O bibliotecário do imperador e uma conversa com o autor

Já faz muito tempo que não escrevo aqui, tanto tempo, que devo explicações. Vou tentar… Como disse no post anterior, eu andava em crise, foi difícil me acostumar com esse lugar (como diz minha mãe) de personagem e narrador de um livro. Não sabia mais como me portar, antes eu vivia sossegado aqui no meu cantinho, podia fazer e escrever o que quisesse, planejava meus passeios, buscava minhas leituras, sem ter que dar satisfação a ninguém.

Claro que nunca fui irresponsável, fiz clubes de leitura, por exemplo, com algumas escolas, e acho que os professores não têm nenhuma queixa de mim. Lógico que eu fiquei muito feliz com a publicação do livro, afinal, ele também é meu, mas me gerou muitos conflitos e uma forte crise de identidade. Eu tinha que fazer alguma coisa, não estava mais suportando essa situação.

Como sempre acontece nessas horas, um livro me salvou, e olhem que foi um livro para adultos, que me deu muito trabalho de ler e entender. Mas como eu aprendi que nada na vida é fácil, eu encarei o desafio. Peguei esse livro emprestado do meu pai, ele leu e me contou um pouco da história, o livro se chama “O bibliotecário do imperador”, adorei o título, no final do post vou falar um pouco mais dele, agora só vou adiantar uma passagem, que me encorajou a tomar uma decisão.

Tem uma parte da história em que o personagem vem conversar com o autor do livro e ainda tira umas satisfações, nunca tinha visto isso acontecer, e me deu uma boa ideia: Vou conversar com o autor do meu livro, vou ter uma conversa com ele, de homem pra homem, ou melhor, uma conversa de personagem pra autor.

Outros dois personagens presentes ao lançamento, Helcias, à esquerda, e o bibliotecário João Gabriel, já lendo o livro

A nossa conversa

– O que está pegando, Heitor?

Ele me conhece, só de olhar pra mim, já percebe que não estou bem.

– Eu queria conversar umas coisas com você.

– Pode se abrir… Você sabe que entre a gente não tem segredo, não sabe?

– Sei.

E contei tudo pra ele, tudo que eu estava sentindo. Fui duro em algumas partes, precisava reconquistar o meu espaço, o acusei de me deixar de lado, nesse período de lançamento do livro, fui esquecido. E ele também não deixou por menos, disse que eu estava “viajando”, que o espaço foi sempre meu e se andei sumido, foi por minha culpa.

– Você participou de todos os eventos, foi ao Rio, esteve no lançamento da Biblioteca Mario de Andrade, que foi um sucesso, vendemos 141 exemplares naquele dia e teve até fila para o autógrafo. Não entendo por que não contou tudo isso no seu blog.

– É que eu estava meio perdido, crise de identidade é fogo. Vai me dizer que você nunca sentiu isso?

– Senti, mas você tem que reagir. Nunca ouviu nenhum autor falar que seus personagens tem vida própria?

– Ouvi.

– Então, você é o maior exemplo disso, Heitor, a vida é sua, cuide bem dela! Conversa com seus amigos, vai na editora Biruta, na biblioteca Anne Frank, na Monteiro Lobato, combina algum evento pra gente fazer e levar o livro. Não fique aí chorando as pitangas, vamos divulgar o nosso livro.

Segui os conselhos do meu amigo, o autor de Os meninos da biblioteca, o nosso livro e já comecei a fazer alguns contatos. No próximo post vou contar muitas novidades.

O bibliotecário do imperador

O bibliotecário do imperador, escrito por Marco Lucchesi e publicado pela Editora Globo conta a história de um personagem real, o Inácio Augusto César Raposo, bibliotecário responsável pela coleção de livros do imperador dom Pedro II. Como já disse, é um livro para adultos e que foi difícil de ler. Algumas partes, li mais de uma vez, outras, em voz alta, pesquisei sobre os autores que são citados no livro, tudo pra ver se conseguia entender melhor.

Fiz todo esse sacrifício, pois gostei do assunto e fiquei muito interessado pela história, já sabia que o dom Pedro II tinha uma biblioteca valiosa e eu quis saber o que tinha acontecido com ela, depois da Proclamação da República, quando o imperador foi exilado.

Além da conversa estranha do personagem com o autor, que eu disse e já já vou citar um trecho, o livro começa de um jeito bem diferente, o primeiro capítulo é um prefácio do revisor. Ele detona o livro que a gente está começando a ler, achei muito engraçado isso. O revisor diz que entende muito pouco de literatura moderna, e pelo que tem visto, quer entender cada vez menos.

Diz que esse livro “sofre os mesmos sintomas” da literatura moderna, que o seu autor deixa tudo pela metade, e ainda ri do trabalho do leitor, “este sim, paciente e laborioso, fazendo o que caberia à narrativa, abrir caminhos e atalhos que levam a uma clareira.” Foi o que eu fui lendo esse livro, “paciente e laborioso”, mas gostei do resultado, principalmente porque essa leitura me tirou da crise de identidade.

Trecho salvador

O trecho que me salvou está no capítulo 27, quase ao final do livro. O personagem principal da história, Inácio Augusto César Raposo, o bibliotecário do imperador, morto em 12 de maio de 1890, seis meses depois da Proclamação da República, bate à porta do autor, entra em seu escritório e diz: “Eis-me aqui, Marco Lucchesi”.

E protesta “contra a sem-cerimônia deste livro, a desfaçatez de viver dos outros, sem prejuízo de si mesmo, sanguessuga da história, curioso como as comadres de Windsor, pérfido e desleal como um Iago, cheio de ciúmes de um passado que jamais desnudou e possuiu.”

Eu nunca achei essas coisas do autor do meu livro, mas também tinha as minhas queixas. E se o personagem bibliotecário pôde dizer esses desaforos para o seu autor, por que eu também não poderia dizer umas verdades para o meu? – Eis-me aqui, João Luiz Marques.

Marco Lucchesi

Nasceu no Rio de Janeiro, escritor, poeta, ensaísta, tradutor, e membro da Academia Brasileira de Letras. Além de O bibliotecário do imperador, publicou Nove cartas sobre a divina comédia, O dom do crime, Ficções de um gabinete ocidental, A memória de Ulisses, Sphera, Meridiano celeste & bestiário, entre outros. Traduziu diversos autores como, Rûmî, Khlébnikov, Rilke e Vico, e foi traduzido para diversas línguas. Ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti, o Prêmio Alceu Amoroso Lima, pelo conjunto de sua poesia, o Prêmio Marin Sorescu, na Romênia, e o prêmio do Ministero dei Beni Culturali, na Itália.

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  1. Olá Heitor,
    Que bom que superou sua crise e está de volta ao seu blog pra nos apresentar novos livros, agora um do seu pai!
    Falando em livro, já li o seu e gostei muito da sua história.
    Estava bem ansiosa pelo lançamento e valeu a pena esperar!
    Bjs,
    Ana Lucia

  2. Oi, Ana Lucia.
    Que bom que você gostou do meu livro. Fico feliz!
    Pois é, peguei “O bibliotecário do imperador” emprestado do meu pai e foi este livro que me salvou da crise.
    Bjs,
    Heitor.

  3. Olá garoto,
    Estava com saudades, pena que não soube do lançamento do seu livro,avise os próximos para que eu possa ter seu autógrafo e te rever e também aquele senhor que aparece na foto, ele está ótimo e bonitão rs rs rs
    Um abraço saudoso
    Nena

  4. Oi, Nena.
    Tenho certeza que você estava na lista de convidados, vou ver o que aconteceu e lhe envio um e-mail. E se tiver outro, lhe aviso.
    Saudades, também.
    Um abraço,
    Heitor.

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