O Machado, o Museu e o Pessoa

Já estava com saudades de escrever no blog. Na semana passada não coloquei nenhum post aqui. Como sempre, tinha muita coisa para estudar. Também eu ia sair no final de semana para dois passeios da hora e já tinha pautado – como eu aprendi com uns amigos jornalistas – falar deles aqui no blog. No sábado de manhã eu fui ao lançamento de um audiolivro da editora Livro Falante. Achei o maior barato o nome dessa editora. Lembra o grilo, que assim como o livro, também era falante. Era um audiolivro do Machado de Assis, o Quincas Borba. Eu nunca li nada do Machado de Assis, mas estou louco para ler. Falei com a minha professora e ela me disse que daqui a alguns anos a gente vai ler na escola. Não sei se vou ter paciência de esperar. Ela disse que se eu quisesse ler antes, poderia começar por uma história mais curta, um conto, por exemplo. Ela me falou de O Alienista, disse que é uma história muito engraçada. Acho que vou ler esse livro. Estou super ansioso e nervoso. Eu nunca li Machado de Assis. Será a minha primeira vez.

O lançamento foi no teatro da Livraria Cultura do conjunto Nacional, na avenida Paulista. Eu já conhecia essa livraria. Fui a uma sessão de autógrafos lá e contei aqui no blog (http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/?p=94). Quem fez a leitura do Quincas Borba para esse audiolivro foi o Rafael Cortez. Aquele mesmo do CQC. Ele é o maior barato! Eu pensei que ele só trabalhasse na televisão, mas ele faz muita coisa. Ele fez jornalismo, estudou música e também é ator. Além do Quincas Borba, ele já gravou outros livros do Machado de Assis para a Livro Falante, o Memórias póstumas de Brás Cubas, o Dom Casmurro e O Alienista. A Sandra, dona da Livro Falante, conheceu o Rafael numa peça de teatro. Gostou tanto dele, que o convidou para gravar esses audiolivros.

Nesse lançamento o Rafael tocou violão, fez um recital. Ele é violonista clássico e também compositor. Ele tocou aquela música “Se essa rua fosse minha…” no violão. Foi muito bonito! Disse que o arranjo que fez para essa música sintetiza sua relação com o Machado de Assis. “São variações de um mesmo tema”. Vou tentar explicar o que ele contou: no primeiro movimento a música é mais simples, como a primeira leitura que ele fez do Machado, quando criança; no segundo movimento, a música fica mais complexa, ganha mais notas, sua leitura na fase adulta, mais madura; no terceiro movimento, a música atinge o pleno amadurecimento, assim como a leitura que ele pretende fazer do Machado, quando tiver quarenta ou cinquenta anos. Isso aumentou ainda mais o meu desejo de ler o Machado. No final eu conversei com o Rafael e ele autografou o meu audiolivro. A Sandra disse que vai me dar o audiolivro do Drácula. Eu vou ouvir e depois eu conto aqui.

Meu sábado não parou por aí. Vocês não vão acreditar onde eu fui à tarde… Fui ao Museu da Língua Portuguesa! Ele fica na Estação da Luz. Conheci o Museu e o Fernando Pessoa. Foi muito legal! Assim que chegamos, disseram que o filme já ia começar, então fomos direto para o terceiro andar. Eles passaram um filme, narrado pela Fernanda Montenegro, sobre a importância das Línguas na formação dos povos, e sobre a Língua Portuguesa, que termina com uma palavra bem legal: “idiomaterno”. A Língua é a nossa mãe! Nós que falamos português somos todos filhos de uma mesma mãe portuguesa.

Fernando Pessoa
Depois do filme a tela subiu e a gente entrou no palco. Lá foram projetados textos e palavras de escritores de Língua Portuguesa, com a leitura de autores e artistas. Há uma parte bem bacana de uma portuguesa. Ela disse que gosta de ouvir o português dos brasileiros, pois nós pronunciamos todas as vogais. É verdade, os portugueses comem as vogais!

No segundo andar tem um telão de mais de cem metros de comprimento e que pega toda a extensão da Estação da Luz. Nele passam muitos vídeos que falam sobre a Língua Portuguesa e as diversas manifestações culturais e artísticas dos povos que falam português. Fiquei quase meia hora vendo esses filmes. São bem legais! No segundo andar tem também uma linha do tempo na parede, que conta a história da Língua Portuguesa do Brasil e vai desde os seus primórdios até os dias de hoje. Com textos, fotos e desenhos, ela mostra o aparecimento da Língua e as transformações das culturas e dos povos que falam português. Tem tanta coisa para ler que não dá tempo de ler tudo.

No primeiro andar tem a exposição do Fernando Pessoa. Ele é um poeta português muito conhecido. Eu que tenho 11 anos e nunca li Fernando Pessoa reconheci alguns versos das poesias dele que estavam lá escritas: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente…” Não é bonito? E outro: “Tudo vale a pena / Quando a alma não é pequena…”. Tem outra frase que eu gostei muito e que fala, pelo menos do que eu entendi, de descobrir as coisas pelas palavras: “Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Acho que quanto mais conhecemos as palavras, mais conhecemos o mundo.

Fernando Pessoa, assim como Machado de Assis, escreveu em português. Machado era brasileiro e Pessoa era português. Eu também escrevo e falo em português. Saber isso me dá uma sensação tão gostosa. A sensação de fazer parte dessa turma, não só a turma de Machado e Pessoa, o que seria uma pretensão, mas a de fazer parte de um povo (são mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo), que fala e escreve em português. De alguma forma, eu conheço todas essas pessoas. Isso é muito bom!

Fernando Pessoa também criou diversos heterônimos. Os heterônimos são várias personalidades inventadas por um mesmo autor. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis foram alguns dos poetas criados pelo Fernando Pessoa. Eles tinham um estilo próprio de escrever e até biografia. Alberto Caeiro, por exemplo, nasceu em 16 de abril de 1889 e morreu em 1915. Ele foi um poeta ligado à natureza e desprezava qualquer tipo de pensamento filosófico. Depois de conhecer Fernando Pessoa acho que eu descobri o que eu sou: Sou um heterônimo!

Li um Kafka (ou quase)

Na semana passada o pessoal da Sintaxe ligou e me disse: – Heitor, você vai ler um Kafka! Parecia uma ameaça. Fiquei com medo e perguntei: – Isso é perigoso? Quem é esse Kafka? Eles riram e me acalmaram: – Não tem perigo, nenhum, Heitor. E me falaram um pouco dele: “Kafka é considerado um escritor complexo e os seus personagens sofrem de conflitos existenciais. Ele nasceu na cidade de Praga em 1883 e morreu em 1924, vitima da tuberculose, aos 41 anos, em um sanatório perto de Viena. A maior parte de sua obra foi publicada depois da sua morte. No mundo kafkaniano os personagens não entendem o sentido de suas vidas e sempre estão em confronto com o poder das instituições. Suas histórias mostram o tamanho da impotência e da fragilidade do ser humano”. – Eu estou achando perigoso, sim, ler esse Kafka, eu disse, zoando com eles. – Na verdade, Heitor, você vai ler um livro que conta uma história que aconteceu com o Kafka, um ano antes de sua morte. Essa história foi contada por Dora Dymant, sua mulher nessa época. Vamos mandar o livro para você. Você vai gostar!

Recebi o livro em casa. Ele se chama Kafka e a boneca viajante, foi escrito pelo espanhol Jordi Sierra i Fabra, tem ilustrações de Pep Montserrat, e foi publicado no Brasil em 2008 pela editora Martins Martins Fontes. O livro é maravilhoso! A história é emocionante. Quem não leu, precisa ler. Era o início do verão de 1923, Kafka morava em Berlin e ia todas as manhã ao parque Steglitz. A paz e o silêncio desse parque faziam bem à sua saúde. Um dia ele estava no parque e ouviu o choro alto de uma menina, que estava muito perto dele. “Ela chorava em pé, desconsolada, tão angustiada que parecia trazer no rosto toda a dor e a aflição do mundo”. “Franz Kafka olhou para um lado e para o outro. Ninguém notava a menina. Estava sozinha”. Ele não sabia o que fazer. Se conversava com ela ou simplesmente ia embora. Ele nunca tinha ouvido alguém chorar daquele jeito.

Kafka pensou muito e decidiu falar com a menina. – Olá. O que aconteceu? Você se perdeu? – Eu não, ela respondeu. – Quer dizer que você não se perdeu. – Eu não, já disse. – Quem então? – Minha boneca. – Sua boneca? – É. A menina chorava e parecia sofrer muito. “Eram as lágrimas mais sinceras e dolorosas que já tinha visto. Lágrimas de uma angústia suprema e de uma tristeza insondável”. Ele não sabia o que dizer à menina. – Onde você a viu pela última vez? – Naquele banco. – E você onde estava? – Estava brincando. – E ficou lá muito tempo? – Não sei. Ele pensou e descobriu uma solução simples para a sua mente criativa de escritor.

– Espere um pouco, que bobagem a minha! Qual o nome da sua boneca? – Brígida. – Brígida, claro! E soltou uma risada para convencer a menina. – É ela, lógico! Desculpe, não me lembrava do nome! Às vezes sou tão avoado! Com tanto trabalho! A menina arregalou os olhos. – Sua boneca não se perdeu. Ela foi viajar. – Viajar? – Isso mesmo! Qual é o seu nome? – Elsi. – Elsi, claro! Lógico que era a sua boneca, porque a carta era para você. – Que carta? – A que ela escreveu, explicando por que foi embora tão de repente. Kafka disse a menina que, na pressa, tinha deixado a carta em sua casa, mas que lhe entregaria no dia seguinte. – Sou um carteiro de bonecas.

Assim que a menina saiu da praça e voltou para casa, Kafka percebeu que acabava de se meter numa tremenda confusão. Precisava escrever aquela carta. Com criança não se brinca, ele pensou: sem aquela carta, Elsi cresceria com o pior dos traumas: o de ser abandonada por sua boneca. Era escritor, mas nunca havia escrito uma carta de uma boneca viajante para a menina que fora sua dona até o momento da separação. Kafka foi para casa, se trancou em seu escritório e escreveu a carta. No dia seguinte, no horário combinado, levou a carta para menina. Elsi olhou o envelope, virou e viu o remetente: “Brígida. West End. Londres” Não faltou nem o selo.

Kafka leu a carta para a menina. Nessa carta a boneca explicava porque foi embora tão de repente sem se despedir. As despedidas são tristes e ela não queria ver Elsi chorar. Disse que a amava. Que as pessoas e as bonecas são feitas de sentimentos e emoções e que é preciso ir usando aos poucos. Disse também que depois de viver esses anos ao lado da menina, ela se sentia a boneca mais feliz do mundo. Mas que agora ela se preparava para inicar uma nova vida. Falou dos lugares que conheceu em Londres: o Picadilly Circus, passeio de barco pelo Tâmisa, caminhada pela Trafalgar Square e ainda assisitu, à noite, a uma peça de teatro no Soho.

Esse é só o começo da história do livro. Depois disso a boneca da menina foi à Paris, Viena, Veneza, Moscou, seguiu para a Espanha, Grécia, Hungria, cruzou o mar e foi à Africa, à Asia, à America do Norte e do Sul. Também cruzou o deserto do Saara, explorou a Índia, percorreu a muralha da China, nadou no mar Morto, escalou os picos do Himalaia. Esteve em Pequim, em Tóquio, em Nova York, em Bogotá, no México, em Havana, em Hong Kong. Pulava de um continente ao outro num abrir e fechar de olhos. E nesse tempo Kafka escreveu uma carta por dia. Mas isso não poderia durar a vida toda ou toda a infância da menina. Kafka tinha que dar um fim para essa história. Mas só lendo o livro para saber que fim o escritor deu para a história da boneca viajante.

Tem uma parte do livro em que a mãe de Elsi, curiosa pelas histórias contadas pela filha, lê as cartas, segue a menina e vai conversar com o carteiro de bonecas, Franz Kafka. Esse trecho do livro é muito emocionannte. Diz que Kafka chorou nesse encontro com a mãe de Elsi. Eu também chorei.     

Jordi Sierra

O escritor Jordi Sierra i Fabra nasceu na Espanha em 1947. Com mais de 300 obras publicadas de gêneros diversos. Criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra, em Barcelona, e a Fundação Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para a América Latina, na Colômbia, que desenvolvem um intenso trabalho com crianças e jovens para estímulo à leitura e à criação literária.

O ilustrador Pep Montserrat nasceu na Espanha em 1966. Ilustrou diversos livros infantis e juvenis. Também trabalha como ilustrador para jornais como El País, na Espanha, e The New York Times, nos Estados Unidos. Desde 1998 é professor na escola de arte Massana de Barcelona.

Os escritores da Bienal

Este é o último post que eu escrevo sobre a Bienal. Estou muito feliz em fazer este blog. Acho que foi o maior presente que eu recebi neste ano. Com ele estou conhecendo um monte de escritores. E os comentários e e-mails que eu tenho recebido. Vocês nem imaginam como eu gosto quando eu falo de um escritor e ele vem aqui no blog, deixa um comentário ou manda um e-mail. Nunca pensei que isso fosse possível: os escritores que eu leio, lerem o que eu escrevo.  E os escritores que eu conheci na Bienal, então. Foram tantos, que não vai dar tempo de falar de todos.

Mas ainda tem uma coisa muito importante que eu estou sentindo falta no blog: dos comentários dos meninos e meninas da minha idade. No começo eles comentavam, diziam que estavam gostando do blog, que iam ler o livro que eu li e até sugeriram que eu lesse um livro que eles tinham lido. Depois eles pararam de comentar. Queria tanto que eles voltassem. Acho que eu vou pedir ajuda para a minha professora e ver se ela tem alguma ideia. Bem, agora eu vou falar um pouco dos escritores que eu conheci na Bienal, dos que eu vi, dos que eu não vi e dos que eu vi de longe.

No primeiro dia que eu cheguei à Bienal eu conheci a Maria Vianna. Ela trabalha como editora de livros. Ela é muito bacana! Disse que está acompanhando o meu blog e que está adorando. Cada pessoa que a gente encontrava ela dizia: – Esse é o Heitor, ele tem um blog, chama-se Blog do Le-Heitor. Você precisa ver como é bonito o blog dele! Ela fez a maior propaganda do meu blog. As primeiras escritoras que eu conheci nesse dia foram a Anna Claudia Ramos e a Sandra Pina. Elas são do Rio de Janeiro. A Sandra até deixou um comentário aqui no blog. Quero encontrá-las de novo, quando elas voltarem a São Paulo. Depois a Maria me apresentou a Rosinha Campos, que é de Recife e estava lançando um livro que se chama Maria que Ria. Pensei que fosse uma homenagem a Maria Vianna, por que ela é muito risonha, mas não era não.

Depois encontrei a Paula (eu já falei dela aqui no blog). Ela me mostrou a Aline Abreu, que estava passando por um estande. – Corre Heitor, vamos falar com a Aline, ela é muito legal! Naquele dia a Bienal estava cheia de gente. Corremos, corremos, mas não conseguimos alcançá-la. Perdemos a Aline de vista. Ela é ilustradora e também escreve livros e deixou um comentário no blog. A Paula também me apresentou a Luciana Savaget. A Luciana é jornalista, já fez muitas viagens e tem um monte de livros publicados. Ela também já viu o meu blog e até me mandou um e-mail. Conheci a Ingrid Biesemeyer Bellinghausen (espero que eu não tenha errado o nome dela). A Ingrid escreveu um monte de livros infantis. Ela tem um livro chamado Mundinho que eu li quando estava no primeiro ano.

No outro dia o pessoal da Sintaxe me apresentou ao Adriano Messias. Ele escreveu uma série de livros que se chama Contos para não dormir e que tem histórias de assombração. Eu vou ler um desses e se eu não morrer de medo eu volto aqui e conto para vocês. Outro escritor que eles me apresentaram e até me levaram ao estúdio de uma rádio para eu acompanhar a entrevista dele foi o João Bosco Bezerra Bonfim. Ele mora em Brasília e estava lançando um livro chamado Um pau-de-arara para Brasília. Ele é especialista em literatura de cordel, autografou um livro para mim e até fez uma dedicatória em verso. Vou ler esse livro e depois quero conversar com ele para saber mais sobre cordel.

Conheci também o Jeosafá Fernandez Gonçalves, que estava lançando dois livros infantis e outro dirigido ao professor, sobre como ensinar poesia na escola. Também conheci a Thereza Christina Rocque da Mota, que tem uma editora especializada em poesia e que estava lançando um livro chamado A vida dos livros, que já foi um blog e que conta o dia a dia do trabalho de fazer livros. Conheci a Eliana Sá, que estava lançando um livro infantil, que trabalhou na editora Globo e hoje tem sua própria editora, a Sá Editora. Conheci a Neuza Lozano Perez que lançou um livro sobre o Curupira e que também tem um blog e a Miriam Portela, que eu já falei dela no outro post. Conheci o Rafael Cortez do CQC, que gravou o audiolivro Quincas Borba, do Machado de Assis, pela editora Livro Falante.

Laerte na Bienal
Também encontrei – e já falei no outro post – a Katia Canton e o Jorge Miguel Marinho. A Katia deixou um comentário no blog e o Jorge já me mandou uns e-mails. Conheci a Tati Móes, ilustradora que morava em Recife e agora está em São Paulo, e o Ale Jordão, artista plástico que fez um livro de imagens com o cachorro dele. Também encontrei e conheci pessoalmente o Laerte. Já falei dele em outro post. Ele fez uma dedicatória para mim no livro dele. Não encontrei o Marciano Vasques. Ele tem um monte de livros infantis e já fez uma pequena biografia da Tatiana Belinky. Ele também tem um blog e já me mandou uns e-mails dizendo que gostou do meu. No dia do lançamento dele eu não pude ir à Bienal. Que pena!

Ah, teve também dois escritores bem famosos que eu só consegui ver de longe: o Ziraldo e o Maurício de Souza. As filas eram muito grandes para falar com eles e pegar autógrafos.

Depois de conhecer e conversar com tanta gente, não vai me faltar assunto para os próximos posts.

Fui à Bienal – Parte 3

Hoje vou falar das duas últimas palestras que eu vi na Bienal. Uma foi com o Jorge Miguel Marinho e o Rodrigo Lacerda e se chamava Peregrinações do romance. Nessa palestra eles contaram como é escrever para jovens e também para adultos. Na outra a Ruth Rocha, o Ignácio de Loyola Brandão e o Walcyr Carrasco falaram das influências dos seus professores nas suas vidas e carreiras e se chamava Meus professores fizeram de mim um escritor. Vamos lá…

Como eu já disse no outro post, eu queria muito assistir a palestra do Jorge Miguel Marinho. Eu gosto muito de ouvir o Jorge falar. Eu o conheci na editora Biruta e contei isso no post “Conheci um escritor de verdade”. Nessa palestra da Bienal ele disse que escreve da mesma maneira tanto para o jovem como para o adulto, mas que consegue conversar melhor com o público jovem. Ele disse também que o “ato de escrever” é muito importante para ele, muito mais do que publicar o livro. Disse que devemos ler aquilo que nos agrada e que cada pessoa tem a sua “isca” para ser atraído pela leitura. Ele, por exemplo, foi atraído por uma tal de Adelaide Carraro, “que não era considerada boa literatura”. Um livro dela caiu em suas mãos, ele leu e gostou. Depois descobriu Machado de Assis e finalmente Clarice Lispector, “a escritora que eu pedi à vida e a vida generosamente me deu”.

O Rodrigo Lacerda acha errado separar literatura para jovem de literatura para adulto. “Há livros que são escritos para jovens e acabam sendo classificados assim, outros são escritos para jovens e transpassam para o público adulto”. Ele disse que aconteceu isso com o seu livro O Fazedor de Velhos, que foi escrito para jovens e agradou muito o público adulto. O Rodrigo diz que o jovem pode compreender as coisas de forma diferente do adulto, mas não tem uma compreensão limitada. O autor que atraiu o Rodrigo Lacerda para a leitura foi o Eça de Queirós. “Li tudo de Eça”. Depois ele descobriu o Graciliano Ramos. Além de O Fazedor de Velhos, Rodrigo escreveu Outra vida, Vista do rio, A fantástica arte de conviver com animais, O mistério do leão rampante, Fábulas para o ano 2000, Tripé, e a Dinâmica das larvas. O Rodrigo também é tradutor.

A palestra Meus professores fizeram de mim um escritor começou com o Ignácio de Loyola Brandão falando de suas professoras Lourdes e Ruth, que vivem em Araraquara, onde ele nasceu e estudou, e até hoje o chamam de menino. Elas diziam para os alunos saírem pela cidade para observar as coisas e depois escrever uma redação sobre o que viram. Elas também pediam para eles lerem um livro infantil e depois reescrever a história. As histórias reescritas eram lidas para a sala, que no final escolhia a melhor “composição”, “como eram chamadas antigamente as redações”.

A Ruth Rocha falou de muitos professores que ela teve, mas que tudo começou com os livros de Monteiro Lobato. O professor Aderaldo, que gostava de Eça de Queirós. O Eduardo França, professor de história, que falava muito bem e que também a influenciou. O Sales Campos, professor de literatura, que pedia aos alunos que fossem a frente da sala para falar sobre um livro que tinham gostado muito. Ela frequentava a Biblioteca Circulante aqui de São Paulo. Uma vez ela entrou com a irmã na biblioteca, escolheu uma estante e leu todos os livros daquela estante.

O Walcyr Carrasco falou da sua professora Nilce e do concurso de redação que ele ganhou na escola. A professora Nilce vinha para a aula com uma caixa cheia de livros e os alunos escolhiam um para levar para casa e ler. “Ela fazia sua própria biblioteca circulante”. A professora Telma também foi muito importante para o Walcyr. Ela ainda mora em Marília, onde ele morou dos 3 aos 15 anos. Há pouco tempo ele esteve na cidade e foi visitá-la. Ele agradeceu a professora e disse que ela tinha sido importante na sua carreira de escritor e autor de novelas. Eles ficaram muito emocionados com esse reencontro.

Só vou escrever o próximo post na semana que vem. Tenho que estudar. Mas vou dar umas entradinhas para ver se tem comentário. Adoro quando colocam comentário no blog. Eu respondo a todos. No próximo post vou falar dos escritores que eu conheci na Bienal, dos que eu vi, dos que eu não vi, e dos que eu vi de longe.

Fui à Bienal – Parte 2

Já estou aqui de novo. Meu pai não me deu limite e o pessoal da Sintaxe está me pilhando: – Oh, Heitor, você tem que escrever os posts logo, senão as notícias da Bienal vão ficar velhas. Acho que eles têm razão, ainda quero falar de mais três palestras que eu assisti e de todos os escritores que eu vi e conheci. Então vamos lá…

Queria muito ver a palestra da Katia Canton. Uma vez, já faz muito tempo, eu fui ao lançamento de um livro dela. Minha mãe me levou, acho eu que tinha uns sete anos. Era um livro de contos de fadas, do Andersen, recontados pela Kátia. O Hans Christian Andersen é o autor de O Patinho feio, de O valente soldadinho de chumbo, de A pequena vendedora de fósforos, e de tantas outras histórias que lemos, que nossos pais leram, nossos avós e acho que até os nossos bisavós – ele viveu no final do século XIX. 

Quando eu li a programação da Bienal e vi que a Katia Canton e o Bartolomeu Campos Queirós iam falar sobre literatura infantil, eu pensei: – não posso perder essa. A Kátia começou falando que quando era criança, ela era tímida e por isso lia muito. Eu também, quando tinha sete anos e fui ao lançamento dela, eu era tímido, nem consegui falar com ela. Ela também disse que além de ler, ouvia histórias contadas por sua tia Cecília. Katia morava no mesmo prédio da tia. Ela ia até o sétimo andar, tocava a campainha e pedia para a tia lhe contar uma história. Foi aí que começou sua “paixão pelos contos de fadas”.

O Bartolomeu disse que prefere ler a escrever. Quando escreve é “vaidoso”, e quando lê, é “generoso”. Ele também ouvia histórias quando criança. Sua avó juntava todos os netos e sentava no penico para contar histórias. Eu achei muito engraçada essa avó do Bartolomeu, pois ele disse que ela, enquanto contava histórias, usava o penico! Ele foi alfabetizado pelo avô. Seu avô, aposentado, não saía de casa e escrevia nas paredes tudo que acontecia na cidade, e o Bartolomeu lia. O avô uma vez disse a ele que o alfabeto só tem 26 letras e com elas podemos escrever tudo que quisermos. Nesse dia ele ficou procurando alguma coisa que não pudesse escrever com essas letras. E é o que ele faz até hoje.

Eles ainda falaram da escola, da literatura ajudando a ensinar outras matérias, da ilustração e do texto nos livros infantis, e de muitas outras coisas. Não dá para falar tudo aqui, pois eu ainda tenho muita coisa para contar. No final eu fui falar com a Katia – hoje já não sou tão tímido – disse que gostava dos livros dela, falei do meu blog e pedi o seu e-mail para passar o endereço. Espero que ela leia, e goste.

Fui à Bienal – Parte 1

Andei sumido, não é? Nesse tempo eu fui três vezes à Bienal do Livro e também tive muita coisa para estudar, tinha prova na escola. Não deu tempo de escrever no blog. Meu pai me deixou ir essas três vezes à Bienal com uma condição: que eu estudasse bastante para as provas e não ficasse muito tempo na internet. Durante a Bienal eu ouvi a entrevista de uma escritora (eu vi um monte de entrevistas e depois vou contar mais), o nome dela é Miriam Portela, ela escreveu um livro sobre Bullying e lançou quatro livros infantis. Ela disse na entrevista que as crianças estão pedindo e precisando de limites. Eu não sei se eu pedi, mas acho que foi isso que o meu pai me deu: limite. Mas eu acho que foi bom, eu estudei, fui bem nas provas e ainda ganhei três dias de passeio na Bienal do Livro.

Como eu disse no outro post, eu fui à Bienal com o pessoal da Sintaxe. Vi um monte de livros, conheci e conversei com muitos escritores, assisti a quatro palestras e ainda “acompanhei” umas entrevistas. O pessoal da Sintaxe estava trabalhando para umas editoras lá na Bienal. Eles ficavam na sala de imprensa recebendo os jornalistas que chegavam para visitar a feira. Dependendo do assunto que o jornalista procurava, eles ofereciam os livros das editoras ou os autores para serem entrevistados. Eles também saiam pela Bienal “oferecendo pauta” para as rádios que tinham estúdios lá na feira ou para as tevês que queriam entrevistar os escritores. Nos três dias que eu estive lá teve um monte de entrevistas. Às vezes duas no mesmo horário. Teve uma vez que eles estavam correndo tanto, que me deixaram no Salão de Ideias para assistir a uma palestra. Eles disseram: fica aí quietinho, Heitor, que daqui a uma hora a gente vem te buscar. E eu fiquei lá. Nem era uma palestra para crianças. Eram dois escritores, Milton Hatoum e Marçal Aquino falando sobre “a imagem da literatura brasileira no exterior”. Mas eu gostei.

O Milton Hatoum disse que teve muita sorte como escritor e que em poucos meses o seu primeiro romance já tinha sido traduzido para diversas línguas. O Marçal Aquino, ao contrário do Milton, disse que teve que “ralar muito” até fazer sucesso como escritor. Eles também falaram sobre as suas “motivações para escrever”. O Milton falou que ele sempre escreve sobre alguma questão que o “inquieta”. “As histórias dos meus livros sempre estão ligadas a minha vida”. Ele disse que o importante é a memória e que ele não saberia escrever sobre alguma coisa que está longe da sua vida. O Marçal contou que muitas vezes não sabe nada do assunto que está escrevendo e que começa a descobrir enquanto escreve. “Algumas coisas eu sei o resto eu quero descobrir escrevendo”. Eu achei muito bacana ouvir dois escritores que por caminhos diferentes chegam à literatura.

Eu assisti a outras palestras mais adequadas a minha idade. Teve uma bem legal chamada “Meus professores fizeram de mim um escritor” com Ruth Rocha, Walcyr Carrasco e Ignácio de Loyola Brandão. Teve outra chamada “Pequenos leitores, grande literatura”, com Katia Canton e Bartolomeu Campos Queirós. E outra que eu não queria perder, com aquele escritor que eu conheci quando eu visitei a editora Biruta, o Jorge Miguel Marinho. Tudo isso eu vou contar nos próximos posts. Vou falar também dos escritores que eu conheci e das entrevistas que eu vi. Tenho muito assunto da Bienal para contar aqui. Espero que desta vez o meu pai não me dê limites, pois agora eu sei que não estou pedindo.

Livro é quase um filme de cinema

 Georges Méliès nasceu no dia 8 de dezembro de 1861 e morreu no dia 21 de janeiro de 1938.  Ele foi um ilusionista (ou mágico) francês. Fez muito sucesso como mágico e foi um dos precursores do cinema. Ele usava efeitos fotográficos para criar mundos fantásticos. Méliès é considerado o “pai dos efeitos especiais”, fez mais de 500 filmes e construiu o primeiro estúdio

Georges Méliès

 cinematográfico da Europa. Também foi o primeiro cineasta a usar desenhos para projetar suas cenas. E o que esse francês tem a ver com o post de hoje?

Ele é um dos personagens do livro que eu acabei de ler. A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, da Editora SM, que eu peguei emprestado da biblioteca. Foi a história de Méliès que inspirou o autor a fazer esse livro. Ele usou um personagem de verdade para inventar uma história. A invenção de Hugo Cabret é um livro diferente de todos os livros que eu li até hoje. O livro tem 534 páginas e pelas contas do autor, cento e cinquenta e oito ilustrações diferentes, e vinte e seis mil cento e cinquenta e nove palavras. Mas ele não é diferente pelo número de páginas, pela quantidade de ilustrações, ou por ter tantas palavras. Ele é diferente pelo jeito como o autor colocou as ilustrações no livro, para ajudar a contar a história.

As ilustrações dos livros sempre mostram um momento da história, como se fosse um retrato. Nesse livro é diferente, a ilustrações mostram uma cena inteira, como se fosse um filme. O texto começa a contar uma cena da história e os desenhos continuam a contar esta cena. Quase todas as ilustrações ocupam duas páginas, são em preto e branco e muito bonitas. Quando peguei o livro na biblioteca, fiquei assustado, o livro é muito grosso, achei que não ia conseguir ler.  Mas que nada, li rapidinho e viajei na história do Hugo Cabret e nos desenhos do livro. Os desenhos também foram feitos pelo autor.

A história se passa nos anos de 1930 na cidade de Paris. Hugo Cabret é o personagem principal, o protagonista. Ele é um menino de 12 anos e vive

Hugo Cabret

 sozinho em uma estação ferroviária. O pai de Hugo morreu em um incêndio. Ele era relojoeiro e trabalhava meio-expediente em um velho museu, cuidando dos relógios de lá. Um dia seu pai chega em casa trazendo um homem feito de “peças de relógios e delicados mecanismos”, que ele encontrou perdido no sótão do museu. Era um autômato, ficava sentado numa escrivaninha e trazia uma pena na mão. Ele era movido a corda, como esses brinquedos antigos, estava quebrado, mas se fosse consertado poderia escrever ou desenhar.

O pai do Hugo queria muito consertar o autômato. Ele abriu a máquina e desmontou cuidadosamente, fez desenhos detalhados de todas as suas partes em cadernos, limpou as peças e montou novamente. No aniversário de Hugo, como era costume, o pai o levou ao cinema. Seu pai gostava muito de cinema, e sempre lhe contava um filme que assistiu quando criança, dizia que tinha sido o seu primeiro filme: Uma viagem à lua, de Georges Méliès, aquele que eu falei no começo do post e que ainda vai aparecer com tudo nessa história. Nesse dia o pai também lhe deu de presente um de seus cadernos, com os desenhos das peças do autômato. O pai não conseguiu consertar o autômato, um incêndio no museu o matou, e fazer essa máquina funcionar virou uma obsessão na vida de Hugo.

Autômato em ação

Dizem que os autômatos existiram de verdade. Eles foram construídos por mágicos, que tinham conhecimentos de mecânica. Serviam para “surpreender as platéias”. Ninguém imaginava como aqueles bonecos misteriosos dançavam, escreviam, desenhavam ou cantavam. Já ouvi falar que hoje ainda existem alguns inteirinhos, feitos naquele tempo, que desenham e até escrevem poesia.

 Hugo morava sozinho na estação ferroviária, pois quando o pai morreu, ele foi viver com o tio, que cuidava dos relógios daquela estação. O tio bebia muito e um dia sumiu. Hugo ficou sozinho. O inspetor da estação não podia saber que o seu tio não estava mais por lá e Hugo continuou a cuidar dos relógios, para o inspetor não desconfiar e descobrir o seu segredo.

Na estação havia uma loja de brinquedos. Hugo costumava roubar alguns brinquedos dessa loja. Usava suas peças para substituir as peças quebradas do autômato. Um dia o dono da loja o pegou, fez devolver um brinquedo de corda que ele havia roubado e lhe tomou o caderno, presente do pai. O dono da loja queria saber por que o menino queria tanto aquele caderno. Hugo não contava, era o seu segredo. Mas o dono da loja também tinha um segredo. Hugo conheceu a sobrinha do dono da loja, uma menina um pouco maior do que ele, e eles ficaram amigos, mas esse é só o começo dessa história.

A Bienal do Livro começa na semana que vem. O pessoal da Sintaxe falou com a minha mãe e ela deixou. Eles vão me levar para passear na Bienal e vão me apresentar para um monte de escritores. Quero conversar com eles e depois contar tudo aqui no blog. Aguardem!

Saída Bangu – O Rodrigo, que também gosta de descobrir as origens das palavras, deixou um comentário no blog perguntando sobre a origem de uma expressão antiga, usada no futebol: saída Bangu. Então Rodrigo, eu fui pesquisar e encontrei esta resposta: “Esse tipo de saída teve sua origem nos treinos do time Bangu, do Rio de Janeiro. O time, para agilizar o treino, fazia com que seus jogadores dessem a saída de bola como se fosse um tiro de meta, pois assim o time poderia treinar mais saída de bola e criação de jogadas pelos jogadores da defesa. O termo acabou pegando e a “saída Bangu” começou a ser usada por outros times nos seus treinos e em jogos de recreação”.

Li uma HQ e entrevistei o autor

Eu gosto muito de contar as histórias dos livros que eu leio. Foi, principalmente, por isso que eu ganhei este blog e essa história eu já contei lá no primeiro post. Mas hoje eu vou contar um tipo de história diferente. Um tipo de história difícil de contar, mas eu vou tentar. Vou começar primeiro por uma história bem curtinha que eu vi no jornal um dia desses. O nome da personagem dessa história é Lola, a andorinha. Cansada de voar Lola resolve andar de metrô, desce na estação, espera, espera, espera, e nada do trem vir. Decide voar pelo túnel para ver se encontra o trem. Mais a frente o trem está lá, parado. – Cansei de correr debaixo do chão. – Gostaria de voar? – Seria bárbaro! – Vamos ao aeroporto! Chegando lá: – Ué, cadê o avião, pergunta a andorinha. No final da história o avião aparece nadando no mar. Além de ser difícil contar, as Histórias em Quadrinhos (HQ) perdem a graça quando contadas. Vocês não acham?

Tem outra história em quadrinhos, do mesmo autor da Lola, que eu vi no jornal já faz algum tempo. Na época eu achei muito engraçada e saí por aí contando essa história. Ela é quase uma história de terror e as pessoas riam no final. Essa eu vou contar de memória. Eu acho que ela não tinha texto. Só tinha imagens. No primeiro quadro aparece aquele brinquedo que tem nos parquinhos de diversões: eu acho que se chama pesca surpresa. Vocês já viram um brinquedo desses? São diversos peixinhos de madeira enterrados na serragem. Você compra uma fichinha e tem direito de pescar um peixinho. Na parte enterrada do peixe vem escrito o prêmio que você ganha. Pois é, estava lá um menino pescando o seu peixinho. Ele escolhe o peixinho, prende o anzol na boquinha dele e vai puxando. O peixinho vai saindo da serragem e crescendo, crescendo, crescendo, até virar um peixão. Quando o peixe sai totalmente da serragem ele já ocupa um quadro inteiro da história, e no quadro seguinte ele engole o menino de uma só vez (pausa). No final o peixe se encolhe e volta para a serragem. O último quadro mostra todos os peixinhos enfiados na serragem e o parque em silêncio. Gostaram?

O autor dessas duas histórias é o Laerte. E hoje eu vou falar de um novo livro dele. O nome do livro é Carol. Acabou de ser lançado pela Editora Noovha América em parceria com o selo Sete Luas. O livro conta muitas aventuras da menina Carol, uma personagem criada pelo Laerte. Ela sempre está aprontando alguma com o Gabriel e a sua turma de amigos. A primeira história do livro se chama O Grito!! e é muito divertida. A Carol está no banheiro, sentada na privada e tem um lápis preso na orelha. Olha para o papel higiênico, com uma cara muito engraçada, e começa a puxar o papel e a desenhar nele. Vai puxando e desenhando, puxando e desenhando até que o papel acaba. Olha para o rolo vazio, com uma cara mais engraçada ainda, vira para a porta e grita – Mãe! Acabou o papel!!!

Tem outra história no livro que se chama Mães! A Carol está saindo de casa correndo para brincar na rua e sua mãe grita: – Carol! Onde você pensa que vai?!! – Você não vive dizendo para eu brincar lá fora, não? – Mas não pelada desse jeito. E a mãe vai vestindo a Carol com blusa, cachecol, gorro, bota… – Agora você pode ir… – Desistiu? Mas a Carol já tinha escapado pelo meio daquele monte de roupas e saiu de shorts e camiseta para brincar na rua.

Outra história do livro Carol, do Laerte

Terminei de ler o livro e me deu vontade de fazer umas perguntas para o autor, queria saber do trabalho dele, como ele cria os personagens, em quem ele se inspira… Falei com o pessoal da Sintaxe (a assessoria que fez este blog pra mim) e eles conversaram com a Sandra, da Editora Noovha América. A Sandra avisou o Laerte, que eu ia mandar umas perguntas e me passou o e-mail dele. Eu mandei as perguntas e ele respondeu.

Heitor – Como nasceu a Carol?

Laerte – Comecei a desenhar uma página para a revista ZÁ! em 1997, a que chamei de “O GRITO“. Consistia numa série de tiras, com personagens infantis. A Carol apareceu numa dessas tiras e achei que era uma garota encantadora. Tive vontade de fazer mais histórias com ela. Acabei ocupando toda a página com uma aventura só da Carol e de seus amigos. A revista ZÁ! não existe mais.

Heitor – Você vai fazer outras histórias com a Carol?

Laerte – Não tenho planos de fazer novas histórias, por enquanto.

Heitor – A Carol é “parente próxima” da Suriá?

Laerte – São duas garotas criadas por mim, o que as torna próximas…

Heitor – Você tem alguma preocupação quando cria um personagem infantil? É diferente de criar para adultos?

Laerte – O modo de inventar é igual, porque estou criando, de fato, para mim mesmo. No entanto, tenho que levar em conta o que é de cada idade – não faz sentido fazer para crianças uma narrativa que se baseia na experiência de um adulto. Já o vice-versa pode funcionar…

Laerte Coutinho nasceu em 10 de junho de 1951. Entrou na Universidade de São Paulo em 1969, para cursar a Escola de Comunicações Culturais, mais tarde Comunicações e Artes. Fez música, jornalismo, mas não terminou nenhum dos cursos. Começou a publicar no jornal do Centro Acadêmico e em 1972 fundou, com outros, a revista Balão, de quadrinhos. Em 1975 fundou, também com amigos a Editora Oboré, para atender as necessidades na área de comunicação dos sindicatos de trabalhadores. Colaborou com revistas e jornais, como Veja, Isto é, Folha de São Paulo, O Estado de S Paulo, O Pasquim e muitos outros. Fez histórias em quadrinhos nas revistas Chiclete com Banana e Circo, onde apareceram pela primeira vez os Piratas do Tietê. Já fez textos para TV e desenha para o jornal Folha de S. Paulo e também para o suplemento infantil do jornal, a Folhinha de S. Paulo.

Falha técnica – muitas pessoas tentaram colocar comentários no blog e foram bloqueadas com um antispan. O programador me explicou o que estava acontecendo: “Havia um plugin instalado que bloqueava algumas mensagens. O plugin foi desinstalado e esse problema já está resolvido”. Quem tentou e não conseguiu colocar o seu comentário, pode colocar agora que vai dar certo.

Fui sozinho à biblioteca do bairro

Já tinha ido outras vezes à biblioteca do meu bairro. Mas fui com a professora e a minha turma da escola ou com a minha mãe. Nunca tinha ido sozinho. Nesta semana eu estava em casa e pedi à minha mãe: – Posso ir à biblioteca, mãe? – Pode. Espera um pouquinho que eu te levo. – Não, mãe. Eu quero ir sozinho. – Por que você quer ir sozinho? – Sei lá, deu vontade. – Você não acha que é muito pequeno para sair assim, pela rua, sozinho. – Mas eu não vou sair, assim, pela rua. Eu vou à biblioteca. Não tem perigo, só são quatro quarteirões e eu presto bastante atenção na hora de atravessar. – E o que você vai fazer lá? Ora, mãe, o que uma pessoa faz numa biblioteca?

Muitas coisas, seu espertinho. Por exemplo: ela pode ficar lá, lendo um livro, ou pegar um livro emprestado para ler em casa. É isso que eu quero saber… Tudo bem, eu deixo você ir, mas quero que volte logo. – Tá bom, mãe, eu não vou demorar. Eu vou pegar um livro emprestado e volto para ler em casa. – Mas você não tem a carteirinha da biblioteca. Pra pegar livro emprestado precisa ter a carteirinha. – Eles devem fazer na hora. – Então leva um documento e uma conta de luz. Pra essas coisas eles sempre pedem comprovante de residência.

Sai pela rua, assim, sozinho, como disse minha mãe. Claro que eu já tinha estado outras vezes sozinho, mas desta vez foi diferente. Senti um frio na barriga, uma sensação estranha e gostosa. Era como se eu crescesse mais um pouco naquela hora. Outro dia eu aprendi uma palavra que explica direitinho o que estava acontecendo comigo: emancipar. Eu acho que eu estava me emancipando saindo sozinho para ir à biblioteca.

Cheguei lá, entrei e um rapaz muito simpático me atendeu. Ele me cumprimentou e perguntou o meu nome. – Heitor, eu disse. E você, como se chama. – Eu me chamo João Gabriel. Está procurando algum livro, Heitor. – Sim, estou. – Qual é o nome do livro? – Não sei. Estou procurando um livro pra ler, mas não sei o que quero. – Posso te ajudar? – Claro que pode. – Você gosta de ler? – Gosto – Quais foram os últimos livros que você leu? Falei da Alice, do Pandonar e do Encafronhador, que eu já contei nos posts.

João Gabriel é bibliotecário e gosta de ajudar as pessoas a escolher livros pra ler. Ele disse que sempre começa por essa pergunta, e depois faz outras: – O que você gosta de fazer? Você gosta de brincar? Gosta de aventuras? De viagens? Ele disse que para cada pessoa tem um caminho, e ele vai conversando, até encontrar o tipo de leitura que pode agradar essa pessoa. Ele não ajuda só as crianças, ele também orienta os adultos para escolher um livro. Essa biblioteca do meu bairro antes era só infantil, hoje ela atende crianças e adultos.

Ele disse que no seu trabalho de bibliotecário tem dois grandes desafios: o primeiro é despertar as crianças para outras leituras. Ele explicou: há crianças que só leem os bestseller ou os livros da moda. Quando esses acabam, elas não leem mais nada. Procuro mostrar para essas crianças que existem outras leituras tão boas, ou muitas vezes, melhores do que essas. – Tenho tido muito sucesso nessa batalha. O outro desafio é recuperar o desejo de leitura dos adultos que já perderam esse hábito. – Neste caso, procuro trabalhar com os bons autores contemporâneos ou indico um clássico que ele não tenha lido. Esse desafio é um pouco mais difícil, pois sou jovem e só estou iniciando minha carreira de leitor, disse o João Gabriel com muita humildade.

Bem, no final eu fiz a minha carteirinha da biblioteca do meu bairro. Ela serve para pegar livros em qualquer biblioteca da prefeitura, inclusive na Mário de Andrade, que foi reinaugurada nesta semana. Agora sou sócio do Sistema Municipal de Bibliotecas. Minha mãe tinha razão (mãe sempre tem razão rs rs rs): precisou de documento e comprovante de residência. Com a ajuda do bibliotecário João Gabriel, eu já peguei dois livros emprestados e tenho até quinze dias para ler e devolver. O primeiro é A ilha perdida, de Maria José Dupré. Minha professora já me falou dessa escritora, mas eu ainda não li nenhum livro dela. O João Gabriel contou que leu A ilha perdida quando era criança e que foi este livro que o fez se apaixonar pela leitura.

O outro livro que eu peguei é A invenção de Hugo Cabret, de um escritor americano chamado Brian Selznick. É um livro bem grosso, bonito e cheio de ilustrações. O João Gabriel me disse que a história desse livro é muito emocionante. Dei uma folheada e o livro começa como se fosse um filme de cinema. Eu vou ler os dois e vou voltar à biblioteca. Da próxima vez quero ficar na sala de leitura. É muito gostoso ficar lá, é silencioso, tem jardins em volta e muitas árvores. Agora eu já aprendi o caminho para ir sozinho à biblioteca do meu bairro, estou emancipado.

A Camila e a Sabrina deixaram um comentário no blog perguntando se eu já tinha lido o livro O menino e o boi do menino, de Cyro de Mattos, da editora Biruta. Elas disseram que gostaram muito dessa história. Eu respondi que ainda não tinha lido. E fui ler para compartilhar minha leitura com elas. Oi, Camila! Oi, Sabrina! Eu também adorei este livro. A história me fez lembrar uma notícia que eu vi esses dias na televisão. Um cachorro, que dava muito trabalho aos seus donos, foi dado para uma família bem distante. Não demorou muito e o cachorro da notícia fez como o boi da nossa história.

Descobridor de palavras e leitura compartilhada

Nesta semana eu li um livro que conta a história de um menino que gostava muito de ler e de descobrir palavras diferentes, e eu também descobri o que quer dizer “leitura compartilhada”.

Théo voltava da escola de ônibus com sua irmã mais velha quando avistou, pela janela, uma placa que dizia o seguinte: “Precisa-se de Encafronhador com experiência em Trombilácios”. Cutucou sua irmã, Driel, que ouvia música nos fones de ouvido. Primeiro ela o olhou com cara de desprezo, mas depois também ficou interessada e até tirou os fones das orelhas. O pai deles estava desempregado há meses e o anúncio prometia “excepcional remuneração”.  – Tem oferta de emprego para um encafronhador. Você sabe o que é isso? Théo perguntou a sua irmã. – Não tenho a menor idéia. Lá em casa a gente pergunta para o papai. É mais ou menos assim que começa a história do livro O encafronhador de trombilácios, de Rosana Rios, com ilustrações de Biry Sarkis. Lá no fim deste post tem um pouco sobre a vida e o trabalho deles, suas biografias. A Editora Scipione lançou este livro no ano passado.

Théo gostava muito de ler. A mãe lia muitas histórias pra eles e assim acabaram aprendendo a ler bem cedo. A mãe morreu quando Théo tinha seis anos e Driel, nove e eles herdaram dela uma sala cheinha de livros. Ele já estava acostumado, desde muito pequeno, a procurar as palavras novas no dicionário. E assim que chegou em casa foi pesquisar o que significavam encafronhador e trombilácios. Théo gostava de descobrir palavras novas e como lia muito sabia algumas que ninguém desconfiava o que eram.  Uma vez, quando estava no primeiro ano, foi parar na diretoria porque chamou a professora de peremptória, mas depois foi perdoado quando descobriram o que significava isso. Quando brigava com os amigos ao invés de dizer palavrões os chamava de reles, estúrdio, abstruso e outras palavras legais que só ele sabia. É o Théo quem conta esta história, ele é o narrador (eu também vou descobrindo palavras). Mas Théo não encontrou o significado destas palavras, elas não estavam no dicionário. Fiquei curioso, li o livro até o final para descobrir o que queriam dizer encafronhador e trombilácios e me diverti muito com esta história.

A segunda parte deste livro começa quando o pai vai trabalhar de encafronhador e eles passam a morar em uma rua bem tranquila chamada “alameda Reta”. Essa rua era cheia de álamos e é por isso que não era chamada de rua e sim de alameda. Nesta alameda tinha escola, onde os meninos foram estudar; tinha padaria, sempre com pães quentinhos; as frentes das casas eram gramadas; tinha a oficina do Nerdínio, onde o pai foi trabalhar de encafronhador; tinha uma loja de presentes; tinha as Lojas Turíbio, um galpão enorme que vendia móveis e eletrodomésticos; tinha uma quitanda, que vendia frutas, verduras e doces; não tinha supermercado, tinha um empório, que vendia de tudo; tinha uma casa branca, onde eles foram morar; e também tinha uma livraria. Numa certa manhã a tranquilidade da alameda Reta foi quebrada pela demolição da Loja Turíbio. A partir desse dia, toda vizinhança começou a receber propostas para vender suas casas. No lugar das casas seriam construídos enormes edifícios.

A leitura compartilhada

 Falei para o meu tio que eu estava lendo este livro e contei um pouco da história. Ele ficou muito interessado e também quis ler o livro. Ele adorou e contou pra mim, que quando era criança, também morou numa rua assim. Como na alameda Reta, as pessoas que moravam na rua do meu tio eram como se fossem uma única família. Elas tinham uma vida simples. Meu tio disse que teve muitos amigos na infância. Jogavam bola, bolinhas de gude, rodavam pião, empinavam pipas, brincavam de pique e esconde-esconde. Essa rua ficava em um bairro, aqui mesmo, na cidade de São Paulo. Ele disse que lá também chegaram os “especuladores imobiliários”. Derrubaram as casas e no lugar construíram prédios luxuosos. – Hoje esse bairro é considerado nobre, mas não tem a elegância do bairro da minha infância, disse o meu tio com um olhar de saudades e uma lágrima nos olhos.

Fiquei muito feliz pelo meu tio ter lido um livro que eu li. Foi bem legal ele se lembrar da infância dele e contar pra mim o que achou do livro. Eu percebi que as pessoas descobrem coisas diferentes, mesmo quando lêem o mesmo livro. O meu tio descobriu coisas na história que eu não descobri, e eu descobri outras coisas que ele não tinha descoberto. E é muito bom trocar essas coisas. Outro dia eu ouvi uma escritora falando sobre leitura compartilhada. Se eu pudesse conversar com ela, queria saber mais sobre esse assunto. Mas de uma coisa eu já sei: leitura compartilhada é isso que eu fiz com o meu tio. E é isso que eu também quero fazer com este blog: compartilhar as minhas leituras. Por isso eu gosto tanto quando deixam comentários aqui no blog, eu fico muito feliz e respondo a todos.

Rosana Rios é formada em Educação Artística e Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Além de escritora, também é ilustradora, trabalha com arte-educação e escreve peças de teatro. Quando pequena, adorava ler, mas nunca imaginou que se tornaria uma escritora. Tudo começou quando seus filhos eram pequenos, e ela começou a inventar histórias para contar a eles. Naquela época, já era formada em Belas-Artes e trabalhava como desenhista numa empresa, mas inventar histórias lhe agradou tanto que começou a escrever e a trabalhar com isso. Primeiro, foi roteirista do programa Bambalalão, na TV Cultura de São Paulo; mais tarde trabalhou na TV Bandeirantes e na TV Record. Começou a publicar em 1988 e já fez uns 100 livros. Ela disse que o que mais a deixa feliz é saber que alguém leu um livro seu e se emocionou, se divertiu e viajou na aventura. 

Desenho de Biry

Biry Sarkis é desenhista e autodidata – aprendeu a desenhar sozinho. É mineiro e tem duas filhas, a Lua e a Clara, suas companheirinhas e muitas vezes fontes de inspiração para o seu trabalho. Já fez ilustração para muitos livros e revistas infantis. Com os seus desenhos ajuda a contar histórias e também cria as suas. Quando era pequeno ele brincava muito, principalmente na rua, na cidade de Caxambu, onde passou sua infância, em Minas Gerais.