Li um livro sobre uma luta política

No post anterior eu falei da minha primeira luta política, da luta contra o fechamento da biblioteca e de mais seis serviços públicos e a APAE, que ficam em um quarteirão do meu bairro e que a prefeitura quer vender para construir prédios. Hoje eu vou falar de um livro que eu li e que tem tudo a ver com isso. Quem me deu a dica desse livro foi a Petra Leão, que leu o post anterior, lembrou do livro e colocou um comentário no blog: “Leitor, eu tenho um livro pra te recomendar: chama-se É preciso lutar! da Marcia Kupstas…” (o comentário completo está lá no post). Eu pesquisei na internet o nome da Petra e descobri que ela é redatora e roteirista da revista Turma da Mônica Jovem, do Maurício de Sousa e faz um monte de coisa legal. Depois vou ver se ela quer dar uma “entrevista” para o blog!

É preciso lutar! foi escrito pela Marcia Kupstas, ilustrado por Ricardo Girotto, publicado pela editora FTD e recebeu da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 1988, o Prêmio Orígenes Lessa, de livro Altamente Recomendável para Jovens. A história dele é bem bacana e começa com a Margarida preparando o almoço e esperando o seu marido Juca sair do banheiro para ajudar a colocar a mesa, pois os seus filhos, a Zizi, de 14 anos e o Salviano, de 10 já estavam chegando da escola e deviam estar com uma “fome selvagem.” Todo dia na casa deles era assim, mas naquele dia foi diferente. A Margarida começou a ouvir uma discussão que vinha da rua. Eles moravam no 2º andar de um prédio. Ela foi até a sala, abriu a janela e viu um homem amarrado a uma árvore, na altura do apartamento dela.
– Boa tarde, falou o homem.
– Boa tarde, respondeu calmamente a Margarida e logo se virou para dentro da casa e gritou. – Juca, tem um homem pendurado na janela!
E o homem respondeu:
– Não, minha senhora. Não é pendurado na janela. É pendurado na árvore.

Quem estava pendurado na árvore era o Kanassa de Moura, um homem de 52 anos, pintor, vizinho da Margarida e que morava na única casa da rua Marcelina, que só tinha prédios. Ele subiu lá para proteger a árvore, uma tipuana. A prefeitura queria derrubar a tipuana, que era saudável e forte, dava umas flores amarelas e estava lá plantada há mais de 40 anos. E o Kanassa não ficou sozinho nessa luta. Logo a Zizi se juntou a ele e vieram outros, o César – que depois virou namorado da Zizi e essa parte da história também é bem legal – o Salviano, irmão da Zizi; a Débora e os seus três irmãos, Valério, Pedro e Igor; o Filipe e o Martim, que estudavam à tarde junto com o César; e duas amigas da Débora, a Fátima e a Hebe. Todos formaram um grupo e se organizaram para defender a tipuana e não deixar a prefeitura cortar a árvore. As reuniões do grupo aconteciam na casa do Kanassa. Fizeram abaixo-assinado para pressionar o prefeito e saíram pela rua, de casa em casa para pegar as assinaturas. Eles conseguiram o apoio do seu José, o português dono da padaria, que também passou o abaixo-assinado, do porteiro do prédio e da maioria das pessoas da rua e do bairro.

O Kanassa subia na árvore todas as vezes que a prefeitura vinha para cortar a tipuana e acontecia a maior confusão, baixava a polícia e vinha até a televisão. Numa das vezes a repórter perguntou ao Kanassa por que ele fazia isso.
– Porque é o jeito mais rápido de impedir a derrubada da árvore.
– O senhor faz isso para defender a ecologia?
E o Kanassa respondeu:
– Olha, eu nem pensei na ecologia. (risos.) Eu pensei, na hora, só em defender a árvore. É uma tipuana de mais de 40 anos, quando eu me mudei pra cá ela já existia. Isso nem é uma árvore, é um monumento!
A história dessa árvore parece com a história da Biblioteca Anne Frank. A biblioteca tem 65 anos e é um patrimônio do nosso bairro. E eu também entrei nessa luta só para defender a minha biblioteca, mas agora eu estou descobrindo muita coisa.

Marcia Kupstas nasceu e mora em São Paulo. Formou-se professora pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Escreve para suplementos literários e revistas destinadas ao público adulto e jovem. Sempre gostou de ler e de escrever, aos quinze anos já mandava seus contos para concursos. Para ela, escrever “representa uma necessidade orgânica tão intensa quanto a de comer, respirar e amar”.

Ricardo Girotto é formado em Publicidade e Propaganda pela PUC de Campinas. Começou a trabalhar como ilustrador no jornal Diário do Povo em 1987, e atualmente trabalha no Diarinho, suplemento infantil do jornal Diário de Grande ABC. Trabalha para as principais editoras do país e ilustra suplementos infantis, revistas, livros didáticos e de literatura para o público infantil e juvenil há mais de 20 anos.

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Notícias da minha luta política

Hoje eu liguei para o pessoal da Sintaxe* e perguntei o que eles achavam de eu fazer um post só sobre o movimento contra o fechamento da minha biblioteca. Eles responderam:

– Faz como das outras vezes, Heitor. Fala do movimento no começo do texto e depois fala de um livro, também. Você fez isso no post anterior, contou sua conversa com o bibliotecário e depois falou do livro do Pedro Bandeira. Por sinal, ficou bem legal!

– Obrigado! Mas é que desta vez eu tenho muita coisa pra contar, saiu notícia no jornal, eu participei de uma reunião… Acho que o post vai ficar muito grande!

– Tudo bem! Desta vez passa. Mas toma cuidado, o seu blog é sobre literatura e não sobre política.

Preocupado com a advertência deles, mas, motivado pela ideia de que fechar bibliotecas faz mal à literatura, eu escrevi o post de hoje.

Na semana passada eu estava lendo jornal com o meu pai. Gosto muito de ler jornal com ele, vou vendo as notícias e quando eu não entendo, ele me explica. Mas nesse dia saiu uma notícia, que eu estou entendendo muito bem e acompanhando de perto. Ele viu primeiro e me chamou.

– Venha ver, Heitor, hoje tem notícia da sua biblioteca, da sua primeira luta política.

Meu pai que inventou essa história de que participar do movimento contra o fechamento da biblioteca é a minha primeira luta política e eu estou adorando essa história.

– Que legal, pai. Deixa eu ver a notícia.

– E parece ser boa, ela está dizendo que vocês estão ganhando a luta.

– É mesmo! Deixa eu ler, então.

A notícia do jornal dizia que o processo de tombamento do quarteirão foi aberto. O Condephaat, que quer dizer Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado já começou a analisar o tombamento do lugar onde tem além da biblioteca, um teatro, duas escolas, uma creche, dois serviços de saúde e a APAE. Eu fiquei muito feliz, pois me disseram que se esse processo começasse a prefeitura não podia mexer em nada, até que ele fosse concluído. Se fosse aprovado, a minha biblioteca estaria salva, seria um patrimônio e ninguém mais poderia mexer com ela. E se não fosse aprovado, a prefeitura ainda teria que enviar o seu projeto de “tombamento” (que neste caso é derrubar, mesmo) para a Câmara Municipal para avaliação dos vereadores. A prefeitura devia esperar o resultado desse processo para continuar com seus planos, mas parece que a coisa não é bem assim. Pois, diz no jornal, que ela vai prosseguir com a sua intenção de vender a área para uma construtora, mesmo com a abertura do processo de tombamento. O jornal diz também, que “o terreno pode até ser vendido, mas toda a área e os prédios que existem nela não podem sofrer nenhum tipo de alteração.” Seria difícil alguém comprar o terreno não podendo mexer nele, mas, me disseram que nesse mundo da especulação imobiliária a gente nunca sabe direito.

Também teve uma reunião da organização do movimento e me convidaram, mandaram um e-mail me avisando e eu fui. Estavam todos felizes, mas ainda preocupados. Disseram que estamos ganhando, marcamos dois gols e está dois a zero pra gente, mas o jogo não acabou e vamos continuar lutando. Havia umas vinte pessoas nessa reunião e todos se apresentaram. Tinha um moço de uma ONG que fica no bairro, que trabalha com “políticas públicas e acompanha as câmaras municipais”, ele veio apoiar e oferecer ajuda para o nosso movimento. Uma moça da associação em defesa dos bairros dos jardins também veio oferecer ajuda. Outro moço, irmão de uma frequentadora da APAE, disse que mudar de lugar é um risco muito grande para a saúde das pessoas que se tratam lá. Também teve um moço do CAPS, que quer dizer Centro de Atenção Psicossocial, que disse que também é muito importante manter esse serviço de saúde no mesmo lugar. Outro que conhece bem a Câmara Municipal, disse o que nós devemos fazer para convencer os vereadores da importância em preservar esse patrimônio e votarem ao nosso favor, caso o processo seja encaminha pra lá. Outro que trabalha com a memória do bairro disse que toda a história desse nosso movimento está sendo documentada e pode virar um livro. (Oba! Vou ler esse livro!). A Eva Wilma também estava lá. Eu já conversei com ela uma vez, na passeata, e contei aqui no blog, no post “Fui à minha primeira passeata”. Ela disse que por ser atriz “fala emocionalmente”, e acha que devemos manter o quarteirão como está, principalmente, por ser “vital para o meio ambiente e um oásis do bairro.” Outro que falou emocionalmente foi o Helcias, que até já colocou comentário aqui no blog. Ele é da Associação Grupo Memórias do Itaim Bibi e sempre que fala anima todo mundo a continuar lutando na defesa do nosso quarteirão. Eu também me apresentei, disse que o meu nome é Heitor, tenho 12 anos e escrevo um blog. Falei que eu gosto muito de ler e que vou sempre à Biblioteca Anne Frank para pegar livros e não quero que ela seja fechada, que saia do quarteirão ou que vire um prédio. Gosto de ler no meio das árvores e lá está cheio de árvores.

– E depois, foi o Monteiro Lobato que escolheu o lugar onde ela fica e a prefeitura não pode tirar de lá. Assim eu terminei o meu “discurso”, como Helcias e Eva Wilma, também emocionado.

Quem quiser apoiar a “nossa luta” ainda pode colocar seu nome no abaixo assinado que está no link: http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7756

* Sintaxe é a assessoria de imprensa que criou e me deu de presente este blog. Eles cuidam das mudanças e também divulgam.

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Li um livro do Pedro Bandeira

Na semana passada eu fui à biblioteca para pegar um livro emprestado e saber das novidades da “nossa luta” contra o fechamento. A prefeitura quer fechar a biblioteca do meu bairro para construir um prédio no terreno. Já falei disso em outros posts. Chegando lá, encontrei o meu amigo João Gabriel, o bibliotecário da Anne Frank.

– Oi, João. Tudo bem? Vim pegar um livro do Pedro Bandeira e saber como estão as coisas.

– Do Pedro Bandeira?! Ele me perguntou, espantado.

– Sim. Por quê? Eu respondi e devolvi a pergunta.

– Você não vai acreditar… Outro dia eu fui à Câmara falar sobre a Biblioteca Anne Frank e advinha quem estava lá?

– O Pedro Bandeira?!

– Sim, em pessoa! Ele também foi falar e falou depois de mim. Fiquei ao lado dele!

– E você conversou com ele?

– Conversei. Contei da biblioteca e disse que eu estava muito feliz em conhecê-lo pessoalmente.

– Ele é legal? Ele vai apoiar a nossa luta?

– Ele é muito legal e está do nosso lado.

– Então agora eu vou ler um livro dele com mais gosto! Você me ajuda a escolher.

– Claro que eu ajudo, Heitor. Estou aqui pra isso!

– Legal, João! Mas antes me conta. Como andam as coisas por aqui?

– Não sei se você já sabe, mas na outra semana tivemos uma vitória. A prefeitura tentou impedir, mas o Ministério Público decidiu manter o inquérito civil para a investigação sobre a venda do quarteirão. Com isso vamos ganhando tempo. Tem também o projeto de tombamento, se o processo for iniciado, por um bom tempo, até que o projeto seja avaliado, ninguém vai poder mexer com a nossa biblioteca.

– Que legal, João! Eu acho que vamos conseguir vencer.

– Eu também estou otimista, Heitor, mas temos que continuar lutando. Também tem um pessoal organizando um seminário e convidando uns especialistas para falar. Se for marcado, eu te aviso o dia. Acho que vai ser bacana!

– Me avisa, mesmo. Não posso faltar nesse dia. Outra coisa, você me falou que tem umas pessoas mais velhas, que frequentaram a biblioteca quando eram crianças. Queria conversar com elas. Você pode me apresentar alguma?

– Claro que eu posso. Sabe que também tem uns depoimentos escritos e guardados aqui, de pessoas que fizeram parte da história da Biblioteca Anne Frank. Você quer ver esses depoimentos?

– Oh, se quero! Vamos marcar um dia! Quero vir aqui para ler todas essas histórias.

– É só você me falar. Elas estão aqui, guardadas…
– Sim, Heitor, tem mais uma coisa… Outro dia uma amiga mandou um e-mail me perguntando se você existe, mesmo, ou se é um personagem. O que eu digo pra ela?

– Deixa eu pensar… Já sei, vamos enganar a sua amiga… Diz pra ela que eu não existo e que tudo que está escrito aqui no blog é invenção minha.

O João Gabriel riu e disse:

– Você não existe, Heitor!!!

Ele disse isso daquele jeito que as pessoas falam, quando acham alguém muito bacana. Gostei! Além de existir, acho que sou um menino legal.
– Agora vamos lá, então, João, escolher o meu livro do Pedro Bandeira.

Entramos nas salas dos livros e o João me mostrou uma estante.

– Tudo isso é Pedro Bandeira. O que você quer levar?

– Nossa! Quanto livro ele escreveu! O que você sugere?

– Pra começar você pode ler A marca de uma lágrima. Acho que você vai se apaixonar por essa história.

O João tinha razão, eu me apaixonei pela história e pela Isabel, a personagem principal deste livro. A história de A marca de uma lágrima (Editora Moderna) começa com uma conversa entre a Isabel e seu pior inimigo, “o mais cruel, o mais cínico, o mais impiedoso, o inimigo que falava a verdade, sempre a verdade”: o espelho do banheiro do seu quarto. Isabel se achava feia, tinha 15 anos e se apaixonou pelo seu primo Cristiano, que não via desde que os dois eram crianças. Mas Cristiano começou a namorar sua melhor amiga, a Rosana. Isabel lia bastante, adorava escrever e escrevia muito bem, até poesia ela fazia.

Antes de ti, Cristiano,

Eu nem sabia sequer,

Fui metade de mim, mesma,

Fui pedaço de mulher…

Estes versos ela escreveu para sua amiga Rosana entregar ao Cristiano, como se fossem da Rosana, e ajudá-la a conquistar o amor do seu primo, que também era a sua grande paixão.

Vou deixar meu peito aberto,

Rosana de amor sem fim,

Sem porteiro, sem vigia,

Para que entres em mim…

E estes foram para o Cristiano entregar a Rosana e retribuir todo amor que recebia pelas cartas e poemas de sua amada.

Isabel se meteu nessa confusão e nem conseguia enxergar e suportar as declarações de amor de outro menino da escola, o Fernando, que gostava das mesmas coisas que ela e também adorava livros.

No final o Cristiano vai ficar muito apaixonado pela Rosana. Não pelo que ela é, mas pelo que ela escreve. Isso vai dar muita confusão! E a história continua… a diretora da escola aparece morta e todos pensaram em suicídio. Isabel será a testemunha chave para desvendar esse crime. E tem muito mais… Gostei do Pedro Bandeira, parece que todas as suas histórias são cheias de emoção. Vou voltar na biblioteca e pegar mais livros dele.

Pedro Bandeira nasceu em Santos em 9 de março de 1942, morou em São Paulo de 1961 até 1999 e depois se mudou para São Roque (SP), onde mora atualmente. Estudou Ciências Sociais, trabalhou como professor e ator de teatro, publicitário, jornalista e editor. A partir de 1983 começou a publicar seus primeiros livros, a se dedicar somente a literatura e virou um grande escritor. Além de A marca de uma lágrima, escreveu também A droga da obediência, Pântano de sangue, Anjo da morte, Agora estou sozinha, O medo e a ternura, O grande desafio, A hora da verdade, Prova de fogo, Brincadeira mortal, entre muitos outros. Ele diz que os trabalhos em jornais e revistas o ajudaram na sua carreira de escritor. “O jornalista é obrigado a estar preparado para escrever sobre quase tudo”. Já a inspiração para cada história, ele fala que vem dos livros que leu e dos acontecimentos de sua própria vida. Ele é o autor de literatura juvenil mais vendido do Brasil. Ao todo já vendeu mais 21 milhões de exemplares dos seus livros.

Conversa engraçada

A biografia do Pedro Bandeira me fez lembrar uma conversa muito engraçada, que eu ouvi outro dia, parece uma piada.

Uma pessoa que queria escrever um livro, e também estava interessada em ganhar dinheiro perguntou a outra:

– Esse negócio de escrever livro dá dinheiro?

A outra respondeu:

Depende. Não basta escrever, tem que vender. Eu, por exemplo, conheci um cara que escreveu um livro e vendeu tudo…

Vendeu carro, vendeu casa…

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Ganhei mais livros das editoras

No final do ano eu falei aqui, que duas professoras tinham procurado o pessoal da Sintaxe* para fazer algum trabalho com o blog. Pois é, parece que a coisa vai dar certo! Eles me falaram que com uma professora o projeto avançou, mas eu não posso contar nada, ainda, “faltam fechar alguns detalhes importantes”, eles me disseram. E me fizeram prometer que eu ia esperar a autorização deles para falar qualquer coisa aqui. Só o que eu posso dizer é que o projeto é bem legal! Estou muito feliz com o que vamos fazer aqui no blog. É muito bacana, mesmo! Vai ser tipo, um clube. Vocês vão ver! Estou louco para contar tudo, mas ainda não posso. Eu prometi!    

Outro dia eu contei num post que eu tinha ganhado um livro de uma editora. Na semana passada eu ganhei mais três, de outras editoras. A Marilu, uma jornalista e assessora de imprensa, que até já colocou comentário aqui no blog, ligou para a Sintaxe e pediu o meu endereço: – Vocês podem me passar o endereço do Heitor? Eu quero mandar uns livros para ele. E ela mandou, mesmo! Os livros já chegaram. E vieram do mesmo jeito que chegou o outro. Pelo correio e com o meu nome no envelope: “Para o Blog do Le-Heitor”. Este blog só me dá alegria! Eu já disse, foi o melhor presente que eu ganhei nos últimos tempos. Já li os três livros que a Marilu me deu, gostei muito e hoje vou falar deles.

São dois livros da editora Cia dos Livros e outro da Cortez Editora. Vou começar falando de Os olhos mágicos do João, escrito por Marô Barbieri, com ilustrações de Ana Terra e publicado pela Cia dos Livros. Com a história desse livro eu aprendi que as coisas são como a gente vê, depende de como a gente olha pra tudo. Uma vez, esse João de olhos mágicos olhou para umas latas e tampinhas espalhadas pelo chão e viu um trem bem comprido, com uma locomotiva apitando e subindo o morro. Para esse João, qualquer coisa era outra coisa, ele piscava os olhos e logo aparecia uma coisa nova no seu pensamento. Outra vez, uns pedaços de papéis voaram com o vento e o João viu fantasmas gargalhando na sua frente e brincando de esconde-esconde. Esse João via cada coisa! Sempre inventando o que via e fazendo mudanças pro mundo ficar mais bonito.

O outro livro, também publicado pela Cia dos Livros é o Danico, o cão nanico. Escrito por Alexandre Rodrigues, com ilustrações de Ari Nicolosi, este livro conta uma história em rimas, como uma poesia. Deve dar muito trabalho escrever um livro assim. O escritor tem que buscar a palavra certa para colocar no lugar e rimar. Mas é muito gostoso ler livros que contam histórias com rimas. Quando eu era criança (já disse, hoje sou pré-adolescente) e ainda não sabia ler, eu adorava quando minha mãe lia esses livros rimados para mim. Eu ouvia o som das palavras, na voz dela, e imaginava um monte de coisas. Criava histórias em cima das histórias que ela me contava, feito o menino João, da história do outro livro. O Danico deste livro era um filhote que brincava com penico, comia todas as roupas da casa e fazia muita confusão. Não obedecia ninguém, era malcriado, não queria ser ensinado e se vestia de pato e de macaco. Um dia ele cresceu, saiu de casa, ficou com medo e sua vida se transformou. Mas essa parte eu não vou contar, está lá no livro, o que no final, aconteceu com o Danico.

O terceiro livro é o Perdidos e guardados, publicado pela Cortez Editora, escrito por Erica Pontes e com ilustrações de Alexandra Fernandes, a Leka. Este livro conta a história da Bia, uma menina que adorava sonhar e que inventou uma brincadeira diferente. Ela, de repente, começou a achar o que os outros perdiam e guardar tudo em uma caixa bem grande, que ficava escondida no fundo do armário. No começo ela guardou alguns objetos comuns, que ficavam pela casa: borracha gasta, moeda antiga, alfinete de fralda, recorte de revista. Mas, depois, a menina começou a perceber que as pessoas, sempre distraídas, perdiam objetos muito importantes. Então ela decidiu guardar esses objetos até que o dono se lembrasse e desejasse reaver esse tesouro esquecido. Do papai, ela guardou uma bola de queimada bem antiga, com as lembranças do tempo em que ele era menino. Da mamãe, um laço de fita lilás e o desejo de ser a primeira bailarina. E assim Bia foi guardando tudo. Uma gota de lágrima da vovó num xale de renda. O medo do vovô de envelhecer e não ser mais útil, ela também conseguiu guardar na caixa. E assim foi, guardou lembranças da professora, da melhor amiga… Até que a caixa ficou muito pequena para guardar tantos tesouros e então a menina teve uma ideia para resolver esse problema. E a ideia da Bia está lá, nesse livro, revelando a importância desses nossos tesouros.

*A Sintaxe é a assessoria de imprensa que criou e me deu de presente este blog. Eles cuidam das mudanças e também divulgam.

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Li Os meninos da rua Paulo

No ano passado derrubaram umas casas da minha rua para construir um prédio. As casas foram derrubadas, mas a construção do prédio demorou para começar. Acho que foi problema de alvará, pelo menos foi o que eu ouvi falar. Nesse tempo, o terreno ficou vazio e os meninos maiores começaram a entrar lá para jogar bola. Os grandões – como chamamos os meninos mais velhos – ocuparam o terreno. Depois, eu e minha turma aproveitamos a ocupação e usamos o terreno como nosso campinho, também. O moço que tomava conta, no começo ficou bravo, mas depois ele falou com o engenheiro da construtora e eles deixaram a gente brincar no terreno vazio, enquanto não começava a construção. Essa brincadeira durou um bom tempo e foi bem legal. Até jogo contra marcamos lá! Hoje o prédio já está em construção e perdemos o nosso campinho. Eu me lembrei desta história por causa de um livro muito legal, mas muito legal, mesmo, que eu li nesta semana.

Eu li Os meninos da rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár, publicado pela editora Cosac Naify. A história deste livro se passa em Budapeste, na Hungria, em 1889. Um grupo de meninos ocupa um terreno baldio para brincar e neste terreno eles criam um monte de histórias, brincam, jogam péla – um jogo parecido com o tênis – e fazem as reuniões de um clube, a Sociedade do Betume. Até um exército montam lá para defender o grund – como eles chamam o lugar – da invasão de outro grupo de meninos.

A turma era formada pelo Boka, o chefe; o Csele; o Csónakos; o Weiss; o Geréb; o Barabás; o Csengey; o Nemecsek, o lourinho, personagem muito importante da história; e muitos outros. Nemecsek era o único soldado raso, os outros eram todos oficiais. Era ele quem recebia as ordens de toda turma. Para não dizer que ele era o único, havia outro em quem todos mandavam: o cachorro que vivia no terreno e que também era um soldado raso. Advinha qual era o nome desse cachorro… Heitor! Heitor era o nome do cachorro. Lendo o livro muitas vezes eu quis ser o Nemecsek, mas com esse cachorro na história, ficou difícil de imaginar.

O livro começa contando o fim de uma aula de química. As aulas acabavam a uma hora e faltavam quinze minutos para ela terminar. Nessa hora o som de uma pianola entrou pela janela tocando uma alegre canção húngara e todos começaram a sorrir e a se agitar. Arrumavam, guardavam o material e se aprontavam para sair, assim que o sinal tocasse. Já estavam prestando mais atenção ao que acontecia fora da sala do que ao que o professor dizia. Neste momento o professor interrompeu a bagunça e perguntou: – O que é que há? E todos voltaram a ficar em silêncio e imóveis, sentados nas carteiras. O professor então pediu que o Csengey, que era o monitor, fechasse a janela. Nesse momento Csónakos pediu a Nemecsek que passasse um bilhete para o Boka. No bilhete estava escrito: Às três da tarde, assembléia geral. Eleição do presidente, no grund. Divulgar. Todas as tardes eles frequentavam o grund e era lá que brincavam e viviam as suas aventuras.   

A história é contada pelo autor, que algumas vezes parece ter feito parte daquela turma. Eu acho que aquela era a turma de Ferenc Molnár, quando ele era criança. Molnár nasceu na Hungria em 1878, trabalhou como jornalista, estudou direito em Genebra e aos 20 anos já publicava contos e poemas. Publicou Os meninos da rua Paulo em 1907. Por causa da guerra foi para os Estados Unidos em 1939 e morreu em Nova York em 1952. Este livro chegou ao Brasil em 1952, traduzido por Paulo Rónai, que também nasceu na Hungria, na cidade de Budapeste, onde se passa essa história, e em 1907, ano da primeira publicação deste livro. Paulo Rónai cresceu em Budapeste lendo os livros de Ferenc Molnár. Foi professor de latim e estudou literatura clássica, francês, italiano e húngaro. Aprendeu português, veio para o Brasil em 1941, também por causa da guerra, e naturalizou-se brasileiro. Tradutor, escritor e pensador, Paulo Rónai foi o grande divulgador da literatura brasileira no leste europeu e da literatura de lá, aqui. Ele morreu em Nova Friburgo (RJ) em 1992.

Os meninos da rua Paulo formaram um exército e conseguiram defender o seu grund da invasão dos meninos do Jardim Botânico, que queriam ocupar o terreno baldio para jogar péla. Mas, no final da história, não conseguiram defender o lugar de uma ameaça maior: construíram no terreno um prédio de quatro andares o que acabou de vez com o sonho dos meninos (isso é contado logo no começo do livro, por isso não estraguei o final da história, tá!). Esse final me fez lembrar o meu grund atual: a biblioteca do meu bairro. É na minha biblioteca que eu encontro muitos livros legais e vivo as minhas aventuras. E como em Budapeste de 1889, hoje querem destruir, como destruíram o sonho dos meninos de lá, os meus sonhos daqui. Como já disse em outros posts, a prefeitura quer vender o terreno onde fica a biblioteca para construir um prédio no lugar. Vou convocar o exército dos meninos da rua Paulo para defender a minha biblioteca! Vou pedir a ajuda deles e quem sabe, desta vez, a gente consegue vencer. Quem quiser apoiar a “nossa luta” pode colocar seu nome no abaixo assinado que está no link: http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7756

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Li um conto fantástico de Murilo Rubião

Hoje vou falar de um conto bem bacana que eu li nesta semana, mas antes quero contar como foi a audiência pública na Câmara, em defesa da biblioteca e do quarteirão da cultura do meu bairro. Na semana passada eu fui à Câmara Municipal, meu pai me levou! A sala estava cheia e vi algumas pessoas que também participaram da passeata, que eu contei no post anterior. Muita gente falou, eu prestei atenção e anotei algumas coisas para contar aqui no blog.

Um promotor está encaminhando um inquérito civil – eu acho que é esse o nome – para entrar com uma ação judicial, no caso do projeto de desapropriação ser encaminhado para votação dos vereadores. Ele vai mostrar que o quarteirão é um bem público, que deve ser preservado.

Uma arquiteta está preparando o projeto de tombamento do espaço. Esse projeto quer provar que o quarteirão é patrimônio histórico e cultural. Se o processo de tombamento for iniciado, ninguém pode mexer no quarteirão até que o projeto seja avaliado.

A organização do movimento está preparando outras manifestações e conversas com os vereadores e também está passando um abaixo-assinado. Sai bastante animado de lá. Tem muita gente lutando pela minha biblioteca. Meu pai me falou que essa é a minha primeira luta política e eu estou gostando muito dela!

Mas a minha leitura continua e nesta semana li o conto O ex-mágico da taberna Minhota, do escritor mineiro Murilo Rubião, em um livro publicado pela Editora DCL e ilustrado por Ana Raquel. Esse conto foi publicado pela primeira vez no livro o Ex-mágico, em 1947. Eu comentei com a Maria Viana, que editou esse livro da DCL, que eu ia escrever sobre o Murilo Rubião no blog. Conheci a Maria na Bienal e já falei dela aqui (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=308). Conversei com ela pelo telefone e depois mandei um e-mail. Ela respondeu o meu e-mail:

“Oi, Heitor. Fiquei muito contente ao saber que você leu o Ex-mágico da Taberna Minhota. O Murilo Rubião reescrevia muito suas histórias antes de publicá-las em livros. Entre 1939-1944, ele se correspondeu com Mário de Andrade, para quem enviava suas histórias e compartilhava suas dificuldades de escrever. Em uma visita a um sebo em Belo Horizonte, encontrei um livro organizado pelo professor Marcos Antonio de Moraes, intitulado Mário e o Pirotécnico Aprendiz. Seguem trechos de duas dessas cartas. Espero que você leia outras histórias escritas pelo Murilo Rubião. Quando eu tinha a sua idade, li “Teleco, o coelhinho” e gostei muito.

Trecho de carta endereçada a Mário de Andrade em que o contista mineiro escreve sobre seu processo criativo

Belo Horizonte, 23 jul. 1943

Mário de Andrade

(…) Ainda não consegui, após cinco anos de uma luta feroz com a literatura de ficção, realizar um conto definitivo. (…) Infelizmente, escrever é para mim a pior das torturas. Uma simples carta, como esta, me custa sangue, suor e um sacrifício imenso. Arranco, de dentro de mim as palavras a poder de força e alicates. Por outro lado, a minha imaginação é fácil, estranhamente fácil. Construo meus “casos” em poucos segundos. E levo meses para transformá-los em obras literárias. Daí meus defeitos. Achando facilidade em inventar e dificuldade em escrever, cuido quase exclusivamente da última. Mas, agora, sinto que o meu instrumento está melhorando e que já posso cuidar melhor da “invenção”.

Trecho da resposta de Mário de Andrade para Murilo Rubião

São Paulo, 5 abr. 1944

Murilo Rubião,

(…) Mas afinal das contas, Murilo Rubião, não será isso mesmo, o sofrimento de artista como arte, a pedra de toque provando a existência do artista em você?… Não dá a medida do valor, eu sei, isso depende até de elementos que independem do próprio artista infelizmente – mas o sofrimento prova a existência, a legitimidade do artista. Não creio possível o artista sem dor, a arte sem dor. Essa dor de fazer, essa dúvida, essa insatisfação, essa luta pelo melhor, essa inquietação pelo ainda melhor que pode surgir já tarde, essa angústia da eterna pergunta eternamente sem resposta: “estará bom?”

Adorei o e-mail da Maria, os trechos das cartas e a contribuição que ela deu para o meu blog! Vou ler outros contos do Murilo Rubião.

Descobri Murilo Rubião pesquisando sobre literatura fantástica. Ele é considerado precursor e um dos principais representantes deste gênero no Brasil. Eu já falei aqui de uns livros de literatura fantástica que eu li. Foram dois escritores brasileiros e um inglês e estão no post “Li três romances fantásticos”  (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=579). As histórias contadas na literatura de ficção são sempre inventadas, mas poderiam ser de verdade. Por exemplo, as coisas que acontecem na cidade de Itaguaí, no livro O Alienista, do Machado de Assis (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=674),  são exageradas, mas poderiam ser verdadeiras. Não poderiam? Agora, um mágico tirar do bolso o dono de um restaurante!? E foi isso que fez o ex-mágico da taberna Minhota do Murilo Rubião. E ele nem se espantou. O dono do restaurante, sim, assustado perguntou como o mágico tinha feito aquilo e em seguida lhe deu um emprego: a partir daquele dia ele passou a divertir, com as suas mágicas, os frequentadores da casa.

Mas o mágico não durou muito por lá e foi logo demitido. Ele só dava prejuízo ao dono da casa, pois tirava do paletó almoços gratuitos para os espectadores. De lá ele foi trabalhar no Circo-Parque Andaluz, suas apresentações empolgaram as multidões e deram muito lucro ao dono da companhia.  No circo ele tirava do chapéu coelhos, cobras, lagartos… e no último número fazia aparecer entre os dedos um jacaré, apertava o animal pelas pontas, o transformava numa sanfona e encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Com tudo isso, o mágico ficou muito famoso, mas mesmo assim, ele, que já era uma pessoa triste, com o sucesso, ficou pior, sua vida se tornou insuportável e é o que ele conta nesse conto.

Murilo Rubião nasceu em Carmo de Minas em 1916. Formou-se em Direito em 1942, foi jornalista e trabalhou na Folha de Minas. Foi chefe de Gabinete do governador Juscelino Kubitschek e adido na embaixada do Brasil na Espanha.  Criou e dirigiu o Suplemento Literário de Minas Gerais de 1966 a 1969. Publicou os livros O ex-mágico, A estrela vermelha, Os dragões e outros contos, O pirotécnico Zacarias, O convidado, A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento e outras histórias. Morreu em Belo Horizonte em 1991.

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Fui à minha primeira passeata

Já falei muitas vezes aqui da biblioteca do meu bairro, da minha biblioteca, a Anne Frank. Quando eu era criança, hoje já sou um pré-adolescente :-), ia lá com a minha mãe ou com a minha professora e a turma da escola. Depois eu cresci e aprendi a ir sozinho. Contei aqui o dia em que eu fui sozinho, pela primeira vez, à biblioteca do meu bairro (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=172). Depois desse dia, eu fui muitas vezes. Vou lá para pegar livros, ler, estudar ou assistir a contações de histórias. Ela fica em um lugar gostoso, cheio de árvores e passarinhos. Eu também já falei aqui que a prefeitura quer fechar a minha biblioteca. Eles pretendem vender o terreno onde ela fica para construir prédios. Parece que isso tem um nome, chama-se especulação imobiliária. É um terreno bem grande, um quarteirão, e não tem só a biblioteca, tem também duas escolas, creche, teatro, dois serviços de saúde e a APAE. A biblioteca está lá desde 1946, há 65 anos. Primeiro ela foi construída onde hoje fica o teatro, e em 1955 foi inaugurada a casa onde ela está até hoje. Nesse tempo ela passou por muitas reformas, a última foi em 2004, em que ela foi totalmente transformada e ganhou instalações bem modernas, mas a fachada da casa foi preservada. A Anne Frank é a primeira biblioteca infantil de São Paulo, construída fora do centro da cidade. Nesta semana eu fui lá por outro motivo. Fui participar de uma passeata em defesa daquele quarteirão e da minha biblioteca. Fui à minha primeira passeata.

A passeata reuniu quase mil pessoas, que caminharam pelas ruas com faixas, carro de som e cantaram: “Aha-uhu, o quarteirão é nosso!” No final todos deram as mãos e abraçaram o quarteirão. Eu estava lá, de mãos dadas com as pessoas, ajudando a defender a minha biblioteca. Estavam também o padre da paróquia, um deputado, um vereador, as crianças da creche, os meninos e meninas das escolas do quarteirão, e de outra escola estadual que fica no bairro. Quem está apoiando esse movimento desde o início e também foi à passeata é a atriz Eva Wilma, que vive há muito tempo na rua da biblioteca e sabe da importância dela e dos outros serviços para as pessoas que moram ou trabalham no bairro. Eu conversei um pouquinho com a Eva Wilma, falei para ela que eu frequento a biblioteca, tenho um blog e queria saber o que ela acha do fechamento da Anne Frank. E ela me disse:
– “A Biblioteca Anne Frank deve ser preservada, pois, além de ser muito importante para a comunidade, ela tem uma importância histórica, que remonta a Monteiro Lobato, e poucas pessoas sabem disso.”
Como tinha muita gente querendo falar com ela, eu não consegui perguntar o que Monteiro Lobato tinha a ver com a minha biblioteca, então eu fui pesquisar e encontrei: foi ele quem escolheu o terreno onde foi construída a Biblioteca Anne Frank, que na época se chamava Biblioteca Infantil do Itaim. Não é legal isso: a biblioteca está lá por causa do Monteiro Lobato!!! E a prefeitura, mesmo assim, quer tirar de lá!

No final da passeata eu fui conversar com o João Gabriel, o meu amigo bibliotecário. Ele sempre me dá dicas de leitura, já sabe do que eu gosto e escolhe uns livros bem legais para eu ler. Mas desta vez o assunto não foi livro, eu queria saber como ele está se sentindo com a possibilidade de a nossa biblioteca fechar. E ele me disse: – “Pois é, Heitor, eu estou preocupado, pois a biblioteca não atende só a comunidade do bairro, atende também outros bairros e até cidades próximas a São Paulo.” E continuou: – “Às vezes eu vejo três gerações frequentarem juntas a Anne Frank – avô, pai e filho – e todas têm uma história com a biblioteca. A Anne Frank deve ser mantida não só pela questão do espaço, mas pelo amor e pelo carinho que as pessoas têm com ela”. E finalizou: “Ao contrário daquilo que tem sido dito, a Biblioteca Anne Frank funciona em um prédio bem estruturado, com instalações adequadas e que passou por uma grande reforma recentemente.”

Nas próximas semanas será encaminhado à Câmara Municipal, para votação, um projeto de lei, que autoriza a venda desse terreno para uma construtora. Em troca ela deve construir creches pela cidade. Temos que convencer os vereadores da importância de preservar esse espaço e manter a biblioteca e os outros serviços aqui no bairro, do jeito que estão. Na segunda-feira, dia 28/03, às 19h00, haverá, lá na Câmara, uma audiência pública para tratar desse assunto. Vou ver se o meu pai pode me levar. Não quero perder nenhum capítulo dessa história e quero que salvem a minha biblioteca.

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Li um livro numa sentada

Hoje eu vou contar a história de um livro bem legal. Tão legal, que eu li numa sentada! Quando eu ouvi pela primeira vez essa expressão, eu achei muito engraçada: ler numa sentada! Eu já usei essa expressão outra vez aqui no blog. Mas no meu caso, e desta vez, não foi exatamente numa sentada. Foi numa deitada! Eu li esse livro no domingo passado, deitado no sofá da sala de casa. Às vezes eu gosto tanto de um livro, que eu leio sem parar, até chegar ao final. Não sei o que é que acontece, se é o jeito que ele é escrito, ou pela própria história e como ela é contada. Tem vezes que o assunto até não me interessa tanto, mas a forma como o escritor conta, me prende de um jeito, que eu me esqueço da vida e das outras coisas que eu tenho pra fazer, e fico só lendo. Mas também já teve vezes que eu comecei a ler um livro e no início ele estava meio chato, muita descrição, muitos detalhes, sei lá, essas coisas que me fazem distrair e me perder na leitura. Quando é assim, eu insisto, e muitas vezes dá certo. Vou descobrindo a história, conhecendo os personagens, entendendo o jeito de o escritor contar, e no meio, o que era chato passa a ser bem gostoso. É como aquelas pessoas que quando a gente vê pela primeira vez, não vai muito com a cara, mas depois, conhecendo melhor, viram grandes amigos. Quem não teve uma pessoa assim na vida, e um livro?

Esse livro foi a miki que me emprestou. Eu já falei dela aqui no blog (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=731). Ela escreveu e ilustrou Vestida para espantar gente na rua e vive inventando coisas. Naquele dia ela me disse: – “Leva esse livro emprestado, Heitor, eu adorei, li mais de uma vez. Leia e depois me conte, acho que você vai gostar”. – E eu gostei, mesmo, miki, adorei, também. O nome do livro é Nuno 100 novidades, o autor é o Pierre Gripari, o ilustrador é o Odilon Moraes, e foi publicado pela Editora Companhia das Letrinhas. O livro conta a história de um rapaz que não tinha novidades. Sempre que lhe perguntavam: – E então? Como foi? Ele respondia: – Sem novidades. Quando voltava ao trabalho, depois do final de semana, todos os colegas dele tinham coisas para contar. Um tinha saído para pescar e pegou um peixe bem grande, outro rodando de carro viu uma batida incrível, outro brigou com a sogra, o filho de outro caiu da árvore e quase se arrebentou, outro assistiu a um filme na TV. Só o Nuno não tinha visto e nem ouvido nada. E quando lhe perguntavam: – Mas afinal de contas, como foi que você passou esses dois dias? Ele respondia tranquilamente: – Eu? Sem novidades… Por isso ele era conhecido como Nuno-Sem-Novidades. Quem conta a história desse livro é o Tadeu, que vivia na mesma cidade que o Nuno, era mais novo do que ele e virou o seu grande amigo. Foi o Tadeu quem descobriu que o Nuno, na verdade, não era sem-novidades, ele sempre estava cheio de novidades, era, sim, o Nuno cem-novidades.

Ilustração do Odilon Moraes
As novidades do Nuno eram as histórias que ele contava. Ele conhecia muitos casos, podia contar um conto atrás do outro e sempre aumentava um pouco. Tadeu já conhecia o Nuno de vista e um dia ele tinha acabado de fazer 12 anos e foi à biblioteca municipal devolver o livro que tinha emprestado e pegar outro, como ele mesmo conta: – “Lá chegando, tenho a grande surpresa de ver Nuno sentado à mesa de atendimento, no lugar antes ocupado por uma senhora a quem a gente se dirigia para as devoluções e empréstimos. Ele havia arranjado esse novo emprego”. Como o Tadeu frequentava muito a biblioteca eles acabaram ficando amigos, “meu melhor amigo”, dizia Tadeu. Conversavam na biblioteca ou no banco da praça, onde eles se encontravam à noite, depois do jantar. “As melhores noites eram as de segunda-feira, porque ele então me contava histórias. Não histórias que tivessem acontecido com ele, é claro – porque, como vocês sabem, jamais lhe acontecia nada -, mas histórias de gente que ele havia encontrado ou de quem tinha ouvido falar”, contou o Tadeu, que desconfiava que muitas dessas histórias nunca tinham acontecido de verdade, nem com o Nuno e nem com ninguém, e o Nuno nem disfarçava e inventava suas histórias enquanto conversava.

As primeiras conversas aconteceram mais ou menos assim:

Tadeu começava provocando o Nuno.

– E então Nuno, passeou bastante ontem?

– Ah, passeei bastante, sim.

– E o que te aconteceu desta vez?

– Não aconteceu nada…

– Mas nada mesmo?

– Mesmo. Você sabe muito bem que comigo nunca acontece nada.

– É, mas sei lá, você pode ter encontrado alguém, ou alguma coisa…

– É… pode ser… Deixa ver: quem?

E então ele fingia que estava fazendo força para se lembrar e Tadeu dava algumas sugestões.

– Encontrou um marinheiro, um camponês, um guarda, uma vaca, uma cobra, um cachorro.

– É acho que encontrei alguém…, mas quem?

E Tadeu respondeu:

– Uma raposa.

Nuno reagiu na mesma hora:

– Isso, mesmo garoto! Eu tinha me esquecido! Uma raposa! Uma raposa-macho, aliás. Um raposo. Reinaldo-Raposo.

E lá veio a história do Reinaldo-Raposo, que havia saído de um livro e com quem o Nuno tinha se encontrado e conversado na língua das raposas. Além desta foram muitas e muitas histórias, que o Nuno inventou e contou para o seu amigo Tadeu, e estão todas lá, nesse livro.

Pierre Gripari nasceu na França, em Paris, em 1925 e morreu em 1990. Além deste livro, ele escreveu Contos da rua Brocá, que também deve ser bem legal. Filho de mãe francesa e pai grego, de Míconos, ele escreveu romances, contos fantásticos e muitos livros infanto-juvenis.

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Achei um vídeo na internet e li o livro

Hoje tem novidade diferente no blog! Achei um vídeo na internet e fui procurar o livro, A menina que odiava livros. Coloquei o vídeo aí embaixo! Ele é bem legal e o livro é melhor ainda. Como o nome já diz, eles contam a história de uma menina que odiava livros. Seu nome é Meena e seus pais tinham livros por todo canto da casa. – Eles estão sempre no caminho, ela reclamava. Além das estantes e mesinhas, onde os livros geralmente ficam, havia livros nos armários da cozinha, em gavetas, mesas, nos guarda-roupas, nas camas, sobre o sofá, escadas, uns entulhados na lareira e outros empilhados nas cadeiras. Até na pia do banheiro havia livros e a menina não podia nem escovar os dentes direito. Um dia o seu gato Max subiu na maior pilha de livros da casa. Era a pilha dos livros que ela tinha ganhado dos seus pais e nunca tinha lido nenhum. Quando falavam para ela ler, ela dizia e às vezes até gritava: EU ODEIO LIVROS! Meena subiu na pilha para pegar o gato, derrubou todos os livros e aconteceu uma coisa que mudou a sua vida.

A menina que odiava livros, publicado no Brasil pela Editora Melhoramentos, foi escrito por Manjusha Pawagi e ilustrado por Leanne Franson. A autora nasceu na Índia e cresceu no Canadá. Hoje ela trabalha na cidade de Toronto como advogada em defesa dos direitos das crianças. A ilustradora mora e trabalha em Montreal e desde criança é fã de livros e desenhos. E como esse mundo é pequeno, eu conheço a moça que fez a tradução deste livro para o português. O nome dela é Adriana de Oliveira e ela é amiga do pessoal da Sintaxe. Ela já trabalhou em um monte de editoras, está fazendo doutorado em antropologia e orienta as pessoas que querem escrever livros. Preciso conversar mais com ela! Ela me falou que gostou muito de traduzir a história dessa menina que tinha a casa inundada por livros e disse ainda que esse livro é “um recado para os pais”, que querem que os seus filhos tomem gosto pela leitura.

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Li um livro da Rachel de Queiroz

 

Hoje vou falar do outro livro que eu ganhei do meu pai, no dia em que eu fui ao sebo: O menino mágico, da Rachel de Queiroz. Eu gostei muito do jeito que ela conta a história desse menino!

Eu já tinha ouvido falar da Rachel de Queiroz, mas nunca tinha lido nada dela. Eu lembro que na Bienal, numa das palestras que eu assisti, um escritor disse que para escrever a pessoa tem que viver bastante, ter experiência e muita informação na memória. Na memória dela e não do computador. Ele disse também uma coisa mais ou menos assim: “ninguém cria uma obra-prima com vinte anos de idade e não é todo dia que aparece uma Rachel de Queiroz”. Naquele dia fiquei curioso e fui pesquisar sobre a vida desta escritora: ela nasceu em 1910, em Fortaleza, no Ceará e mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, com a família, fugindo da seca. Em 1930, com vinte anos, publicou o seu primeiro romance, O Quinze, em que conta um pouco desta história. Este livro foi muito elogiado pelo público e pela crítica daquela época (uma obra-prima!) e fala da pobreza e do sofrimento do povo nordestino com uma grande seca que teve em 1915. Depois desse seu primeiro livro ela escreveu outros: Caminho de Pedra, As Três Marias, o livro de crônicas A Donzela e a Moura Torta, A Beata Maria do Egito, Dora Doralina, a peça de teatro Lampião, e muitos outros. Com Memorial de Maria Moura ela ganhou o Prêmio Camões, de melhor autor de língua portuguesa de 1992. Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras e além de escritora foi jornalista e tradutora . Ela morreu no Rio de Janeiro em 2003, aos 92 anos.

O Menino mágico é o seu primeiro livro infanto-juvenil e foi lançado em 1969. A edição que eu peguei no sebo é de 1983, da José Olympio Editora e tem ilustrações de Gian Calvi. Mas tem edição nova na livraria, da Editora Caramelo. Depois deste, ela escreveu Cafute e a Pena de Prata e Andira. Quando eu vi esse livro na estante do sebo, logo me lembrei do que falou o escritor da Bienal e separei pra mim. – Tenho que ler esse livro! Quero conhecer a grande escritora que publicou o seu primeiro romance com 20 anos.

O Menino mágico conta a história de Daniel, um garoto de seis anos que aprendeu a fazer mágica, sozinho, “sem estudar prá mágico – aliás, ele nem gostava muito de estudar. Pra não dizer que não gostava nada.” É muito engraçado o jeito de ela contar a história, parece uma criança que sabe de tudo e conhece muito bem o Daniel. O menino “deu para fazer mágicas de repente – ele mesmo não desconfiava, mas um dia descobriu. Aconteceu que, uma noite, foi dormir no quarto dele e quando o dia amanheceu já estava dormindo em outra cama, em outro quarto.” Essa foi a sua primeira mágica. Outro dia ele até já tinha se esquecido de que era mágico, quando entrou na cozinha e viu a cozinheira separando alguns ovos. Ele pegou num dos ovos, a cozinheira chamou sua mãe e gritou: – Menino, larga esse ovo!  E ele disse: – Isto não é um ovo, é um pinto. Ele fechou a mão e os olhos e inventou uma reza forte: “Faz de conta que era. Faz de conta que não era. Começou de ovo, acabou em pinto.” Daniel apertou o ovo com toda a força até a casca estalar e depois foi afastando os dedos devagarzinho, sentiu uma cocegazinha e aí abriu a mão toda. Na palma da mão do menino não tinha clara nem gema escorrendo, tinha era um pintinho, bem amarelinho. Depois disso o Daniel virou um mágico de verdade, mas não saiu por aí fazendo mágicas sem necessidade. Ele só fazia mágicas quando precisava ou quando queria sair de alguma enrascada. Daniel tinha um irmão mais velho, mas que não brincava com ele. Toda brincadeira que o Daniel inventava ele dizia que era brincadeira de neném “e se havia coisa que Daniel ficava mais furioso da vida era com quem dizia que ele ainda era neném”. Daniel também tinha um primo de sete anos, o Jorge, um menino muito inteligente e o seu melhor amigo. Jorge estava sempre inventando coisas. E com as ideias de Jorge e as mágicas do Daniel os dois meninos viveram muitas aventuras e até em programa de televisão eles foram.

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