Hoje vamos começar mais um clube de leitura com os alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte, desta vez será com duas turmas do sexto ano, no total são sessenta alunos do 6ºA e do 6ºB, e o livro é As Frangas, de Caio Fernando Abreu.
Quem organiza o nosso clube na escola e a professora Luciana, de Língua Portuguesa mas, nesta edição, a professora Gláucia, de artes, também participou, os alunos fizeram, na aula dela, galinheiros de massinha, inspirados na leitura do livro. A professora Luciana me mandou umas fotos e disse que os alunos adoraram fazer esse trabalho, publiquei algumas neste post.
Acho que não preciso contar como funciona o nosso clube de leitura, pois está tudo explicadinho no post anterior.
O sumiço dos Morangos Mofados
A escolha do livro As Frangas, de Caio Fernando Abreu, para o clube de leitura, aconteceu do mesmo jeito que a do Beatriz em trânsito, de Eloí Bocheco. A
professora Luciana me mandou a lista dos livros do 6º ano, vi, e logo escolhi esse, por dois motivos. Primeiro é que há muito tempo ouço falar de Caio Fernando Abreu, mas nunca tinha lido um livro dele, nem sabia que tinha escrito livro infantojuvenil.
Meu pai me falou um pouco de Caio Fernando Abreu, e contou que nos anos 1980 havia uma coleção de livros da Editora Brasiliense, chamada “Cantadas Literárias”. Vários escritores que apareceram nesse tempo, publicaram seus livros nessa coleção, inclusive o Caio F., que era assim que muitas vezes ele assinava.
Paulo Leminski, Marcelo Rubens Paiva, Chacal, Ana Cristina César, e muitos outros autores, a coleção teve mais de quarenta títulos. O Jorge Miguel Marinho, que eu conheço e já falei dele aqui no blog, também escreveu pra essa coleção, o livro do Jorge se chama Escarcéu dos Corpos.
Tem livros que meu pai diz que nunca mais se esqueceu, como Porcos com Asas, Marcou, Dançou! e Feliz Ano Velho. Meu pai tem uns vinte títulos da coleção “Cantadas Literárias”, guardados na estante aqui de casa, e jura que tinha também o Morangos Mofados, o que o Caio publicou nessa coleção. “Devo ter emprestado pra alguém que não me devolveu”, ele ficou lamentando.
A vida íntima de Laura
O outro motivo que me fez escolher esse livro é que ele foi inspirado em um da Clarice Lispector, que eu já li. Uma vez estava pesquisando escritores que ficaram famosos, escrevendo para adultos, mas também publicaram livros infantojuvenis e encontrei diversos: Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, entre outros, até Tolstoi escreveu para crianças, também. Foi nessa pesquisa que descobri a Clarice Lispector, li três livros dela e contei aqui, no post “Li Clarice Lispector”. Um desses livros é o A vida íntima de Laura, que inspirou As Frangas, de Caio Fernando Abreu.
Nesse livro, depois de contar a história de Laura, a galinha do quintal da dona Luísa, que mais botava ovos e por isso, era a
protegida, Clarice Lispector faz um convite ao leitor: “Se você conhece alguma história de galinha, quero saber. Ou invente uma bem boazinha e me conte”. Caio Fernando Abreu, que leu o livro da Clarice, resolveu contar a dele e escreveu As Frangas. Ele disse que gostava muito da Clarice e queria agradá-la um pouco. Ela já tinha morrido, mas ele achava que a gente também pode agradar as pessoas que já morreram, “é só fazer coisas de que ela gostava”.
Uma roda a três e outra história de meu pai menino
Sempre que tem clube de leitura, peço para o meu amigo Lipe ler o livro, pra gente fazer, em dois, uma roda de conversa, e compartilhar nossas leituras. Mas desta vez, nossa conversa teve mais um participante, meu pai também leu As Frangas e pediu pra entrar na roda.
– Não sabia que o Caio Fernando Abreu tinha escrito um livro infantojuvenil, li, gostei muito e só quero falar duas coisas.
– Pode falar quantas quiser, pai.
– A primeira é sobre o próprio autor, ele é o tipo de escritor que escolhe as palavras certas para compor uma frase, fica gostoso de ler, é muito prazeroso ler suas histórias.
– Que legal, tio, eu adorei esse livro, também! – O Lipe chama meu pai de tio, eu também chamo o pai dele, assim.
– Agora quero contar uma história de galinha, mas é bem rapidinha…
– A que a Clarice pediu, tio?
– Sim, Felipe, a que a Clarice pediu. A história do livro As Frangas me lembrou de minha casa na infância, ela tinha um quintal bem grande, com pés de frutas e muitos bichos,
tinha galinhas, e também tinha patos. Minha mãe colocava os ovos da pata pra galinha chocar, principalmente nos tempos de chuva, ela achava que a pata andava muito pelo barro e os patinhos sofriam pra seguir a mamãe pata. Era muito engraçado, depois que os patinhos nasciam, ver um bando deles, junto dos irmãozinhos pintinhos, seguindo a mamãe galinha.
– Vovó devia ser uma figura!
– E era, Heitor… Mas às vezes era meio intrometida… Onde já se viu querer mudar a natureza dos patos?
Depois foi nossa vez de falar, contamos, eu e o Lipe, tudo que percebemos na leitura que fizemos do livro. Meu pai prestava muita atenção e sorria, a cada revelação que a gente fazia. Quer saber? Uma das coisas que mais gosto no meu pai é esse interesse que ele tem por nossas opiniões.
As oito frangas de Caio F.
O livro As Frangas, escrito por Caio Fernando Abreu, com ilustrações de Suppa e publicado pela Editora Vida Melhor começa com o autor dizendo que a melhor história de galinha que ele conhece é a da Clarice Lispector, contada no livro A vida íntima de Laura. Depois ele explica porque prefere chamar a galinha de
franga:“Olha, para dizer a verdade, nem sei direito. Quando olho para uma galinha, acho ela muito mais com cara de franga. Acho mais engraçado.”
Então ele começa a falar da casa onde nasceu, tinha um pátio enorme, (que aqui a gente chama de quintal), tinha uma porção de árvores, “tinha também formiga, passarinho e cachorro”, o Faruque e a Cadeluda. No jardim tinha hortênsia, um jasmineiro e umas margaridas. Também tinha uma bergamoteira, que dava bergamotas, (que aqui a gente chama de mexerica).
Ele diz que o bom quando a gente conta uma história, “é poder chamar as coisas como a gente quer chamar, não como todo mundo chama.” E pede pra gente experimentar… Ele ainda continua contando muito mais sobre essa sua casa, de quando era criança e do seu pátio enorme, até chegar na história das suas frangas, que eram oito:
A Ulla; a Gabi; as três Marias, Maria Rosa, Maria Rita, Maria Ruth; a Otília; a Juçara e a Blondie. Cada franga tem sua história; a Ulla, por exemplo, nasceu na Suécia; a Gabi nasceu na Paraíba, mas foi encontrada no Rio de Janeiro; as três Marias são irmãs e vivem grudadas; a Otília, o Caio ganhou num parque de diversões.
A Juçara, ele acha a mais bonita, mas as outras não podem saber disso, senão rola um ciúme; e a Blondie, que quer dizer lourinha em inglês, é norte-americana, e por isso tem esse nome, pois ela é lourinha, também. Mas elas não vivem nessa casa do Caio, com um pátio enorme, suas oito frangas moravam em seu apartamento, em São Paulo e na maior parte do tempo, ficavam em cima de sua geladeira.
Caio Fernando Abreu (1948-1996) foi jornalista, crítico literário e escritor, considerado um dos representantes de sua geração, nasceu na cidade de Santiago, no Rio Grande do Sul, estudou Letras e Artes Cênicas na UFRGS, mas abandonou esses cursos para trabalhar como jornalista em revistas, como a Nova, Manchete, Veja e Pop.
Também escreveu para os jornais Correio do Povo, Zero Hora, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Em 1968, durante a Ditadura, foi perseguido e refugiou-se em São Paulo, na casa da escritora Hilda Hilst. Nesse tempo morou na Espanha, Suécia, Países Baixos, Inglaterra e França, retornando a Porto Alegre em 1974.
Em 1983 mudou-se para o Rio de Janeiro, depois, em 1985, veio viver e trabalhar em São Paulo. Convidado pela Casa dos Escritores Estrangeiros, voltou à França, em 1994, mas quando descobriu que era portador do HIV, foi morar na casa de seus pais, em Porto Alegre, onde ficou até sua morte, no dia 25 de fevereiro de 1996. Escreveu romances, contos, peças de teatro, novelas, crônicas, e ainda fez traduções. Além de As Frangas e Morangos Mofados, publicou Onde Andará Dulce Veiga?, Pequenas Epifanias, Os Dragões não Conhecem o Paraíso, A Maldição do Vale Negro, Limite Branco, O Ovo Apunhalado, e muitos outros. Seus livros foram traduzidos para diversas línguas e receberam muitos prêmios, inclusive dois Jabutis.












































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