O menino Vlado e as escolas ocupadas

Hoje vou falar do livro Um menino chamado Vlado, que a Marcia Camargos acabou de lançar, é um romance juvenil que conta a vida do jornalista Vladimir Herzog, já li e gostei muito, não é uma história com final feliz. Também vou falar do movimento de ocupação, contra o fechamento de 92 escolas estaduais, em São Paulo.

A ESCOLA É NOSSA!

Outro dia recebi um e-mail da Marcia Camargos:

Oi, Heitor, você que defende as bibliotecas contra o fechamento, precisa se pronunciar sobre as escolas ameaçadas de fechar e a resistência dos alunos. Bjs. – Ela já se pronunciou e apoiou com tudo esse movimento!

A Marcia é jornalista, historiadora e escritora, com 25 livros publicados, já falei de um livro dela aqui no blog. Ela é minha amiga, gosto muito dela e das coisas que escreve, sua militância política me inspira bastante, ela me ensinou a gostar de política, meu pai diria que a Marcia “fez a minha cabeça”. Foi ela que escreveu o texto de orelha do livro Os meninos da biblioteca, do qual sou o narrador. Nele conto a história de uma luta política que eu participei, a luta contra o fechamento da biblioteca pública do meu bairro.

Na mesma hora respondi ao e-mail da Marcia, depois fui visitar uma escola ocupada, acompanhei o movimento de perto, mas só agora vou me pronunciar.

Estudantes de São Paulo lutam contra o fechamento de escolas

Como todos sabem – saiu muita notícia na imprensa e comentários no Facebook – o movimento dos estudantes teve vitória parcial, o governador suspendeu a proposta de fechar as 92 escolas e de fazer, agora, a “reorganização” da rede de ensino, mas o movimento não ficou satisfeito, quer que o governador desista de vez dessa ideia.

Desde que entrei na luta em defesa da biblioteca do meu bairro, sempre que vejo alguma notícia sobre uma luta política, fico querendo saber mais. Notícias de jornal e opiniões nas redes sociais não me satisfazem, tenho que ver de perto e ouvir as pessoas que estão na luta. Por isso, fui ao “campo de batalha”, visitar uma escola, a Fernão Dias Paes, que fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Chegando lá, me apresentei, entrei numa roda de estudantes que estavam conversando e dei muita sorte. Alunos de uma escola de Mairiporã, cidade da grande São Paulo, foram se aconselhar com os alunos do Fernão, pois queriam ocupar sua escola, também. O movimento chegou a ocupar 213 colégios, em todo o Estado. Acompanhei a conversa deles e ouvi todas as orientações, e alguns conselhos de como eles deveriam se comportar com os colegas, com a família e com os professores.

No final da conversa, ainda alertaram de que a luta não seria nada fácil. Logo depois, chegou uma jornalista do jornal O Globo, pedindo uma entrevista, eles disseram que não estavam atendendo a imprensa, ela quis saber o porquê, e um deles respondeu: – Vocês deturpam tudo! Mesmo assim, ele conversou um pouco com a repórter, que deve ter conseguido tirar algumas informações.

As minhas lutas

Depois da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, história que contei no livro, já participei de outras lutas políticas, como por exemplo, a construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, o PMLLLB de São Paulo, como contei em alguns posts aqui no blog. O PMLLLB foi aprovado pela Câmara Municipal, sancionado pelo prefeito, e agora já é lei, mas ainda vamos ter que lutar por verba.

Já o quarteirão, onde fica a biblioteca do meu bairro, a lei que autorizava a sua venda foi declarada nula, mas seu tombamento foi só parcial, ainda estamos lutando pelo tombamento total, para garantir a permanência definitiva da biblioteca e de todos os serviços públicos que ficam naquele terreno.

A luta dos estudantes vai continuar

Quanto à ocupação das escolas, o governador tinha pedido, na justiça, a “reintegração”, para obrigar os estudantes a deixarem os colégios ocupados, mas o Tribunal de Justiça foi contra, o juiz Sergio Coimbra Schmidt, desembargador e relator do processo, contou a sua experiência para fazer a defesa. Em 1968 ele era aluno do 3º ano do Ginásio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha e participou dos movimentos daquela época. É muito bom ter na Justiça, pessoas que participaram de lutas políticas, ainda mais quando lutaram do nosso lado.

A Justiça também suspendeu o projeto de “reorganização” escolar, mas nada está garantido, ainda, e os estudantes vão manter a mobilização. Eu vou continuar acompanhando e apoiando essa luta; contra o fechamento das 92 escolas; pelo cancelamento completo do plano do governo de “reorganizar” as escolas da rede; pela não punição de professores, alunos e apoiadores das ocupações; e pela punição dos policiais militares que agrediram os estudantes durante os protestos.

O MENINO VLADO

Fui ao lançamento da Marcia Camargos e ganhei um exemplar autografado de seu novo livro Um menino chamado Vlado, que tem ilustrações de Mirella Spinelli e foi publicado pela editora Autêntica, com o apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Na dedicatória que a Marcia fez pra mim, ela alerta que essa é uma “história sem final feliz”. O livro conta a vida do jornalista Vladimir Herzog, desde a infância, a família fugindo da perseguição nazista aos judeus, durante a guerra; até ser morto no Brasil, em 1975, pela Ditadura Militar.

O Ivo, filho do Vladimir Herzog, estava lá, eu conversei com ele, ele me contou sobre o Instituto Vladimir Herzog, e quis saber mais da luta que eu participei para defender uma biblioteca e do livro Os meninos da biblioteca, e eu contei tudo pra ele!

A história de Vladimir Herzog

O livro Um menino chamado Vlado começa com o personagem Felipe tendo que fazer um trabalho para a escola sobre o período da Ditadura Militar no Brasil. Sem saber por onde começar, ele faz um monte de perguntas ao seu pai, Mário:

- Por que a TV e os jornais ficam falando do aniversário do golpe? – O que é uma ditadura? – O que os militares fizeram? – Quem foi Vladimir Hezog? – O que é anistia ampla, geral e irrestrita? – O que…

O seu pai, que viveu a fase final da ditadura, concordou em lhe contar algumas coisas a respeito desse período.

- O que exatamente você precisa saber?

- Tudo! – O Felipe respondeu e ainda acrescentou que procurou na internet, mas não sabia como fazer.

O pai foi trocando ideias com o filho e tentando achar um jeito de contar a história da ditadura brasileira, sabia que era um assunto que dava “pano para mangas” e ficaria muito difícil “abordar um tema tão complicado num trabalho de escola”. Precisava arrumar um “fio condutor” para contar essa história. Ele lembrou que o menino tinha citado o nome de Vladimir Herzog, perguntou se ele sabia quem era essa pessoa, o menino respondeu que não, só “sabia que se tratava de alguém cuja trajetória estava ligada de alguma forma à ditadura”. Foi então que o Mario teve uma ótima ideia:

- Vou te contar a história de um menino chamado Vlado.

No início, Felipe estranhou um pouco essa ideia e até perdeu a paciência com o pai, seu trabalho era sobre a ditadura e não sobre a história de um menino, mas aos poucos ele foi entendendo e ficou superinteressado pela história do menino Vlado.

Adorei o jeito como a Marcia contou a história do menino Vlado, ela criou dois personagens – Mário, o pai e Felipe, o filho -, e na conversa entre os dois, a história foi sendo contada. Também achei bem bacana a relação entre o pai e o filho, me lembrou da minha relação com meu pai, eu também converso bastante com ele, e já falamos desse assunto, também, da ditadura militar.

Ditadura nunca mais

Quando o Vladimir Herzog foi preso, torturado e morto, ele trabalhava na TV Cultura de São Paulo, era diretor de jornalismo, também era militante do Partido Comunista, isso aconteceu em outubro de 1975, fez 40 anos, e o livro da Marcia conta toda essa história. Naquele tempo e durante todo o período da ditadura, que foi de 1964 a 1985, era proibido participar de lutas políticas ou fazer oposição ao governo, os que fizeram foram perseguidos, e muitos torturados e mortos, como aconteceu com o Vladimir Herzog e tantos outros.

Lutar contra o fechamento de bibliotecas, como lutei junto dos meus companheiros, e lutar contra o fechamento de escolas, como estão lutando os alunos dos colégios estaduais de São Paulo, seriam batalhas muito perigosas, com o risco de a gente ser preso, torturado e morto. Portanto, ditadura e tortura nunca mais, “Abaixo a Ditadura”, como se dizia antigamente, e “Viva a Democracia”.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Fiquei muito triste com o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, soube que ainda morreu um bombeiro. Fui lá algumas vezes, até contei aqui no blog da minha primeira vez, foi pra ver a exposição do Fernando Pessoa: http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=361. Nesse dia descobri o mundo das pessoas que falam e escrevem em português, como eu; e conheci os heterônimos do poeta português, personagens criados por ele, que também escreviam e até biografia tinham. Espero que o Museu da Língua Portuguesa seja recuperado e volte logo a funcionar.

FELIZ 2016

Este é meu último post do ano, vou sair de férias e volto no final de janeiro. Desejo a todos, boas festas e um feliz Ano Novo.

Extra, Extra: O Trono do Estudar

19 vozes em apoio aos estudantes de São Paulo

André Whoong, Arnaldo Antunes, Chico Buarque, Dado Villa-Lobos, Dani Black, Felipe Catto, Felipe Roseno, Fernando Anitelli, Hélio Flanders, Lucas Santtana, Lucas Silveira, Miranda Kassin, Paulo Miklos, Pedro Luís, Tetê Espíndola, Tiago Iorc, Tiê, Xuxa Levy e Zélia Duncan. Composição de Dani Black. Segue link do vídeo:

\”Pra ter escolha tem que ter escola\”


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A palavra revelada – carta de Jorge Miguel Marinho

Hoje vamos saber qual é a palavra envergonhada, que estava escondida, e durante três semanas tentamos descobrir o nome dela. Quem vai nos contar é o próprio autor da história, A palavra que não queria dizer seu nome, o Jorge Miguel Marinho. Essa história foi publicada em três capítulos aqui no blog. E para revelar o nome dessa palavra, o Jorge Miguel escreveu uma carta pra gente, uma carta muito bonita! Eu adorei e confesso que fiquei muito emocionado com as palavras do Jorge.

Com este post, encerramos esse novo clube de leitura que fizemos com a turma da professora Luciana, meus novos amigos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. Foi um clube de leitura bem diferente, me disseram que o que fizemos aqui foi mediação de leitura literária, e uma mediação muito especial, teve até a participação do autor. Adorei essa mediação e quero fazer outras! E agora vamos à carta do Jorge…

PARA O MEU AMIGO LE-HEITOR

Olá pessoa e pessoal.

Tem um escritor muito querido que, se vocês ainda não conhecem, têm de conhecer já. É o Mário de Andrade e ele diz:

“Ninguém escreve para si mesmo, a gente escreve para atrair, para encantar, para ser amado.”

Eu também escrevo para me aproximar das pessoas, para contar a minha vida e contar a vida de outras pessoas, para receber afetos de quem me lê. Foi isso que vocês me deram com a leitura tão sensível, com o entusiasmo que é a maior força da infância e da juventude, com as palavras bonitas que me enviaram. Agora somos amigos pela vida inteira e mais um dia, amigos eternos.

Vocês me fizeram feliz, muito feliz.

Esse gesto se chama amor e é o contrário da palavra que não queria dizer seu nome. É “violência” mesmo. Quem acertou acertou e quem não acertou chegou perto. O mais importante é entrar no jogo e tentar descobrir o sentido das palavras e o sentido da vida.

Agora a gente tem de pensar numa coisa: tem violência porque existe gente violenta e tem violência porque a vida é violenta. Pensa bem nisso, turma, a violência nunca tem perdão mas, às vezes, ela acontece e, de verdade mesmo, não queria existir. O que se pode fazer é combater a violência ou acabar com ela, descobrindo outros sentidos que têm dentro das palavras e dentro das pessoas, é claro.

Por exemplo, dentro da palavra violência tem “vi” de vida, de virtude e de vitória que não é só de quem ganha, mas de quem joga para, quem sabe, ganhar. E também tem “len” de silêncio e de lentidão que às vezes é bem bom para a saúde e para a criação. E “a” de amor e de altura que nem sempre dá vertigem quando a gente quer voar. E mais “ci” de cidadão e de cicatriz que pode ser a lembrança de uma dor que já passou.

Entenderam? Eu sabia que vocês iam entender.

Quero mandar um abraço bem forte para todos e já vou ficar pensando o que tem dentro de um abraço, o que tem dentro da palavra abraço, o que tem dentro do coração dos amigos que se abraçam. E dentro de nós que fomos brincando com a palavra violência e ficamos amigos que é o melhor da vida.

Outro abraço do Jorge.

Mário de Andrade: “Ninguém escreve para si mesmo, a gente escreve para atrair, para encantar, para ser amado.”

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A palavra escondida – último capítulo

Hoje vamos continuar o nosso clube de leitura com os alunos da professora Luciana (e quem mais quiser participar) e ler o último capítulo da história d’A palavra que não queria dizer seu nome, de Jorge Miguel Marinho. Será nossa última chance de descobrir que palavra é essa, envergonhada, que se esconde dentro do dicionário.

Neste capítulo, até o dicionário perdeu a paciência e disse que a gente tem que colaborar com ele: “Não sou só eu que tenho que dar conta de todos os significados desse mundo, e sozinho”, ele se queixou e ainda deixou um aviso: “se ninguém der uma força, ela vai acabar perdendo a memória e uma palavra que não sabe mais o nome dela morre de amnésia”.

Então, leiam o último capítulo e deem seus palpites, no próximo post, teremos a resposta e vamos saber quem acertou e quem errou. Pois nesta semana mandei um e-mail para o Jorge Miguel Marinho, perguntando como a gente ia fazer pra dar a resposta, já que nem sei direito que palavra é essa, tenho meus palpites, mas não tenho certeza.

E ele me respondeu dizendo que vai escrever um texto, especialmente para o blog, e revelar o nome da palavra. Nesse texto, ele ainda vai mostrar outras curiosidades sobre os diversos sentidos dessa e de outras palavras. Que maravilha! Nosso clube de leitura, que já estava ótimo, vai ficar melhor ainda, com a participação do próprio autor, nesse encerramento tão especial.

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

(última parte)

Jorge Miguel Marinho

Leia agora a última parte da história de Jorge Miguel Marinho e dê seu palpite. Que palavra é essa que não quer dizer seu nome? O resultado sai no próximo post, a palavra será revelada pelo próprio autor e vamos ver quem acertou.

Um dia o Dicionário, que tinha acordado muito preocupado com o destino da palavra que tinha vergonha do nome dela, pediu ajuda bem autoritário. Escuta como ele também estava nervoso:

“Alguém tem de descobrir o nome e o sentimento dela. Um pouco de companheirismo, gente. Tudo eu! Nada disso! É claro que eu sei que é meu trabalho, agora não sou só eu que tenho que dar conta de todos os significados desse mundo, e sozinho.  E tem mais uma coisa: se ninguém der uma força, ela vai acabar perdendo a memória e uma palavra que não sabe mais o nome dela morre de amnésia”.

E a palavra Preguiça perguntou louca e descabelada:

“Amnésia? Quem é essa agora?”

Os alunos da professora Luciana lendo o blog

E o Dicionário respondeu com o dedo em riste:

“Está vendo só como tudo tem que ser comigo. Que falta de respeito da senhora! Larga a mão de ficar se espreguiçando e procura na rua A que fica antes da quadra B e bem distante da avenida O de Oras Bolas! Carambolas!”

E a palavra Justiça procurou dar uma ordem na ordem alfabética:

“Isso é uma questão de direitos humanos, digo de direitos das palavras. Trata-se de um problema de cidadania, de preservação do nome, da identidade, dos sentidos das palavras, até de saúde pública, pessoal! Não tem o perigo dessa palavra esquisita morrer da tal de amnésia? Pois então… Não podemos ficar de mãos atadas.

Por que então a gente não se une, conta esse caso estranho dessa palavra encabulada e pede ajuda para as pessoas que adoram decifrar um enigma?”

E a palavra Enigma avançou tão pomposa que quase caiu na praça F:

“É claro, companheiras! Desculpe o engano… É claro não! Comigo é tudo no escuro porque eu não sou nada fácil. Mas é uma idéia”.

E ela não parou aí. Essa palavra enigmática que adorava um mistério pensou mais um pouco e lançou um desafio para cada uma das outras palavras bem alto:

“DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!”

Mas a palavra Ficção tinha que inventar e foi logo defendendo o seu pedaço para entrar bem depressa no mundo da imaginação:

“Como é que você pode desafiar a gente para desvendar um mistério, se nem você mesma sabe o nome dessa palavra que tem vergonha do nome dela?”

E continuou bem posuda, bem inventadeira, toda cheia de fantasia:

“Tenho uma ideia muito melhor. Que tal a gente ir escrevendo, todas juntas, uma história e publicar num jornal, numa revista, até num folheto e pedir o apoio das crianças? Podia ser qualquer pessoa, mas criança não tem medo de palavra e adora uma aventura!”

E o Dicionário pôs a mão na cabeça e decidiu:

“É, me parece uma boa ideia, mas temos de arrumar um escritor.”

Foi aí que eu fui convidado para sorte minha que só sei mesmo contar história. E depois eu não estava fazendo nada mesmo. É evidente que o Dicionário me disse, bem baixinho e com todas as letras, o nome da palavra que tinha vergonha do nome dela. Mas nem pense nisso – eu estou proibido de contar o nome dela. É condição, se não ela não se salva.

O que na hora eu achei muito bom porque história não vai se entregando assim logo de saída, história a gente descobre.

Credo em cruz, eu falei tanto que quase esqueci o nome da palavra que tinha vergonha do nome dela. Vai lá então.

Depois que essa palavra deu de passar maquiagem e usar traje violeta, a coisa piorou. Ela estava pirada mesmo! Imagine que ela começou a ouvir vozes e resolveu escutar as outras palavras que é o que você devia fazer. E, de tanto prestar atenção, ela chegou a ouvir conversa de gente também.

Num dia de sábado à noite, lá pelas vinte e uma horas e trinta e três minutos e treze segundos, ela escutou alguém bastante enfurecido dizer que essa palavra não podia ter um significado tão estranho porque todo mundo falava dela no rádio, no jornal, na televisão, no ônibus, no metrô e em tudo que é lugar.

Os alunos da professora Luciana lendo o blog

Não deu outra: a palavra ficou tão apavorada que pulou fora do Dicionário e foi se alojar na laje da casa onde ele mesmo, o Dicionário, morava. Ficou mais medrosa ainda, aterrorizada, em pânico e se pôs a morder a língua com tanta agressividade que gritou… Gritou não, berrou sem querer de dor:

“Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh…” E o Ó do nome dela começou a chorar de horror.

E agora? Você escutou o choro dela ou não?

nããããããÃÃÃÃÃÃÃÃÃ? Não acredito! Escritor tem que ter um saco do tamanho do mundo com criança que não escuta. E com gente grande também!

Não é por isso que eu vou contar tudo de novo. Quem não escutou procura no Dicionário o que é ovo de corvo branco como ano novo e que só sabe comer carniça de polvo e quem sabe você consegue encontrar um caminho novo que é o contrário de caminho torvo.

É claro que você acreditou nessa e eu, que sou escritor, enganei você o bobo na casca do ovo que nem descobriu até agora o nome dessa palavra que tem Ó de Ovo, C de Corvo, N de Novo e V dentro de Polvo.

Agora você escutou, não escutou…? Então a palavra já pode morar outra vez no Dicionário, mas não sei se ela ainda vai continuar tendo vergonha do nome dela. Se eu fosse ela, eu ia ter, agora você eu não sei…

Fimmmmm………

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Clube de leitura e entrevista com Jorge Miguel Marinho

Hoje temos mais um capítulo do nosso clube de leitura, publiquei a segunda parte da história que o Jorge Miguel Marinho cedeu, especialmente, para o meu blog, ele me enviou o texto por e-mail e disse: “Heitor, quero dar um retorno carinhoso a tudo que você faz pelos escritores e pela leitura” Adorei!!!

Então, hoje vamos ler a segunda parte do texto e tentar descobrir a palavra, como expliquei no post anterior. Mas antes, vamos conhecer um pouco mais do Jorge Miguel, lendo a entrevista que ele deu para os alunos da professora Luciana, da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. São eles que estão me ajudando a fazer esse clube de leitura tão diferente.

“Não há como separar vida e literatura” (Jorge Miguel Marinho)

Entrevista com Jorge Miguel Marinho feita pelos alunos da Professora Luciana

Alunos da Professora Luciana – Você gosta de livros desde pequeno?

Jorge Miguel Marinho – Quase todo mundo acha que escritor sempre leu muito e começou muito cedo. Não é o meu caso. Como venho de família muito simples, não havia livros nem na minha casa, nem na escola que só tinha duas salas de madeira. Mas um dia, uma amiga estava lendo um livro escondido atrás de um guarda-roupa e, quando ela saiu, esqueceu o livro e foi aí que o livro aconteceu na minha vida.

APL – Com quantos anos você escreveu seu primeiro livro?

JMM – Escrevo histórias ou crio na imaginação e não escrevo – fico só curtindo – desde sempre, nem me lembro.

APL – Qual foi o primeiro livro que você leu?

JMM – O primeiro livro não era bom – a autora se chamava Adelaide Carraro –, mas eu gostei de ter um livro nas mãos e imaginar que eu podia ler a história quantas vezes eu quisesse. Logo depois li O pequeno príncipe de Saint-Exupéry.

APL – O que fez você virar escritor?

JMM – A vida – ser entusiasmado por pessoas e gostar muito de ler.

APL – Que sentimento você tem quando escreve um livro?

JMM – A alegria de criar e, depois,  de um certo medo de que vocês não gostem do livro.

APL – Qual livro mais te interessou quando era adolescente?

JMMDom Casmurro, de Machado de Assis – lembro que fiquei muito triste e muito feliz, o que talvez seja o melhor modo de ler.

APL – Qual tipo de livro você mais gosta de ler?

JMM – De todos, mesmo os que não são bons ou têm qualidade discutível. Sou muito curioso. De qualquer forma, prefiro a boa literatura e daí não tem fim: Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Caio Fernando Abreu, Julio Cortázar, Murilo Rubião e vai por aí, sem um ponto final.

APL – Qual influência você leva para seus filhos em relação à literatura?

JMM – Apenas de ler e gostar de conversar sobre livros com eles.

APL – Lemos na internet que você é pai, esposo e escritor – como faz a separação da vida pessoal da profissional?

JMM – Não separo – não há como separar vida e literatura.

APL – Você acha que os jovens de hoje estão lendo como antes?

JMM – De fato não sei. Cada época e cada geração lêem de um modo muito especial – o importante é ler com prazer e curiosidade.

APL – Você já pensou em escrever livros para adultos?

JMM – Eu escrevo para adultos, não só contos e romances, como também peças de teatro.

APL – Você já pensou em desistir de ser escritor?

JMM - Nunca, estaria desistindo de mim e isso é impossível para qualquer pessoa.

APL – Qual foi sua inspiração para o primeiro livro?

JMM – Eu nunca me inspiro muito – apenas olho para a vida e deixo o livro acontecer. Talvez mesmo eu me inspire com tudo.

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

Jorge Miguel Marinho

Leia agora a segunda (e penúltima) parte do texto e tente adivinhar que palavra é essa, envergonhada, que não quer dizer seu nome

Bom, mas tudo isso parece que não adiantou nada até agora. Nem a braveza, nem a bondade do Dicionário, nem a vontade de todo mundo de descobrir o nome dela. Ou adiantou? Sei lá!

Só sei que o medo da palavra que tinha vergonha do nome dela foi deixando essa palavra que vivia assustada com as suas quatro sílabas cada dia mais medrosa. Ou são cinco? Xiiii!, essa palavra está me deixando confuso e a dona Gramática às vezes é meio indecisa. Isso é o que eu penso – o que você pensa eu não sei. Cada cabeça é uma cabeça e na sua cabeça já deve ter um monte de palavra que pode ter cisma, ira que é um ódio maior que raiva e até vergonha do nome dela. É ou não é?

Pois muito bem: de tanto essa palavra ficar com medo e passar a vida clandestinamente, escondidinha, sem ocupar a sua moradia certa que tinha endereço num país bem conhecido que ia de A a Z , a palavra que tinha vergonha do nome dela foi ficando mais esperta. É, esperta mesmo. A gente tem que entender que medo é um saco, mas para alguma coisa ele presta.

Então ela se escondia atrás das outras palavras, pulava quase do fim para o começo do Dicionário, se enfiava dentro da lombada outra vez, roía a contracapa de nervosa e ele, o Dicionário, sentia umas cócegas tão irritantes que ria tossindo também de nervoso.

Um belo dia, quando um dedo de criança quase pegou essa palavra que estava dormindo de cansada, ela levou o maior susto da vida dela. Se escondeu atrás da palavra Delicadeza que era completamente o contrário e até maior do que ela com uma letra a mais, mas não deu nada certo. Ela se esqueceu de tirar o seu chapéu, o acento, e a prova da fuga apareceu assim:

“Delicadêza”. Nem pensou mais: apagou com a letra L de lenço essa outra palavra e a Delicadeza que já estava tão esquecida na travessa D desapareceu.

Nesse dia a palavra envergonhada tapou, com as mãos, os olhos das suas duas últimas vogais de tanto sentir culpa e quase morreu de medo de ser presa pela Polícia Militar Dr. Abecedário da Língua Portuguesa.

Mas não tomou jeito de gente – deu de usar uma maquiagem pesada para não ser reconhecida e se vestir na tonalidade da palavra Violeta que disfarçava a cara e a grafia correta das suas letras, mas é uma flor de aroma tão agradável que, mesmo sendo roxa, não cabe dentro do sentido da palavra que tinha vergonha do nome dela. Ou cabe? Sei lá!

Caramba, agora quase me escapou o nome dela. Ainda bem que você não escutou o que tem dentro da minha cabeça.

Muito bem, ela provocou tanta confusão que até mesmo as outras companheiras ficaram confusas e começaram a se repetir feito umas gralhas:

“Mas como é mesmo o nome dessa palavra?”

Eu não posso dizer, mas bem que você podia ir dando uns palpites para eu escrever o jeitão dessa palavra e acabar logo com esse suspense. Eu sou um escritor mas detesto ficar fazendo e fazendo e fazendo rodeio com as palavras e, como eu já disse e não vou dizer mais, contar eu não posso.

Topa? Então vamosnessa. Engraçado! Eu juntei sem querer essas duas palavras e o som ficou parecido com o som da palavra que tinha vergonha do nome dela. Escutou essa agora ou não? Então problema seu, continua escutando. Ihhh…, minha nossa senhora das palavras, eu acho que é a palavra envergonhada que ninguém descobriu o nome dela até agora que começou a bagunçar essa história juntando as palavras. Que falta de vergonha!

Paciência!, mas nem tanto que eu já estou cansado de ficar aqui esperando que alguém pelo menos adivinhe o nome dessa palavra que nesse ponto dessa palavrada toda já deve estar ficando louca de tanto medo do nome dela e não sou eu que vou ficar repetindo o que aconteceu até agora porque quem quiser acertar que volte lá para trás no começo e trate de escutar essa história que eu vou em frente. Caçamba, que frase enorme demais de grande que eu escrevi nessa página! Paciência outra vez que eu já estou fulo da vida. Não entendeu, que se dane!

Vamosembora então…

(continua no próximo post)

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Um clube de leitura diferente

Hoje vamos começar um clube de leitura bem diferente, eu, a professora Luciana e os alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte. Vamos ler um texto do escritor Jorge Miguel Marinho, cedido especialmente para o blog, que será publicado em três capítulos, e tentar adivinhar a palavra escondida

Outro dia recebi um e-mail do meu amigo escritor Jorge Miguel Marinho, dizendo que tinha um texto, que já foi publicado no passado pela revista Recreio, e depois virou um livro, que se chama A palavra que não queria dizer seu nome. Ele disse que tem autorização para “publicar e veicular onde quiser”, e me ofereceu, com exclusividade, para postar em capítulos aqui no blog.

Ele me explicou que é uma história de palavra e de suspense, um quebracabeças. Disse que eu “poderia publicar no blog aos poucos, por breves capítulos, e fazer uma bela brincadeira de adivinhação com os leitores”. Ele falou para eu ficar à vontade e só publicar se achasse a ideia bacana. Claro que achei bacana, uma ótima ideia, e fiquei super feliz. Um texto do Jorge Miguel Marinho publicado, com exclusividade, no meu blog… É uma honra!!!

E logo me lembrei da professora Luciana, que também acredita em mim, e dos meus amigos, alunos da Luiz Gatti. Juntos já fizemos muitos clubes de leitura. E pensei, faz tempo… estou com saudades dos nossos clubes de leitura, vou convidar a professora e ver se querem participar desse clube diferente. Eles também gostaram da ideia e toparam participar. Até entrevista com o Jorge Miguel Marinho combinamos de fazer, eles já pesquisaram sobre o autor e mandaram as perguntas.

Dividi o texto do Jorge Miguel em três partes, neste post, vou publicar a parte inicial, nos próximos, publico o restante do texto, a entrevista com o autor e mais informações sobre esse nosso novo clube. O desafio é adivinhar o nome da palavra escondida, e todos estão convidados a participar. Fica a dica do Jorge Miguel: primeiro a gente tenta descobrir o sentido da palavra até chegar ao nome dela. Participe dessa brincadeira e dê seu palpite aqui nos comentários!

A PALAVRA QUE NÃO QUERIA DIZER SEU NOME…

Jorge Miguel Marinho

Imagine só se isso acontece…

É você mesmo…! Eu sou o escritor dessa história e estou falando com você mesmo aí bem na sua frente. Então me escuta…

Ela era uma palavra que tinha muita vergonha do nome dela.

É verdade mesmo, e você pode acreditar nisso. Era uma palavra envergonhada, com raiva dela mesma, sem a menor auto-estima.

E é por isso mesmo que ela vivia se escondendo no Dicionário que é uma das casas das palavras.

Ele, o Dicionário que nunca foi e nunca vai ser o Pai dos Burros, ele sabia muito bem que toda palavra tem  casa em qualquer lugar – ela mora na rua, na escola, no banheiro, na mão direita ou na mão esquerda e em tantos outros lugares que até fica acordada  lá dentro do sonho da gente e inventa história de verdade como eu.

Pois muito bem: o Dicionário às vezes era um pouco vaidoso como todo o mundo e ficava com a lombada estufada se achando o dono de todas as palavras. Por mais que tentasse fazer a maior força para entender, não conseguia admitir de jeito nenhum esta atitude tão apavorada da palavra. Uma palavra que tremia dos pés à cabeça só de imaginar que alguém pudesse descobrir o seu sentido… E muito pior ainda ficar sabendo o “sentimento” dela.

“Isto não pode ficar assim – não, Não e NÃO!”, ele gritava não muito alto, tinha bom senso e não podia perder a cabeça. Mas também não conseguia tirar da cabeça  que uma palavrinha qualquer, muito metida à besta,  tivesse o atrevimento de ficar escondida dentro dele. Justamente dele que nunca tinha pensado na vida em ser um esconderijo.”

O dicionário pensava muito: ele sabia muito bem que era uma casa, mas espera aí!, era uma casa de portas abertas para quem quisesse visitar qualquer palavra. Não tinha o menor cabimento uma palavra ou uma pessoa que é a mesma coisa ficar se escondendo ou escondendo o nome dela. Eu concordo com ele, você eu não sei…

“Rrrespeito é bom e eu gggosto”, ele rangia o R com os dentes e abraçava o G com a língua no céu da boca.

“Que palavra mais descarada, fingida, sem vergonha”, ele acusava. E na hora se corrigia:

“Sem vergonha ou envergonhada? Para essa palavra maluca, tudo é a mesma coisa e pronto –  essa garota só tem nove letras e é tão confusa”.

Escutou o que ele disse? Eu escutei…

Eu ainda não conto e nem sei se vou dizer o nome da palavra, se não eu estrago o segredo dessa história. E você sabe muito bem que uma história sem segredo é muito pior do que uma palavra que tem vergonha do nome dela.

O Dicionário que não podia perder o sentido das coisas, buscava encontrar uma razão para esse medo da palavra, mas não se conformava. Quando sentia o dedo de alguém percorrendo com os olhos bem abertos o seu caminho alfabético e essa palavra se apagava, fugia e até se disfarçava com as letras de uma colega sua, ele ficava realmente com os nervos à flor da pele: mordia um pouco a capa, ficava pálido nas páginas e desconfiado de outras palavras, até apertava ainda mais as abreviaturas. Mas isto durava só um instantinho. Afinal ele era muito equilibrado e tinha de manter em ordem todas as letras para cuidar dos sentidos bem corajosos das outras palavras. E depois não adiantava ficar muito bravo – cada palavra era dona do seu próprio nariz e fim. Eu também acho isso…

Imagine você que às vezes ele, o Dicionário, ficava até meio comovido, tinha o coração mole, cheio de outras palavras e deixava até escapar algumas delas:

“Coitada dessa palavra, tem palavra que já nasce para sofrer, é uma tragédia.”

Se conformar, ele não se conformava, mas a paciência de esperar era a maior qualidade do Dicionário. E, se existia palavra exibida como “Exuberante, Fascinante, Insinuante”, por que não podia existir palavra com complexo de inferioridade? Até “Estupendo” que era demais de vaidosa e por coincidência tinha o mesmo número de letras da palavra envergonhada!

Mas acontece que, para o azar dessa palavra que se escondia, ela tinha acento circunflexo bem em cima do Ê e esse chapeuzinho chamava muito a atenção. Um dia lá longe quando ela percebeu esse som mais forte lá dentro e lá fora da penúltima sílaba dela, não teve outra: ela se trancou nela, igual a um caramujo que mora e se recolhe dentro da sua própria concha que nem janela tem para ele ver o sol.

“OPA”…, que me deu uma vontade de dizer agora o nome dela, mas nem pensar: como eu já disse, essa palavra é muito envergonhada e eu sou muito discreto. Ainda bem porque você já deve estar adivinhando o tamanho e o jeito dessa palavra.

(continua no próximo post)

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Minha primeira resenha

Mais uma conquista, fui convidado pela editora e hoje é publicada minha primeira resenha no blog da Biruta

Além dos muros do meu blog

O João Luiz Marques, autor do meu livro, criou uma chamada bem bacana para anunciar a minha resenha de estreia:

Ele nasceu personagem de blog, virou personagem de livro, e agora escreve resenhas pra fora. Esse é o Heitor!

Adorei!

Outro dia, ele também me falou sobre os personagens dos livros terem vida própria, e que eu era um exemplo disso, nunca acreditei muito nessas histórias, achava que isso era conversa fiada de escritor que não quer se responsabilizar pelos destinos que dá a seus personagens. Então, na hora, nem dei muita importância ao que ele me dizia, mas, agora, estou sentindo que ele tinha razão.

Conheci muitas pessoas e vivi muitas aventuras com o meu blog, algumas dessas aventuras saídas da minha própria cabeça; depois, contei uma boa história, virei personagem de livro e realizei um sonho; hoje, inauguro outra grande conquista, fui convidado pela Editora Biruta para escrever resenhas no blog dela. Como ouço falar nas reuniões políticas das quais participo, acho que “me empoderei e me apropriei” da minha vida, e pretendo cuidar muito bem dela.

Nas conversas que tive com as minhas amigas da Biruta, quando estávamos combinando a publicação das resenhas, a Carol disse que a editora está super-aberta e que já podemos selecionar outros livros pra eu resenhar, e a Ana escolheu o dia de hoje, 29 de novembro, um dia muito especial, Dia Nacional do Livro, para lançar a minha resenha. Como já disse outro dia, acho que elas acreditam, mesmo, em mim!

Minha conversa com o escritor Luiz Antonio Aguiar

O livro que resenhei é o Piscina, já!, do Luiz Antonio Aguiar, ilustrado por Tiago Lacerda e publicado pela Editora Biruta. Enviei um e-mail contando para o Luiz Antonio que eu ia resenhar o livro dele, ele me agradeceu, dizendo que ia ser um barato ler a minha resenha e me falou outras coisas sobre esse livro.

Disse que essa história tem muito a ver com a própria história dele, pois, na década de 1970, ele militou no movimento estudantil na PUC do Rio de Janeiro, disse que não sofreu nenhuma barra mais pesada, mas teve seus problemas com a repressão, amigos torturados e alguns que não foram nunca mais vistos.

Ele sempre soube que um dia escreveria um livro ambientado nos anos da Ditadura Militar e fez isso quando pôde escrever uma história, com enredo, gostosa de ler, e não um manifesto político, já que ele não acha que a Ditadura deva ser um veículo de mensagens de espécie alguma. E me disse o que costuma comentar com seus leitores:

“No máximo, quando comento o livro para a garotada, faço questão de ressaltar que a democracia que temos, com todos os seus defeitos, é melhor do que qualquer ditadura. E que essa democracia se deve à luta de muitos, algumas lutas pequenas, outras maiores, que aconteceram naquela época. Não é gratuita. Cobrou seu preço, de várias maneiras.”

Vamos à resenha. Leia a minha resenha do livro Piscina, já!, de Luiz Antonio Aguiar, ilustrado por Tiago Lacerda e publicado pela Editora Biruta, no blog da editora: http://www.blogbirutagaivota.com.br/soltando-a-lingua/o-direito-de-brincar/

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Susana Ventura, língua portuguesa e as minhas resenhas

Hoje vou falar da nossa língua portuguesa, de dois livros da Susana Ventura e de como vou virar um resenhista

Nossa língua portuguesa

Nesses dias, enquanto procurava minha identidade, me lembrei de um post que escrevi, sobre um passeio que fiz ao Museu da Língua Portuguesa, em que vi uma exposição sobre Fernando Pessoa, aprendi o que é heterônimo, e achei que eu era isso. Mas hoje não quero falar de identidade, já superei essa fase, quero falar da língua portuguesa. Pois nessa visita que fiz ao Museu, me senti parte de um povo muito maior que a população do Brasil, o povo de todos que falam e escrevem em Português no mundo.

Fiquei curioso por esse assunto, fui pesquisar na internet sobre livros e língua portuguesa e descobri que a Susana Ventura tinha acabado de lançar um infantil que se chama De onde vem o Português?. Fui atrás desse livro, queria descobrir de onde vem a nossa língua. Sei que a Susana é especialista nessa área, em 2010 ela foi contratada pelo Museu da Língua Portuguesa, pra fazer uma seleção de textos de literaturas africanas de língua portuguesa.

Então, hoje vou falar desse e de outro livro da Susana Ventura, que já tinha lido um tempo atrás e que também tem a nossa língua-mãe como tema, O Tambor Africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa.

De onde vem o Português

O livro De onde vem o Português?, escrito por Susana Ventura, ilustrado por Silvia Amstalden e publicado pela Editora Peirópolis começa assim:

Era uma vez, há muito, muito tempo, uma terra perto do mar.

Aquela terra ficava tão junto dele, que era como se o mar fosse quase tudo.

A história segue, bonita assim, e faz uma viagem pelas origens da nossa língua portuguesa, começando pelos documentos ainda escritos em Latim, que apresentaram os homens, mulheres e crianças que viviam nessa terra. E continua…

Pelos poemas, que contam, em galego-português – idioma já bem parecido com a língua portuguesa, quem eram e o que sentiam algumas dessas pessoas; passa pela história de Portugal, contada por Fernão Lopes, ainda em português arcaico; pelo teatro de Gil Vicente; e pelos poemas de Luís de Camões, navegador e poeta português, que contou suas histórias, na língua que falamos e escrevemos hoje, em 10 países, Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Macau e Goa.

Contos de países africanos de língua portuguesa

O Tambor Africano e outros contos de países africanos de língua portuguesa, publicado pela Editora Volta e Meia, reúne contos dos cinco países africanos que tem o português como língua oficial: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, e São Tomé e Príncipe. O livro tem quinze contos que foram selecionados e adaptados por Susana Ventura. Essas histórias são contadas e recontadas há séculos, em diversas línguas, inclusive em português.

Eu fui ao lançamento  desse livro, foi no SESC Vila Mariana, nesse dia a Susana lançou também O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses, no final do evento, sortearam um exemplar de cada. Eu fui sorteado! Ganhei o dos contos africanos e ainda levei o autógrafo da Susana. Foi nesse dia que eu conheci a Susana Ventura, depois a encontrei na Flip, conversamos e fiquei amigo dela. Adoro conversar com a Susana, aprendo bastante, ela fala tantas coisas importantes e bonitas sobre literatura.

Cinco países

O orelha desse livro explica como foi feita a seleção dos contos “recontados à brasileira” por Susana Ventura. São histórias de povos bem diferentes e com muitos temas, “desde contos que buscam justificar as origens do mundo como o conhecemos, ou contar a história do primeiro tambor africano, até narrativas de natureza filosófica, além dos esperados contos de animais”. Gostei de todos, mas não vai dar pra eu falar de todos os contos do livro, então, também vou fazer a minha seleção, vou escolher um conto de cada país e falar um pouquinho de cada.

De Angola, escolhi o A rã Mainu, o filho de Kimanauaze e a filha do Sol e da Lua. É a história do menino que cresceu, chegou à idade de se casar e escolheu como sua esposa, a filha do Sol e da Lua. Seu pai achou a ideia impossível, “quem poderia ir ao céu, onde está a filha do Sol e da Lua?”. O menino disse ao pai, que deixasse, que “ele mesmo trataria do assunto”. Escreveu uma carta, buscou a ajuda de muitos animais, até encontrar a rã Mainu, que depois de muitos truques, conseguiu aproximar o menino de sua pretendente.

De Cabo Verde, escolhi História do boi Blimundo. Blimundo era um boi grande, forte, qua amava a vida e a liberdade, era muito querido, respeitava tudo e todos e vivia em harmonia com o mundo. Mas o rei cismou com Blimundo, dizia que o boi era um irreverente, livre pensador, vagabundo que anda aí à vontade pelos campos, senhor de si mesmo. Concluiu que Blimundo era uma ameaça terrível à ordem estabelecida, declarou guerra e passou a perseguir o boi. O rei perde as primeiras batalhas, até essa história terminar numa grande tragédia.

De Guiné-Bissau, escolhi o conto que dá o título ao livro, O tambor africano. “Um dia, na mata, um bando de macaquinhos brancos começou a macaquear e inventar brincadeiras.” Um deles teve a ideia de ir à lua, mas como fazer pra chegar lá. Depois de muitos palpites, decidiram subir, uns nas costas dos outros, dos maiores para os menores, até que o menorzinho de todos alcançasse a lua. Deu certo! O difícil foi voltar, mas com a ajuda de um o tambor, “algo nunca antes visto por ninguém na Terra”, que ganhou de presente da Lua, o macaquinho voltou pra casa.

De Moçambique, escolhi O princípio do mundo. “No tempo sem tempo do início dos tempos, Céu e Terra estavam juntos. Não havia nem noite, nem dia. Não havia nuvens, trovoada ou chuva. Só Céu e Terra juntos e a profundeza das águas.” Nessas águas profundas vivia a Cobra Grande e pairando entre o Céu e a Terra, ficavam o Sol e a Lua, juntos, vivendo como marido e mulher. O casal teve problemas, Cobra Grande se aproximou da Lua e se apaixonou por ela. Do romance nasceram dois filhos, o homem e a mulher, Sol e Lua se separaram e nunca mais se encontraram.

De São Tomé e Príncipe, escolhi A história do cãozinho fiel e de seu dono. Há muitos anos, um casal de jovens vivia num povoado distante, perto da floresta. Um dia, o marido saiu para caçar, levou seu cão, abateu três macacos e dois porcos selvagens, e a caça ficou pesada para carregar de volta para casa. O rapaz pediu a ajuda de seu cãozinho que lhe respondeu: – Pois não, meu amo. Vamos dividir o peso, eu o ajudo… mas com uma condição. O rapaz ficou espantado, o cão falava e pediu segredo, mas ele contou à mulher, e nunca mais nenhum cão voltou a falar com um ser humano.

A autora

Susana Ramos Ventura é mestre e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo na área de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa e Literatura para Crianças e Jovens. Ela faz parte do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ e desenvolve um trabalho de pós-doutorado. Pesquisadora do CLEPUL (Centro de Estudos de Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa) e do CRIMIC (Centro de Investigação sobre os Mundos Ibéricos Contemporâneos), de Sorbonne, Paris IV.

Além de O Tambor Africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa, é autora de O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses, Convite à navegação – uma conversa sobre literatura portuguesa, entre outros. Desde 2007, trabalha em diversos projetos com o SESC como curadora, palestrante, professora e moderadora. Em 2010 foi contratada pelo Museu da Língua Portuguesa e Ministério das Relações Exteriores para seleção de textos de literaturas africanas de língua portuguesa e composição de material sobre escritores e países de Língua Portuguesa para a exposição Linguaviagem do Itamaraty.

Um dia desses, estava conversando com a minha mãe, sobre uns planos que tenho para o meu futuro. Foi depois de uma conversa dessas, que de personagem de blog, virei personagem de livro, ela me incentivou a correr atrás do meu sonho, isso tudo está contado no livro Os meninos da biblioteca.

Desta vez meu sonho era outro, gosto de escrever e escrevo aqui no meu blog, mas gostaria de escrever também para outros lugares. Queria escrever sobre livros e fazer resenhas, do meu jeito, para outro blog, por exemplo. Quem sabe o blog de alguma editora!? Mas me sentia inseguro, daí a conversa com ela:

- Mãe, queria tanto escrever para outro lugar.

- Como assim?

- Sei lá, escrever para outro blog, pensei em falar com alguma editora.

- Fale com suas amigas da Biruta, lendo sua entrevista (http://www.blogbirutagaivota.com.br/papeando/papeando-com-heitor/), percebi que elas acreditam em você.

- Você acha que elas acreditam, mesmo, em mim?

- Claro, que acreditam!

- Mas se elas não toparem?

- Você vai ter que se conformar e procurar em outro lugar, mas só vai saber se conversar com elas.

No mesmo dia liguei lá e elas toparam! VIVA! Vou fazer resenhas para o blog da Biruta, vou ter uma coluna com meu nome, minha coluna vai se chamar “Resenhas do Heitor”. Fizeram uma vinheta especial para abrir as minhas resenhas, que eu apresento em primeira-mão, aí acima.

Já acertamos os detalhes e escolhemos o primeiro livro que vou resenhar, será o Piscina, já!, do Luiz Antonio Aguiar, que também conta a história de uma luta política, assim como o meu livro. Vou virar um resenhista, minha primeira resenha será publicada no próximo dia 29 de outubro, no blog da Biruta, eu aviso quando sair.

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Fernando Sabino e os meninos da biblioteca

Hoje vou falar de um livro do Fernando Sabino, que acabei de ler e gostei muito, mas antes quero mostrar o que estamos fazendo para divulgar Os meninos da biblioteca. A conversa franca que tive com o autor do livro, como contei no post anterior, me ajudou a sair da crise, parei de “chorar as pitangas”, como ele mesmo disse, fui à luta e conseguimos organizar muitos eventos, vamos até participar de um seminário internacional sobre bibliotecas públicas e comunitárias e mostrar o nosso livro.

Ações para divulgar o livro

Escrito por João Luiz Marques, ilustrado por Rômolo, publicado pela Editora Biruta e narrado por mim

Outro dia fizemos um passeio pela história do bairro, organizado pelo Preserva São Paulo e pelo Grupo Memórias do Itaim Bibi, com o Helcias e o Jorge, que também são personagens do livro, e no final teve um pequeno lançamento na biblioteca. Na semana passada participamos do Sarau Roda da Palavra, na biblioteca Anne Frank, organizado pela minha amiga contadora de histórias, Joyce Néia. Também fomos a um Sarau que acontece na cidade de Caieiras, o pessoal da Sintaxe que nos convidou.

No dia 27 de outubro, vamos a outro sarau, o Encontro de Utopias, que acontece na biblioteca Monteiro Lobato, quem nos convidou foi a Regina Tieko. No dia 5 de novembro vou participar de outro evento na bibloteca Anne Frank, é o Encontro com o Escritor, vou pedir para acrescentar a palavra personagem ao título desse evento, quero que minha presença também seja anunciada. Pretendo marcar mais Encontros com o Escritor (e o Personagem), vou visitar outras bibliotecas da cidade e continuar a minha batalha.

A Biruta fez uma divulgação bem bacana do livro, conseguimos muitos posts nos blogs parceiros da editora. Eles também me mostraram um book tour que está acontecendo com o livro, um blogueiro lê, faz a resenha e passa o livro pra outro blogueiro, que faz o mesmo, e o livro viaja pelo Brasil. Também foram publicadas duas matérias bem legais, uma no UOL e outra no Brasil Atual, a TV Câmara fez uma entrevista com o autor, que deve ir ao ar em breve. A Biruta também fez uma entrevista com o autor e outra comigo, que foi publicada no blog da editora. Vou organizar esse material para mostrar aqui.

Seminário de Bibliotecas Públicas e Comunitárias

Outro evento da hora que vamos participar é o 8º Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, que vai acontecer nos dias 9, 10 e 11 de novembro, aqui em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças, que fica na avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 23, próximo à estação Clínicas do Metrô. Esse evento é realizado pela Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Inscrevemos o livro como um relato de experiência realizada em biblioteca pública e ele foi selecionado. Vamos apresentar Os meninos da biblioteca nesse seminário internacional! Nossa apresentação será no dia 11 de novembro, das 8h30 da manhã, até às 13h30, no Salão Lilás. O trabalho será exibido em tela de LCD no formato pôster digital, eu e o autor estaremos lá, pessoalmente, pra falar do nosso livro.

As aventuras e as lorotas do menino Fernando

Além dos livros que tenho que ler pra escola, pego sugestões de leitura com o pessoal da biblioteca, com meus pais e com amigos. Às vezes também dou uma garimpada nas estantes aqui de casa, meus pais guardam livros de quando ainda eram bem jovens. E foi numa dessas pesquisas, nas estantes dos meu pais, que encontrei três livros do Fernando Sabino, O menino no espelho, O gato sou eu e O encontro marcado.

Li as orelhas e logo me interessei pelo O menino no espelho, que conta a história do escritor quando criança. Como ele mesmo diz, neste livro o autor apresenta as “várias proezas, aventuras, peripécias, tropelias (e algumas lorotas)” do tempo em que era menino. Antes de ler o livro fui pesquisar um pouco da vida de Fernando Sabino.

Escritor e jornalista mineiro, nasceu em Belo Horizonte em 1923 e morreu no Rio de Janeiro, em 2004. No início da década de 1940, ainda jovem, começou a trabalhar como jornalista, na Folha de Minas, convidado por outro escritor mineiro, o Murilo Rubião.

Com Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, formava o grupo literário conhecido como “os quatro mineiros”. Foi a convivência com esse grupo, com os debates literários e os passeios pela cidade de Belo Horizonte, que o inspirou a escrever uma de suas obras mais conhecidas e premiadas, O encontro marcado. Este será o meu próximo Fernando Sabino, pois O menino no espelho já li, adorei e hoje vou falar um pouco dele.

O menino no espelho

O exemplar que eu li de O menino no espelho é da 4ª edição, acho que esse livro já está na 90ª edição. Como já disse, o encontrei aqui na estante de casa, junto de outros dois livros do autor. Escrito por Fernando Sabino, com desenhos de Carlos Scliar e publicado pela Editora Record, o livro foi lançado em 1982.

Ele começa com o prólogo e termina com o epílogo (Os meninos da biblioteca também tem prólogo e epílogo). O prólogo se chama “O menino e o homem”, nele o menino conta a conversa que teve com um homem bem mais velho, que apareceu do nada, enquanto ele brincava no fundo do quintal de sua casa, depois de uma chuva. O homem lhe ensina o segredo de ser um menino feliz, para o resto da vida. Já o epílogo se chama “O homem e o menino” e conta essa mesma história, só que, desta vez, quem conta é o homem, e o “mistério” que aparece no começo do livro, é revelado no final.

Mas entre o prólogo e o epílogo, o livro traz 10 capítulos que contam as aventuras do autor, quando era menino e morava numa casa de quintal bem grande, com muitas árvores, que ficava na praça da Liberdade, número 1458, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua casa só não tinha galinheiro, “como quase toda casa de Belo Horizonte naquele tempo”. Fernanda, sua galinha de estimação, que tinha sido encomendada para o almoço de domingo, de galinha ao molho pardo, mas foi salva da panela, numa de suas proezas, corria solta pelo quintal.

Entre outras proezas, teve um dia, que depois de assistir a um filme no cinema, ele aprendeu e passou a fazer milagres. Em outro, seu pai o levou pra assistir às acrobacias de aeroplanos, como se chamavam os aviões naquele tempo, e ele descobriu uma técnica para voar, também. Em outra aventura, ele, a amiga Mariana, seu cachorro e um coelho, formam uma organização secreta, ocupam uma casa abandonada, que depois até vira notícia de jornal.

Tem uma em que ele se perde na selva, em outra, enfrenta o valentão da escola. Algumas são lorotas (mentira, de antigamente), como ele mesmo disse. Eu acreditei em todas! São muitas aventuras, uma mais divertida que a outra, e contada de um jeito bem legal. É muito gostoso ler Fernando Sabino, vou ler outros livros dele, como já disse, meu próximo será O encontro marcado.

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O bibliotecário do imperador e uma conversa com o autor

Já faz muito tempo que não escrevo aqui, tanto tempo, que devo explicações. Vou tentar… Como disse no post anterior, eu andava em crise, foi difícil me acostumar com esse lugar (como diz minha mãe) de personagem e narrador de um livro. Não sabia mais como me portar, antes eu vivia sossegado aqui no meu cantinho, podia fazer e escrever o que quisesse, planejava meus passeios, buscava minhas leituras, sem ter que dar satisfação a ninguém.

Claro que nunca fui irresponsável, fiz clubes de leitura, por exemplo, com algumas escolas, e acho que os professores não têm nenhuma queixa de mim. Lógico que eu fiquei muito feliz com a publicação do livro, afinal, ele também é meu, mas me gerou muitos conflitos e uma forte crise de identidade. Eu tinha que fazer alguma coisa, não estava mais suportando essa situação.

Como sempre acontece nessas horas, um livro me salvou, e olhem que foi um livro para adultos, que me deu muito trabalho de ler e entender. Mas como eu aprendi que nada na vida é fácil, eu encarei o desafio. Peguei esse livro emprestado do meu pai, ele leu e me contou um pouco da história, o livro se chama “O bibliotecário do imperador”, adorei o título, no final do post vou falar um pouco mais dele, agora só vou adiantar uma passagem, que me encorajou a tomar uma decisão.

Tem uma parte da história em que o personagem vem conversar com o autor do livro e ainda tira umas satisfações, nunca tinha visto isso acontecer, e me deu uma boa ideia: Vou conversar com o autor do meu livro, vou ter uma conversa com ele, de homem pra homem, ou melhor, uma conversa de personagem pra autor.

Outros dois personagens presentes ao lançamento, Helcias, à esquerda, e o bibliotecário João Gabriel, já lendo o livro

A nossa conversa

- O que está pegando, Heitor?

Ele me conhece, só de olhar pra mim, já percebe que não estou bem.

- Eu queria conversar umas coisas com você.

- Pode se abrir… Você sabe que entre a gente não tem segredo, não sabe?

- Sei.

E contei tudo pra ele, tudo que eu estava sentindo. Fui duro em algumas partes, precisava reconquistar o meu espaço, o acusei de me deixar de lado, nesse período de lançamento do livro, fui esquecido. E ele também não deixou por menos, disse que eu estava “viajando”, que o espaço foi sempre meu e se andei sumido, foi por minha culpa.

- Você participou de todos os eventos, foi ao Rio, esteve no lançamento da Biblioteca Mario de Andrade, que foi um sucesso, vendemos 141 exemplares naquele dia e teve até fila para o autógrafo. Não entendo por que não contou tudo isso no seu blog.

- É que eu estava meio perdido, crise de identidade é fogo. Vai me dizer que você nunca sentiu isso?

- Senti, mas você tem que reagir. Nunca ouviu nenhum autor falar que seus personagens tem vida própria?

- Ouvi.

- Então, você é o maior exemplo disso, Heitor, a vida é sua, cuide bem dela! Conversa com seus amigos, vai na editora Biruta, na biblioteca Anne Frank, na Monteiro Lobato, combina algum evento pra gente fazer e levar o livro. Não fique aí chorando as pitangas, vamos divulgar o nosso livro.

Segui os conselhos do meu amigo, o autor de Os meninos da biblioteca, o nosso livro e já comecei a fazer alguns contatos. No próximo post vou contar muitas novidades.

O bibliotecário do imperador

O bibliotecário do imperador, escrito por Marco Lucchesi e publicado pela Editora Globo conta a história de um personagem real, o Inácio Augusto César Raposo, bibliotecário responsável pela coleção de livros do imperador dom Pedro II. Como já disse, é um livro para adultos e que foi difícil de ler. Algumas partes, li mais de uma vez, outras, em voz alta, pesquisei sobre os autores que são citados no livro, tudo pra ver se conseguia entender melhor.

Fiz todo esse sacrifício, pois gostei do assunto e fiquei muito interessado pela história, já sabia que o dom Pedro II tinha uma biblioteca valiosa e eu quis saber o que tinha acontecido com ela, depois da Proclamação da República, quando o imperador foi exilado.

Além da conversa estranha do personagem com o autor, que eu disse e já já vou citar um trecho, o livro começa de um jeito bem diferente, o primeiro capítulo é um prefácio do revisor. Ele detona o livro que a gente está começando a ler, achei muito engraçado isso. O revisor diz que entende muito pouco de literatura moderna, e pelo que tem visto, quer entender cada vez menos.

Diz que esse livro “sofre os mesmos sintomas” da literatura moderna, que o seu autor deixa tudo pela metade, e ainda ri do trabalho do leitor, “este sim, paciente e laborioso, fazendo o que caberia à narrativa, abrir caminhos e atalhos que levam a uma clareira.” Foi o que eu fui lendo esse livro, “paciente e laborioso”, mas gostei do resultado, principalmente porque essa leitura me tirou da crise de identidade.

Trecho salvador

O trecho que me salvou está no capítulo 27, quase ao final do livro. O personagem principal da história, Inácio Augusto César Raposo, o bibliotecário do imperador, morto em 12 de maio de 1890, seis meses depois da Proclamação da República, bate à porta do autor, entra em seu escritório e diz: “Eis-me aqui, Marco Lucchesi”.

E protesta “contra a sem-cerimônia deste livro, a desfaçatez de viver dos outros, sem prejuízo de si mesmo, sanguessuga da história, curioso como as comadres de Windsor, pérfido e desleal como um Iago, cheio de ciúmes de um passado que jamais desnudou e possuiu.”

Eu nunca achei essas coisas do autor do meu livro, mas também tinha as minhas queixas. E se o personagem bibliotecário pôde dizer esses desaforos para o seu autor, por que eu também não poderia dizer umas verdades para o meu? – Eis-me aqui, João Luiz Marques.

Marco Lucchesi

Nasceu no Rio de Janeiro, escritor, poeta, ensaísta, tradutor, e membro da Academia Brasileira de Letras. Além de O bibliotecário do imperador, publicou Nove cartas sobre a divina comédia, O dom do crime, Ficções de um gabinete ocidental, A memória de Ulisses, Sphera, Meridiano celeste & bestiário, entre outros. Traduziu diversos autores como, Rûmî, Khlébnikov, Rilke e Vico, e foi traduzido para diversas línguas. Ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti, o Prêmio Alceu Amoroso Lima, pelo conjunto de sua poesia, o Prêmio Marin Sorescu, na Romênia, e o prêmio do Ministero dei Beni Culturali, na Itália.

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Minha primeira entrevista

Fui ao Salão FNLIJ no Rio de Janeiro para lançar Os meninos da biblioteca, no dia 30/6 tem lançamento aqui em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, e já dei minha primeira entrevista

- Você está se achando com esse seu livro.

Esse é o meu amigo Lipe! Não sei por que ele me diz essas coisas. O Lipe é meu amigo desde criança, meu melhor amigo, já falei dele, muitas vezes. O Lipe sempre me ajuda nos clubes de leitura que faço aqui no blog, no livro tem participação especial, é o personagem coadjuvante mais importante da história e me acompanhou em todos os momentos importantes da nossa luta.

Ele ficou assim depois que leu a entrevista que dei para o blog da editora Biruta, minha primeira entrevista. Se eu apareço mais é só porque sou o narrador da história, vou conversar direitinho com o meu amigo, ele tem que deixar de lado essas questões pessoais, como diz a minha mãe, é “pura vaidade”. Temos que pensar que a luta em defesa da biblioteca do nosso bairro, que é o tema desse nosso livro, é de todos nós, é uma luta coletiva.

Crise de identidade

Ao invés de ficar dizendo essas coisas, o Lipe devia me ajudar a entender e superar a crise que estou passando. Sou um personagem que escreve um blog e agora virei também um personagem que conta a história de um livro. No blog sou o autor, no livro sou apenas o narrador. Estou vivendo uma crise de identidade! No faz de conta do blog, sou um menino que escreve, de verdade. Mas o faz de conta do livro tem os seus limites, posso dizer que escrevi esse livro, como de fato escrevi e está contado lá na história, mas não posso dizer que sou o autor.

Todo livro tem que ter um autor de verdade, para assinar o contrato e receber os direitos, posso até sair por aí dando entrevistas, mas nunca vou poder dizer que sou o autor do livro. O autor do meu livro, como já disse no post anterior, é o meu amigo João Luiz Marques, o mesmo que me deu este blog de presente, e o ilustrador é o Rômolo, adorei o jeito como o Rômolo me desenhou, acho que ele também vai poder me ajudar a resolver minha crise de identidade.

Lançamento

Na semana passada fui com o autor para o Rio de Janeiro, ele participou do Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, foi lançar o nosso livro em um bate-papo na Biblioteca FNLIJ para Jovens. Lá eu encontrei muitos amigos, o Luiz Antônio Aguiar, a Luciana Savaget, a Rosinha, a Anna Claudia Ramos, a Sandra Pina, o Maurício Veneza, a Lenice Gomes, a Sonia Rosa e a Flávia Côrtes.

Já fui outras vezes ao Salão, mas desta vez foi diferente, das outras vezes fui só como leitor e blogueiro, desta vez fui também como personagem e narrador de um livro que foi lançado lá. Saí pelo Salão encontrando os amigos e exibindo Os meninos da biblioteca, estava muito feliz, quer dizer, continuo feliz, pois no próximo dia 30 o lançamento será em São Paulo, na biblioteca mais importante da minha cidade, a Mário de Andrade.

Minha primeira entrevista

Papeando com o Heitor

(do blog da Editora Biruta)

Esse garoto fez o que muitos leitores já desejaram: encontrar pessoalmente os personagens de seus livros favoritos. Todos os detalhes estão lá no livro “Os meninos da biblioteca”, que será lançado no dia 30/06, em São Paulo. Enquanto você se prepara para esse grande lançamento, conheça um pouco mais sobre o jovem (Le) Heitor, com quem papeamos essa semana.

Quem quiser ler minha primeira entrevista, ela está no blog da Editora Biruta no link: http://www.blogbirutagaivota.com.br/papeando/papeando-com-heitor/

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Colocado em Geral por Heitor. 9 Comentários