Abaixo a ditadura

Agora, em 2014 vai completar 50 anos do golpe que tirou João Goulart da presidência do Brasil e implantou a ditadura militar no nosso país, isso aconteceu no dia 31 de março de 1964 e a ditadura durou até 1985. Foram anos difíceis, já li e ouvi muitas histórias a respeito dessa época. Hoje vou falar de um livro que descobri no jornal, li no ano passado e estava esperando uma oportunidade pra falar dele: 1968 – Ditadura Abaixo, escrito por Teresa Urban e ilustrado por Guilherme Caldas.

A autora Teresa Urban morreu em junho de 2013, aos 67 anos, de infarto. Li a matéria do jornal anunciando sua morte e contando que ela era jornalista, defensora do meio ambiente, lutou contra a ditadura, e foi presa e torturada pelo regime militar. Ela queria explicar aos netos por que sua geração lutou contra um regime autoritário, e fez esse livro, que foi lançado em 2008, e junta textos e história em quadrinhos. Hoje vou falar dele, mas antes quero contar uma história bem legal que ouvi de meu pai e tem tudo a ver com esse assunto.

História de meu pai menino

Aprendi a gostar de muitas coisas com meu pai, como ler jornal, jogar futebol e contar histórias. Meu pai gosta de contar histórias e eu adoro ouvir as histórias dele, principalmente as de sua infância. Meu pai viveu a infância numa rua sem saída e sem asfalto, aqui mesmo na cidade de São Paulo. Ele jogava bola na rua com seus amigos e marcava o gol com pedras, só tinham traves quando jogavam no campo do adversário da rua de trás ou numa quadra de futebol-de-salão, que ficava a uns quinhentos metros da casa dele, mas isso era só de vez em quando, o dia-a-dia era no chão batido, mesmo.

A rua também era um ponto de encontro, no começo da noite eles se reuniam pra conversar e contar histórias, até já falei aqui no blog dessas conversas e das competições com histórias de assombração. Na rua de meu pai havia duas turmas, a turma dos mais velhos, que eles chamavam de “grandões” e a dos “pequenos”, que era a que meu pai pertencia. Na época em que aconteceu a história que vou contar agora, meu pai ainda era criança, e alguns dos “grandões” já saiam pra trabalhar e todo dia traziam histórias de fora pra contar na roda. Outros foram servir o exército e à noite voltavam com histórias emocionantes lá dos quartéis.

Meu pai disse que pela localização de seu bairro, todos os “grandões” serviam o exército no quartel de Quitaúna, que ficava na cidade de Osasco. E foi nesse quartel que o Nenéco serviu, “o Nenéco era irmão do Li, um amigo da minha idade” – lembrou meu pai. Um dia já estavam todos reunidos, conversando e o Nenéco chegou com cara de assustado:

– Vocês não vão acreditar o que aconteceu hoje lá no quartel…
– O que foi que aconteceu, Nenéco?
– O capitão enlouqueceu!
– Por quê? O que foi que ele fez?
– Ele mandou a gente carregar uma Kombi com fuzis.
– E o que vocês fizeram?
– Carregamos… E o capitão foi embora, saiu do quartel com a Kombi cheia de fuzis FAL.

Havia censura e essas notícias não saiam no jornal, só depois de alguns anos, estudando História, meu pai descobriu que o que o Nenéco contou era História importante do Brasil. Nesse dia, um capitão do exército saiu do quartel, levou consigo 63 fuzis FAL, três metralhadoras leves e munição, deixou as Forças Armadas e foi para a clandestinidade lutar contra o regime militar.

Sim, o capitão do Nenéco era o Lamarca! O Nenéco driblou a censura e veio dar a notícia na roda da rua de chão batido, onde meu pai e seus amigos jogavam futebol. EXTRA! EXTRA! Ele contou essa história algumas horas depois de ela ter acontecido, a história do dia em que o capitão Lamarca abandonou o exército e foi lutar contra a ditadura militar. E meu pai também estava lá pra ouvir a notícia.

Livro com HQ conta história da luta política contra a ditadura

Quem me conhece sabe que eu adoro uma luta política, depois que participei da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, não quero mais parar. Hoje estou participando de um movimento pra criar o Plano Municipal do Livro e da Leitura na cidade de São Paulo, já falei um pouco dele aqui. Esse processo andava meio parado na prefeitura, mas acabei de saber que a portaria que cria o grupo de trabalho (GT) já está pronta, e a secretaria de cultura quer marcar um evento público pra fazer as assinaturas. OBA! Depois conto mais detalhes.

Também, por tudo isso, adorei ler 1968 – Ditadura Abaixo. Escrito por Teresa Urban, com quadrinhos de Guilherme Caldas, e publicado pela Arte & Letra Editora, o livro é dividido em cinco partes: “Muito, muito antes de 1968”; “Pouco antes”; “1968”; “Depois”; e “2008”; ano em que o livro foi lançado. Em “Muito, muito antes de 1968”, a autora, só com textos, faz um resumo da história do Brasil e do mundo, começando antes do descobrimento, e indo até 1960, quando foi inaugurada a nova capital do Brasil, Brasília. Em “Pouco antes”, ainda em forma de textos, ela conta o período que começa em 1960, fala dos grandes movimentos políticos e culturais no Brasil e no mundo, do golpe em 1964, até chegar em 1967, quando foi criado o Conselho de Segurança Nacional (CSN).

A terceira parte, “1968”, é a maior parte do livro. No formato de quadrinhos de Guilherme Caldas, com “personagens fictícios e fatos, nem tanto”, uma moça “um pouco excêntrica”, um rapaz “bem educado”, “um sujeito misterioso”, um louco por teatro, outro “louco por cinema”, dois “rebeldes”, e um “líder” contam como se organizaram pra enfrentar a ditadura militar, e como viveram aqueles tempos movimentados e difíceis.

Além de mostrar essa história, nessa parte o livro reproduz fotos, capas de revistas, jornais, propagandas, letras de músicas, cartazes de peças de teatro e filmes da época; cartas e documentos da Polícia Federal e da União Paranaense dos Estudantes; manifestos, bilhetes; fichas policiais e lista de pessoas procuradas e perseguidas; e outras referências, que documentam e ilustram a história contada nos quadrinhos.

Na quarta parte, “Depois”, a autora volta à forma de texto e faz um resumo de como foram os anos seguintes à ditadura, até acabar, em 1985, e na quinta e última parte, “2008”, ela mostra como estavam os pesonagem dessa história no ano que o livro foi publicado.

Teresa Urban (1946 – 2013) nasceu e viveu em Curitiba (PR). Formou-se em jornalismo em 1965 pela Universidade Federal do Paraná. Participou dos movimentos estudantis, fez militância política contra a ditadura e ingressou na Organização Revolucionária Marxista (Polop). Foi presa diversas vezes e exilou-se no Chile de 1970 a 1972. Trabalhou no jornal A Voz do Paraná, colaborou com O Estado de S. Paulo, O Globo, revista Veja, entre outros, e foi pioneira, especializando-se em jornalismo ambiental. Também militou nessa área contribuindo para projetos do SOS Mata Atlântica, Mater Natura e ajudou no mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná, e a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conam). Escreveu mais de 20 livros.

Guilherme Caldas é artista plástico e ilustrador, nasceu em Curitiba, frequentou o atelier do pintor paranaense Andrade Lima e cursou Artes Plásticas em São Paulo, na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Viveu em São Paulo por 9 anos, criou fanzines e um deles, o Candyland virou uma linha de camisetas. Voltou para Curitiba em 1999 e passou a tocar a Candyland Comics, marca de roupa e escritório de ilustração e design gráfico. Atua no mercado publicitário, atende agências e produtoras como ilustrador, designer gráfico e projetos de animação. Em quadrinhos publicou Comércio, um dos volumes da coleção Mini Tonto, de Fábio Zimbres, entre outros.

Compartilhe:
  • Facebook
  • Twitter
  1. Heitor: Muito oportuna a sua postagem. O ser humano é um ente histórico e quando perde o sentido da história, produz catástrofes (políticas, ambientais, humanas…). Parabéns e continue sua luta, pois, quando de estiver de cabelos brancos e organizar clubes de leitura de velhos leitores para ler livros escritores novos, terá do que se orgulhar 😉

  2. Obrigado, Jeosafá, gosto e vou continuar a lutar.
    Também adoro clubes de leitura e quero organizar e participar até ficar velhinho de cabelos brancos, mas isso ainda vai demorar muitos anos 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *