista pra campear trabalho na tapera máquina de fazer livros”.

“A cunhatã editora” acreditou em tudo o que ele prometeu e “ofereceu pra ele virar em língua de gibi qualquer história de muito seu agrado que já tivesse sido engolida pelo gigante domínio público”. Ele se lembrou “da saga de um herói sem nenhum catáter que tinha lido uma vez e sentiu uma baita duma vontade de desenhar toda a memória que tinha dela”. Foi pesquisar e descobriu que só faltavam dois anos para a obra de Mário de Andrade entar em domínio público, “era tempo justo pra fazer tudo sem pressa, sem deixar faltar beiju-membeca”. Convidou seu compadre Dan, “que de tudo faz um pouco” e juntos fizeram essa HQ de Macunaíma. Essa história dos bastidores não acaba assim, tem muito mais, e cada vez fica mais engraçada.

Já a história de Macunaíma, muita gente conhece, virou até filme de cinema. Ela é engraçada, o Macunaíma apronta cada uma, é mesmo um herói sem nenhum caráter. Teve umas partes que eu não entendi e muitas palavras eu tive que pesquisar no dicionário ou no google, me deu trabalho, mas foi muito gostoso ler essa HQ. Mesmo assim, mais pra frente, vou ler o livro do Mário de Andrade, os autores da HQ tiveram que deixar de lado algumas partes da história, fiquei curioso pra ver que partes foram essas. Adoro ler adaptações, principalmente as feitas em quadrinhos, mas sempre me dá vontade de ler o original depois.

O AUTOR DO LIVRO

Mário de Andrade (1893-1945) foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo e folclorista. Também foi fotógrafo e ensaísta, suas colunas no jornal eram muito divulgadas e tratavam de diversos assuntos, história, literatura, música, etc. Influenciou toda a literatura moderna brasileira. O seu livro Pauliceia Desvairada, publicado em 1922, foi um dos precursores da poesia moderna. Foi um dos principais integrantes da Semana de Arte Moderna, movimento de 1922 que reformulou a literatura e as artes visuais no Brasil. Macunaíma, seu romance mais famoso, clássico da literatura brasileira foi publicado em 1928. Mário de Andrade foi um grande incentivador da produção cultural e artística de São Paulo, fundou o Departamento Municipal de Cultura da cidade e foi o seu primeiro diretor.

OS AUTORES DA HQ

Tirei esse trecho das biografias da HQ, foram escritas em “macunaimês”, do mesmo jeito que Mário de Andrade escreveu Macunaíma.

Angelo Abu nasceu nos rasantes do cerrado urbano das terras-piá de Belo Horizonte, zungu de muitas gentes. Desde a meninice gostava de moquear ideias e desenhar tudo que imaginava pela frente. Nunca foi de criar roçado, sempre gostou foi de zanzar bem pelas terras de ninguém, virando todas as histórias que campeava no caminho em palavra desenhada. Quando botou corpo num homem feito principiou angariando o sustento, cambiando desenho por vintém. Quando viu, já estava trabucando pra cidade macota de São Paulo, inventando desenhos pra máquina revista, máquina livro, máquina jornal, todas essas sabatiras. Dan X faz de tudo um pouco, labutou nos mais variados ofícios, sem nunca se prender a nenhum deles. Se especializou em generalidades, mas se especializou como ninguém. Com o tempo foi se tornando tantas gentes que um dia, sem saber mais como ia ser chamado, inventou que além do Dan que sempre foi, ele seria só X.

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O menino Vlado e as escolas ocupadas

Hoje vou falar do livro Um menino chamado Vlado, que a Marcia Camargos acabou de lançar, é um romance juvenil que conta a vida do jornalista Vladimir Herzog, já li e gostei muito, não é uma história com final feliz. Também vou falar do movimento de ocupação, contra o fechamento de 92 escolas estaduais, em São Paulo.

A ESCOLA É NOSSA!

Outro dia recebi um e-mail da Marcia Camargos:

Oi, Heitor, você que defende as bibliotecas contra o fechamento, precisa se pronunciar sobre as escolas ameaçadas de fechar e a resistência dos alunos. Bjs. – Ela já se pronunciou e apoiou com tudo esse movimento!

A Marcia é jornalista, historiadora e escritora, com 25 livros publicados, já falei de um livro dela aqui no blog. Ela é minha amiga, gosto muito dela e das coisas que escreve, sua militância política me inspira bastante, ela me ensinou a gostar de política, meu pai diria que a Marcia “fez a minha cabeça”. Foi ela que escreveu o texto de orelha do livro Os meninos da biblioteca, do qual sou o narrador. Nele conto a história de uma luta política que eu participei, a luta contra o fechamento da biblioteca pública do meu bairro.

Na mesma hora respondi ao e-mail da Marcia, depois fui visitar uma escola ocupada, acompanhei o movimento de perto, mas só agora vou me pronunciar.

Estudantes de São Paulo lutam contra o fechamento de escolas

Como todos sabem – saiu muita notícia na imprensa e comentários no Facebook – o movimento dos estudantes teve vitória parcial, o governador suspendeu a proposta de fechar as 92 escolas e de fazer, agora, a “reorganização” da rede de ensino, mas o movimento não ficou satisfeito, quer que o governador desista de vez dessa ideia.

Desde que entrei na luta em defesa da biblioteca do meu bairro, sempre que vejo alguma notícia sobre uma luta política, fico querendo saber mais. Notícias de jornal e opiniões nas redes sociais não me satisfazem, tenho que ver de perto e ouvir as pessoas que estão na luta. Por isso, fui ao “campo de batalha”, visitar uma escola, a Fernão Dias Paes, que fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Chegando lá, me apresentei, entrei numa roda de estudantes que estavam conversando e dei muita sorte. Alunos de uma escola de Mairiporã, cidade da grande São Paulo, foram se aconselhar com os alunos do Fernão, pois queriam ocupar sua escola, também. O movimento chegou a ocupar 213 colégios, em todo o Estado. Acompanhei a conversa deles e ouvi todas as orientações, e alguns conselhos de como eles deveriam se comportar com os colegas, com a família e com os professores.

No final da conversa, ainda alertaram de que a luta não seria nada fácil. Logo depois, chegou uma jornalista do jornal O Globo, pedindo uma entrevista, eles disseram que não estavam atendendo a imprensa, ela quis saber o porquê, e um deles respondeu: – Vocês deturpam tudo! Mesmo assim, ele conversou um pouco com a repórter, que deve ter conseguido tirar algumas informações.

As minhas lutas

Depois da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, história que contei no livro, já participei de outras lutas políticas, como por exemplo, a construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, o PMLLLB de São Paulo, como contei em alguns posts aqui no blog. O PMLLLB foi aprovado pela Câmara Municipal, sancionado pelo prefeito, e agora já é lei, mas ainda vamos ter que lutar por verba.

Já o quarteirão, onde fica a biblioteca do meu bairro, a lei que autorizava a sua venda foi declarada nula, mas seu tombamento foi só parcial, ainda estamos lutando pelo tombamento total, para garantir a permanência definitiva da biblioteca e de todos os serviços públicos que ficam naquele terreno.

A luta dos estudantes vai continuar

Quanto à ocupação das escolas, o governador tinha pedido, na justiça, a “reintegração”, para obrigar os estudantes a deixarem os colégios ocupados, mas o Tribunal de Justiça foi contra, o juiz Sergio Coimbra Schmidt, desembargador e relator do processo, contou a sua experiência para fazer a defesa. Em 1968 ele era aluno do 3º ano do Ginásio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha e participou dos movimentos daquela época. É muito bom ter na Justiça, pessoas que participaram de lutas políticas, ainda mais quando lutaram do nosso lado.

A Justiça também suspendeu o projeto de “reorganização” escolar, mas nada está garantido, ainda, e os estudantes vão manter a mobilização. Eu vou continuar acompanhando e apoiando essa luta; contra o fechamento das 92 escolas; pelo cancelamento completo do plano do governo de “reorganizar” as escolas da rede; pela não punição de professores, alunos e apoiadores das ocupações; e pela punição dos policiais militares que agrediram os estudantes durante os protestos.

O MENINO VLADO

Fui ao lançamento da Marcia Camargos e ganhei um exemplar autografado de seu novo livro Um menino chamado Vlado, que tem ilustrações de Mirella Spinelli e foi publicado pela editora Autêntica, com o apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Na dedicatória que a Marcia fez pra mim, ela alerta que essa é uma “história sem final feliz”. O livro conta a vida do jornalista Vladimir Herzog, desde a infância, a família fugindo da perseguição nazista aos judeus, durante a guerra; até ser morto no Brasil, em 1975, pela Ditadura Militar.

O Ivo, filho do Vladimir Herzog, estava lá, eu conversei com ele, ele me contou sobre o Instituto Vladimir Herzog, e quis saber mais da luta que eu participei para defender uma biblioteca e do livro Os meninos da biblioteca, e eu contei tudo pra ele!

A história de Vladimir Herzog

O livro Um menino chamado Vlado começa com o personagem Felipe tendo que fazer um trabalho para a escola sobre o período da Ditadura Militar no Brasil. Sem saber por onde começar, ele faz um monte de perguntas ao seu pai, Mário:

- Por que a TV e os jornais ficam falando do aniversário do golpe? – O que é uma ditadura? – O que os militares fizeram? – Quem foi Vladimir Hezog? – O que é anistia ampla, geral e irrestrita? – O que…

O seu pai, que viveu a fase final da ditadura, concordou em lhe contar algumas coisas a respeito desse período.

- O que exatamente você precisa saber?

- Tudo! – O Felipe respondeu e ainda acrescentou que procurou na internet, mas não sabia como fazer.

O pai foi trocando ideias com o filho e tentando achar um jeito de contar a história da ditadura brasileira, sabia que era um assunto que dava “pano para mangas” e ficaria muito difícil “abordar um tema tão complicado num trabalho de escola”. Precisava arrumar um “fio condutor” para contar essa história. Ele lembrou que o menino tinha citado o nome de Vladimir Herzog, perguntou se ele sabia quem era essa pessoa, o menino respondeu que não, só “sabia que se tratava de alguém cuja trajetória estava ligada de alguma forma à ditadura”. Foi então que o Mario teve uma ótima ideia:

- Vou te contar a história de um menino chamado Vlado.

No início, Felipe estranhou um pouco essa ideia e até perdeu a paciência com o pai, seu trabalho era sobre a ditadura e não sobre a história de um menino, mas aos poucos ele foi entendendo e ficou superinteressado pela história do menino Vlado.

Adorei o jeito como a Marcia contou a história do menino Vlado, ela criou dois personagens – Mário, o pai e Felipe, o filho -, e na conversa entre os dois, a história foi sendo contada. Também achei bem bacana a relação entre o pai e o filho, me lembrou da minha relação com meu pai, eu também converso bastante com ele, e já falamos desse assunto, também, da ditadura militar.

Ditadura nunca mais

Quando o Vladimir Herzog foi preso, torturado e morto, ele trabalhava na TV Cultura de São Paulo, era diretor de jornalismo, também era militante do Partido Comunista, isso aconteceu em outubro de 1975, fez 40 anos, e o livro da Marcia conta toda essa história. Naquele tempo e durante todo o período da ditadura, que foi de 1964 a 1985, era proibido participar de lutas políticas ou fazer oposição ao governo, os que fizeram foram perseguidos, e muitos torturados e mortos, como aconteceu com o Vladimir Herzog e tantos outros.

Lutar contra o fechamento de bibliotecas, como lutei junto dos meus companheiros, e lutar contra o fechamento de escolas, como estão lutando os alunos dos colégios estaduais de São Paulo, seriam batalhas muito perigosas, com o risco de a gente ser preso, torturado e morto. Portanto, ditadura e tortura nunca mais, “Abaixo a Ditadura”, como se dizia antigamente, e “Viva a Democracia”.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Fiquei muito triste com o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, soube que ainda morreu um bombeiro. Fui lá algumas vezes, até contei aqui no blog da minha primeira vez, foi pra ver a exposição do Fernando Pessoa: http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=361. Nesse dia descobri o mundo das pessoas que falam e escrevem em português, como eu; e conheci os heterônimos do poeta português, personagens criados por ele, que também escreviam e até biografia tinham. Espero que o Museu da Língua Portuguesa seja recuperado e volte logo a funcionar.

FELIZ 2016

Este é meu último post do ano, vou sair de férias e volto no final de janeiro. Desejo a todos, boas festas e um feliz Ano Novo.

Extra, Extra: O Trono do Estudar

19 vozes em apoio aos estudantes de São Paulo

André Whoong, Arnaldo Antunes, Chico Buarque, Dado Villa-Lobos, Dani Black, Felipe Catto, Felipe Roseno, Fernando Anitelli, Hélio Flanders, Lucas Santtana, Lucas Silveira, Miranda Kassin, Paulo Miklos, Pedro Luís, Tetê Espíndola, Tiago Iorc, Tiê, Xuxa Levy e Zélia Duncan. Composição de Dani Black. Segue link do vídeo:

\”Pra ter escolha tem que ter escola\”


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A palavra revelada – carta de Jorge Miguel Marinho

Hoje vamos saber qual é a palavra envergonhada, que estava escondida, e durante três semanas tentamos descobrir o nome dela. Quem vai nos contar é o próprio autor da história, A palavra que não queria dizer seu nome, o Jorge Miguel Marinho. Essa história foi publicada em três capítulos aqui no blog. E para revelar o nome dessa palavra, o Jorge Miguel escreveu uma carta pra gente, uma carta muito bonita! Eu adorei e confesso que fiquei muito emocionado com as palavras do Jorge.

Com este post, encerramos esse novo clube de leitura que fizemos com a turma da professora Luciana, meus novos amigos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. Foi um clube de leitura bem diferente, me disseram que o que fizemos aqui foi mediação de leitura literária, e uma mediação muito especial, teve até a participação do autor. Adorei essa mediação e quero fazer outras! E agora vamos à carta do Jorge…

PARA O MEU AMIGO LE-HEITOR

Olá pessoa e pessoal.

Tem um escritor muito querido que, se vocês ainda não conhecem, têm de conhecer já. É o Mário de Andrade e ele diz:

“Ninguém escreve para si mesmo, a gente escreve para atrair, para encantar, para ser amado.”

Eu também escrevo para me aproximar das pessoas, para contar a minha vida e contar a vida de outras pessoas, para receber afetos de quem me lê. Foi isso que vocês me deram com a leitura tão sensível, com o entusiasmo que é a maior força da infância e da juventude, com as palavras bonitas que me enviaram. Agora somos amigos pela vida inteira e mais um dia, amigos eternos.

Vocês me fizeram feliz, muito feliz.

Esse gesto se chama amor e é o contrário da palavra que não queria dizer seu nome. É “violência” mesmo. Quem acertou acertou e quem não acertou chegou perto. O mais importante é entrar no jogo e tentar descobrir o sentido das palavras e o sentido da vida.

Agora a gente tem de pensar numa coisa: tem violência porque existe gente violenta e tem violência porque a vida é violenta. Pensa bem nisso, turma, a violência nunca tem perdão mas, às vezes, ela acontece e, de verdade mesmo, não queria existir. O que se pode fazer é combater a violência ou acabar com ela, descobrindo outros sentidos que têm dentro das palavras e dentro das pessoas, é claro.

Por exemplo, dentro da palavra violência tem “vi” de vida, de virtude e de vitória que não é só de quem ganha, mas de quem joga para, quem sabe, ganhar. E também tem “len” de silêncio e de lentidão que às vezes é bem bom para a saúde e para a criação. E “a” de amor e de altura que nem sempre dá vertigem quando a gente quer voar. E mais “ci” de cidadão e de cicatriz que pode ser a lembrança de uma dor que já passou.

Entenderam? Eu sabia que vocês iam entender.

Quero mandar um abraço bem forte para todos e já vou ficar pensando o que tem dentro de um abraço, o que tem dentro da palavra abraço, o que tem dentro do coração dos amigos que se abraçam. E dentro de nós que fomos brincando com a palavra violência e ficamos amigos que é o melhor da vida.

Outro abraço do Jorge.

Mário de Andrade: “Ninguém escreve para si mesmo, a gente escreve para atrair, para encantar, para ser amado.”

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A palavra escondida – último capítulo

Hoje vamos continuar o nosso clube de leitura com os alunos da professora Luciana (e quem mais quiser participar) e ler o último capítulo da história d’A palavra que não queria dizer seu nome, de Jorge Miguel Marinho. Será nossa última chance de descobrir que palavra é essa, envergonhada, que se esconde dentro do dicionário.

Neste capítulo, até o dicionário perdeu a paciência e disse que a gente tem que colaborar com ele: “Não sou só eu que tenho que dar conta de todos os significados desse mundo, e sozinho”, ele se queixou e ainda deixou um aviso: “se ninguém der uma força, ela vai acabar perdendo a memória e uma palavra que não sabe mais o nome dela morre de amnésia”.

Então, leiam o último capítulo e deem seus palpites, no próximo post, teremos a resposta e vamos saber quem acertou e quem errou. Pois nesta semana mandei um e-mail para o Jorge Miguel Marinho, perguntando como a gente ia fazer pra dar a resposta, já que nem sei direito que palavra é essa, tenho meus palpites, mas não tenho certeza.

E ele me respondeu dizendo que vai escrever um texto, especialmente para o blog, e revelar o nome da palavra. Nesse texto, ele ainda vai mostrar outras curiosidades sobre os diversos sentidos dessa e de outras palavras. Que maravilha! Nosso clube de leitura, que já estava ótimo, vai ficar melhor ainda, com a participação do próprio autor, nesse encerramento tão especial.

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

(última parte)

Jorge Miguel Marinho

Leia agora a última parte da história de Jorge Miguel Marinho e dê seu palpite. Que palavra é essa que não quer dizer seu nome? O resultado sai no próximo post, a palavra será revelada pelo próprio autor e vamos ver quem acertou.

Um dia o Dicionário, que tinha acordado muito preocupado com o destino da palavra que tinha vergonha do nome dela, pediu ajuda bem autoritário. Escuta como ele também estava nervoso:

“Alguém tem de descobrir o nome e o sentimento dela. Um pouco de companheirismo, gente. Tudo eu! Nada disso! É claro que eu sei que é meu trabalho, agora não sou só eu que tenho que dar conta de todos os significados desse mundo, e sozinho.  E tem mais uma coisa: se ninguém der uma força, ela vai acabar perdendo a memória e uma palavra que não sabe mais o nome dela morre de amnésia”.

E a palavra Preguiça perguntou louca e descabelada:

“Amnésia? Quem é essa agora?”

Os alunos da professora Luciana lendo o blog

E o Dicionário respondeu com o dedo em riste:

“Está vendo só como tudo tem que ser comigo. Que falta de respeito da senhora! Larga a mão de ficar se espreguiçando e procura na rua A que fica antes da quadra B e bem distante da avenida O de Oras Bolas! Carambolas!”

E a palavra Justiça procurou dar uma ordem na ordem alfabética:

“Isso é uma questão de direitos humanos, digo de direitos das palavras. Trata-se de um problema de cidadania, de preservação do nome, da identidade, dos sentidos das palavras, até de saúde pública, pessoal! Não tem o perigo dessa palavra esquisita morrer da tal de amnésia? Pois então… Não podemos ficar de mãos atadas.

Por que então a gente não se une, conta esse caso estranho dessa palavra encabulada e pede ajuda para as pessoas que adoram decifrar um enigma?”

E a palavra Enigma avançou tão pomposa que quase caiu na praça F:

“É claro, companheiras! Desculpe o engano… É claro não! Comigo é tudo no escuro porque eu não sou nada fácil. Mas é uma idéia”.

E ela não parou aí. Essa palavra enigmática que adorava um mistério pensou mais um pouco e lançou um desafio para cada uma das outras palavras bem alto:

“DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!”

Mas a palavra Ficção tinha que inventar e foi logo defendendo o seu pedaço para entrar bem depressa no mundo da imaginação:

“Como é que você pode desafiar a gente para desvendar um mistério, se nem você mesma sabe o nome dessa palavra que tem vergonha do nome dela?”

E continuou bem posuda, bem inventadeira, toda cheia de fantasia:

“Tenho uma ideia muito melhor. Que tal a gente ir escrevendo, todas juntas, uma história e publicar num jornal, numa revista, até num folheto e pedir o apoio das crianças? Podia ser qualquer pessoa, mas criança não tem medo de palavra e adora uma aventura!”

E o Dicionário pôs a mão na cabeça e decidiu:

“É, me parece uma boa ideia, mas temos de arrumar um escritor.”

Foi aí que eu fui convidado para sorte minha que só sei mesmo contar história. E depois eu não estava fazendo nada mesmo. É evidente que o Dicionário me disse, bem baixinho e com todas as letras, o nome da palavra que tinha vergonha do nome dela. Mas nem pense nisso – eu estou proibido de contar o nome dela. É condição, se não ela não se salva.

O que na hora eu achei muito bom porque história não vai se entregando assim logo de saída, história a gente descobre.

Credo em cruz, eu falei tanto que quase esqueci o nome da palavra que tinha vergonha do nome dela. Vai lá então.

Depois que essa palavra deu de passar maquiagem e usar traje violeta, a coisa piorou. Ela estava pirada mesmo! Imagine que ela começou a ouvir vozes e resolveu escutar as outras palavras que é o que você devia fazer. E, de tanto prestar atenção, ela chegou a ouvir conversa de gente também.

Num dia de sábado à noite, lá pelas vinte e uma horas e trinta e três minutos e treze segundos, ela escutou alguém bastante enfurecido dizer que essa palavra não podia ter um significado tão estranho porque todo mundo falava dela no rádio, no jornal, na televisão, no ônibus, no metrô e em tudo que é lugar.

Os alunos da professora Luciana lendo o blog

Não deu outra: a palavra ficou tão apavorada que pulou fora do Dicionário e foi se alojar na laje da casa onde ele mesmo, o Dicionário, morava. Ficou mais medrosa ainda, aterrorizada, em pânico e se pôs a morder a língua com tanta agressividade que gritou… Gritou não, berrou sem querer de dor:

“Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh…” E o Ó do nome dela começou a chorar de horror.

E agora? Você escutou o choro dela ou não?

nããããããÃÃÃÃÃÃÃÃÃ? Não acredito! Escritor tem que ter um saco do tamanho do mundo com criança que não escuta. E com gente grande também!

Não é por isso que eu vou contar tudo de novo. Quem não escutou procura no Dicionário o que é ovo de corvo branco como ano novo e que só sabe comer carniça de polvo e quem sabe você consegue encontrar um caminho novo que é o contrário de caminho torvo.

É claro que você acreditou nessa e eu, que sou escritor, enganei você o bobo na casca do ovo que nem descobriu até agora o nome dessa palavra que tem Ó de Ovo, C de Corvo, N de Novo e V dentro de Polvo.

Agora você escutou, não escutou…? Então a palavra já pode morar outra vez no Dicionário, mas não sei se ela ainda vai continuar tendo vergonha do nome dela. Se eu fosse ela, eu ia ter, agora você eu não sei…

Fimmmmm………

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Clube de leitura e entrevista com Jorge Miguel Marinho

Hoje temos mais um capítulo do nosso clube de leitura, publiquei a segunda parte da história que o Jorge Miguel Marinho cedeu, especialmente, para o meu blog, ele me enviou o texto por e-mail e disse: “Heitor, quero dar um retorno carinhoso a tudo que você faz pelos escritores e pela leitura” Adorei!!!

Então, hoje vamos ler a segunda parte do texto e tentar descobrir a palavra, como expliquei no post anterior. Mas antes, vamos conhecer um pouco mais do Jorge Miguel, lendo a entrevista que ele deu para os alunos da professora Luciana, da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. São eles que estão me ajudando a fazer esse clube de leitura tão diferente.

“Não há como separar vida e literatura” (Jorge Miguel Marinho)

Entrevista com Jorge Miguel Marinho feita pelos alunos da Professora Luciana

Alunos da Professora Luciana – Você gosta de livros desde pequeno?

Jorge Miguel Marinho – Quase todo mundo acha que escritor sempre leu muito e começou muito cedo. Não é o meu caso. Como venho de família muito simples, não havia livros nem na minha casa, nem na escola que só tinha duas salas de madeira. Mas um dia, uma amiga estava lendo um livro escondido atrás de um guarda-roupa e, quando ela saiu, esqueceu o livro e foi aí que o livro aconteceu na minha vida.

APL – Com quantos anos você escreveu seu primeiro livro?

JMM – Escrevo histórias ou crio na imaginação e não escrevo – fico só curtindo – desde sempre, nem me lembro.

APL – Qual foi o primeiro livro que você leu?

JMM – O primeiro livro não era bom – a autora se chamava Adelaide Carraro –, mas eu gostei de ter um livro nas mãos e imaginar que eu podia ler a história quantas vezes eu quisesse. Logo depois li O pequeno príncipe de Saint-Exupéry.

APL – O que fez você virar escritor?

JMM – A vida – ser entusiasmado por pessoas e gostar muito de ler.

APL – Que sentimento você tem quando escreve um livro?

JMM – A alegria de criar e, depois,  de um certo medo de que vocês não gostem do livro.

APL – Qual livro mais te interessou quando era adolescente?

JMMDom Casmurro, de Machado de Assis – lembro que fiquei muito triste e muito feliz, o que talvez seja o melhor modo de ler.

APL – Qual tipo de livro você mais gosta de ler?

JMM – De todos, mesmo os que não são bons ou têm qualidade discutível. Sou muito curioso. De qualquer forma, prefiro a boa literatura e daí não tem fim: Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Caio Fernando Abreu, Julio Cortázar, Murilo Rubião e vai por aí, sem um ponto final.

APL – Qual influência você leva para seus filhos em relação à literatura?

JMM – Apenas de ler e gostar de conversar sobre livros com eles.

APL – Lemos na internet que você é pai, esposo e escritor – como faz a separação da vida pessoal da profissional?

JMM – Não separo – não há como separar vida e literatura.

APL – Você acha que os jovens de hoje estão lendo como antes?

JMM – De fato não sei. Cada época e cada geração lêem de um modo muito especial – o importante é ler com prazer e curiosidade.

APL – Você já pensou em escrever livros para adultos?

JMM – Eu escrevo para adultos, não só contos e romances, como também peças de teatro.

APL – Você já pensou em desistir de ser escritor?

JMM - Nunca, estaria desistindo de mim e isso é impossível para qualquer pessoa.

APL – Qual foi sua inspiração para o primeiro livro?

JMM – Eu nunca me inspiro muito – apenas olho para a vida e deixo o livro acontecer. Talvez mesmo eu me inspire com tudo.

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

Jorge Miguel Marinho

Leia agora a segunda (e penúltima) parte do texto e tente adivinhar que palavra é essa, envergonhada, que não quer dizer seu nome

Bom, mas tudo isso parece que não adiantou nada até agora. Nem a braveza, nem a bondade do Dicionário, nem a vontade de todo mundo de descobrir o nome dela. Ou adiantou? Sei lá!

Só sei que o medo da palavra que tinha vergonha do nome dela foi deixando essa palavra que vivia assustada com as suas quatro sílabas cada dia mais medrosa. Ou são cinco? Xiiii!, essa palavra está me deixando confuso e a dona Gramática às vezes é meio indecisa. Isso é o que eu penso – o que você pensa eu não sei. Cada cabeça é uma cabeça e na sua cabeça já deve ter um monte de palavra que pode ter cisma, ira que é um ódio maior que raiva e até vergonha do nome dela. É ou não é?

Pois muito bem: de tanto essa palavra ficar com medo e passar a vida clandestinamente, escondidinha, sem ocupar a sua moradia certa que tinha endereço num país bem conhecido que ia de A a Z , a palavra que tinha vergonha do nome dela foi ficando mais esperta. É, esperta mesmo. A gente tem que entender que medo é um saco, mas para alguma coisa ele presta.

Então ela se escondia atrás das outras palavras, pulava quase do fim para o começo do Dicionário, se enfiava dentro da lombada outra vez, roía a contracapa de nervosa e ele, o Dicionário, sentia umas cócegas tão irritantes que ria tossindo também de nervoso.

Um belo dia, quando um dedo de criança quase pegou essa palavra que estava dormindo de cansada, ela levou o maior susto da vida dela. Se escondeu atrás da palavra Delicadeza que era completamente o contrário e até maior do que ela com uma letra a mais, mas não deu nada certo. Ela se esqueceu de tirar o seu chapéu, o acento, e a prova da fuga apareceu assim:

“Delicadêza”. Nem pensou mais: apagou com a letra L de lenço essa outra palavra e a Delicadeza que já estava tão esquecida na travessa D desapareceu.

Nesse dia a palavra envergonhada tapou, com as mãos, os olhos das suas duas últimas vogais de tanto sentir culpa e quase morreu de medo de ser presa pela Polícia Militar Dr. Abecedário da Língua Portuguesa.

Mas não tomou jeito de gente – deu de usar uma maquiagem pesada para não ser reconhecida e se vestir na tonalidade da palavra Violeta que disfarçava a cara e a grafia correta das suas letras, mas é uma flor de aroma tão agradável que, mesmo sendo roxa, não cabe dentro do sentido da palavra que tinha vergonha do nome dela. Ou cabe? Sei lá!

Caramba, agora quase me escapou o nome dela. Ainda bem que você não escutou o que tem dentro da minha cabeça.

Muito bem, ela provocou tanta confusão que até mesmo as outras companheiras ficaram confusas e começaram a se repetir feito umas gralhas:

“Mas como é mesmo o nome dessa palavra?”

Eu não posso dizer, mas bem que você podia ir dando uns palpites para eu escrever o jeitão dessa palavra e acabar logo com esse suspense. Eu sou um escritor mas detesto ficar fazendo e fazendo e fazendo rodeio com as palavras e, como eu já disse e não vou dizer mais, contar eu não posso.

Topa? Então vamosnessa. Engraçado! Eu juntei sem querer essas duas palavras e o som ficou parecido com o som da palavra que tinha vergonha do nome dela. Escutou essa agora ou não? Então problema seu, continua escutando. Ihhh…, minha nossa senhora das palavras, eu acho que é a palavra envergonhada que ninguém descobriu o nome dela até agora que começou a bagunçar essa história juntando as palavras. Que falta de vergonha!

Paciência!, mas nem tanto que eu já estou cansado de ficar aqui esperando que alguém pelo menos adivinhe o nome dessa palavra que nesse ponto dessa palavrada toda já deve estar ficando louca de tanto medo do nome dela e não sou eu que vou ficar repetindo o que aconteceu até agora porque quem quiser acertar que volte lá para trás no começo e trate de escutar essa história que eu vou em frente. Caçamba, que frase enorme demais de grande que eu escrevi nessa página! Paciência outra vez que eu já estou fulo da vida. Não entendeu, que se dane!

Vamosembora então…

(continua no próximo post)

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Um clube de leitura diferente

Hoje vamos começar um clube de leitura bem diferente, eu, a professora Luciana e os alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. Vamos ler um texto do escritor Jorge Miguel Marinho, cedido especialmente para o blog, que será publicado em três capítulos, e tentar adivinhar a palavra escondida

Outro dia recebi um e-mail do meu amigo escritor Jorge Miguel Marinho, dizendo que tinha um texto, que já foi publicado no passado pela revista Recreio, e depois virou um livro, que se chama A palavra que não queria dizer seu nome. Ele disse que tem autorização para “publicar e veicular onde quiser”, e me ofereceu, com exclusividade, para postar em capítulos aqui no blog.

Ele me explicou que é uma história de palavra e de suspense, um quebracabeças. Disse que eu “poderia publicar no blog aos poucos, por breves capítulos, e fazer uma bela brincadeira de adivinhação com os leitores”. Ele falou para eu ficar à vontade e só publicar se achasse a ideia bacana. Claro que achei bacana, uma ótima ideia, e fiquei super feliz. Um texto do Jorge Miguel Marinho publicado, com exclusividade, no meu blog… É uma honra!!!

E logo me lembrei da professora Luciana, que também acredita em mim, e dos meus amigos, alunos da Luiz Gatti. Juntos já fizemos muitos clubes de leitura. E pensei, faz tempo… estou com saudades dos nossos clubes de leitura, vou convidar a professora e ver se querem participar desse clube diferente. Eles também gostaram da ideia e toparam participar. Até entrevista com o Jorge Miguel Marinho combinamos de fazer, eles já pesquisaram sobre o autor e mandaram as perguntas.

Dividi o texto do Jorge Miguel em três partes, neste post, vou publicar a parte inicial, nos próximos, publico o restante do texto, a entrevista com o autor e mais informações sobre esse nosso novo clube. O desafio é adivinhar o nome da palavra escondida, e todos estão convidados a participar. Fica a dica do Jorge Miguel: primeiro a gente tenta descobrir o sentido da palavra até chegar ao nome dela. Participe dessa brincadeira e dê seu palpite aqui nos comentários!

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

Jorge Miguel Marinho

Imagine só se isso acontece…

É você mesmo…! Eu sou o escritor dessa história e estou falando com você mesmo aí bem na sua frente. Então me escuta…

Ela era uma palavra que tinha muita vergonha do nome dela.

É verdade mesmo, e você pode acreditar nisso. Era uma palavra envergonhada, com raiva dela mesma, sem a menor auto-estima.

E é por isso mesmo que ela vivia se escondendo no Dicionário que é uma das casas das palavras.

Ele, o Dicionário que nunca foi e nunca vai ser o Pai dos Burros, ele sabia muito bem que toda palavra tem  casa em qualquer lugar – ela mora na rua, na escola, no banheiro, na mão direita ou na mão esquerda e em tantos outros lugares que até fica acordada  lá dentro do sonho da gente e inventa história de verdade como eu.

Pois muito bem: o Dicionário às vezes era um pouco vaidoso como todo o mundo e ficava com a lombada estufada se achando o dono de todas as palavras. Por mais que tentasse fazer a maior força para entender, não conseguia admitir de jeito nenhum esta atitude tão apavorada da palavra. Uma palavra que tremia dos pés à cabeça só de imaginar que alguém pudesse descobrir o seu sentido… E muito pior ainda ficar sabendo o “sentimento” dela.

“Isto não pode ficar assim – não, Não e NÃO!”, ele gritava não muito alto, tinha bom senso e não podia perder a cabeça. Mas também não conseguia tirar da cabeça  que uma palavrinha qualquer, muito metida à besta,  tivesse o atrevimento de ficar escondida dentro dele. Justamente dele que nunca tinha pensado na vida em ser um esconderijo.”

O dicionário pensava muito: ele sabia muito bem que era uma casa, mas espera aí!, era uma casa de portas abertas para quem quisesse visitar qualquer palavra. Não tinha o menor cabimento uma palavra ou uma pessoa que é a mesma coisa ficar se escondendo ou escondendo o nome dela. Eu concordo com ele, você eu não sei…

“Rrrespeito é bom e eu gggosto”, ele rangia o R com os dentes e abraçava o G com a língua no céu da boca.

“Que palavra mais descarada, fingida, sem vergonha”, ele acusava. E na hora se corrigia:

“Sem vergonha ou envergonhada? Para essa palavra maluca, tudo é a mesma coisa e pronto –  essa garota só tem nove letras e é tão confusa”.

Escutou o que ele disse? Eu escutei…

Eu ainda não conto e nem sei se vou dizer o nome da palavra, se não eu estrago o segredo dessa história. E você sabe muito bem que uma história sem segredo é muito pior do que uma palavra que tem vergonha do nome dela.

O Dicionário que não podia perder o sentido das coisas, buscava encontrar uma razão para esse medo da palavra, mas não se conformava. Quando sentia o dedo de alguém percorrendo com os olhos bem abertos o seu caminho alfabético e essa palavra se apagava, fugia e até se disfarçava com as letras de uma colega sua, ele ficava realmente com os nervos à flor da pele: mordia um pouco a capa, ficava pálido nas páginas e desconfiado de outras palavras, até apertava ainda mais as abreviaturas. Mas isto durava só um instantinho. Afinal ele era muito equilibrado e tinha de manter em ordem todas as letras para cuidar dos sentidos bem corajosos das outras palavras. E depois não adiantava ficar muito bravo – cada palavra era dona do seu próprio nariz e fim. Eu também acho isso…

Imagine você que às vezes ele, o Dicionário, ficava até meio comovido, tinha o coração mole, cheio de outras palavras e deixava até escapar algumas delas:

“Coitada dessa palavra, tem palavra que já nasce para sofrer, é uma tragédia.”

Se conformar, ele não se conformava, mas a paciência de esperar era a maior qualidade do Dicionário. E, se existia palavra exibida como “Exuberante, Fascinante, Insinuante”, por que não podia existir palavra com complexo de inferioridade? Até “Estupendo” que era demais de vaidosa e por coincidência tinha o mesmo número de letras da palavra envergonhada!

Mas acontece que, para o azar dessa palavra que se escondia, ela tinha acento circunflexo bem em cima do Ê e esse chapeuzinho chamava muito a atenção. Um dia lá longe quando ela percebeu esse som mais forte lá dentro e lá fora da penúltima sílaba dela, não teve outra: ela se trancou nela, igual a um caramujo que mora e se recolhe dentro da sua própria concha que nem janela tem para ele ver o sol.

“OPA”…, que me deu uma vontade de dizer agora o nome dela, mas nem pensar: como eu já disse, essa palavra é muito envergonhada e eu sou muito discreto. Ainda bem porque você já deve estar adivinhando o tamanho e o jeito dessa palavra.

(continua no próximo post)

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Colocado em Geral por Heitor. 26 Comentários