Martin Eden sofreu muito pra virar escritor e viver de literatura e quando, finalmente, conseguiu, já era tarde
Antes de começar a fazer este blog, achava que vida de escritor era uma maravilha. Ler, escrever e passear pelas feiras e bienais de livros, conversando com os leitores. Que vida poderia ser melhor do que essa? Mas depois que conheci, com meu blog, um pouco do mundo da literatura, descobri que a realidade é diferente do que eu imaginava, escritor também sofre. Sofre para publicar seu livro e depois que consegue uma editora, sofre para vender. A maioria dos escritores não vive só de literatura, muitos têm outras profissões, são jornalistas, professores, tem até médico escritor.
Não sei como arrumam tempo para escrever, devem escrever de madrugada ou nos finais de semana. Mas acho que o maior sofrimento, mesmo, é na hora de publicar o livro. Mandam o original para as editoras e tempos depois recebem de volta, com alguma observação do tipo: “o texto é bom, mas não tem o perfil da nossa editora”. As editoras também recebem tantos textos, que nem conseguem ler todos. Com o meu blog já conheci muitos escritores que sofreram para publicar seu livro, mas até hoje nunca tinha visto um escritor sofrer tanto como sofreu Martin Eden.
A primeira vez que ouvi falar de Martin Eden foi lendo o jornal. Martin Eden é o nome de um livro de Jack London. Li um artigo do escritor Sérgio Telles n’O Estado de S. Paulo, contando que ganhou esse livro de seu filho, que lhe presenteou, dizendo que a história o fez lembrar de quando era criança e via o pai “escrevendo, mandando originais para as editoras e aguardando suas respostas.” O Sérgio Telles se lembrava de Jack London das suas leituras de infância, mas não conhecia esse livro. No artigo ele fala um pouco do livro, e só de ler o que ele escreveu, já gostei da história.
Não conhecia o Jack London, fui procurar o livro e pesquisar a obra do autor. Encontrei outro livro dele na estante de casa, O Lobo do Mar, depois soube que é um clássico da literatura. A edição que tem em casa de O Lobo do Mar é da Companhia Editora Nacional e foi traduzida por Monteiro Lobato. É um livro importante! Já separei pra ler depois, mas antes queria, mesmo, era ler o Martin Eden, a história dele me interessava muito. Já li, adorei e hoje vou contar um pouco a dura vida do escritor Martin Eden.
Martin Eden, de Jack London, traduzido por Aureliano Sampaio e publicado pela Editora Nova Alexandria conta a história da luta de um marinheiro pobre, que queria ser escritor e viver de literatura. Li que o Jack London fez sucesso escrevendo livros de aventura, como O Lobo do Mar e que este romance é diferente de tudo que ele escreveu, é “semi-autobiográfico” – a vida de Jack London foi bem parecida com a de Martin Eden.
Convidado por Arthur para jantar em sua casa, Martin Eden conhece sua irmã, Ruth, “uma criatura pálida e etérea, com uns olhos azuis grandes e espirituosos e abundante cabeleira loira. Comparou-a a uma pálida flor de ouro sobre uma haste delicada. Não; era um espírito, uma divindade, uma deusa. Tal beleza não podia ser da Terra.” Ruth estudava Literatura na universidade e Martin já tinha muito interesse pelo assunto, apesar de só ter lido poucos livros.
Conversaram e Ruth lhe falou de Swineburne, um poeta de quem Martin só tinha lido alguns versos. Ficou tão impressionado com o discurso da moça que chegou a seguinte conclusão: “Isto é que é vida intelectual, isto é que é beleza viva, maravilhosa, como nunca sonhei que existisse. Eis uma coisa por que valia a pena viver, uma coisa que merecia ser conquistada com luta, enfim, pela qual valia a pena morrer. Os livros diziam a verdade.” Ficou apaixonado por Ruth e pela literatura e decidiu lutar pelas duas.
Não foi nada fácil a luta de Martin Eden para conquistar suas duas paixões. A Ruth, depois de algum tempo e muita dedicação, ele começou a namorar, contra a vontade da família dela, que não aprovava a união da filha com um rapaz que pertencia a outra classe social e não tinha uma profissão definida. Depois que decidiu virar escritor abandonou o trabalho de marinheiro e só fazia alguns bicos para pagar sua comida, o aluguel do quarto onde morava e da máquina de escrever.
Só dormia quatro horas por dia e nas outras vinte lia e escrevia. Escrevia ensaios e contos, que mandava para as revistas literárias publicarem, por isso também gastava grande parte de seu dinheiro em selos do correio. Mas as revistas recusavam todos os seus textos. Depois escreveu livros, que também foram recusados. Um dia Ruth tentou convencer Martin a deixar seu sonho um pouco de lado e procurar um emprego: “Por que não tenta um lugar num jornal, se sente assim tanto gosto em escrever? Por que não experimenta a carreira de repórter?” “Estragaria meu estilo. Não faz ideia de quanto trabalhei para apurar meu estilo” – ele respondeu.
Depois o assunto da conversa passou para os editores, que viviam recusando os textos de Martin. Ele devia estar com tanta raiva dos editores, que disse: “A principal qualidade de noventa e nove por cento de todos os editores é o fracasso. Fracassaram como escritores. Tentaram escrever, mas falharam. E aqui está o maldito paradoxo da questão. Cada porta de acesso ao êxito literário encontra-se vigiada por esses cães de guarda – os fracassados da literatura.” No final da história Martin Eden conquista os editores que tanto odiava, consegue publicar todos os seus livros, vender e fazer muito sucesso como escritor, mas aí, já era tarde.
Jack London nasceu em São Francisco, nos EUA, em 1876, e morreu em 1916. Viveu uma infância pobre em Oakland e na adolescência trabalhou dezesseis horas por dia numa fábrica. Depois se alistou por algum tempo numa escuna, virou marinheiro e conheceu o Japão e a Sibéria. Voltou a ser operário para largar tudo novamente, levou uma vida de andarilho e chegou a ser preso. Terminou os estudos formais e matriculou-se na Universidade de Berkeley. Mas o preconceito contra estudantes pobres o fez sair da faculdade e tentar a sorte na “corrida do ouro” do Alasca. Ainda tentou ser carteiro e aos 25 anos largou tudo e decidiu ser escritor. Publicou mais de cinquenta livros, entre eles O filho do lobo (1900), O chamado da floresta (1903), O povo do abismo (1903), O lobo do mar (1904), Caninos brancos (1906), A estrada (1907), O tacão de ferro (1907), Martin Eden (1909), A travessia de Snark (1911), John Barleycorn (1913) e O Vale da lua (1913), além de mais de cem contos publicados em revistas.
- Como foi a reunião de ontem, Heitor?
- Foi legal, pai!
- Foi sobre o mesmo assunto daquela, na biblioteca do Tatuapé?
- Não, aquela foi em defesa das bibliotecas públicas.
- E essa, não foi também?
- Não, essa foi em defesa do Plano Municipal do Livro e da Leitura, o PMLL. Você sabia que São Paulo ainda não tem um PMLL?
- Sabia… São Paulo não tem muita coisa, meu filho. Motivo pra lutas políticas não faltam na nossa cidade.
- Se lembra de quando eu fui àquela passeata e você disse que era a minha primeira luta política?
- Claro que eu me lembro, a passeata era pra defender o quarteirão e a biblioteca do nosso bairro.
- E nós vencemos!
- E você gostou da ideia!
- Gostei!
- Gostou tanto que não parou mais.
- E nem quero parar, pois a luta continua… Não é mesmo, pai?
Meu pai riu, pegou um livro da mesa e me deu.
- Olha… Vi este livro na livraria e comprei pra você.
- Obrigado! “Cine Bijou”?
- Sim. Como o autor deste livro, eu também assisti a muitos filmes nesse cinema. Leia, acho que você vai gostar. Eu gostei!
Tive essa conversa com o meu pai na quinta-feira passada e hoje vou falar um pouco do debate sobre as bibliotecas públicas, da manifestação em defesa do Plano Municipal do Livro e da Leitura da cidade de São Paulo, e do livro sobre o Cine Bijou.
As bibliotecas públicas e o Plano Municipal do Livro e da Leitura
No post anterior eu falei de uma reunião que eu ia, na Biblioteca Hans Christian Andersen, para assistir a um debate sobre Bibliotecas Públicas. Pois eu fui, e gostei muito. Conheci a Lucina Melo, coordenadora dessa biblioteca, que fica no bairro do Tatuapé, aqui em São Paulo, e encontrei os meus amigos, o escritor Jeosafá e o Plínio.
Nesse debate se falou de muita coisa. Disseram que hoje a gente não vai mais à biblioteca pra fazer pesquisa pra escola, encontramos tudo na internet, e que a biblioteca não serve só pra isso. Eu, por exemplo, vou à biblioteca pra ler, pegar livros emprestados e encontrar os meus amigos. Tem muita coisa que a gente pode fazer lá. Depois, o pessoal que estava debatendo levantou uma questão: Que biblioteca é essa que devemos ter?
Eles acham que a gente tem que ter uma biblioteca mais receptiva e acolhedora e que seja aberta à comunidade. “A biblioteca como um espaço de democratização da informação”. No final do debate eles concluíram que tem que ser criada uma política de Estado para as bibliotecas e decidiram elaborar um documento com algumas sugestões.
Depois desse debate eu ainda fui a outro evento, que aconteceu no dia 27 de março, no quarteirão literário, em frente à Biblioteca Monteiro Lobato, que fica na Vila Buarque, região central de São Paulo. Fui convidado! Esse evento era para apoiar a criação e implantação do Plano Municipal do Livro e da Leitura da cidade de São Paulo. No final desse evento, que teve contação de histórias, música, dança, distribuição de livros; aconteceu um debate no auditório do Senac, que fica na rua ao lado do quarteirão.
A plateia estava cheia, e na mesa estavam o Paulo, da Bibliaspa; a Sueli, da Biblioteca Monteiro Lobato; e a Bel, do LiteraSampa. Eu ouvi e também li num cartaz que o PMLL deve ser criado para garantir a promoção do acesso ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas públicas, escolares e comunitárias a todos os cidadãos e cidadãs do município. E para participar é só procurar o Grupo de Discussão e Estudo do PMLL e assinar a Petição de apoio ao PMLL, nos encontros do Grupo e na internet.
A Bel, do LiteraSampa, disse que esse debate deve acontecer mais vezes na cidade, para dar mais visibilidade e chamar mais pessoas para o movimento. O meu amigo Jeosafá também estava lá e pediu a palavra. Ele disse que participa de um grupo, que vem discutindo essas questões desde o ano passado. Eles elaboraram um documento que já tem mais de mil assinaturas.
O Fernando Haddad e a Nádia Campeão assinaram esse documento, no final do ano passado, durante a campanha eleitoral. O documento tem o apoio do prefeito e da vice-prefeita! No final do debate, os dois grupos se juntaram e o nosso movimento em defesa do livro e da leitura, pela criação e implantação da PMLL de São Paulo vem crescendo a cada dia.
Um cinema e uma época
A história do livro Cine Bijou, escrito por Marcelo Coelho, ilustrado por Caco Galhardo e publicado pela editora Cosac Naify e Edições SESC SP começa assim:
“Quando eu tinha quinze ou dezesseis anos, me achava extremamente inteligente na maior parte do tempo. No resto do tempo, eu me achava extremamente idiota. Não sei se idiota é a palavra. Ser um pateta não é igual a ser um imbecil, por exemplo. O imbecil tem mais profundidade; o pateta é mais avoado, mais feliz até. Ser um crianção tem cura; já um babaca é babaca pelo resto da vida. O burro é burro desde que nasceu, mas o idiota só é idiota de vez em quando. Isso eu dizia pra me consolar.”
Nesse livro o autor Marcelo Coelho conta um pouco da sua história, quando tinha essa idade, na década de 1970. Ele diz que uma das “atividades inteligentes” que fazia era ir ao cinema e os filmes que queria ver eram proibidos para menores de 18 anos. “Naquela época, 1974, 1975, a censura por faixa etária era levada bastante a sério.” Ele conta, também, que alguns filmes nem os adultos podiam ver, pois eram proibidos pela censura.
O Brasil vivia uma ditadura militar e o governo proibia filmes mesmo para quem tinha mais de dezoito anos. Ele disse que nessa época tinha cara de criança e o único cinema que o deixavam entrar era o Cine Bijou, que ficava no centro de São Paulo, na praça Roosevelt. Ele diz que o Cine Bijou exibia sempre filmes de arte e festivais de diretores famosos.
E assim segue a história desse livro, com o autor contando um pouco dos filmes que viu no Cine Bijou, da história dessa época, e de sua história, quando tinha quinze ou dezesseis anos.
Para criar as ilustrações desse livro, Caco Galhardo recuperou cartazes de filmes clássicos como, Laranja mecânica, de Stanley Kubrick e o Último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci . Ele também se inspirou em cenas marcantes dos filmes A morte em Veneza, de Luchino Visconti e Os amantes de Maria, de Andrey Konchalovsky, e a capa foi baseada em Viver a Vida, de Jean-Luc Godard.
Marcelo Coelho nasceu em São Paulo, em 1959. Formado pela Universidade de São Paulo (USP) em ciências sociais, é mestre em sociologia. Ensaísta, escritor, e jornalista – dedicado, sobretudo à área de cultura, assina uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, no caderno Ilustrada, desde 1990. O livro Tempo medido (Publifolha, 2007) reúne suas melhores crônicas publicadas no jornal. Traduziu obras de Voltaire e Paul Valéry e escreveu dois romances, Noturno (Iluminuras, 1992) e Jantando com Melvin (Imago, 1998). Também publicou os livros infantis A professora de desenho e outras histórias (1995) e Minhas férias (1999), os dois pela Cia das Letrinhas.
Caco Galhardo nasceu em São Paulo, em 1967. Formado em Comunicação pela FAAP, iniciou sua carreira como cartunista na década de 1980. É autor dos livros O banquete – As gostosas de Caco Galhardo (Barracuda, 2004), em parceira com o escritor Marcelo Mirisola, Dom Quixote em Quadrinhos (2005), Crésh (2007) – ambos publicados pela Editora Peirópolis – e Bilo (Girafinha, 2008). Suas tirinhas podem ser vistas no jornal Folha de S. Paulo.
Hoje vou fazer um post diferente, não vou contar nenhum livro, vou falar de um debate sobre bibliotecas públicas. Perguntei ao meu amigo Lipe, o que ele achava de eu fazer um post assim.
- Acho legal! ele respondeu.
- Mas eu não vou falar de nenhum livro, Lipe!
- Ora, se você fala de bibliotecas, fala de todos os livros! ele disse, como se estivesse me explicando o óbvio.
Tenho muitas divergências com o Lipe, mas às vezes a gente se entende. Ele é o meu melhor amigo, já falei dele aqui no blog.
Tive a ideia de fazer este post, pois, outro dia, recebi um e-mail de Luciana Melo, coordenadora da Biblioteca Pública Hans Christian Andersen. Ela disse no e-mail, que acompanha e adora o meu blog, e me convidou para um debate. O nome do debate é “Biblioteca pública como instrumento de cidadania e inclusão social” e será na terça-feira que vem, dia 12 de março, lá na biblioteca, mesmo, que fica no bairro do Tatuapé, aqui em São Paulo. A programação está aí embaixo, com o número de telefone e tudo. Quem quiser participar é só ligar e fazer a inscrição. Eu já fiz a minha!
Ainda não conheço a Luciana, pessoalmente, fiquei muito feliz por ela me convidar para esse debate, mas fiquei pensando: Por que será que ela me convidou? Justo, eu?! E fui conversar com minha mãe:
- Ela não disse que acompanha o seu blog, Heitor?
- Disse.
- Então é por isso! Além de saber que você gosta muito de livros, ela deve ter acompanhado sua luta em defesa da biblioteca do nosso bairro.
- É, mesmo!
Depois falei com meu pai e ele me explicou como eu faço pra chegar ao Tatuapé. Preciso pegar um ônibus e o metrô. Na terça, assim que chegar da escola, almoço correndo e saio. Não quero chegar atrasado ao debate.
Fórum de debate
“Biblioteca pública como instrumento de cidadania e inclusão social”
Cronograma
14h00 – Abertura: Luciana Melo (Coordenadora Biblioteca Hans C. Andersen)
Mediação: Rosely Daltério (Socióloga Biblioteca Cassiano Ricardo)
14h30 – Atividade artística: Contos populares com Tatiana Felix (Pedagoga Seduc – Praia Grande)
15h00 – Palestra: “Retratos da Leitura no Brasil” com Zoara Failla (Socióloga, coordenadora da área de projetos do Instituto Pró-Livro – IPL – organização criada e mantida pelas entidades do livro (Abrelivros, CBL e SNEL)
16h00 – Mesa redonda: “Bibliotecas Públicas como instrumento de cidadania e inclusão social”
Izilda Patti (Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo), Durvalina Soares (Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo), Ricardo Queiroz (Sistema Municipal de Bibliotecas de São Bernardo), e Professora Maria Edith Giusti (Coordenadora da Especialização em Bibliotecas Públicas / UNIFAI)
Mediação: Rosely Daltério (Socióloga Biblioteca Cassiano Ricardo)
17h30 – Café e atividade musical com os ex-alunos do Vocacional em Música da Secretaria Municipal de Cultura MC Dayse Liguori e Giorgio Arthur Passerino (Flauta e violão)
Quando: dia 12 de março de 2013, às 14h00
Local: Auditório da Biblioteca Hans Christian Andersen
Av. Celso Garcia, 4142, Tatuapé, São Paulo, SP
Inscrições pelo telefone: (11) 2295-3447
Com certificado validado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
- Você desistiu de seu blog, Heitor?
- Eu não, mãe! Por quê?
- Já acabaram suas férias e você ainda não publicou nada…
- É verdade…
- Você nunca ficou tanto tempo, assim, sem escrever no blog. O que está acontecendo?
- É que estou bolado com essa história do meu projeto que não sai…
- Eles não responderam nada, ainda?
- Ainda não.
- Tem que ter paciência, meu filho… O pessoal da Sintaxe não disse pra você que essas coisas são assim, mesmo?
- Tá bom, mãe, vou ter paciência, então…
- Faz isso, meu filho, a parte mais difícil você já fez, agora só resta esperar.
Depois dessa conversa, resolvi obedecer minha mãe e ter paciência, não posso estragar tudo com esse meu jeito de “querer sempre pra agora”, como vive dizendo o meu pai. Depois, o pessoal da Sintaxe tem sido muito cuidadoso e eu só tenho que ficar na minha e deixar que eles resolvam tudo. Sendo assim, vou voltar a escrever aqui, afinal, o ano já começou, o Carnaval já passou, logo vai chegar a Páscoa e o meu blog ainda estava no ano passado.
Hoje vou falar de um livro que descobri lendo o jornal, li uma entrevista com o autor e fiquei sabendo que esse livro começou como um aplicativo, virou um curta-metragem, ganhou o Oscar em 2012 e agora é livro, de verdade. Também vou falar de uma contação de história que fui no final das minhas férias. Eu adoro contação de histórias! Quando eu ainda não sabia ler era assim que eu descobria o que estava escrito nos livros. Hoje, quando assisto a uma contação de história, fico curioso e corro atrás do livro pra ler a história contada.
Declaração de amor ao universo dos livros
Já contei algumas vezes aqui, que adoro ler jornal, aprendi com o meu pai. O meu amigo Lipe diz que isso é coisa de velho e que ele vê as notícias na internet. Eu também vejo as notícias na internet, mas o que eu gosto, mesmo, é de ler as notícias no jornal de papel. Outro dia li uma entrevista com o escritor e ilustrador William Joyce, saiu na Folha de S. Paulo e quem fez a entrevista foi o jornalista Cassiano Elek Machado. O William Joyce criou, um tempo atrás, um aplicativo para celular que se chama The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore. Depois ele adaptou esse aplicativo e fez um filme, um curta de animação e esse filme ganhou o Oscar no ano passado. Para
terminar, ele adaptou essa história, mais uma vez, e fez o livro, que foi lançado no final do ano passado aqui no Brasil, pela editora Rocco, com o nome de Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo. Já li o livro e adorei!
Nessa entrevista ele diz que apesar do seu projeto ter começado como um aplicativo e um filme, é um projeto sobre a importância dos livros. No começo ele teve a ideia de fazer um livro, depois pensou que seria interessante produzir um curta de animação para promover o livro. Enquanto produzia o curta, o iPad foi lançado e ele achou que seria uma boa “plataforma” para essa história. Então ficou assim: primeiro saiu o aplicativo, depois o filme e no final, o livro, o grande homenageado. Ele diz que tudo que faz no seu estúdio, vê primeiro como um livro.
Ele também contou que o Modesto Máximo foi inspirado num amigo, Bill Morris, “um amante dos livros e um grande cavalheiro da área da publicação de livros infantis”. Ele confessa que sempre foi apaixonado por bibliotecas e sempre tenta escrever histórias nas quais elas apareçam. Sei que ele escreveu uma série de livros chamada “Guardiões”, vou procurar pra ler. Gostei do Willian Joyce, ele gosta das mesmas coisas que eu gosto. Quem me conhece sabe que eu também sou apaixonado por bibliotecas. Arrisquei minha vida para defender a biblioteca do meu bairro e falei um pouco disso aqui. Um dia ainda vou contar essa história, com todos os detalhes.
William Joyce nasceu em 11 de dezembro de 1957 nos Estados Unidos. É escritor, ilustrador e cineasta. Foi eleito uma das 100 personalidades de destaque do novo milênio pela revista Newsweek. Além de Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo, escreveu a série “Os guardiões da infância”: O homem da Lua, Nicolau São Norte e a Batalha contra o rei dos pesadelos e Coelhoberto Paschoal e os ovos guerreiros no centro da terra.
Veja o curta-metragem. Se não conseguir assistir aqui, procure no Youtube.
Fiz novos amigos
Este blog só me traz alegria! Preciso lembrar sempre disso para não ficar tanto tempo sem escrever aqui. Com ele já conheci muita gente, escritores, ilustradores, editores e, principalmente, leitores. Outro dia fui à livraria assistir a uma contação de histórias e conheci os dois contadores, eles são muito legais! Também conheci a autora do livro, que eles contaram a história, e agora ela já é minha amiga! Mas o mais
incrível de tudo foi que eu conheci… acho que vocês não vão acreditar… conheci os dois personagens desse livro!!! Eles também estavam lá! Preciso explicar melhor essa história, senão vão pensar que eu estou mentindo.
No final das minhas férias recebi um convite da Daniela Padilha. Já falei da Daniela aqui no blog, ela é minha amiga, já trabalhou em muitas editoras e agora tem a editora dela, a Jujuba. Ela me convidou para a contação de história de um livro novo: Eu (não) gosto de você!, escrito e ilustrado por Raquel Matsushita e publicado pela Jujuba Editora.
Fui, cheguei mais cedo e os contadores já estavam por lá, fazendo a maquiagem. Me apresentei e fiquei conversando um pouco com eles, Gizele Panza e Manu Costa são casados. Além de contar histórias, eles fazem muitas outras coisas, a Gizele é atriz, produtora e costureira; o Manu é fotógrafo, músico e jornalista. A conversa com eles foi muito gostosa, enquanto eles se maquiavam a gente foi conversando. Eles me contaram como é a preparação da contação de cada história, e disseram que o que eles mais gostam é ver a reação das crianças quando ficam encantadas com as histórias. Confesso que eu também fiquei encantado, não só com a história que eles contaram, mas também com a nossa conversa.
Depois chegou a minha amiga Daniela e me apresentou para a autora do livro, a Raquel Matsushita. Conversei com a Raquel e fiquei sabendo que antes de virar escritora, ela era designer gráfico e já fazia livros. Ela continua designer gráfico e fazendo livros, inventa as capas, escolhe os tipos de letras e monta tudo no computador. Ela disse que adora fazer livros e já fez muitos livros de outras pessoas e agora resolveu escrever, ilustrar e fazer o seu próprio livro. Antes desse, ela já tinha escrito Fundamentos gráficos para um design consciente,
publicado pela Musa Editora, que fala do seu trabalho. Ela tem um estúdio, Entrelinha Design, e trabalha junto com a minha outra amiga, a Aline Abreu, já falei da Aline aqui no blog – esse mundo é pequeno, mesmo!
O livro Eu (não) gosto de você começa assim: “Um dia, todo mundo ficou feliz. Foi porque minha mãe ficou grávida. Eu não notei nada de diferente, a não ser que mamãe ficou meio cinza.” O livro conta a história de uma menina que sente ciúme do irmão que está pra nascer. Quando o irmão nasce, ela sente raiva, mas depois vai aprendendo a gostar dele. A Raquel me disse que essa história é baseada em fatos reais e que tudo isso aconteceu com ela, quando o seu filho mais novo estava pra nascer. “Eu vivi todos aqueles momentos e os vivo até hoje. A relação de pais e filhos muda a todo instante. Quando achamos que já sabemos lidar com nossos filhos, eles crescem e temos que aprender tudo de novo”, ela me disse. No final eu conheci os seus filhos, Lia e Nino, os dois personagens desse livro. Tá vendo como não era mentira?
Raquel Matsushita é designer e escritora. Fez faculdade de Publicidade e Propaganda na Universidade Metodista de São Paulo, e depois estudou designer gráfico, cor e tipografia na School of Visual Arts de Nova York. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, e hoje é sócia do escritório Entrelinha Design. Além do livro Eu (não) gosto de você!, escreveu Fundamentos Gráficos para um Design Consciente, que foi publicado em 2010, pela Musa Editora.
Este é o último post do ano. Volto no final de janeiro, com novidades. Logo no começo do ano vamos ter um clube de leitura com uma escola municipal de São José dos Campos, combinei com o professor Carlos e já contei aqui no blog. A outra novidade eu ainda não posso contar, mas já está praticamente certa. O pessoal da Sintaxe me disse que só falta assinar o contrato. “Essas coisas são demoradas, mesmo” – eles me explicaram, e me pediram para eu ter paciência e esperar mais um pouco pra contar. Nessas coisas eu não me meto, minha função é ler e contar, e assim que eles autorizarem eu venho aqui e conto tudo. É a realização de um sonho meu! Agora vou falar de um escritor que eu gosto tanto, que li sete livros dele, de uma vez. O post ficou maior grandão, mais ficou legal, vocês vão ver. Então é isso… Bom Natal pra todos e feliz Ano Novo!
Prosa poética
Hoje vou falar do escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Conheci o Bartolomeu, pessoalmente, na Bienal do Livro de SP do outro ano, assisti a uma palestra dele e contei aqui no blog. Ele estava junto com a minha amiga escritora, Katia Canton. Eu já tinha lido um livro do Bartolomeu na escola, no 5º ano. O livro se chama Até passarinho passa. Eu me lembro de que a nossa professora fez uma coisa bem legal com esse livro, lemos durante a aula. Alguém lia um parágrafo em voz alta e todos diziam o que tinham entendido daquele pedaço da história.
O nome da nossa professora daquele ano era Rose. A professora Rose era “apaixonada pelo Bartolomeu” e não se cansava de ler em voz alta tudo o que ele escrevia. “Isso é prosa poética, meus queridos alunos, ler Bartolomeu faz bem pra alma” – ela dizia. Na época não entendi muito bem, mas hoje eu sei o que é prosa poética e concordo com a professora Rose: ler Bartolomeu é muito bom! Bartolomeu Campos de Queirós morreu no início deste ano. Além de escritor, com mais de quarenta livros publicados, ele foi um grande educador e liderou diversos movimentos pela valorização do livro e pelo incentivo à leitura.
Resolvi falar hoje do Bartolomeu, pois num dia desses vi a minha mãe lendo um livro bonito, de capa dura e vermelha, e perguntei a ela:
- O que você está lendo, mãe?
- Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós.
- Não foi esse livro que ganhou o prêmio São Paulo de Literatura?
- Foi este, mesmo!
- É juvenil?
- Não, este ele escreveu para adultos. É o primeiro livro do Bartolomeu para adultos.
- Que pena, eu queria ler… Eu li o Até passarinho passa na escola e depois li O olho de vidro do meu avô e gostei muito do jeito que o Bartolomeu escreve, é prosa poética!
- Este aqui é pura prosa poética, meu filho. Leia este, também.
- Não é difícil? Será que eu vou entender?
- Entende, sim… Faz como você fez quando leu o Machado de Assis pela primeira vez, usa o dicionário.
- Boa ideia! Quando você acabar, me empresta.
Enquanto eu esperava minha mãe terminar de ler o Vermelho amargo, fui atrás de outros livros do Bartolomeu e corri à biblioteca do meu bairro, aquela que o prefeito queria demolir. Encontrei um monte de livros dele e trouxe mais quatro pra casa: O peixe e o pássaro, Ciganos, Indez e Tempo de voo. Li todos, li sete livros de Bartolomeu Campos de Queirós – e não é conta de mentiroso, como dizia o meu avô. E hoje vou falar um pouquinho de cada um.
O peixe e o pássaro
O peixe e o pássaro foi publicado pela Editora Miguilim, tem fotos de Haroldo Carneiro, ganhou prêmio da Prefeitura de Belo Horizonte, e é o primeiro livro do Bartolomeu Campos de Queirós, que o escreveu no início da década de 1970, quando estudava na França. Ele morava perto de um jardim que tinha um lago. No final de semana ele se sentava nesse jardim para ler e sentia saudades do Brasil, “de comer feijoada, de dormir na cama com lençol passado, dos meus amigos”. No lago sempre aparecia “um peixe e botava a cabeça do lado de fora.” Também “havia várias gaivotas que mergulhavam no lago e tornavam a sair.” Ele começou a olhar aquela cena e percebeu que cada coisa tinha o seu lugar: se o peixe saísse da água, “morreria afogado no ar” e se “a gaivota ficasse dentro da água, morreria afogada”. Também percebeu que tanto o peixe quanto o pássaro não deixam rastros por onde passam. Ele nunca tinha pensado em ser escritor, mas ficou tão encantado com tudo isso, que resolveu escrever O peixe e o pássaro para aliviar suas saudades e contar essa história.
A Liberdade
O ar é imenso. A água é imensa. Pode-se viajar no ar e na água por muito tempo. Mas o peixe e o pássaro estão ali, parados.
A liberdade permite isso. (Trecho de O peixe e o pássaro)
Ciganos
Ciganos, de Bartolomeu Campos de Queirós, publicado pela Editora Miguilim conta a história de um menino que observava os ciganos que apareciam em sua cidade, imaginava um monte de coisas e torcia para ser roubado por eles. “Ah, ser roubado era o mesmo que ser amado e ele sentia que só roubamos o que nos faz falta.” Naquele tempo se acreditava que ciganos roubavam crianças e com a chegada deles, o medo passava a ser companheiro dos meninos da cidade. Ninguém sabia de onde os ciganos vinham e para onde iam, e se as crianças fossem roubadas por eles, ficariam perdidas para sempre. O menino se sentia sozinho e pensava ser um cigano, “esquecido em porta de família alheia”. “Foi de seu pai que ele herdou essa mania calada, esse jeito escondido e mais a saudade de coisas que ele não conhecia, mas imaginava. Sua vontade de partir veio, porém, do desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadeiras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído.”
“Assim, revelando desejos, confirmando anseios, realizando a fantasia, os ciganos passavam a ser silenciosamente amados. E os seus nomes – Normano, Amália, Nuno, Bonança, Árias, Lourença – passavam a viver secretamente no sonho de todos daquele lugar. Carentes de emoções, tramavam fugas, sonhavam estradas, pensavam ilimitado amor. Quem sabe fugir para se conhecer o mundo de que só se tinha notícia, raramente…” (Trecho de Ciganos)
Indez
Indez é o nome do ovo deixado no ninho para que as aves continuem a botar outros ovos naquele mesmo lugar. Meu pai me disse que a minha avó fazia isso com as galinhas e patas que passeavam pelo quintal da casa da infância dele. Indez também é o nome de outro livro do Bartolomeu Campos de Queirós, que peguei emprestado da biblioteca e li. Publicado pela Editora Miguilim, o livro conta a história da infância do personagem Antônio, e é meio autobiográfico, pois também conta um pouco da infância do próprio autor. No tempo do Bartolomeu e da minha avó, quando o umbigo de uma criança recém-nascida caía, a parteira o enterrava em um lugar escolhido. Se fosse enterrado num jardim com flores, a menina seria bela e boa jardineira; se enterrassem na horta, o menino seria lavrador, e no curral, boiadeiro. “O destino era assim escolhido sem outros inúteis anseios. Assim sendo, nascer era tão bonito que acreditar em outra vida era coisa muito simples.” Já o umbigo de Antônio foi jogado na correnteza! Ele nasceu antes do tempo e veio na “estação das águas”.
“Nasceu tão fraco que recebeu o batismo em casa, na correria, sem festas. Para padrinhos escolheram casal de amigos bem próximos, com muitas desculpas. A morte sem batismo condenaria o menino, mesmo inocente, a viver eternamente no limbo, lugar sem luz.”
Antônio sobreviveu e o livro conta a história dele e mostra de um jeito muito bonito, os costumes daquela época, numa cidade do interior de Minas Gerais.
Tempo de voo
- Nossa! Você está tão trincadinho!
Ele me disse isso com um olhar escorrendo espanto. Sua pele me lembrava as águas se o vento dorme: lisa e mansa. Sua mão, cruzada a minha, amarrava um abraço entre a primavera e o inverno. Respirei o ar inteiro, para depois dar nome ao meu susto.
- É o tempo, meu menino, é o tempo!
Assim começa Tempo de voo, escrito por Bartolomeu Campos de Queirós, ilustrado por Alfonso Ruano e publicado pela Editora SM / Comboio de Corda. Este livro mostra a conversa de um homem mais velho e uma criança curiosa e continua assim:
- O tempo? Eu nunca vi o tempo.
- Também não. Ninguém vê o tempo. O tempo não para. Passa ligeiro e ninguém consegue tocá-lo. Ele tem medo de não atender aos nossos pedidos, por isso não nos escuta.
- Passa mais depressa que voo de passarinho?
- Muito, muito mais. Passarinho pousa, repousa, dorme, torna a voar e volta ao ninho. O tempo não tem ninho. Ele está sempre acordado, viajando e vigiando tudo…
E assim essa conversa segue e vai mostrando os mistérios do tempo que passa.
Até passarinho passa
Como disse no começo do post, o livro Até passarinho passa eu já tinha lido na escola, no 5º ano. Reli agora pra poder falar dele aqui. Até passarinho passa foi escrito por Bartolomeu Campos de Queirós, ilustrado por Elisabeth Teixeira, publicado pela Editora Moderna, e conta uma história que lembra a infância de um menino. Ele morava em uma casa que já não existe mais. “Como tantas outras coisas, ela passou.” Essa casa tinha uma “pequena varanda forrada de ladrilho xadrez, frio e limpo.” Os passarinhos vinham visitar a varanda para “colher as migalhas dos bolos, que caíam de propósito de nossas mãos…” Os passarinhos bicavam apressados as migalhas, como garimpeiros.
Era um menino triste que observava e amava esses passarinhos. “Quando eles surgiam, em bando ou solitários, meu coração deixava de bater para não assustá-los.” Ele pensava que para amar os passarinhos só os olhos bastavam. “Mas eu sofria de uma coceira incômoda na palma da mão. Vontade de pentear suas penas com meus dedos.” Entre o bando havia um passarinho que ele amava mais que todos. “Pousava sobre a grade da varanda, olhando por todos os lados. Parecia querer estar só comigo, eu pensava com vaidade.” E a história segue contando de um jeito muito bonito e um pouco triste a história do amor do menino pelo passarinho.
O olho de vidro de meu avô
Assim começa a história do livro O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós, publicado pela Editora Moderna:
Era de vidro o seu olho esquerdo. De vidro azul-claro e parecia envernizado por uma eterna noite. Meu avô via a vida pela metade, eu cismava, sem fazer meias perguntas. Tudo para ele se resumia em um meio-mundo. Mas via a vida por inteiro, eu sabia. Seu olhar, muitas vezes, era parado como se tudo estivesse num mesmo posto. E estava. Ele nos doava um sorriso leve com meio canto da boca, como se zombando de nós. O pensamento vê o mundo melhor que os olhos, eu tentava justificar. O pensamento atravessa as cascas e alcança o miolo das coisas. Os olhos só acariciam as superfícies. Quem toca o bem dentro de nós é a imaginação.
E o seu avô imaginava sempre, o menino acreditava. O avô morava em Bom Destino e dizem que viajou para São Paulo para comprar “esse olho que não via”. “Naquele tempo, São Paulo ficava quase em outro país.” Quem conta essa história é um homem, que fala do tempo em que era menino. Fala do avô e do seu olho de vidro, da avó, do pai, da mãe dos tios e de toda sua família.
Ele tinha vontade de saber se o seu avô retirava o olho na hora de dormir, pois havia sempre, sobre o criado-mudo um pires, que poderia servir de berço para “um olho cansado de nada ver”. E o menino continuava a pensar:
Eu também gostaria de possuir um olho assim, que ficasse distante de mim, sobre o criado. Ter meu olho me espiando de longe. Quem sabe, eu me conheceria melhor? Conheceria minha superfície sem precisar de espelho. Um olho capaz de vigiar meu sono, me protegendo dos fantasmas que nos visitam se descuidamos de nós. E dormir e descuidar-se de si mesmo. Dormir é ficar desarmado, é não ser mais proprietário do próprio corpo. Ah! Como o olho do meu avô me enchia de dúvidas!
Vermelho amargo
Depois de ler esses seis livros de Bartolomeu Campos de Queirós, eu estava pronto para encarar o Vermelho amargo. Peguei-o da estante, sentei na minha poltrona predileta, deixei o dicionário ao alcance das mãos, abri o livro e comecei a leitura:
Mesmo em maio – com manhãs secas e frias – sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. Desconheço o ruído que interrompeu o meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. A vida me parece inteiramente concluída. Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo das mentiras.
Vermelho amargo também foi escrito por Bartolomeu Campos de Queiros, e foi publicado pela Editora Cosac Naify. Pelo que li depois, o livro é meio autobiográfico, conta um pouco da história do próprio autor, e é pura prosa poética, como disse minha mãe. Quase todos os parágrafos eu li mais de uma vez, alguns em voz alta. Para entender melhor o que estava escrito e também para ouvir a beleza do som das palavras. É muito bonito o jeito como o Bartolomeu escrevia! A mãe morreu aos 33 anos, ele tinha 6. Ela teve câncer, e quando sofria de dores cantava, cantos líricos. Foram criados pela madrasta – ele, seu irmão e sua irmã. A madrasta cortava fatias fininhas de tomate para as refeições e ele sentia saudades da mãe:
Sem o colo da mãe eu me fartava em falta de amor. O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos. Para abrandar minha impaciência, sujeitava-me aos caprichos de muitos. Exercia a arte de me supor capaz de adivinhar os desejos de todos que me cercavam. Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com açúcar e nadando num mar de leite, como praticava minha mãe – ilha flutuante – com as mãos do amor.
Bartolomeu Campos de Queirós nasceu em 1944 e viveu a infância em Papagaio, interior de Minas Gerais. Escritor com mais de 40 livros publicados, alguns deles traduzidos para o inglês, espanhol e dinamarquês. Formado em Educação, estudou Filosofia e Estética e utilizou a arte como
parte integrante do processo educativo. Cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de leitura no Brasil como o ProLer e o Biblioteca Nacional, dando conferências e seminários para professores de leitura e literatura.
Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado/ Palácio das Artes e membro do Conselho Estadual de Cultura, ambos em Minas Gerais, sendo também muito convidado para participar de júris e comissões de salões, além de curadorias e museografias. Idealizou o Movimento por um Brasil Literário, do qual participava ativamente. Por suas realizações, Bartolomeu colecionou medalhas: Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres (França), Medalha Rosa Branca (Cuba), Grande Medalha da Inconfidência Mineira e Medalha Santos Dumont (Governo do Estado de Minas Gerais). Recebeu, ainda, prêmios literários importantes, como Grande Prêmio da Crítica em Literatura Infantil/Juvenil pela APCA, Jabuti, FNLIJ e Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 16 de janeiro de 2012, na cidade de Belo Horizonte.
Outro clube de leitura
No post anterior falei do professor Carlos e do convite que ele me fez para visitar sua escola e conhecer seus alunos. Ele mora em São José dos Campos, interior de São Paulo. Trocamos alguns e-mails e deixamos essa visita para o começo do ano que vem. Na escola dele já vai começar o calendário de avaliação final e este final de ano está cheio de feriados. Num dos e-mails que mandei pra ele, perguntei:
Professor, o que você acha de escolher um livro pra eu ler e os seus alunos também, e depois publicar no blog? Tipo aquele clube de leitura que fiz com a escola daqui.
E ele respondeu:
Gostei muito da ideia, Heitor! Vou colocar essa atividade no meu planejamento de 2013, para acontecer logo no início. Juntamente com os estudantes escolheremos um livro bem legal. Vai ser muito motivadora essa atividade.
OBA! No começo do ano vamos ter outro clube de leitura aqui no blog.
Uma escritora meio francesa e meio brasileira
Pauline Alphen nasceu no Rio de Janeiro. De pai francês e mãe brasileira, ainda criança, foi morar na França. Só voltou pra cá aos onze anos, veio passar férias na casa da madrinha brasileira, em Alagoas. Veio sozinha! Pauline morava em Metz, fronteira com a Alemanha. Primeiro ela foi com sua mãe, de trem, até a capital, Paris, para pegar o avião. No aeroporto foi entregue a uma aeromoça que pegou a sua mão. A mão da aeromoça era quente e dizia para Pauline: venha venha venha.
E ela foi para dentro do avião. “Minha mãe já ficou longe, minha mãe de olhos brilhando, que chorava e ria quando me abraçou. Ficou lá no país onde cresci. (…) Estou no avião que vai me levar para o Brasil, o país onde nasci, mas pouco sei.” Assim começa a viagem de férias no Brasil de Pauline Alphen, que ela conta no livro Do outro lado do Atlântico, que tem ilustrações de Maria Eugenia, foi publicado pela Companhia das Letrinhas e faz parte da Coleção Memória e História.
Conheci a Pauline Alphen na Bienal do Livro e assisti a sua palestra. Ela contou que foi um professor de francês que despertou nela o desejo de escrever e ela tinha dez anos quando isso aconteceu. Ela disse que escreve para despertar emoção no leitor e que todo escritor quer que o seu livro seja lido pelo maior número de pessoas. Para escrever o texto de Do outro lado do Atlântico ela conta que convocou a sua memória. Concentrou-se e pediu à menina de onze anos que viesse lhe contar com tinha sido aquela viagem. Misturou memória e imaginação e já não sabia o que era “verdade” e o que era “mentira”. Daí percebeu que isso não tinha importância, porque era tudo isso, “menina, mulher, verdade e mentira”. E isso é história.
Peguei um autógrafo da Pauline Alphen! Mais um livro para minha coleção de livros autografados. Ela escreveu que era “uma dedicatória comovida”, pois “é a primeira vez que escrevo para um personagem”. Eu também fiquei comovido… E isso sempre acontece comigo quando encontro um escritor de verdade.
Gostei tanto desse livro de Pauline Alphen e do jeito que ela escreve que fui procurar outros livros dela pra ler. Peguei mais dois, A porta estava aberta e A odalisca e o elefante. Já li, adorei e também vou falar deles.
O livro A porta estava aberta, escrito por Pauline Alphen, ilustrado por Jean-Claude Alphen, irmão de Pauline, e publicado pela Companhia das Letrinhas começa com o enterro do “Vovô Tuca”. Paulo tinha ido ao enterro e contava pra sua prima Clara como foi.
– Foi a maior confusão! Primeiro a gente demorou pra caramba para achar o lugar da cremação…
- Da que?
- Cre-ma-ção. Quer dizer que em vez de ser enterrado, o vovô foi queimado.
- Ai! – fez Clara, com uma careta. – Doeu muito?
- Que boba! Ele não sentia mais nada. Foi só o corpo dele. O vovô Tuca já não estava ali.
- Ah… E onde ele estava então?
O Paulo suspirou, ele tinha nove anos, Clara tinha sete e fazia um milhão de perguntas por minuto.
Para tentar resolver essa questão e acalmar a curiosidade da prima, o Paulo disse:
- É que ninguém sabe direito dessas coisas, Clarinha. O que acontece depois que alguém morre ou antes de alguém viver… É assim… um mistério.
E a conversa continuou, com o Paulo contando todos os detalhes da historia do enterro e a Clara interrompendo toda hora com suas perguntas. Até chegar na história do irmão do Paulo que estava pra nascer. A mãe dele grávida teve que ser levada às pressas do cemitério para a maternidade. O Paulo fez de tudo para explicar pra Clara, mas ela não conseguiu entender esse outro mistério da vida.
Esse é só o começo dessa história, um dia Paulo estava brincando de esconde-esconde com sua prima e procurando um lugar na casa para se esconder, quando encontra aberta a porta do escritório do avô. “O cômodo proibido, fechado, onde ele nunca tivera permissão para entrar!” A partir daí começa a parte mais legal desse livro, Paulo descobre a árvore genealógica de sua família, construída pelo seu avô e encontra muitos outros mistérios da vida dentro do escritório proibido.
A odalisca e o elefante, escrito por Pauline Alphen e publicado pela Cia das Letras conta a história de amor de Hati e Leila. Hati era um elefante branco que quando criança vivia nas savanas da África e tinha sonhos estranhos. “Quando todos os seus estavam dormindo, gostosamente aninhados uns nos outros, ele acordava aflito como se alguém ou alguma coisa o estivesse chamando. Alongava as magníficas orelhas, afinava o olhar, procurava, procurava…”, mas não encontrava nada.
Leila era uma menina muito pequena e muito bonita, que herdara do seu pai a mania de pensar: “ela pensava um bocado.” Vivia no castelo do sultão e aprendia com um eunuco muito gordo e muito rosa a profissão de odalisca: “Não façam isso, façam aquilo. Baixem os olhos… Assim, garotas, assim! A mão, a mão! Leve! Discreto o sorriso, sinuosos os quadris… Aprender a profissão de Odalisca não é bolinho.”
“Acontece que o tempo fez o que já então não se cansava de fazer: passou. Passou, passou e passou.” Hati foi parar no castelo do sultão, Leila cresceu e os dois se apaixonaram. Sobre isso, a odalisca, que como já sabemos gostava de pensar, pensou:
“Odaliscas não costumam se apaixonar por elefantes. Nos contos de Sherazade, moças se apaixonam o tempo todo, parece até que não fazem outra coisa na vida. É só aparecer um rapaz de um certo jeito que tchabum! Provavelmente, se tivesse sentido frio e calor e todas essas coisas que já sabemos por um mancebo esbelto como um bambu, pele da cor da tâmara mais fresca, sobrancelhas que se beijam e, num cantinho dos lábios, um sinal como uma gota de âmbar…” Mas um elefante branco! A partir desse amor impossível entram na história de A odalisca e o elefante, outros casais famosos da literatura, que também tiveram seus amores impossíveis.
Pauline Alphen é escritora, roteirista, tradutora e jornalista. Filha de pai francês e mãe alagoana, nasceu no Rio de Janeiro em 1961 e ainda criança foi morar na França. Aos treze anos voltou a morar no Brasil e viveu a adolescência em São Paulo. Estudou jornalismo e depois retornou à França e mora lá até hoje, mas sempre vem passar umas temporadas por aqui. Além de A odalisca e o elefante, Do outro lado do Atlântico e A porta estava aberta, publicados pela Companhia das Letras, escreveu também Cabeça de Sol em parceria com seu irmão Jean-Claude R. Alphen, publicado pela Editora Rocco, e neste ano lançou Os gêmeos, também publicado pela Companhia das Letras. Em francês ela escreveu Gabriel et Gabriel e Salicande, da série Les Eveilleurs, que recebeu dois prêmios – Les Imaginales e Elbakin – de melhor romance de fantasia para jovens em 2010.
O livro Histórias da Lua-Cheia em Jogadas Bem-Assombradas do meu amigo escritor e professor de Sala de Leitura Carlos José dos Santos conta como os seres assombrados da mata descobriram a bola e o futebol
Hoje vou falar de um livro do escritor e professor de Sala de Leitura, Carlos José dos Santos. Conheci o professor Carlos, pessoalmente, na Bienal do Livro, ele mora em São José dos Campos, já deixou comentários aqui no blog, e até me mandou uns livros seus de presente. Já contei tudo isso aqui. Nesse nosso encontro na Bienal, ele me deu outro livro dele, Histórias da Lua-Cheia em Jogadas Bem-Assombradas, autografado, e me convidou para ir à sua cidade, conhecer os seus alunos. Já falei com meus pais e eles me deixaram ir. Vou conversar com o professor pra ver se o convite ainda está de pé.
Histórias da Lua-Cheia em Jogadas Bem-Assombradas, escrito por Carlos José dos Santos, com ilustrações de Alison Silva e Emilio Grigoleto, publicado pela Editora VirtualBooks começa com a apresentação e descrição de alguns personagens que participam dessa história. Os Difer-entes
(Entes esquisitos): O Curupira, o Lobisomem, o Homem-do-Saco, o Bicho-papão, o Saci-Pererê, e o Pé-de-garrafa. Os Bichanhos (Bichos Estranhos): A Mula-sem-cabeça, o Boitatá, a Mãozinha-preta, o Domingos Pinto Colchão, a Anta-cachorro, e a Onça-boi. E a Personagem Surpresa, a Iara.
Quem conta essa história é a Lua-Cheia, a Guardiã da Noite, pois ficou combinado entre ela, a Terra e os satélites, “que toda vez que o dia 13 de agosto fosse numa sexta-feira, os astros fariam um grande encontro no espaço” e “a Lua-Cheia, grande contadora de histórias, escolheria algum caso curioso e contaria para entreter a todos.” E essa é apenas a primeira história… Histórias da Lua-Cheia será uma série!
“Faltavam quinze minutos para as dezoito horas, quando Garibaldo, o menino que todos chamavam de perneta do time, só
de raiva, resolveu dar um bico na bola quando tivesse a chance de tocá-la.” O campinho ficava perto de uma mata, que nos últimos cem anos, jamais alguém entrou, “nem mesmo os mais corajosos e experientes caçadores.” O chute do Garibaldo mandou a bola para o meio da mata, primeiro todos ficaram espantados e depois com raiva.
Naquela hora ninguém teve coragem de entrar na mata para procurar a bola. Voltaram no dia seguinte, mas não encontraram nada, a bola ficou perdida. Na verdade, ela foi encontrada, sim, pelos personagens apresentados no começo do livro e que vivem na mata. No começo eles estranharam aquele objeto, depois, aos poucos, nessa história cheia de imaginação, os seres assombrados da mata foram descobrindo a bola e o futebol.
Carlos José dos Santos é professor, escritor, roteirista, diretor de teatro e poeta. Nasceu em São José dos Campos e aos dez anos, com alguns amigos do 4º ano, escreveu o seu primeiro livro de contos. Os primeiros poemas, fez com doze, “quando me apaixonei pela primeira vez”, ele contou. Formado em Letras, fez curso de especialização em Literatura Infantojuvenil. Também estudou teatro e se especializou em Arteterapia. Tem trabalhos publicados no site “Brincando na rede”, promovido pelo Banco Santander e também tem um blog, o “NetNovela – Novela para ler”. Além deste Histórias da Lua-cheia em Jogadas Bem-Assombradas, publicou os livros Pérolas, Poemas Maduros e Fases; e participou de diversas antologias de poesia.
- Você não vai mais escrever no blog, Heitor?
- Claro que vou, mãe! Por quê?
- Ontem fui dar uma olhada lá, e faz tempo que você não coloca post novo.
- E que eu ando muito apreensivo e não estou conseguindo escrever… E você sabe com que…
- Mas você não pode ficar assim… Tem que cuidar das suas coisas.
- Não consigo… Toda hora eu penso nisso… Às vezes penso que está bom, que vai dar certo e fico feliz, outras vezes penso que está uma porcaria e que vai dar tudo errado, e então, fico triste. Não sei mais o que pensar…
- Não pensa nada, meu filho. Espera.
- Vou tentar…
- E enquanto você espera, senta e escreve um post novo… No final da semana você não foi a um monte de lançamentos de livros?
- Fui… Fui a três lançamentos e até já li alguns dos livros que eu trouxe de lá.
- Então, senta e conta isso pra gente.
- Legal, mãe, boa ideia! Vou contar, então…
Fui a três lançamentos
Na sexta-feira à tarde fui ao bairro do Capão Redondo, participei do lançamento do livro O pote mágico, do Ferréz, ganhei um exemplar autografado por ele, já li e hoje vou falar deste livro. Na sexta à noite fui à Gibiteria, em Pinheiros, para o lançamento de uma HQ feita a partir do conto O Espelho, de Machado de Assis. Quem fez a adaptação do conto foi o meu amigo escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves e quem fez os desenhos dos quadrinhos foi o João Pinheiro, que eu conheci pessoalmente nesse dia. Este livro faz parte de uma coleção de clássicos em quadrinhos, publicado pela Mercuryo Jovem. Já li, gostei muito e nos próximos posts vou falar dele e da coleção. E no sábado à tarde fui a uma livraria num shopping do Itaim Bibi, no lançamento da Gaivota, o novo selo da Editora Biruta. Lá encontrei outros amigos escritores que estavam lançando livros. O Luiz Antonio Aguiar lançou O menino e o grifo; a Socorro Acioli, Ela tem olhos de céu; e o Jorge Miguel Marinho, Na teia do morcego. Trouxe os três livros autografados, já li dois e nos próximos posts vou falar deles, também.
O pote mágico, de Ferréz
Na outra semana a Otacília me mandou, por e-mail, o convite para o lançamento do livro do Ferréz e me perguntou se eu queria ir.
Claro que quero! – eu respondi. E nós fomos, eu, o pessoal da Sintaxe, a Otacília e a Marisa Moura, a agente literária do Ferréz.
O lançamento foi na ONG Interferência, que fica no Jardim Comercial, distrito do bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. A Interferência foi fundada pelo Ferréz em 2009 e já atende 140 crianças, que brincam e participam de diversas atividades culturais nos horários em que não estão na escola.
Muitas crianças da ONG foram ao lançamento e quando chegamos lá, o cenário já estava montado. As crianças pintaram os painéis que enfeitavam a festa, ganharam um livro autografado e eu também ganhei o meu:
- Chega aí, Heitor. Você veio ao lançamento e também vai levar um livro.
Fui falar com o Ferréz, ele me deu um livro autografado e ainda conversamos um pouco. Ele me disse que esse livro é autobiográfico e que essa história aconteceu de verdade com ele. Na história dele o pote mágico era uma lata velha.
O pote mágico, escrito pelo Ferréz, ilustrado por Rodrigo Abrahim e publicado pela editora Planeta Infantil começa com o narrador da história empinando uma capucheta.
“O sol veio cedo, e com ele várias pipas. Eu montei uma capucheta – era assim que eles chamavam quando você pegava uma folha, dobrava em três partes, punha uma linha entre duas partes e tentava soltar.”
Eu nunca tinha visto uma capucheta na vida, perguntei ao meu pai e ele disse que no tempo dele havia muitas, e fez uma pra mim. Tentei empinar minha capucheta, mas ela quase não subiu… Pipa é bem melhor. No livro do Ferréz as capuchetas derrubavam as pipas e os meninos maiores odiavam quem soltasse, diziam que as capuchetas eram lixão.
Mas o menino já não achava mais graça em soltar capucheta, e entre brincar de pega-pega ou esconde-esconde, procurava algo novo. Até que um dia, o Dim, um menino bem maior que ele, apareceu com um pote na rua e disseram que era um pote mágico. Depois de tentar por diversos dias ele conseguiu criar coragem para ir à casa do Dim pra ver o tal do pote mágico.
“Peguei minha espada do Zorro, minha mascara do Batman e prometi para mim mesmo que iria lá no outro dia. E nada iria me impedir.”
Ele foi, mas não viu o pote. Levou uma pedrada do Will, irmão do Dinho, bem no meio da testa. No dia seguinte o menino tentou novamente, foi outra vez à casa do Dinho e conseguiu falar com ele. O Dinho pediu 5 reais para lhe mostrar o pote… Esse é só o começo dessa história, depois, o menino vai atrás dos 5 reais e vive aventuras muito bonitas e emocionantes. As ilustrações dessa história são em preto e branco com detalhes coloridos, que são os pedaços da fantasia do menino.
Ferréz (Reginaldo Ferreira da Silva) é romancista, contista e poeta. Na adolescência, trabalhou como vendedor ambulante, balconista, auxiliar de
construção, arquivista, chapeiro, etc. Em 1997 lançou o livro de poemas Fortaleza da Desilusão. Em 1999 fundou o grupo 1DaSul, que promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, periferia da cidade de São Paulo. É ligado ao movimento hip-hop, escreve letras de rap e canta. Lançou seu primeiro romance em 2000, Capão Pecado, e em 2003, o segundo, Manual Prático do Ódio. Em 2005 publicou o romance infantojuvenil Amanhecer Esmeralda, e em 2006 o livro de contos Ninguém É Inocente em São Paulo. De 2001 a 2010 escreveu crônicas para a revista Caros Amigos e neste ano (2012) lançou o romance Deus foi almoçar e o infantil O pote mágico.
Na outra semana fui à Bienal do Livro e só hoje vou contar um pouco do que vi por lá. Como disse no post anterior, estava ocupado e preocupado com um projeto bem legal, que estou fazendo para o blog, junto com o pessoal da Sintaxe. A minha parte terminei, agora é com eles, que já fizeram alguns contatos e me disseram que “o nosso projeto teve boa aceitação”. Não vejo a hora de dar certo e poder contar tudo! Não é um projeto para o blog, exatamente, ele vai além do blog, mas nasceu aqui, a partir das histórias que já contei. Só posso dizer isso, estou proibido de falar mais alguma coisa. “Nesse mercado, os negócios têm que ser tratados com muito cuidado e sigilo”, foi o que eles me explicaram! Vou obedecer… Afinal, eles sabem o fazem.
Fui a essa Bienal com o pessoal da Sintaxe, duas vezes. Eles trabalharam na feira, me levaram e me largaram lá. Eu me virei bem, já conheço o esquema e me sinto em casa. Minha amiga, a escritora Luciana Savaget, que mora no Rio de Janeiro, me disse que já faço parte da turma… Fiquei feliz com o comentário dela! Encontrei a Luciana na Bienal, e também outros amigos escritores, ilustradores, editores e muitos leitores. Amigos de quem já falei muito aqui no blog. Das outras vezes que fui a essas feiras, fiz uma lista de todas as pessoas que encontrei. Desta vez vou fazer diferente, só vou falar de algumas coisas que me chamaram a atenção e de algumas pessoas que conheci. E depois de ler os livros que trouxe de lá, vou falar deles nos próximos posts.
De personagem para personagem
Encontrei a Marilu na Bienal, ela é assessora de imprensa da Editora Cortez, tem um blog que se chama “Primeiro Capítulo” e é editora da Revista ANL. Sempre que sai um livro que ela acha que vou gostar, ela me manda. Desta vez ela me deu o livro As Casas, de Fábio Supérbi, Juliana Notari e Marcelo Maluf, publicado pela Cortez. Na Bienal, os autores deste livro estavam apresentando uma peça de teatro de bonecos. Eu assisti e conheci os dois personagens dessa história, que autografaram o livro pra mim. É a primeira vez que ganho um livro autografado pelos personagens! Eles me disseram que também foi a primeira vez que eles autografaram um livro. Já conheci outros personagens de livros e um dia ainda vou contar essas histórias pra vocês, mas a história dos meus amigos João Redondo e Antônio Quadrado, do livro As Casas vou contar já no próximo post.
Escritoras meio brasileiras e meio francesas
Assisti a uma palestra com a escritora Pauline Auphen. De pai francês e mãe brasileira, ela nasceu no Rio de Janeiro, mas com um ano já se mudou com toda a família para França. Só voltou ao Brasil com onze anos de idade, veio passear, e depois veio morar em São Paulo, quando tinha treze. Hoje ela mora na França, mas sempre vem pra cá. Ela escreveu um livro sobre o seu retorno ao Brasil, esse livro faz parte da Coleção Memória e História, da Companhia das Letrinhas e se chama Do outro Lado do Atlântico. Comprei o livro e peguei um autógrafo dela. Disse a ela que gosto muito desse tipo de história. Ela me falou para eu dizer o que achei do livro, depois de ler. Peguei o e-mail dela! Vou ler o livro, contar aqui e depois mandar um e-mail pra Pauline.
Conheci outra escritora meio brasileira e meio francesa, que também é ilustradora e se chama Maté. Ela estava lançando o livro Águas Encantadas, publicado pela Editora Noovha América. Ao contrário de Pauline, a Maté nasceu na França e hoje mora no Brasil. Na década de 1980 ela veio passar férias em Paraty, e acabou ficando por aqui. Também já tenho o livro autografado por ela. Vou ler e depois vou contar aqui no blog. Vou falar da Maté, do Águas Encantadas e de outros livros dela.
Briga de escritores
Estava passeando pela Bienal e vi o Antônio Prata. Eu conheço o Antônio Prata e já falei dele aqui no blog. Na Bienal, ele estava em um debate
com outros dois escritores, o Fabrício Carpinejar e o Ricardo Lísias. Um debate que quase vira briga! O Fabrício Carpinejar já é um escritor famoso e o Ricardo Lísias está, junto com o Antônio Prata, entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista inglesa Granta. Fiquei sabendo dessas coisas lá na Bienal! A quase briga foi entre o Ricardo e o Fabrício. O Ricardo disse que o texto vale
mais do que a presença física do autor. O Fabrício estava com roupas e óculos coloridos e as unhas pintadas de amarelo. O Ricardo disse que ele parecia um palhaço vestido daquele jeito, e o Fabrício respondeu, dizendo ao Ricardo que ele estava sendo preconceituoso. O Antônio conseguiu controlar os ânimos, mas esse clima de quase briga foi até o final do debate, com o Ricardo discordando do Fabrício e vice-versa. Foi engraçado, descobri que escritor é muito vaidoso, cada um ao seu jeito, e às vezes brigam feito crianças.
O Pote mágico do Ferréz e as bolinhas de gude do avô do Loyola
Assisti a um debate com o Ferréz, o Sergio Vaz e o Paulo Lins. O Ferréz vai lançar um livro infantojuvenil que se
chama O Pote Mágico. A minha amiga Otacília me deu o livro e me apresentou a ele. Já tinha trocado uns e-mails com o Ferréz por causa do lançamento desse livro, que vai ser numa ONG do Capão Redondo. No e-mail que eu mandei pra ele, passei o link do meu blog, ele viu e quando me encontrou disse que o meu blog é a “maior viagem”. Fiquei muito feliz com o comentário do Ferréz. Ele gostou do meu blog! Vou pedir para a Otacília não se esquecer de me avisar desse lançamento. Não quero perder! Vou lá e depois vou contar tudo aqui.
Também assisti a um debate com o Ignácio de Loyola Brandão e o Ivan Ângelo. Já conhecia o Loyola. Na Flip do ano passado ele disse que estava escrevendo um livro para pedir desculpas ao seu avô, que já morreu há muito tempo. Ele roubou e perdeu umas bolinhas de gude, que o avô guardava dentro de uma caixa de madeira e que eram muito importantes para ele. Fiquei curioso para ler esse livro! No final do debate fui perguntar se ele já tinha lançado o livro sobre as bolinhas de gude do avô. Ele disse que ainda não, que fez três versões até chegar à versão que essa história merecia, mas que agora estava pronto e até já tinha editora, a Moderna. No final da conversa ele sorriu e agradeceu “o meu interesse”. Saí feliz de lá!
Já faz mais de três semanas que não publico nada aqui… Não gosto de ficar muito tempo sem escrever no blog. É muito feio um blog desatualizado, fica parecendo casa abandonada, que cresce mato no jardim. É que teve prova na escola, depois saí de férias e os meus pais me levaram pra passear. Também ando ocupado com um projeto que estou fazendo para o blog, e o tempo que tenho para escrever nele, usei pra isso. É um projeto bem legal, vocês precisam ver! Já está terminando, é a realização de um sonho, e estou louco pra contar aqui, mas não posso, ainda. O pessoal da Sintaxe falou para esperar: “Primeiro precisamos acabar e ver se vai dar certo, mesmo… Depois contamos.” Vou obedecer, mas assim que puder, venho aqui e conto tudo! Então, hoje estou de volta – acho que não deu tempo de criar mato no meu blog – e vou falar de três livros que li. Dois são da escritora Sandra Pina; e o outro é um livro de quadrinhos do João Pinheiro, que conta a história da vida do escritor americano Jack Kerouac.
Mais uma amiga escritora
O meu amigo Lipe diz que fico me achando com “esses seus amigos escritores”. Já falei dele aqui no blog, o Lipe é o meu melhor amigo, me ajuda a ler os livros do clube de leitura e faz as rodas de conversa comigo. A gente se conhece desde criança e estamos sempre juntos, a mãe dele diz que somos “unha e carne”. – O que posso fazer? – Eu disse para o Lipe. O “culpado” disso é o meu blog, primeiro eu conheci o pessoal da Sintaxe, depois fiz outros amigos, que foram me apresentando para esse monte de escritores. Adoro conhecer os escritores, pessoalmente, ler um livro deles e contar aqui no blog. Mas não acho que fico me achando por isso. Não sei por que ele pensa assim… Um dia vou levar o Lipe nesses meus passeios literários – já convidei muitas vezes, mas ele nunca pode – e quero ver se ele muda de opinião.
Contei tudo isso só pra dizer, que hoje vou falar de dois livros da minha amiga escritora, Sandra Pina. Conheci a Sandra já faz tempo, foi na Bienal do
Livro, ela estava com a Anna Claudia Ramos, que também conheci naquele dia e já falei dela aqui. Depois encontrei as duas, outras vezes. Elas são muito amigas e acho que são como eu e o Lipe, unha e carne. A Sandra é jornalista, especialista em literatura infantil e juvenil e diz que levou um tempo até assumir plenamente seu lado escritora, mas, hoje, ela fala que, escrever é sua grande paixão.
A última vez que encontrei com a Sandra – já estou com saudades – foi no Rio de Janeiro, no Salão da FNLIJ, e trouxe de lá o livro Isso é pra ficar entre nós, autografado por ela. Já li e adorei! Esse livro foi escrito do fim para o começo, e hoje vou falar dele aqui. O outro livro dela que eu vou falar hoje é O Segredo do tempo, que também já li e conta uma história bem legal, que mistura passado e presente.
Isso é pra ficar entre nós, escrito por Sandra Pina, ilustrado por Marilena Saito e publicado pela editora Mundo Mirim conta a história de cinco amigas (Maghi, Helô, Rafa, Drica e Kaká), que se conhecem há muito tempo e resolvem fazer um blog pra poder conversar sobre o que quiserem, “sem censura e sem bisbilhoteiros”, pois para entrar,
precisava da senha, que só elas sabiam. Para escrever esta história a Sandra conseguiu autorização das cinco personagens, mas com uma condição, o livro “tinha que ser publicado exatamente do jeitinho que estava na internet, com os posts mais recentes antes dos mais antigos.” Por isso essa história é contada no livro do fim para o começo, como aparece no blog. É muito engraçado! A gente vê as coisas acontecerem e só depois vai descobrir como foi que elas aconteceram.
A história começa com o post “A Helô deu notícias?” postado pela Drica no dia 15, segunda-feira. Nesse post ela diz que está preocupada, pois já faz cinco dias que a Helô não dá notícias. “Não aparece on-line, não posta por aqui…” O celular na caixa postal e o telefone da casa na secretária eletrônica. Depois do post da Drica vêm os comentários das amigas: “Será que ela foi viajar?” (Rafa), “Também, depois de tudo que aconteceu…” (Kaká), “Ah, até parece que vocês não conhecem a Helô…” (Maghi), “Lembrou bem, Maghi. A Helô de vez em quando tem essas crises…” E o livro vai seguindo, contando uma história ao contrário, e mostrando como tudo aconteceu para as coisas chegarem nesse final. Só no final do livro – não da história, pois a história acaba no começo do livro – é que a gente fica sabendo o que aconteceu com a Helô, entre outras coisas que a Sandra conta num P.S. “quase tão grande quanto a história”, mas que só dá pra saber lendo o livro, do começo ao fim, e essa história, do fim ao começo.
O segredo do tempo, escrito por Sandra Pina, ilustrado por Gustavo Piqueira e Samia Jacintho, e publicado pela Editora Biruta conta uma história
que junta passado e presente. Quem conta essa história é a Teca, a Thereza Christina, que tem um irmão, quase dois anos mais novo, chamado Raphael, o Fael. A história começa com o início das férias, Teca e Fael viajam para o sítio com seus primos, Beatriz (Bia) e Carlos Alberto (Cacau), filhos da tia Carol e do tio Júlio. Teca ama a natureza, mora em apartamento num bairro movimentado e se quer andar de bicicleta ou patins, só no videogame. No sítio é tudo diferente, tem piscina, cachorro, galinha, coelho, horta, fruta no pé. Lá no sítio eles não param, comem, se divertem, nadam, se divertem, comem… O tempo todo. Quando chove tem varanda para jogar pingue-pongue e totó (pebolim) e balançar na rede. “Tudo isso cercado por uma mata ma-ra-vi-lho-sa!” Ela diz que dá até para esquecer o computador por uns dias.
Chegam ao sítio e depois de alguns dias de muitas brincadeiras, a Teca e a Bia encontram uma caverna, escondida atrás das bananeiras. Planejavam despistar os irmãos e irem sozinhas, descobrir a caverna, que era muito escura. Conseguem uma lanterna e fazem um plano, tudo isso contado pela Teca com muito suspense. “Mas nem sempre tudo sai como planejado”, no dia marcado, choveu. “Depois de tudo que eu e a Bia passamos pra pegar a lanterna, tinha que chover???” Elas nem dormiram direito naquela noite imaginando o que poderiam encontrar na caverna. No outro dia a chuva passou e fez dia ensolarado. Depois de muitos desencontros elas acabam explorando a caverna junto com os irmãos. O sítio da família tinha sido uma fazenda no tempo da escravidão e o passeio pela caverna vira uma viagem no tempo. A Sandra Pina diz que este livro é uma história que mostra o seu lado de curiosa, que adora pesquisar o passado para tentar entender um pouco o presente.
Sandra Pina nasceu e mora no Rio de Janeiro. Formada em jornalismo e publicidade pela PUC-RJ, é jornalista, escritora, e especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela UFF. Lançou o seu primeiro livro em 2001 e depois disso não parou mais. Além de escrever livros, faz traduções do inglês e do espanhol, escreve resenhas e roteiros, faz leituras críticas, e dá oficinas e cursos ligados literatura infantil. Recebeu os prêmios “Carioquinha”, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, e “Adolfo Aizen”, da União Brasileira de Escritores (UBE). Além desses dois livros escreveu também Marcas de uma guerra; E agora?; E assim surgiu o Maracanã; Muitos caminhos, uma decisão; O pano de boca; O chiclete; Um barco, um avião, uma bolha de sabão; entre outros.
O menino de Lowell, Massachusetts, que sonhava ser escritor
Já contei muitas vezes aqui, que adoro ler jornal com meu pai, quando não entendo direito uma notícia, ele me explica, e o caderno que mais gosto é o
de Cultura, principalmente quando fala de livros. E sábado é o melhor dia pra se ler jornal, traz um monte de notícias de livros e ainda tem os cadernos infantis, que leio desde criancinha. Outro sábado estava lendo o jornal e vi uma matéria escrita pelo Ignácio de Loyola Brandão, que conheci pessoalmente na Flip do ano passado. Daquela vez ele disse que ia lançar um livro juvenil, de memórias, que falava de bolinhas de gude e do seu avô. Fiquei com tanta vontade de ler! Mas acho que esse livro ainda não foi lançado… Ou será que já saiu e eu não vi?
Voltando à matéria do jornal, ela começa com o Loyola contando de um livro que foi escrito inteirinho em um rolo de papel. O autor desse livro é Jack Kerouac, e diz que ele se sentou entre os dias 2 e 22 de abril de 1951, e datilografou (eu sei o que é isso, até pouco tempo tinha uma dessas em casa) sem parar e sem precisar tirar o papel da máquina. O livro chama-se On The Road e foi lançado em 1956. Fiquei muito a fim de ler! Meu pai disse que esse livro é muito pesado pra minha idade, mas que ele “ia fazer melhor”. Um amigo dele escreveu e desenhou um livro em quadrinhos, que conta a história da vida do Kerouac. Ele disse que esse seu amigo é artista plástico, ilustrador e também já escreveu alguns livros infantis. O nome dele é João Pinheiro, um dia quero conhecer esse amigo do meu pai! – Vou dar esse livro pra você, meu pai me disse. Ele deu, já li e hoje também vou falar dele aqui.
A história do livro em quadrinhos Kerouac, com textos e desenhos de João Pinheiro, publicado pela Devir Livraria começa com o autor americano ainda criança. Seu nome de batismo é Jean-Louis Lebris de Kerouac, mas em casa o chamavam de Ti Jean. Seus pais eram o Léo, tipógrafo e dono de uma gráfica, e Gabrielle. Jack tinha dois irmãos, Caroline, três anos mais velha que ele, e Gerard, cinco anos mais velho,
“hábil desenhista”, que ensinou tudo que sabia ao irmão caçula. Kerouac idolatrava Gerard, aprendeu a desenhar com ele e desenhou pelo o resto da sua vida. Seu irmão tinha uma saúde frágil e morreu com dez anos de idade, Jack ainda não tinha feito cinco. A morte de Gerard foi uma perda irreparável para Kerouac e o marcou para sempre.
Jack era um menino solitário e vivia criando mundos imaginários. Frequentemente era visto, sozinho, na ponte do rio Merrimeck, que banhava Lowell, sua cidade no Estado de Massachusetts. Ele ficava fascinado pela visão do rio! Em casa, ficava olhando por cima dos telhados vizinhos, imaginando lendas e sonhando com seu futuro de escritor famoso. O menino Kerouac sonhava em ser escritor… Gostei desse menino! Quando comentava com outros garotos da escola sobre sua pretensão de se tornar escritor, eles “riam e zombavam da sua cara”.
Jack cresceu, e aos dezessete anos, jogando futebol americano, conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade de Columbia e mudou-se para Nova York. Ficou pouco tempo na Universidade, mas enquanto esteve por lá, leu muitos livros na biblioteca e descobriu diversos escritores como, Jack London, Thomas Wolfe, Ferdinand Céline e Dostoiévski, e deu continuidade a sua antiga paixão, a literatura. Esse é só o começo da história de Kerouac, que o João Pinheiro contou nesse livro. No final, como todos já sabem, o menino conseguiu realizar o seu sonho e virou um escritor famoso, o Jack Kerouac.
Para escrever e desenhar Kerouac, João Pinheiro disse que fez um caderno de esboços, onde anotou todas as ideias, e muitas dessas ideias foram incorporadas ao roteiro original. Primeiro ele escreveu o roteiro, que foi alterado várias vezes, tirava umas partes, acrescentava outras, até chegar à versão final do livro.
Hoje estreia nos cinemas o filme Na Estrada, de Walter Salles, baseado na história do livro On The Road. Quem puder ir, vá e depois me conta. Eu não posso ir… É proibido para menores de 16 anos.
João Pinheiro é artista plástico e ilustrador associado à SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil), atua na área de artes visuais desde 2005, realizando trabalhos para diversas mídias. Em 2009 teve ilustração selecionada para a publicação American Ilustration 28, que reúne 583 trabalhos entre mais de 8 mil inscritos de todo o mundo. Autor de histórias em quadrinhos e de livros infantis, publicou HQs nas revistas Front e Graffiti. Escreveu e ilustrou o livro: O monstro (nem tão monstruoso) e o menino João (Noovha América), adotado pela Secretaria de Educação do Município de Marília para formação de gestores e coordenadores. Desde 2008 é correspondente do site Urban Sketchers, portal que reúne trabalhos de artistas urbanos do mundo inteiro. Ganhou bolsa de estudos para participar do 2º Simpósio Internacional Urban Sketchers, evento que aconteceu em Lisboa, em julho de 2011.