David Almond no clube de leitura

De todas as coisas que faço com este blog uma das que mais gosto é o clube de leitura. Fora os livros que leio pra escola é difícil encontrar e conversar com alguém que tenha lido o mesmo que eu, no clube de leitura eu encontro muitos, pois nele fazemos o caminho inverso, primeiro formamos um grupo, depois escolhemos o livro, lemos e no final compartilhamos nossas leituras.

Hoje vou começar a compartilhar aqui no blog a leitura que fiz do livro Meu pai é um homem-pássaro, vou escrever o post e esperar os comentários. Quem sugeriu esse livro foi a professora Luciana da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte – é ela quem organiza o clube lá na escola. A professora e os seus alunos já leram e trabalharam com esse livro em sala de aula, na semana passada recebi um e-mail dela me avisando: “Já acabamos a leitura e a atividade… agora estamos só aguardando o post.” E eu respondi ao seu e-mail dizendo que publicaria hoje.

No ano passado fizemos dois encontros do clube de leitura da Luiz Gatti, um foi com o livro A professora encantadora, de Márcio Vassalo e outro com Os herdeiros do Lobo, de Nelson Cruz, neste até entrevistamos o autor. Foi muito bom, adorei! Está tudo publicado aqui no blog, inclusive os comentários dos alunos sobre os livros. Quem quiser ler depois esses posts é só procurar pela ferramenta de busca do blog.

Nossa roda de conversa

Já li o Meu pai é um homem-pássaro e conversei com o Lipe, que também leu. Sempre que tem clube de leitura, peço a ajuda do meu amigo:

– Você gostou do livro, Lipe?

– Gostei… No começo achei meio estranho, o pai pensava que podia voar…

– Eu também… E achei que ele estava ficando louco…

– Então… A filha nem queria deixar o pai sozinho em casa…

– Até a tia veio cuidar dele…

– Mas depois achei legal, a filha entrou na fantasia do pai e a história ficou da hora.

– Ouvi dizer que isso se chama realismo mágico… Na minha pesquisa, li que o David Almond é o Gabriel García Márquez da literatura juvenil.

– Quem? Esse que morreu na semana passada?

– Sim, esse mesmo! Um dia ainda vou ler um livro dele!

O pai voador

O livro Meu pai é um homem-pássaro, escrito por David Almond, ilustrado por Polly Dunbar e publicado pela Editora WMF Martins Fontes conta a história de Jackie, pai de Lizzie, que certo dia, durante o café-da-manhã, disse à filha que iria voar: “Vou entrar numa competição… a Grande Competição do Passáro Humano”. O primeiro a atravessar voando o rio Tyne ganharia mil libras, o pai ia se inscrever, dizia que ia ganhar e, finalmente, ficar famoso.

Lizzie não acreditou na história do pai, disse que ele podia até voar, mas não podia deixar de “tomar ar puro e de comer todo o seu almoço”. A filha via que seu pai não se cuidava, ele não fazia a barba, vivia de pijama e não comia mais, pelo menos comida de gente, pois, escondido, comia insetos feito os pássaros, queria emagrecer: “Você já viu pássaro gordo?” – perguntou à filha. Nesse dia a filha resolveu faltar à escola e ficar vigiando o pai.

David Almond diz que sempre soube que queria ser escritor, quando ainda era criança escrevia histórias e costurava seus próprios livros, seus tios enchiam uma sala de amigos para ouvir essas histórias, e ele conta que eles choravam de tanto rir.

A história do livro continua e entram em cena outros personagens: O senhor Poop, o gorducho que andava pelas ruas com um megafone, anunciando e fazendo as inscrições da competição – o pai de Lizzie, o senhor Jackie Corvo, fez a dele; o senhor Mint, o diretor da escola, que, preocupado, veio até a casa de Lizzie para “ficar a par do que estava acontecendo”; e a tia Doreen que achava um absurdo essa ideia de pássaro humano, dizia que a cidade estava enlouquecendo, e que as pessoas deviam se preocupar em ser pessoas, e manter os pés em terra firme.

No começo Lizzie concordava com a tia, mas aos poucos foi mudando, foi entrando na fantasia do pai, e também fez sua inscrição para a competição. Será que foi por amor ou ela acreditou, mesmo, que eles podiam voar? E a história segue, com os preparativos e a chegada do grande dia. Será que eles voaram? Eu não vou contar, só quem ler o livro vai saber.

Adorei as ilustrações desse livro, os desenhos da Polly Dunbar são muito bonitos e divertidos, ela contou que foi muito gostoso ilustrar Meu pai é um homem-pássaro, disse que ficou “engraçado, colorido, e ao mesmo tempo comovente”. Também gostei de saber que o David Almond adorava a biblioteca do seu bairro – eu também adoro a minha -, e ele ainda contou que sonhava um dia ter livros com seu nome na capa… Conseguiu e ainda ganhou o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio mundial da literatura infantil!

David Almond mora em Northumberland, na Inglaterra e é um dos escritores britânicos mais importantes de literatura infantojuvenil. Foi criado numa família grande e animada, numa cidade de minas de carvão às margens do rio Tyne, onde muitas histórias se tornaram partes de sua vida. Além de O meu pai é um homem-pássaro, publicado no Brasil, escreveu outros livros infantojuvenis traduzidos para o português e publicados em Portugal como, O meu nome é Mina, Um cantinho no paraíso, O grande jogo, e o seu primeiro livro, O segredo do senhor ninguém, que logo fez muito sucesso de público e crítica e ganhou os prêmios “Carnegie Medal” e o “Whitbread Children’s Book Award”. Escreveu outros livros de sucesso como Skellig, The fire-eaterse, e muitas histórias e peças teatrais. Também ganhou os prêmios “Smarties Prize”, “Eleanor Farjeon” e o “Hans Christian Andersen”.

Polly Dunbar estudou na Brighton Art School e mora em Brighton, na Inglaterra. Autora e ilustradora dos livros Dog blue, Flyaway Katie, Here´s a little poem e Penguin, ela acha que as cores são uma maneira maravilhosa de dar ânimo às pessoas. “Foi tão gostoso ilustrar Meu pai é um homem-pássaro! É engraçado, colorido, e ao mesmo tempo comovente.” Sempre que está triste, veste seu melhor vestido cor-de-rosa e pinta. E, quando não está desenhando, adora fazer marionetes.

Extra… Extra! Fotos das turmas da Escola Municipal Luiz Gatti no clube de leitura

Lendo o livro no pátio da escola

Lendo o blog na sala de informática

Outra turma na sala de informática lendo o blog

E depois, ainda, escreveram seus comentários aqui!


Encontro com Luiz Ruffato e novos amigos

No post passado falei que queria fazer treze anos, logo, pra poder ler livros mais maneiros, não fiz treze anos, ainda, mas nesses dias li um livro bem maneiro do escritor Luiz Ruffato, o livro se chama Estive em Lisboa e lembrei de você. Li esse livro por (quase) sugestão da minha amiga Bel, já falei dela aqui no blog, ela faz parte do LiteraSampa, uma ONG que trabalha com incentivo a leitura, que tem uma biblioteca comunitária no bairro de Parelheiros, aqui na cidade de São Paulo.

Eles também fazem um clube de leitura e neste mês leram esse livro, não pude ir no dia que eles conversaram sobre o livro mas, na semana passada, a editora do livro, a Companhia das Letras, promoveu um encontro do autor com os meninos e meninas que frequentam essa biblioteca, a Bel me convidou e eu fui. Nesse dia conheci o Luiz Ruffato, fiz novos amigos, passei uma tarde da hora e hoje vou contar tudo, primeiro vou contar o encontro e no final vou falar do livro.

O escritor do discurso de Frankfurt

Quando a Bel me contou do encontro com o Luiz Ruffato, eu logo fiquei a fim de ir, perguntei a ela quando seria e anotei na minha agenda, no ano passado ele fez um discurso na abertura da Feira de Frankfurt e deu a maior polêmica. Nunca tinha lido nada desse escritor, que eu saiba, ele não escreve literatura juvenil, mas mesmo assim perguntei a Bel que livro ela sugeria para eu ler dele. Foi quando ela me contou do clube de leitura e que os meninos estavam lendo o Estive em Lisboa e lembrei de você, mas que eu não precisa ler pra participar desse encontro com o autor.

Acho que ela pensou que eu era muito pequeno para ler esse livro, mesmo assim fui atrás dele: Como eu ia participar de um encontro sem ter lido nada do escritor? Encontrei o livro e mostrei para o meu pai, ele já conhecia, disse que eu podia ler, sim, e que se tivesse alguma dúvida era só perguntar pra ele. Encarei o livro, li e adorei, o Luiz Ruffato escreve de um jeito legal e bem diferente, mas como disse, ainda não vou falar do livro, primeiro vou contar o encontro.

O caminho da biblioteca

“Heitor, você pega um ônibus para o Terminal Santo Amaro, lá você pega o Terminal Parelheiros e desce no final – a viagem é um pouquinho longa. Dentro do Terminal Parelheiros, na segunda plataforma, você vai pegar o ônibus Barragem, aí pede para o motorista ou cobrador te deixar no ponto da igreja católica do bairro Colônia. Descendo nesse ponto, você procura o cemitério mais próximo, que fica ao lado da igreja, suba a rua do cemitério, a biblioteca fica ao lado, Rua Sachio Nakao, 28, Colônia, Parelheiros, São Paulo, SP”. Com esse e-mail o Du, meu novo amigo de Parelheiros, me orientou a chegar à Biblioteca Caminhos da Leitura, que fica no terreno do cemitério.

O caminho do ônibus é bem bonito, passa pela avenida da represa – parece que a gente está na praia – e por lugares cheios de ávores e com poucas casas – parece que a gente está no inteiror -, mas estamos na cidade de São Paulo – esta cidade é muito grande! Cheguei na hora marcada, encontrei a Val e o Rafael, que eu já conhecia dos eventos do PMLL, conheci o Kevin, que não ficou para o evento, e fiz novos amigos, o Du (do e-mail), o Rodrigo, o Bruninho, a Sidinéia e a Tamiris, todos frequentam e cuidam dessa biblioteca comunitária.

Não demorou muito chegaram a Bel, o Luiz Ruffato e a Janine, a moça que trabalha na editora e organiza os clubes de leitura. Conversei um pouco com eles e aproveitei para confirmar com a Bel nosso próximo compromisso do PMLL. No dia 10 de abril, finalmente, os secretários vão assinar a portaria que cria o grupo de trabalho – já falei disso aqui, é minha nova luta política, depois do dia 10 conto mais novidades. Mas deixa eu voltar para o assunto de hoje, estou rodeando muito – por falar em “rodear”, o Luiz Ruffato contou uma história bem engraçada sobre isso, que já já eu conto.

O menino que se escondia na biblioteca

O quintal da biblioteca

Vieram outras pessoas, o evento tinha bastante gente, sentamos todos, a Bel fez a apresentação, passou a palavra para a Janine, que abriu o encontro com uma pergunta para o Luiz Ruffato: Como foi seu caminho para virar escritor? Antes de começar a responder, ele ficou muito emocionado e quase chorou, acho que o amor dos meninos e meninas de Parelheiros pelo livro e o cuidado que eles têm com a biblioteca o fez lembrar de sua infância pobre em Cataguases, Minas Gerais. Ele contou que ainda criança ajudou seu pai, pipoqueiro – sua mãe era lavadeira -, trabalhou num botequim, num armarinho, depois entrou numa importante escola pública da sua cidade. Lá se sentia discriminado por ser pobre, até descobrir um lugar para se esconder, a biblioteca.

A bibliotecária lhe emprestava livros pra levar pra casa, mas seu pai não deixava que ele ficasse muito tempo com “coisas dos outros”: – “Leia logo e devolve para ela!” Nesse tempo “foi um inferno minha vida”. Ele tinha que ler o livro bem rápido pra levar de volta à biblioteca, mas com isso, calcula que nesse período, leu uns duzentos livros. No final, por uma injustiça, foi suspenso, saiu dessa escola e perdeu o acesso ao livro, mas já tinha sido “inoculado pelo veneno da leitura”, mas só voltou a ter contato com o livro na faculdade. Estudou jornalismo em Juiz de Fora e depois veio para São Paulo, mas nesse intervalo, muitas coisas aconteceram, que ele conta de um jeito bem gostoso de ouvir.

Fizemos algumas perguntas e ainda conversamos sobre seu discurso em Frankfurt e sobre o seu livro Estive em Lisboa e lembrei de você. Queríamos saber se o personagem se parece com o autor, e ele disse que não é tão ingênuo quanto o Serginho. No final os meninos e meninas deram um presente pra ele, poemas que escreveram, inspirados no livro, dentro de uma caixa feita com colagens, e o Luiz Ruffato quase chorou, de novo. A Janine também ganhou um presente.

Na volta peguei carona de carro com a Bel, viemos a Bel, eu, o Luiz Ruffato, a Janine e outra moça da editora. Fiquei sabendo de um monte de histórias desse mundo do livro, e o Luiz Ruffato ainda contou uma bem legal sobre o seu pai. Disse que para contar alguma coisa ele gostava de “rodear” – sua mãe o criticava muito por isso. O cachorro da vizinha morreu, esta era a notícia. Pra dizer isso ele contava a história de toda a família da vizinha, seus pais, seus irmãos, casamentos, separações, mudanças, etc., até chegar ao final, a morte do cachorro. Para contar a história do pai que rodeava, o Luiz Ruffato também rodeou, inventou na hora e contou uma história interinha, cheia de sotaque mineiro. Adorei, foi boa demais da conta!

Um mineiro em Lisboa

O livro Estive em Lisboa e lembrei de você, escrito por Luiz Ruffato e publicado pela Companhia das Letras faz parte da coleção “Amores Expressos”. Uma produtora junto com a editora selecionou alguns escritores, eles fizeram uma viagem para alguma cidade ao redor do mundo e escreveram um romance, com uma história de amor. A produtora fez um documentário com o escritor nessa cidade, procurando a história, e a editora publicou os livros. Istambul, Cairo, Tóquio, Buenos Aires, Dublin, Havana, Praga foram algumas das cidades escolhidas. Luiz Ruffato queria uma cidade onde pudesse colocar, como personagem, um imigrante mineiro, poderia ser alguma cidade dos Estados Unidos, mas escolheu Lisboa. Serginho é o personagem principal desta história, dividida em dois capítulos, “Como parei de fumar” e “Como voltei a fumar”.

Serginho vivia em Cataguases, sua cidade natal e sua vida não estava nada boa, muita coisa ruim acontecia e ainda tentava parar de fumar, mais uma vez. Queria sair de lá, ir pra outro lugar, ganhar dinheiro e melhorar de vida, mas tinha medo, não conhecia nada. O Rio, de passagem, foi cinco vezes, “molhar o pé em Copacabana, subir no bondinho do Pão de Açucar, ver jogo do Flamengo no Maracanã”, São Paulo, pra sua irmã comprar roupa pra revender, e Juiz de Fora, “que não conta, pois é quintal de Cataguases”. Um dia ouviu falar que em Portugal poderia ganhar muito dinheiro e quem sabe, até encontrar um novo amor. Só de falar que queria ir “pro estrangeiro” o povo da cidade já ficou “puxando-saco” dele, “Serginho isso, Serginho aquilo, Doutor Serginho, só faltava deitarem no chão para eu pisar em cima”.

Para saber das coisas Serginho resolveu explorar a experiência do seu Oliveira, português, dono do Beira Bar, “que ultimamente, de dois em dois anos, viajava pra lá”, encostou no balcão, pediu uma cerveja, um pratinho de azeitona e perguntou: “Como é que um sujeito chega em Portugal?”, “De avião, ora pois”, “Como é um avião por dentro?”, “Apertado”, “De onde sai o avião?”, “Do Rio de Janeiro”, “Quanto tempo demora a ida?”, “Umas nove horas”, E a volta?, “Mesma coisa, ora pois”, e fez muitas outras perguntas. No final, Serginho foi pra Portugal, agora, se conseguiu ganhar dinheiro e encontrar seu verdeiro amor, só lendo o livro, mesmo, pra saber. Adorei esse livro do Luiz Ruffato, gostei muito do jeito que ele escreve e nem precisei fazer tantas perguntas, assim, para o meu pai. Ah, peguei um autógrafo do Luiz Ruffato, mais um para minha coleção de livros autografados.

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi “pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista”. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série de cinco livros Inferno provisório e o aclamado Eles eram muitos cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.

Juvenil de Mirisola e luta política

No post de hoje vou continuar com um assunto que falei no anterior, ser atraído pelos títulos dos livros. Outro dia saí com o pessoal da Sintaxe, eles foram comprar alguns livros e na lista tinha um título do escritor Marcelo Mirisola, Charque. O moço da livraria foi até a estante, voltou com outro livro do mesmo autor e disse: “Por que vocês não levam este, também, e dão de presente ao menino?” – o menino no caso era eu. “É um infantil do Mirisola?!” – eles perguntaram, surpresos. O livro tem jeito e formato de livro pra criança, mas é juvenil, se chama Teco, o garoto que não fazia aniversário, foi escrito por Marcelo Mirisola e Furio Lonza, e ilustrado por André Berger.

De cara fiquei interessado pelo livro, achei que o título tinha tudo a ver comigo. Também não faço aniversário, nasci no dia 20 de novembro, mas desde que comecei a fazer este blog só fiz aniversário uma vez, tinha onze e agora tenho doze. Neste ano estou pensando em fazer aniversário, novamente, com treze vou poder ler livros mais maneiros. Mas voltando ao assunto, ganhei o livro de presente, li e me surpreendi, o livro não era nada do que estava imaginando. Adorei! Nunca tinha lido um livro juvenil como esse e hoje vou falar um pouco dele.

Mas antes quero contar mais um capítulo da história da minha primeira luta política, a luta em defesa da biblioteca do meu bairro, pois na semana passada fui assistir a uma reunião no Condephaat.

Mais uma vitória da nossa luta

Tivemos mais uma vitória na luta em defesa da biblioteca e do quarteirão do nosso bairro, mas a luta continua… Queremos mais! Todos que acompanham meu blog ou viram, na época, essas notícias nos jornais, devem saber do que estou falando. Esse quarteirão fica no bairro do Itaim Bibi e nele tem uma biblioteca, um teatro, duas escolas, dois serviços de saúde e a APAE. O prefeito queria derrubar tudo – não esse que está aí, o outro – e entregar para uma empreiteira construir apartamentos de luxo. Já aprendi, isso se chama especulação imobilária, um dos grandes males que está acabando com a história e a memória de muitas cidades no Brasil.

Durante nossa luta aprendi muitas outras coisas, fiquei sabendo que esse formato, diversos serviços públicos no mesmo espaço é um projeto de Anísio Teixeira, um dos mais importantes educadores brasileiros; que a biblioteca que atualmente se chama Anne Frank, foi fundada em 1946 e está nesse terreno por sugestão de Monteiro Lobato; que esse quarteirão conta a história de como a cidade foi ocupada, e que já não existem muitos desses em São Paulo. Por tudo isso e muito mais, entramos com pedido de tombamento junto ao Condephaat.

Companheiros de luta nos corredores do Condephaat, não estou aí, na foto, pois fui eu que bati

Em janeiro deste ano eles deram a resposta, tombaram só a biblioteca e o teatro, os outros serviços do quarteirão ainda poderiam ser derrubados por algum prefeito amigo da especulação.  Então fizemos uma “contestação”, entramos com “recurso” contra a decisão do Condephaat, e a nova resposta saiu na reunião da semana passada, o conselho votou e nós assistimos à votação. A Áurea, advogada do nosso movimento, me explicou que, além do tombamento da biblioteca e do teatro, agora eles decidiram “delimitar toda a quadra como área envoltória dos dois bens tombados”.

Acho que foi uma vitória, mas ela disse que isso não garante nada, ainda: “Como não foram divulgados os parâmetros construtivos da área envoltória, corremos o risco de não conseguir preservar todos os equipamentos.” Mas ela disse que já protocolou um “pedido de vista do processo” para esclarecer essas questões. Essas coisas de advogados são complicadas, não entendo muito bem, mas assim que tiver mais notícias, conto aqui.

Estou feliz, já vencemos muitas batalhas e a luta continua. O meu amigo Luiz Gabriel, companheiro do movimento, me disse que esse foi mais um capítulo da nossa luta: “Você que gosta de contar histórias, Heitor, deve entender muito bem dessas coisas de capítulos”. Disso, acho que entendo melhor.

As desventuras de Teco

Teco, o garoto que não fazia aniversário é o primeiro livro juvenil de Marcelo Mirisola, foi escrito em parceria com Furio Lonza, ilustrado por André Berger e publicado pela Editora Barcarolla. Li o livro e pesquisei sobre o Mirisola, dizem que ele faz um texto ‘escatológico’ e violento, e escracha a sociedade com uma linguagem cheia de humor, deboche e muita ironia. Achei irado, adorei esse Mirisola! A aventura desse livro começa numa segunda-feira, num dia bonito, Teco não gostava de festa de aniversário, odiava bolo, detestava brigadeiro, a única coisa que ele gostava um pouco dessas festas era a língua-de-sogra.

Teco se divertia, mesmo, com as palavras que mexiam com sua imaginação: avalanche, enxurrada e desabamento eram suas preferidas. Gostava de ficar trancado em armários, sempre que podia vestia as roupas da mãe, às vezes, se escondia no depósito de materiais de limpeza da escola, adorava cheiro de tinta fresca e de páginas emboloradas de livros antigos. Não gostava de Playcenter, nem montanha-russa, ficava na garagem do prédio ouvindo o barulho das tubulações e lambia azulejos, uma vez até pegou bicho geográfico na língua. Teco era um garoto muito esquisito!

Ilustração de André Berger

Na terça-feira Teco foi ao supermercado com sua mãe, enquanto ela fazia compras, “o garoto mergulhava de cabeça num livro de mistérios”, ia lendo, caminhando, esbarrando nas pessoas e derrubando as latas de leite das gôndolas. Teco também achava chato esse negócio de fazer compras, só queria terminar a história do livro pra saber quem era o assassino. De repente, tirou os olhos da leitura e viu um palhaço de verdade, nariz vermelho, sapatões sete léguas, cabelos espetados, suspensórios amarelos, calças cheias de bolinhas, mas era uma figura meio triste e parecia bêbado.

O palhaço se chamava Cachacinha, eles começaram a conversar, contaram suas vidas, do que mais gostavam e ficaram amigos, mas só até o dia seguinte. Na quarta-feira Chachacinha levou Teco ao centro da cidade, sequestrou o menino, se juntou ao parceiro Alambique e o levou ao cativeiro. Lá Teco ficou amigo do sagui Nico, fugiram, e levaram o boneco inflável do sagui, o Máicon Jackson. No caminho conheceram um grupo de garotos, Mané, Guinza e Nóia, que nasceram e cresceram na malandragem das ruas. Esse é só um pequeno resumo do começo da história, depois, toda turma vive uma aventura irada, um pouco violenta, mas contada no estilo Mirisola, “cheio de humor, deboche e com muita ironia”, como descobri na minha pesquisa. Eu adorei!

Marcelo Mirisola é considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, conhecido pelo estilo inovador, agudo, escancara as contradições do status quo, sobretudo do universo dos intelectuais moderninhos e suas posturas demarcadas pelo que se convencionou politicamente correto. Escreveu contos e romances, além de Teco, o garoto que não fazia aniversário e Charque, Mirisola publicou, O herói devolvido, Joana a contragosto, Bangalô, O banquete (com o cartunista Caco Galhardo), Fátima fez os pés para mostrar na choperia, Proibidão, entre outros, e em maio vai lançar o romance, Hosana poluída.

Furio Lonza nasceu na Itália, veio para o Brasil com cinco anos de idade. Jornalista – chegou a ser repórter – já nos anos 1970 enveredou-se pela literatura. Inicialmente escrevendo contos – um deles premiado no concurso de contos eróticos da revista Status, em 1977 – domina todos os gêneros. Do conto à poesia passando pelo romance. Em 2011 escreveu o seu primeiro texto para o teatro, Patagônia, com montagem dirigida por Xando Graça, com Diana Hime e Joana Lerner, que fez temporada no Teatro Maria Clara Machado (Planetário), Rio de Janeiro.

André Berger é artista plástico e ilustrador, colaborou com diversas publicações independentes do Brasil.

Li três livros de Ondjaki

Gosto de fuçar nas estantes das livrarias a procura de livros novos pra ler, também faço isso nas bibliotecas, nas duas que mais frequento na minha cidade, a Anne Frank e a Monteiro Lobato. Tem muitas coisas que me chamam a atenção para um livro, a capa, o título, o autor, quando é conhecido. Se gosto do livro assim de cara, já começo a ler os textos; o da quarta capa, que é aquele impresso na parte de trás do livro; e a orelha, que é o texto escrito naquela dobra que tem na capa.

Se o interesse vai aumentando, leio a apresentação, quando tem; ou o começo do primeiro capítulo. Sempre que chego até aí, dá vontade de levar o livro e terminar de ler em casa. Quando estou na biblioteca é fácil, só pegar emprestado; na livraria, nem sempre tenho dinheiro pra comprar, daí fico na vontade. Apesar de que para livros meus pais sempre me dão dinheiro, e depois, eu não peço tanto assim.

Foi o que me aconteceu outro dia, estava fuçando numa livraria e vi, de longe, um livro que tinha uma capa muito bonita, cheguei mais perto e o peguei na mão, Os da minha rua, é o nome do livro. Esse título já me fez lembrar as histórias que sempre ouço de meu pai e de sua rua da infância, inclusive contei uma dessas histórias no post anterior. Também me lembrei do meu amigo e vizinho Lipe, e das nossas histórias, que não são tão emocionantes como as de meu pai, mas que são bem legais também.

Não conhecia o autor. Abri pra ver se o livro era, mesmo, como eu estava pensando – às vezes a gente pensa que um livro é uma coisa, mas ele é outra. Li a orelha, a apresentação e a primeira história, é um livro de contos. Os da minha rua é exatamente como pensei, melhor até. Levei pra casa – nesse dia tinha dinheiro pra comprar – li e gostei tanto, que fui procurar outros livros desse autor. Encontrei, li três livros de Ondjaki e hoje vou falar deles, dos livros e do escritor.

Infância em Luanda de escritor angolano é inspiração para seus livros

Além de Os da minha rua, li A bicicleta que tinha bigodes, e Uma escuridão bonita, que é ilustrado com desenhos de António Jorge Gonçalves. Também quero ler o AvóDezanove e o segredo do Soviético, que ganhou Jabuti de Melhor Livro Juvenil em 2010, mas esse vai ficar pra depois, minha cota pra comprar livros neste mês, já se esgotou. Enquanto lia os três livros, assisti a uma entrevista com Ondjaki na TV, vi outros vídeos na internet, e fiquei sabendo muita coisa de sua vida e de sua obra.

Descobri que muitas histórias que estão em alguns de seus livros são inspiradas em suas próprias histórias, ele disse que sempre gostou de ouvir e de contar histórias e acha que foi por isso que virou escritor. Seu nome verdadeiro é Ndalu de Almeida, nasceu em Angola, na cidade de Luanda, escreve para adultos, mas também já publicou livros juvenis e infantis, e ganhou muitos prêmios literários.

Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo, personagens de "Bom dia camaradas"

Ondjaki tem livros em que o narrador é uma criança, disse que quando escreveu esses livros foi como se essa criança tivesse ditado a história para ele, essas histórias se passam em Luanda e tem personagens que existem, de verdade, como sua avó, seus pais, suas irmãs.

Ele conta que a cidade de Luanda é cheia de histórias, “se uma pessoa chega atrasada a um compromisso, ao invés de, simplesmente, se desculpar, ela vai contar uma história, vai inventar uma história”. A cidade também é inspiração para seus livros, principalmente a Luanda de sua infância: “Se eu lembro de Luanda eu lembro-me de coisas boas, e se eu me lembro de coisas boas, eu fico com vontade de escrever, depois é só decidir se aquilo dá ou não dá para fazer material para um livro”.

A estória que valia uma bicicleta

A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, publicado pela Pallas Editora é um dos seus livros em que o narrador é uma criança, que como disse o autor, ditou toda a história para ele. O livro conta que na rua do menino narrador vivia o tio Rui, um “escritor que inventa estórias e poemas que até chegam a outros países muito internacionais”. O Camaradamudo, “um senhor gordo que fala pouco” e que também vive nessa rua, disse que as estórias do tio Rui viraram peças de teatro num país de nome comprido, “parece que se diz ‘Julgoeslávia’.” Um dia o menino ouviu uma notícia na rádio, que iam dar uma bicicleta colorida, bem bonita, para quem escrevesse a melhor estória.

Mas ele não tinha jeito nenhum para essa coisa das estórias e foi falar com outras crianças pra saber quem tinha ideias e queria participar do concurso nacional da bicicleta colorida. Ninguém quis ajudar, então foi conversar com o Camaradamudo e por fim conseguiu a ajuda de sua amiga Isaura. Juntos, elaboraram um plano, que se ganhassem, dividiriam a bicicleta nos dias da semana. O plano seria pegar alguma história do tio Rui, que ficavam presas em seu bigode e depois eram guardadas em uma caixa pela tia Alice. “Ela esfregava os bigodes, soprava, esperava e aquilo acontecia: pequenas letras caíam do bigode para a caixa, eram vogais de ‘a’, ‘e’, ‘i’, ‘o’, ‘u’, mas também sobras de ‘k’ e ‘w’, alguns ‘t’, e dois ‘h’.”

Essa é só uma parte bem pequena do livro, pois até ele conseguir escrever a estória pra tentar ganhar a bicicleta, acontecem muitas coisas na história desse livro, bonitas e engraçadas. No final ele manda pra rádio a sua estória, que não é bem uma estória, mas que só vai descobrir o que é, quem ler o livro.

Histórias da rua de Ondjaki em Luanda

Li na apresentação de Os da minha rua, de Ondjaki, publicado pela editora Língua Geral, que o livro faz parte da coleção Ponta de Lança, que apresenta “aos leitores brasileiros vozes novas, ou ainda pouco conhecidas”, algumas aqui do Brasil, mesmo, outras da África, da Ásia e da Europa, “expressando-se” em Português. Quando conheci o Museu da Língua Portuguesa e contei aqui no blog, eu disse que adoro essas coisas, saber que posso conversar com pessoas de outras partes do mundo, na minha língua.

Agora, ao ler esse livro de Ondjaki, descobri que não é só na língua que somos parecidos, muitas histórias da sua rua, que fica na cidade de Luanda, em Angola, país da África se parecem com as histórias daqui, que li, ouvi e até vivi, algumas.

Como já disse é um livro de contos, são 22 histórias, uma mais legal que a outra, narradas pelo “miúdo” Ndalu, o nome verdadeiro Ondjaki, têm personagens de sua vida real, sua mãe, seu pai, sua tia, seu tio, seu avô, sua avó, seus professores cubanos e seus amigos de infância. Certamente são histórias de sua própria infância ou, pelo menos, muito parecidas com ela.

Tem histórias engraçadas e divertidas, outras emocionantes e até um pouco tristes – confesso que chorei em algumas, mas todas muito bonitas. Não é um livro juvenil, mas li, adorei e entendi quase tudo. Só algumas palavras do português falado em Angola, que eu não sabia o que eram, mas no final do livro tem um glossário, que explica todas, no A bicicleta que tinha bigodes também tem glossário.

A estória de um beijo

O livro Uma escuridão bem bonita, escrito por Ondjaki e publicado pela Pallas Editora é juvenil. Tem ilustrações de António Jorge Gonçalves, são desenhos muitos bonitos, que ajudam a criar o clima romântico da história, que começa quando a luz elétrica acaba de repente. O narrador da história puxa conversa com uma menina e lhe faz uma pergunta: “Tu não achas que as pessoas são uma coisa tão bonita?”

A menina não responde, só lhe faz “uma festinha rápida na mão”, e ele descobre que “uma pessoa pode dizer coisas sem ser com a voz de falar”. A história continua e ele vai pensando e refletindo sobre outras descobertas, até perceber que a mão da menina estava perto da dele, e sente “uma comichão de ausência na proximidade daquele calor” e tenta esconder que o que ele mais queria naquele momento, era uma “carícia calada” dela.

Ele arrisca outra pergunta: “Achas que pode caber o que no coração das pessoas?” Ela responde: “Muitas coisas. Um poema, uma recordação, um cheiro de infância, um ‘desejo de estrelas’…” “Como é um ‘desejo de estrelas’?” “É olhar para uma estrela e desejar uma coisa.” Eles continuam conversando até voltar o silêncio, que ele interrompe com outra pergunta:

“Achas que o coração das pessoas é pequeno?” “Sim. Pequenino mesmo.” E o silêncio volta novamente, que “fica muito nítido na ausência da luz.”  – Nesses silêncios da história ele reflete sobre umas coisas bem legais. Desta vez ele interrompe o silêncio com um pedido: “Dá-me só um beijo…” “Não posso…” Ele percebe os dentes dela rindo na escuridão. “Porquê?” “Porque não tenho vontade.” E a história continua, com conversas, silêncios, reflexões, cinema imaginário, até chegar… Nem preciso dizer que no final eles se beijam, um beijo tão delicado, que só vendo…

Ondjaki (Ndalu de Almeida) nasceu em Luanda, Angola, em 1977, e atualmente vive no Rio de Janeiro. Escreve romance, contos e às vezes poesia. Também escreve para cinema e correalizou o documentário “Oxalá cresçam Pitangas”, sobre a cidade de Luanda. É membro da União dos Escritores Angolanos, licenciado em Sociologia em Portugal, fez doutorado em Estudos Africanos na Itália. Recebeu os prêmios António Jacinto (Menção Honrosa, Angola); Sagrada Esperança (Angola, 2004); Prêmio Literário António Paulouro (Portugal, 2004); Grande Prêmio do Conto (A.P.E., Portugal, 2007); Grinzane – young african writer (pelo conjunto da obra, Itália/Etiópia, 2008); Prêmio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância (Portugal, 2012); Prêmio Literário José Saramago (Portugal, 2013); FNLIJ – juvenil (Brasil, 2010 e 2013); e Jabuti – juvenil (Brasil, 2010). Seus romances, contos, poesia e livros infantis, foram traduzidos para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, polonês e sueco.

António Jorge Gonçalves é de­senhista, ilustrador e nasceu em Lisboa, Portugal. Faz HQ (história em quadrinhos), ilustração edi­torial, cartoon político e desenho digital ao vivo. Publicou e expôs em Portugal, Austrália, Coreia do Sul, Espanha, França, Bélgica e Itália. Desenha semanalmente um cartoon político (suplemento Inimigo Público, no jornal  Público). Tem trabalhado extensivamente na área performativa criando cenografia para várias peças de teatro e fazendo Desenho Digital ao Vivo com músicos, atores e baila­rinos em Portugal, França, Alemanha, Japão e EUA. Criou o projeto Subway Life desenhando pessoas sentadas em carruagens do Metrô em várias cidades do mundo. Leciona sobre “Es­paços Performativos” no mestrado em artes cênicas da FSCH (Lisboa).

Abaixo a ditadura

Agora, em 2014 vai completar 50 anos do golpe que tirou João Goulart da presidência do Brasil e implantou a ditadura militar no nosso país, isso aconteceu no dia 31 de março de 1964 e a ditadura durou até 1985. Foram anos difíceis, já li e ouvi muitas histórias a respeito dessa época. Hoje vou falar de um livro que descobri no jornal, li no ano passado e estava esperando uma oportunidade pra falar dele: 1968 – Ditadura Abaixo, escrito por Teresa Urban e ilustrado por Guilherme Caldas.

A autora Teresa Urban morreu em junho de 2013, aos 67 anos, de infarto. Li a matéria do jornal anunciando sua morte e contando que ela era jornalista, defensora do meio ambiente, lutou contra a ditadura, e foi presa e torturada pelo regime militar. Ela queria explicar aos netos por que sua geração lutou contra um regime autoritário, e fez esse livro, que foi lançado em 2008, e junta textos e história em quadrinhos. Hoje vou falar dele, mas antes quero contar uma história bem legal que ouvi de meu pai e tem tudo a ver com esse assunto.

História de meu pai menino

Aprendi a gostar de muitas coisas com meu pai, como ler jornal, jogar futebol e contar histórias. Meu pai gosta de contar histórias e eu adoro ouvir as histórias dele, principalmente as de sua infância. Meu pai viveu a infância numa rua sem saída e sem asfalto, aqui mesmo na cidade de São Paulo. Ele jogava bola na rua com seus amigos e marcava o gol com pedras, só tinham traves quando jogavam no campo do adversário da rua de trás ou numa quadra de futebol-de-salão, que ficava a uns quinhentos metros da casa dele, mas isso era só de vez em quando, o dia-a-dia era no chão batido, mesmo.

A rua também era um ponto de encontro, no começo da noite eles se reuniam pra conversar e contar histórias, até já falei aqui no blog dessas conversas e das competições com histórias de assombração. Na rua de meu pai havia duas turmas, a turma dos mais velhos, que eles chamavam de “grandões” e a dos “pequenos”, que era a que meu pai pertencia. Na época em que aconteceu a história que vou contar agora, meu pai ainda era criança, e alguns dos “grandões” já saiam pra trabalhar e todo dia traziam histórias de fora pra contar na roda. Outros foram servir o exército e à noite voltavam com histórias emocionantes lá dos quartéis.

Meu pai disse que pela localização de seu bairro, todos os “grandões” serviam o exército no quartel de Quitaúna, que ficava na cidade de Osasco. E foi nesse quartel que o Nenéco serviu, “o Nenéco era irmão do Li, um amigo da minha idade” – lembrou meu pai. Um dia já estavam todos reunidos, conversando e o Nenéco chegou com cara de assustado:

– Vocês não vão acreditar o que aconteceu hoje lá no quartel…
– O que foi que aconteceu, Nenéco?
– O capitão enlouqueceu!
– Por quê? O que foi que ele fez?
– Ele mandou a gente carregar uma Kombi com fuzis.
– E o que vocês fizeram?
– Carregamos… E o capitão foi embora, saiu do quartel com a Kombi cheia de fuzis FAL.

Havia censura e essas notícias não saiam no jornal, só depois de alguns anos, estudando História, meu pai descobriu que o que o Nenéco contou era História importante do Brasil. Nesse dia, um capitão do exército saiu do quartel, levou consigo 63 fuzis FAL, três metralhadoras leves e munição, deixou as Forças Armadas e foi para a clandestinidade lutar contra o regime militar.

Sim, o capitão do Nenéco era o Lamarca! O Nenéco driblou a censura e veio dar a notícia na roda da rua de chão batido, onde meu pai e seus amigos jogavam futebol. EXTRA! EXTRA! Ele contou essa história algumas horas depois de ela ter acontecido, a história do dia em que o capitão Lamarca abandonou o exército e foi lutar contra a ditadura militar. E meu pai também estava lá pra ouvir a notícia.

Livro com HQ conta história da luta política contra a ditadura

Quem me conhece sabe que eu adoro uma luta política, depois que participei da luta em defesa da biblioteca do meu bairro, não quero mais parar. Hoje estou participando de um movimento pra criar o Plano Municipal do Livro e da Leitura na cidade de São Paulo, já falei um pouco dele aqui. Esse processo andava meio parado na prefeitura, mas acabei de saber que a portaria que cria o grupo de trabalho (GT) já está pronta, e a secretaria de cultura quer marcar um evento público pra fazer as assinaturas. OBA! Depois conto mais detalhes.

Também, por tudo isso, adorei ler 1968 – Ditadura Abaixo. Escrito por Teresa Urban, com quadrinhos de Guilherme Caldas, e publicado pela Arte & Letra Editora, o livro é dividido em cinco partes: “Muito, muito antes de 1968”; “Pouco antes”; “1968”; “Depois”; e “2008”; ano em que o livro foi lançado. Em “Muito, muito antes de 1968”, a autora, só com textos, faz um resumo da história do Brasil e do mundo, começando antes do descobrimento, e indo até 1960, quando foi inaugurada a nova capital do Brasil, Brasília. Em “Pouco antes”, ainda em forma de textos, ela conta o período que começa em 1960, fala dos grandes movimentos políticos e culturais no Brasil e no mundo, do golpe em 1964, até chegar em 1967, quando foi criado o Conselho de Segurança Nacional (CSN).

A terceira parte, “1968”, é a maior parte do livro. No formato de quadrinhos de Guilherme Caldas, com “personagens fictícios e fatos, nem tanto”, uma moça “um pouco excêntrica”, um rapaz “bem educado”, “um sujeito misterioso”, um louco por teatro, outro “louco por cinema”, dois “rebeldes”, e um “líder” contam como se organizaram pra enfrentar a ditadura militar, e como viveram aqueles tempos movimentados e difíceis.

Além de mostrar essa história, nessa parte o livro reproduz fotos, capas de revistas, jornais, propagandas, letras de músicas, cartazes de peças de teatro e filmes da época; cartas e documentos da Polícia Federal e da União Paranaense dos Estudantes; manifestos, bilhetes; fichas policiais e lista de pessoas procuradas e perseguidas; e outras referências, que documentam e ilustram a história contada nos quadrinhos.

Na quarta parte, “Depois”, a autora volta à forma de texto e faz um resumo de como foram os anos seguintes à ditadura, até acabar, em 1985, e na quinta e última parte, “2008”, ela mostra como estavam os pesonagem dessa história no ano que o livro foi publicado.

Teresa Urban (1946 – 2013) nasceu e viveu em Curitiba (PR). Formou-se em jornalismo em 1965 pela Universidade Federal do Paraná. Participou dos movimentos estudantis, fez militância política contra a ditadura e ingressou na Organização Revolucionária Marxista (Polop). Foi presa diversas vezes e exilou-se no Chile de 1970 a 1972. Trabalhou no jornal A Voz do Paraná, colaborou com O Estado de S. Paulo, O Globo, revista Veja, entre outros, e foi pioneira, especializando-se em jornalismo ambiental. Também militou nessa área contribuindo para projetos do SOS Mata Atlântica, Mater Natura e ajudou no mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná, e a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conam). Escreveu mais de 20 livros.

Guilherme Caldas é artista plástico e ilustrador, nasceu em Curitiba, frequentou o atelier do pintor paranaense Andrade Lima e cursou Artes Plásticas em São Paulo, na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Viveu em São Paulo por 9 anos, criou fanzines e um deles, o Candyland virou uma linha de camisetas. Voltou para Curitiba em 1999 e passou a tocar a Candyland Comics, marca de roupa e escritório de ilustração e design gráfico. Atua no mercado publicitário, atende agências e produtoras como ilustrador, designer gráfico e projetos de animação. Em quadrinhos publicou Comércio, um dos volumes da coleção Mini Tonto, de Fábio Zimbres, entre outros.

Encontro de blogueiros e Anne Frank

Hoje vou falar de um encontro de blogueiros de literatura que participei na semana passada, de uma exposição sobre Anne Frank que vi na biblioteca do meu bairro e do livro O diário de Anne Frank.

Na outra semana o pessoal da Sintaxe me ligou.

– E aí, Heitor, beleza?

– Beleza… E vocês?

– Também… Então, a Livraria da Vila e o PublishNews vão promover um encontro de blogueiros literários, entra lá no site e faz sua inscrição.

– Eu vi, eles vão selecionar trinta blogs para esse encontro… Será que eu tenho chance?

– Claro que tem!

Fiz minha inscrição, mas não acreditava que seria selecionado, tem tanto blog bacana por aí… Dois dias antes do encontro recebi um e-mail:

“Boa noite. Estou enviando este email apenas para confirmar que sua inscrição no I Encontro de Blogs de Letras foi confirmada e você foi um dos selecionados para participar. Caso não possa estar presente, por favor, me envie um email para que eu possa colocar outra pessoa em seu lugar. O Encontro será na próxima quarta-feira, às 18h30 no auditório da Livraria da Vila de Pinheiros. Abraços, Matheus.”

Fiquei muito feliz e respondi ao e-mail do Matheus:

“Oi, Matheus. Bom dia. Presença confirmadíssima! Até lá, abraços, Heitor.”

Ganhei presentes e conheci mais um escritor

Peguei um ônibus perto de casa, que me leva até a Livraria da Vila de Pinheiros, chegando lá encontrei o meu amigo escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves, ele tem um blog chamado “Amplexos do JeosaFÁ” e também foi selecionado para esse encontro. Fomos para o auditório da livraria e o Sérgio Pavarini, do “PavaBlog”, que, junto com o PublishNews, a Livraria da Vila e a Editora Record organizaram esse evento, começou a fazer as apresentações. Ele falou de seu trabalho e pediu que a gente se apresentasse, também. Quando chegou minha vez, contei a história do meu blog e, como ouvi alguns dizendo que participavam de clubes de leitura, também falei dos clubes de leitura que a gente faz aqui no blog. Quando terminei de falar o Sérgio fez o seguinte comentário:

– Legal, que as pessoas falam, aproveitam e já fazem o seu marketing.

Fiquei pensando: “Será que fui muito exibido?”

Depois o Sérgio dividiu a turma em cinco grupos de seis e começamos uma competição. Ele fez várias perguntas sobre livro e literatura, e o grupo que acertasse a resposta, ganhava pontos. Se errasse, passava a mesma pergunta para o próximo grupo, valendo mais pontos, ainda. No final da competição, quando faltava apenas uma pergunta, meu grupo não tinha feito nenhum ponto, sequer. Os outros grupos tinham 15, 12, 10, 7 e 5 pontos mais ou menos, e o nosso tinha zero. Que vergonha!

Quando chegou à última pergunta, a regra era apostar os pontos que quisesse, e só haveria um acertador. Apostamos quinze, pois era tudo ou nada, se errássemos, sairíamos devendo 15, se acertássemos, seríamos os grandes campeões. Adivinhem o que aconteceu? Acertamos e ganhamos uma caixa luxuosa de metal com livros da Editora Record. Cada pessoa do grupo ganhou uma caixa, antes a gente já tinha ganhado uma sacola com kits (blocos de anotações, etc) e dois livros do escritor que conheci lá, o Santiago Nazarian: Garotos Malditos e Mastigando Humanos.

Existencialismo bizarro

Existencialismo bizarro, foi o que li quando fui pesquisar sobre Santiago Nazarian, antes de ir para o encontro, não entendi muito bem, mas no bate-papo que teve com a gente, ele explicou melhor. Ele disse que nas suas histórias “mistura referências clássicas da literatura existencialista, com cultura pop, trash e de horror”. Em 2007, Santiago Nazarian foi eleito um dos autores jovens mais importantes da América Latina pelo juri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro.

O seu romance Mastigando Humanos, apesar de não ter sido escrito para o público juvenil, foi adotado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e é leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba. Ele também faz literatura juvenil e o seu romance Garotos Malditos foi contemplado com bolsa de criação literária do programa Petrobras Cultural. São exatamente esses dois livros que ganhei de presente da editora, até peguei autógrafos do autor e conversei um pouquinho com ele. Vou ler os dois e depois vou contar aqui.

A primeira biblioteca a gente nunca esquece

Outro dia passei na biblioteca do meu bairro pra conversar com o meu amigo Gustavo e visitar a exposição sobre a Anne Frank, a menina que escreveu o diário, que virou “um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos”, e deu nome à nossa biblioteca.

Logo na entrada encontrei o meu amigo, que é o coordenador de lá.

– Oi, Gustavo. Tudo bem?

– Tudo… E você, Heitor? Anda sumido!

– Muitas provas na escola…

– Que nada… Agora que você cresceu, só vai na Lobato, se esqueceu da Anne Frank.

– Não me esqueci, não… A primeira biblioteca a gente nunca esquece, e agora eu tenho duas!

Visitei a exposição “Lendo e escrevendo com Anne Frank”, conversei mais um pouco com o Gustavo e ele me falou que na semana seguinte viria uma escola da cidade de Arapeí, interior de São Paulo, ver a exposição, e me perguntou se eu não queria acompanhar, pois essa visita seria monitorada.

– Venho, sim. Quando vai ser?

– Terça-feira da semana que vem, vão chegar às 11 horas.

– Tô nessa!

A turma de Arapeí

Arapeí é uma cidade que fica no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, quase divisa com o Rio de Janeiro. Monteiro Lobato, que era de Taubaté, cidade da mesma região, incluiu Arapeí entre as “cidades mortas” daquela área. Os alunos e professores que vieram visitar a exposição são obrigados a desmentir o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Arapeí está muito viva! Quem me contou essa história de“cidades mortas” foi um dos alunos, eles vieram em vinte, já estão no ensino médio, e estavam acompanhados das professoras Solange, Dagmar e Tânia.

Esse trabalho da escola incluía a leitura de O diário de Anne Frank e alguns já tinham lido o livro. Conversei com esses pra saber se gostaram. Nesse dia eu ainda não tinha lido O diário de Anne Frank, há muito tempo que pensava em ler, mas sempre adiava, achando que seria muito pesado. Depois dessas conversas, criei coragem, eu tinha que ler. Como ainda não li o livro que conta a história da menina que deu nome a minha biblioteca! Então, pensei: leio O diário de Anne Frank, e falo da exposição e do livro. Li, mas agora deixa eu voltar à exposição, que no final do post, eu conto o livro.

Na hora que cheguei à biblioteca, nesse dia, o monitor já estava lá, era o meu amigo Toufic. Fiquei conversando um tempo com ele, até a escola chegar. Ele me contou os detalhes dessa exposição, me disse que ela veio da Holanda e é promovida pela “Anne Frank House”. Assim que a escola chegou fomos para outra sala assistir a um vídeo, depois o Toufic falou do diário e da Anne Frank, passou a palavra para o Gustavo, que falou da nossa biblioteca, a Anne Frank, citou a luta pra ela não ser demolida, disse que eu tinha participado dessa luta e me pediu que eu contasse um pouco dessa história.

Sempre que isso acontece, fico empolgado e acabo fazendo um discurso inflamado. Essa luta mexeu muito comigo! Quando aconteceu, falei dela aqui no blog, e no ano que vem vou contar toda essa história, em detalhes, mas não vai ser aqui no blog, não. Vai ser de outro jeito, de um jeito bem legal. Aguardem!

Voltando a exposição, um painel apresentava a história na ordem cronológica, do lado de fora, a história do mundo, e de dentro, a história de Anne Frank. Fomos acompanhando o Toufic, que foi nos contando todas as etapas dessas duas histórias. No final recebemos um caderno de atividades para testar os nossos conhecimentos e aprender ainda mais sobre o mundo daquela época de guerra e sobre Anne Frank. Na exposição também tinha uma maquete do esconderijo da família Frank, uma reprodução do original do diário e outros livros sobre esse assunto.

Minha querida Kitty

Anne Frank deu o nome de Kitty ao seu diário e escrevia como se contasse a uma amiga. Começou a escrever no diário no dia 12 de junho de 1942, e em julho desse mesmo ano, sua família e outras quatro pessoas foram para um esconderijo em Amsterdã, fugindo da perseguição nazista, Anne tinha 13 anos de idade. Ela queria publicar um livro depois da guerra, usar o diário como base e dar o título de O Anexo Secreto. A última anotação feita no diário de Anne Frank foi no dia 1º de agosto de 1944, três dias depois, na manhã do dia 4, um carro parou em frente à casa onde ficava o esconderijo e os oito moradores do Anexo foram levados para uma prisão em Amsterdã, transferidos para Westerbork, na Holanda, e depois deportados para Auschwitz, na Polônia. Toda a família Frank morrreu nos campos de concentração, exceto o pai, Otto Frank, que escapou de Auschwitz, voltou para a Holanda, se mudou para Suíça, se dedicou a espalhar a mensagem do diário de sua filha e viveu até 1980.

A história de O diário de Anne Frank não é novidade pra ninguém. No livro, ela conta o seu dia-a-dia no esconderijo, fala das dificuldades e faz muitas reflexões:

Digo a mim mesma, repetidamente, para não ligar para o mau exemplo de mamãe. Só quero ver o lado bom, e procurar dentro de mim o que falta nela. Mas isso não funciona, e o pior é que papai e mamãe não percebem suas próprias incapacidades nem como eu os culpo por me deixarem deprimida. Será que existem pais que façam os filhos completamente felizes?

Além de O diário de Anne Frank, ela escreveu algumas histórias e contos, há outras narrativas escritas por ela, publicadas em livros no Brasil. Adorei Anne Frank e o seu diário. Abaixo um dos trechos que me fez gostar tanto desse livro e me apaixonar por Anne.

Eu sei que posso escrever. Algumas de minhas histórias são boas, minhas descrições do Anexo Secreto são bem-humoradas, boa parte de meu diário é vivo e interessante, mas… resta saber se realmente tenho talento.

“O Sonho de Eva” é meu melhor conto de fadas, e o estranho é que não tenho a menor ideia de onde ele surgiu. Algumas partes de “A Vida de Cady” também são boas, mas no todo não é nada especial.

Sou minha crítica melhor e mais feroz. Sei o que é bom e o que não é. A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso; eu sempre reclamava de não conseguir desenhar, mas agora me sinto felicíssima por saber escrever. E se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever para mim mesma. Mas quero conseguir mais do que isso. Não consigo me imaginar vivendo como mamãe, a Sra. vam Daan e todas as mulheres que fazem o seu trabalho e depois são esquecidas.

Preciso ter alguma coisa além de um marido e de filhos a quem me dedicar! Não quero que minha vida tenha sido em vão, como a da maioria das pessoas. Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte! E é por isso que agradeço tanto a Deus por ter me dado este dom, que posso usar para me desenvolver e para exprimir tudo que existe dentro de mim!

Boas Festas

Em janeiro eu volto pra contar as minhas leituras de férias. Desejo a todos e a todas Boas Festas, Bom Natal e Feliz Ano Novo. Estou bem animado com 2014, ele promete muitas novidades!

Três passeios e um livro sobre livro

– Você vai abandonar seu blog, Heitor?

– Por que, mãe?!

– Nunca mais você escreveu…

É a segunda vez que minha mãe fala isso, outra vez que fiquei um tempo sem publicar aqui, ela me disse a mesma coisa, minha mãe é meio exagerada, depois, desta vez, nem faz tanto tempo assim.

– Nunca vou abandonar o blog, mãe!

Eu disse, um pouco alterado, e corri ao computador pra escrever o post de hoje.

Assunto não falta, neste mês fiz três passeios da hora e li um livro que conta a história de uma biblioteca mágica. O primeiro passeio foi na cidade de São José dos Campos, fui com o pessoal da Sintaxe encontrar os alunos do professor Carlos, que participaram do clube de leitura, que está no post anterior. O segundo passeio foi na sala São Paulo, no centro da cidade, fui com minha amiga Paula assistir à entrega do prêmio Jabuti. O terceiro foi numa livraria; e o livro que li, adorei e vou contar um pouco da história dele é A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, de Jostein Gaarder e Klaus Hagerup.

Passeio a São José dos Campos

Quando comecei a fazer este blog só queria falar dos livros que leio e mostrar como e por que gosto tanto de ler. Com o tempo fui descobrindo outras vantagens, fiz passeios, fui a lançamentos e feiras de livros, conheci escritores, ilustradores, editores e um monte de gente legal nesse mundo maravilhoso da literatura. Ainda teve mais, fiz contatos por e-mail com alguns professores e organizamos aqui no blog os nossos clubes de leitura, que agora começam a render outra atividade e trazer mais vantagens: Recebi um convite do professor Carlos, com quem organizamos o último clube de leitura.

O convite era para participar de um encontro com seus alunos e conversar sobre livros e leitura. Só que a escola dele fica em São José dos Campos, não podia ir sozinho e tive que pedir ajuda ao pessoal da Sintaxe. Todos sabem quem é o pessoal da Sintaxe? Eu já falei deles, aqui… Sintaxe é a assessoria de imprensa que me deu este blog de presente, me apresentou aos primeiros escritores e me ajuda a divulgar. Eles concordaram em me levar, conversaram com os meus pais e fomos. Eles também participaram do bate-papo. Esse foi o nosso primeiro encontro pra falar de livros com alunos de outras escolas, adorei e quero fazer mais.

A turma do Vera Lúcia

Vitória Sousa, Stefanie, Raiane, Isabelle, Eduardo, Bruna, Ana Camila, João Victor, Cristian, Diego, Carlos, Adriele, João Gabriel, Bruno, Iago, Pedro Henrique, Mateus, Nicole, Pedro Lucas, Iara, Gustavo e Vitória Morais são alguns dos meus novos amigos, que conheci, pessoalmente, na visita que fiz à EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, na cidade de São José dos Campos. Eles formam o clube de leitores dessa escola, que fica perto do centro da cidade, num terreno enorme, cheio de árvores, tombado pelo patrimônio histórico. O encontro foi na sala de leitura da escola.

Participamos de um bate-papo, coordenado pelo professor Carlos, sobre livro e leitura. Descobri que assim como eu, eles também gostam muito de ler, e acho que foi isso que me aproximou, ainda mais, deles, o amor pelo livro e pela leitura. Falamos do que gostamos mais de ler; dos nossos escritores preferidos; de como viramos leitores; com quem aprendemos a gostar de livros; falamos do livro O gênio do crime, de João Carlos Marinho, que foi o tema do nosso clube; e trocamos dicas de leitura. No intervalo, eles leram trecho de um livro do professor Carlos – me disseram que ajudaram o professor a escrever esse livro; e no final ainda me fizeram um monte de perguntas sobre o blog.

Aproveitei para contar algumas das muitas aventuras que já vivi com o blog, inclusive, a luta com o prefeito da minha cidade na defesa da biblioteca do meu bairro. Acho que foi a que eles mais gostaram e prometi que um dia vou contar mais detalhes dessa história. Almoçamos e na parte da tarde visitamos, com o professor Carlos, a Bienal do Livro de São José dos Campos. Na Bienal eu participei de um bate-papo sobre poesia. Adorei o encontro e o passeio, um dia quero voltar a São José dos Campos e rever meus novos amigos.

Antes de vir embora o professor Carlos me deu dois livros que ele acabou de lançar, Os Palermas e O dia que tentaram virar os pés do Curupira, este da coleção Histórias da lua-cheia. Além de professor, ele também é escritor, já falei de outro livro dele aqui. Agora vou ler esses dois e depois eu conto.

Passeio ao Jabuti

Outro dia recebi um e-mail da minha amiga Paula: “Oi, Heitor. Vc vai na entrega do Jabuti? Tem convite? Bj, Paula.”.

Eu respondi: “Oi, Paula. Convite eu tenho, eles me mandaram, mas não sei se vou, à noite, no centro da cidade, não posso ir sozinho. Bj, Heitor.”.

Ela respondeu: “Vai comigo, na volta, te deixo em casa.”.

Eu respondi:  “OBA!”. E fomos!

Meus amigos escritores

Chegamos à Sala São Paulo, pegamos a fila pra ver se nosso nome estava na lista de convidados, estava, entramos na sala e já começamos a encontrar nossos amigos, a Paula encontrou o Guilherme Azevedo, que também é jornalista como ela, publicou um livro, As Aventuras de Alencar Almeida (O Repórter) e é editor de um site, “Jornalirismo“ (www.jornalirismo.com.br). O Guilherme é bem legal, ficou com a gente e fomos passear pela sala pra encontrar mais amigos.

O primeiro que encontrei foi o Luiz Antonio Aguiar, que mora no Rio de Janeiro. Ele tem muitos livros publicados e premiados, gosto muito do Luiz Antonio e já falei de um livro dele aqui, A espada turca, um romance de literatura fantástica. Neste Jabuti ele ganhou o segundo lugar de Melhor Juvenil com o livro Os anjos contam histórias. Quero ler esse também.

Depois encontrei o Nelson Cruz, que mora em Santa Luzia, Minas Gerais. Já fizemos um clube de leitura aqui no blog com um livro dele, Os herdeiros do Lobo. Neste Jabuti ele ganhou o terceiro lugar de Melhor Ilustração Infantil e Juvenil com o livro A máquina do poeta. Também encontrei a Marilda Castanha, mulher do Nelson, eu a conheci no outro Jabuti, daquela vez foi ela quem ganhou prêmio de melhor ilustração.

Fui procurar a Socorro Acioli, precisava encontrá-la, afinal, torci por ela, e o seu livro Ela tem olhos de céu pegou o primeiro lugar de Melhor Infantil. Encontrei a Socorro, que me disse que não acreditou quando recebeu a notícia, ficou tão feliz e emocionada que não conseguia conversar com ninguém, nem responder as mensagens que recebia em sua casa em Fortaleza. Disse que demorou um tempo pra voltar ao normal. Também encontrei a Eny Maia da Editora Biruta e conversei um pouco com ela. Foi a Eny que publicou o livro da Socorro.

Também encontrei o Jeosafá Fernandes Gonçalves, outro dia falei de um livro dele, O Jovem Mandela, ele estava com a Rosa, da Nova Alexandria, que é a sua editora. O livro Cheiro de chocolate e outras histórias, de Roniwalter Jatobá, publicado pela Nova Alexandria ganhou o terceiro lugar na categoria Livro de Contos e Crônicas. Conversei um pouco com o Roniwalter e o cumprimentei pelo prêmio.

Conheci o Tomás Martins, da Ateliê Editorial. A Ateliê ganhou o Jabuti, em primeiro lugar, na categoria Arquitetura e Urbanismo com o livro do professor Benedito Lima de Toledo, Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. O Tomás me contou que o Benedito foi seu professor na Faculdade de Arquitetura. Já tinha trocado alguns e-mails com o Tomás quando falei, aqui no blog, de um livro da Ateliê, o Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, de Liev Tolstói.

No final, depois da entrega dos troféus, encontrei o André Neves, ele me disse que a gente só se encontra no Jabuti, eu disse pra ele continuar a ganhar os prêmios pra gente se encontrar sempre. Da outra vez, ele ganhou o segundo lugar de Ilustração e o primeiro de Melhor Infantil com o livro Obax. Li esse livro, adorei e falei dele aqui no blog. Desta vez o André ganhou o primeiro lugar de Melhor ilustração Infantil e Juvenil com o livro Tom. O André estava com a Daniela Padilha, da Editora Jujuba, que me convidou para visitar sua editora, e eu vou.

O Luis Fernando Verissimo ganhou o prêmio de Melhor Livro do Ano de Ficção com Diálogos Impossíveis, que foi primeiro lugar na categoria Contos e Crônicas; e o Audálio Dantas, de Melhor Livro do Ano de Não Ficção, com As duas guerras de Vlado Herzog, que foi primeiro lugar na categoria Reportagem. A lista completa dos premiados: http://www.premiojabuti.org.br/resultado-vencedores-2013

Passeio à livraria

– Heitor, vou à livraria, quer ir comigo?

– Claro que quero!

– Então vamos logo, que já estou saindo.

– Espera, só vou me trocar.

Estranhei, fazia tempo que meu pai não me convidava pra ir à livraria com ele, no caminho ele me explicou, eu entendi, e adorei ainda mais nosso passeio daquele dia. A livraria estava fazendo uma promoção, e todos os livros infantojuvenis de uma editora estavam pela metade do preço. Ele me disse que eu podia escolher até três, não muito caros. Eu escolhi A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, de Jostein Gaarder e Klaus Hagerup; Noah foge de casa, de John Boyne; e Os Gêmeos: Crônicas de Salicanda – Livro I, de Pauline Alphen, esta escritora é brasileira, mas mora na França, eu a conheci na Bienal e já falei de outros livros dela, aqui no blog. Desses livros que ganhei já li A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken e hoje vou falar um pouco dele.

Homenagem ao livro

A primeira parte de A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, de Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, publicado pela editora Companhia das Letras se chama “O livro de cartas” e é contada pelas cartas que o menino Nils mandava para sua prima Berit e vice-versa. As cartas eram escritas num livro, comprado por Nils, que podia ser fechado a chaves. Só havia duas chaves, uma ficou com Nils e a outra ele enviou a Berit, quando inaugurou o livro, escreveu a primeira carta, trancou e o remeteu para sua prima. O livro partia de Oslo, capital da Noruega, onde morava Nils, e seguia para uma cidadezinha do interior do país, onde morava Berit, em seguida fazia o caminho inverso.

Essa história é cheia de mistérios e o primeiro já acontece logo na primeira carta. Quando Nils entrou na livraria para comprar esse livro, havia lá uma mulher estranha. Segundo ele, ela ficava passando na frente das estantes, olhando os livros e babando, como se eles fossem de chocolate, marzipã ou coisa parecida. E o mais estranho de tudo foi quando o menino foi ao caixa e a mulher se ofereceu para pagar o livro. Ela chegou perto dele e perguntou se não podia dar uma pequena contibuição. Disse isso com um olhar tão esquisito, que Nils não conseguiu recusar e aceitou a oferta da mulher misteriosa.

Atrás de desvendar esse mistério os primos vão encontrando outros, resolvendo alguns, narrando tudo em suas cartas e escrevendo esse livro, até chegar à segunda parte da história, que se chama “A biblioteca”. Nessa parte são revelados todos os mistérios que envolvem a biblioteca mágica de Bibbi Bokken.

São tantos os mistérios que num deles cheguei a pensar que essa mulher misteriosa sabia coisas até da minha própria vida. Diziam que nessa biblioteca havia livros que ainda não tinham sido publicados, um deles seria lançado no ano que vem e contaria a história de uma biblioteca. Eu sei de um livro que conta a história de uma biblioteca e vai ser lançado no ano que vem! De verdade! Mas isso ainda é segredo. Será que ela descobriu o meu segredo? Perguntei pro meu amigo Lipe o que ele achava disso tudo, ele também leu A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken e sabe desse outro livro.

– Você tá pirando, Le, confundindo ficção com realidade.

– Você acha, mesmo, Lipe?

– E anda muito autorreferente.

Não sei onde ele aprendeu essa palavra.

Jostein Gaarder nasceu em 1952, na Noruega. É autor de O mundo de Sofia (1995) e O livro das religiões (2000), entre outros livros de grande sucesso internacional.

Klaus Hagerup, nascido em 1946, é poeta, diretor teatral e autor infantojuvenil premiado na Noruega.

João Carlos Marinho no clube de leitura

Hoje é dia de clube de leitura! O clube de hoje será com os alunos do sexto e sétimo anos, do professor Carlos, da EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José dos Campos, e o livro que lemos foi O gênio do crime, do escritor João Carlos Marinho. São aproximadamente 70 alunos que estão participando desta edição do nosso clube. O professor Carlos disse que leu O gênio do crime quando tinha 12 anos – a nossa idade, minha e dos alunos dele – e esse foi um dos livros que o incentivou à leitura.

Esta edição do nosso clube de leitura também vai ter uma entrevista coletiva com o autor, como a que fizemos no clube com o Nelson Cruz. Os alunos do professor Carlos mandaram algumas perguntas, eu e o meu amigo Lipe bolamos mais duas, enviamos para o João Carlos Marinho, e ele respondeu. Ele disse que as nossas perguntas foram ótimas e que foi um prazer responder!

Como foram as outras edições do nosso clube de leitura, hoje eu publico o post e nos próximos dias os alunos vão deixando os seus comentários. Quem não faz parte do clube e quer deixar um comentário, também pode.

Nossa roda de conversa

– Lipe, um aluno da professora Luciana, de Belo Horizonte, me perguntou se você é meu amigo imaginário ou é de verdade.

– E o que você respondeu?

– Que é de verdade, claro! Eu ia mentir pra ele?

Desta vez foi mais fácil fazer a roda de conversa com o Lipe, depois que fizemos as pazes, estamos sempre juntos, ele até já foi comigo às reuniões do PMLL.

– Você gostou do livro O gênio do crime?

– Adorei e quero ler os outros livros da Turma do Gordo, achei essa turma bem maneira! E você, gostou?

– Gostei muito e também vou ler os outros da Turma do Gordo.

Conversamos bastante sobre o livro, contei ao Lipe as partes que gostei mais, e ele me falou das suas preferidas, até que me lembrei da entrevista coletiva:

– Viu, Lipe, esse clube com o João Carlos Marinho também vai ter entrevista coletiva, os alunos do professor Carlos vão mandar as perguntas e nós podemos fazer duas. Você já sabe o que perguntar?

– Sei, quero perguntar se ele montava álbuns de figurinha quando era criança e se conseguiu completar algum, meu pai disse que era muito difícil encher um álbum, antigamente.

– Boa! Também já sei o que vou perguntar… Li que ele recebe visitas de escolas em sua casa, aqui em São Paulo, vem alunos e professores, até de outras cidades, e conversam com ele sobre seu trabalho e seus livros. Vou pedir pra ele falar dessas visitas, quem sabe o professor Carlos decide trazer os seus alunos pra visitar o João Carlos Marinho e a gente vai junto com eles.

O livro O gênio do crime, escrito por João Carlos Marinho e publicado pela Global Editora começa assim: “Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol. Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixam pensar em mais nada. Quem enchia o ábum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando. Batia-se de concha, de mão mole, de quina, com efeito, de mão dura, conforme o tamanho do bolo, o jeito do chão e o personalíssimo estilo de cada um.”

Havia as figurinhas difíceis, por isso pouca gente conseguia completar um álbum. No álbum do Edmundo só faltava o Rivelino, ele comprava toneladas de envelopinhos e o Rivelino não saía; foi jogar abafa na Vila Matilde e no Tucuruvi, e nada; foi ao treino do Corinthians falar com o Rivelino e nem o próprio jogador tinha a figurinha dele mesmo. Certo dia seu amigo Pituca chegou com uma novidade: “disseram que no largo São Bento tinha um cambista que vendia as figurinhas abertas; o fulano encomendava a figurinha que queria e no dia seguinte o cambista trazia. Custava caro, mas era garantido.”

O Edmundo encomendou o Rivelino e, finalmente, conseguiu completar o álbum. Foi à fabrica buscar seu prêmio e descobriu que as figurinhas que o cambista vendia estavam levando seu Tomé, o dono da fábrica, à falência, muitos álbuns cheios e tantos prêmios, que seu Tomé não estava dando conta. Depois de muita conversa e negociações o Edmundo, o Pituca, o Bolacha, que nem de futebol gostava, e depois a Berenice, formaram a Turma do Gordo e resolveram ajudar o seu Tomé a encontrar a fábrica clandestina e pegar o gênio do crime.

O livro quase não saiu

O livro quase não saiu e o João Carlos Marinho ia desistir de ser escritor. Ele publicou O gênio do crime em 1969, mas até o livro ficar pronto, muitas coisas aconteceram. Começou a escrever o livro em 1965, quando tinha 30 anos de idade, morava em Guarulhos (SP), tinha um escritório de advocacia, aonde ia trabalhar à tarde, e de manhã ficava em casa, brincando com o filho pequeno, cuidando do jardim, da horta, do galinheiro, pensando e se lembrando da infância.

Lembrava sempre dos concursos de figurinhas de futebol e dos álbuns que colecionava quando era criança, achou que podia escrever um livro infantil, envolvendo um mistério e que tivesse figurinhas de futebol. Primeiro fez o desenho do livro, uma fábrica de figurinhas honesta, outra desonesta e um grupo de meninos detetives, em seguida criou os personagens, encaixou os personagens no desenho da história e começou a escrever os primeiros capítulos.

Quando escrevia a parte da história em que o gordo tem a grande ideia para perseguir e pegar os cambistas criminosos, a imaginação dele “secou”. Ficou 20 dias pensando nessa ideia, pensava no livro o dia todo, mas não conseguia encontrar uma saída, “deu branco total”. Abandonou os rascunhos na gaveta e durante 10 meses não pensou mais no livro. Quase desistiu de ser escritor, pensou que o que aconteceu com ele foi um “fogo de palha, que acontece na vida de todo mundo”.  Até que em janeiro de 1967, passando férias em uma praia, acendeu “uma lâmpada” em sua cabeça, que lhe revelou a grande ideia para continuar e terminar de escrever seu primeiro livro. Essa e outras histórias estão no site http://www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho.

Entrevista coletiva

“Nunca foi meu propósito seduzir o leitor e sim dar-lhe boa literatura”

Entrevistamos o João Carlos Marinho!

Fizemos algumas perguntas (eu, o Lipe e os alunos da EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José dos Campos), lhe enviamos e ele respondeu.

Clube de Leitura – Como é para você saber que tem milhões que gostam de seus livros?
João Carlos Marinho – Isso me deixa realizado como escritor, não tanto pela quantidade de livros vendidos, que sempre achei secundária em literatura (onde sigo a lição dos reais apreciadores), mas pela permanência no tempo. Já se passaram 44 anos do lançamento de O gênio do crime.

CdL – Você ganhou muito dinheiro com O gênio do crime?
JCM – Se somarmos esses 44 anos daria um soma alta, mas isso até com o salário de qualquer um. A renda que me dá não é grande, é modestamente confortável.

CdL – Em algum momento você pensou que o livro poderia não emplacar, por motivos como o contrabando de Edmundo ou pelo fato de Bolacha quase ser morto com uma facada, ou, ainda, por algum outro motivo?
JCM – Esses fatos citados são irrelevantes. Vamos substituir a palavra “emplacar” por “firmar-se na literatura”, que deixa mais claro de que nunca foi meu propósito seduzir o leitor e sim dar-lhe boa literatura. Nunca fiquei preocupado em ficar analisando se o livro ia ou não “firmar-se na literatura”. Deixei acontecer.

CdL – Você acha que seu livro pode ser lido por crianças menores de 8 anos?
JCM – A minha experiência pessoal como criança, a minha experiência de vida e a minha experiência de autor que há 44 anos conversa com leitores, individualmente ou nas classes que me visitam sucessivamente, me convenceram de que a organização cerebral meio simplória da criança dá um salto formidável a partir de aproximadamente 7 ou 8 anos (com raras exceções), que permite pensamentos bastante complexos. Por isso a idade ideal para ler meus livros, como eu constatei, é entre 9 e 12 anos ou 13. Quando começa a adolescência, pela minha experiência, a infância deixa de existir, o adolescente já é um adulto que se acha em um processo de metamorfose glandular violenta e a infância já acabou. Dos 12 ou 13 anos em diante o leitor pode entender perfeitamente meus livros, mas não entra no clima da infância, ele está fora do clima da infância, e não sente o mesmo prazer, não “veste a camisa”. Os professores também sentem isso e por isso nunca trazem classes de adolescentes para me visitar após a leitura. Os adolescentes (com exceções) fazem uma leitura “fora de foco”. Nesse ponto eu até prefiro a leitura dos menores de 9 anos, que já me trouxeram classes assim, inclusive de 7 anos, eles não tem um aproveitamento ótimo mas pegam umas coisas aqui e ali e, ao contrário dos adolescentes, estão “no foco”.

CdL – Você já recebeu alguma crítica, da qual não gostou? Pode revelar?
JCM – Não me recordo de nenhuma crítica que tenha me incomodado ou mudado o meu bom humor.

CdL – Já passou pela sua cabeça que os pais proibiriam as crianças de lerem o livro, pelo fato de os meninos da história mentir para os seus pais?
JCM – A literatura e de um modo geral toda a arte que chega até a criança sempre teve que passar pela vigorosa censura de pais e professores. É normal. Dentro disso também é normal que existam “transbordamentos” e “exageros de zelo”. Desde criança que eu sei disso e isso nunca me incomodou e nem me perturbou.

CdL – Hoje, você mudaria alguma coisa no livro O gênio do crime?
JCM – Não.

CdL – Qual foi a melhor opinião que lhe deram a respeito de O gênio do crime?
JCM – É uma que se repete sempre, de adultos me dizendo que meus livros abriram para eles os horizontes da boa leitura e que são guardados sempre na memória deles como inesquecíveis.

CdL – Você colecionava figurinhas quando era criança? Conseguiu completar algum álbum?
JCM – O fato de eu colecionar apaixonadamente figurinhas é que gerou este livro, junto com o fato de que era muito difícil encher um álbum por causa das figurinhas difíceis. Eu nunca enchi um álbum. Era uma emoção muito grande. Se quiserem saber como era o meu álbum é só acessar o vídeo MEU ÁLBUM que se acha no meu site.

CdL – Como são as visitas que professores e alunos fazem a você? Há um agendamento?
JCM – Os professores entram em contato comigo através do meu site que está impresso em todos os livros ou através dos divulgadores da Global e explicam que livro eles estão lendo, quantos alunos são e fica marcada uma data. O meu prédio tem um auditório muito agradável que fica no fundo de um grande jardim que as crianças devem atravessar para chegar até ele e por isso já chegam felizes. No mês passado esteve aqui o Colégio Maria Imaculada de Jacareí e na semana que vem receberei o Colégio Ceni de Taubaté. No ano passado recebi o Pequeno Príncipe (SEPP) de Jacareí, assim como recebo também escolas mais distantes do interior mas a grande maioria é daqui de São Paulo mesmo.

João Carlos Marinho nasceu no Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1935, e logo se mudou para Santos onde cursou o primário no Ateneu Progresso Brasileiro. Fez o ginasial em São Paulo no Colégio Mackenzie, e depois se mudou para Lausanne, na Suíça, onde cursou o colegial na Maturité Fédérale Suíça. Voltando ao Brasil morou em São Paulo e se formou em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco (USP). Formado passou a morar e advogar em Guarulhos, no escritório de Advocacia Trabalhista J.C. Marinho, até 1987, quando voltou pra São Paulo, onde mora até hoje, e passou a viver exclusivamente de literatura.

Em 1969, quando ainda advogava, publicou o livro O gênio do crime que virou um clássico da literatura infantojuvenil brasileira, já tendo passado a marca de 60 edições. Depois de O gênio do crime vieram outros livros da Turma do Gordo, Sangue fresco, Berenice detetive, O conde Futreson, O disco I – A viagem, O disco II – A catástrofe do planeta ebulidor, O gordo contra os pedófilos, Assassinato na literatura infantil, ao todo são doze os títulos da Turma do Gordo. Escreveu ainda quatro livros para adultos. Com o livro Sangue fresco ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio da Crítica APCA, e com o livro Berenice detetive, o Prêmio Mercedes Benz. O livro O gênio do crime virou filme de cinema em 1973, como O detetive Bolacha contra o gênio do crime, dirigido por Tito Teijido, e também foi traduzido para o espanhol, como El gênio del crimen. Em 2009 aconteceram muitas comemorações para festejar os 40 anos deste livro.

Mandela, Jabuti e outro encontro

Como prometi no post anterior hoje vou falar de dois livros, O jovem Mandela e Ela tem olhos de céu. O primeiro foi escrito por Jeosafá Fernandes Gonçalves e faz parte de uma coleção da Editora Nova Alexandria, “Jovens Sem Fronteiras”, que reconstitui a juventude de importantes personagens da cultura brasileira e mundial. O segundo foi escrito por Socorro Acioli, ilustrado por Mateus Rios, publicado pela Editora Gaivota e está entre os finalistas ao Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil.

Também vou falar de outro encontro bem legal que eu participei na semana passada, na biblioteca Monteiro Lobato, promovido pelo LiteraSampa, que reuniu quase cem crianças e adolescentes pra conversar sobre livro, leitura e biblioteca. E no final deste post já vou anunciar o próximo, vamos fazer o clube de leitura com uma escola municipal de São José dos Campos.

Amandla! Ngawethu!

O escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves é meu amigo e companheiro de luta na defesa do livro e da leitura, eu o conheci na Bienal de São Paulo e já estive com ele em algumas reuniões, ele também estava no encontro municipal para organizar a construção do Plano Municipal do Livro e da Leitura do dia 13 de setembro, que contei aqui no blog. Hoje vou falar de um livro que ele escreveu, que conta um pouco da vida do grande personagem da História e principal líder na luta pela democracia, pela liberdade e contra o apartheid na África do Sul, Nelson Mandela.

Apartheid foi um regime de segregação racial que existiu durante muitos anos, a maioria negra da Africa do Sul não tinha direito a nada, nem votar podia e até os casamentos inter-raciais eram proibidos. Por lutar por democracia e liberdade, Nelson Mandela ficou preso durante 27 anos, mas continuou sua luta contra o apartheid. Na prisão, promoveu debates, deu palestras e verdadeiras aulas, com currículo estabelecido pelos próprios participantes, até os guardas acompanhavam as aulas de Mandela.

Essa sua iniciativa de educação geral e de formação política ficou conhecida como Universidade Mandela, e essa história está em O jovem Mandela, escrito por Jeosafá Fernandes Gonçalves e publicado pela Editora Nova Alexandria. Para escrever esse livro, o autor fez muita pesquisa, misturou realidade e ficção e mostrou como se formou o homem e o líder que derrotou o apartheid. Mandela deixou a prisão em 1990 e em 1994 foi eleito presidente da África do Sul, pelo voto direto de todos os sul-africanos, não apenas dos brancos.

Havia um grito de guerra para as manifestações antiapartheid: Amandla! Ngawethu! Um líder saudava a multidão Amandla! (o poder) e esta respondia numa só voz Ngawethu! (está com a gente!), depois vou perguntar ao Jeosafá como pronuncia essas palavras, ele me disse que gostou de escrever esse livro, e eu adorei ler, comecei e não parei mais, até acabar.

Jeosafá Fernandez Gonçalves, nasceu em São Paulo, em 1963. Trabalhou como jornaleiro, operário metalúrgico, vendedor de roupas, porteiro de cineclube, entre outros, até ingressar no curso de Letras da Universidade de São Paulo e tornar-se professor, carreira que exerceu por dezesseis anos, na Educação Básica e no Ensino Superior. Doutorou-se em Literatura pela mesma Universidade, com especialização nas relações Brasil-África, em 2002, publicou seu primeiro livro em 1986 e reúne hoje em sua obra, entre poesia, ficção, ensaio e ensino, mais de quarenta livros. É autor de uma série de romances chamada Era uma vez no meu bairro, resultado de mais de vinte anos de pesquisa sobre a violência, particularmente contra crianças e jovens.

Sebastiana, a menina que fazia chover

Já fui uma vez à entrega do Prêmio Jabuti, até contei aqui e neste ano, quero ir de novo. Tem um livro entre os finalistas ao Prêmio de Melhor Livro Infantil, que estou torcendo pra ganhar, é o livro da minha amiga Socorro Acioli e se chama Ela tem olhos de céu. O resultado final sai no dia 17 de outubro, quando serão anunciados os três primeiros colocados por categoria e a festa de entrega dos prêmios será no dia 13 de novembro. Quero ir e reencontrar minha amiga, que mora em Fortaleza.

Ela tem olhos de céu, escrito por Socorro Acioli, ilustrado por Mateus Rios e publicado pela Editora Gaivota conta a história de Sebastiana, uma menina que nasceu em Santa Rita do Norte, cidade que fica “lá pras bandas do Nordeste, onde a água nunca pinga, onde a seca não tem pena, de gente de bicho e cacimba.” Sua mãe era Lúcia Natalina, “parindo depois dos trinta”, não tinha água em casa pra Chica Parteira fazer seu trabalho.

Os vizinhos lhe ajudaram, cada um “deu o que pôde” e depois de cinco filhos homens, nasceu sua primeira mulher. Nasceu chorando e não parou de chorar, logo “ouviu-se o trovão, uma pancada no céu, mais parecia explosão”, e quanto mais a menina chorava, mais o céu escurecia, até começar a chover. Este é só o começo dessa história, contada em versos de cordel, Sebastiana chora-chuva ainda vai virar atração e um grande problema pra cidade.

A Socorro Acioli já lançou o Ela tem olhos de céu aqui em São Paulo, nesse dia foi também o lançamento da Editora Gaivota, eu fui e contei aqui no blog. Até peguei um autógrafo dela! Li outro livro da Socorro contado em versos de cordel, é o Inventário de Segredos, que “revela” os segredos dos habitantes de uma cidade do interior do Ceará. Tem cada segredo nessa história, que só lendo! O Inventário também foi ilustrado pelo Mateus Rios. Gosto muito das ilustrações dele, são desenhos, que vistos de longe já dá vontade de pegar o livro e ler.

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutoranda em estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Estuda roteiro de cinema e foi aluna de Gabriel García Márquez e Guilhermo Arriaga. Além do Ela tem olhos de céu, publicou, A Bailarina Fantasma, Inventário de Segredos, O Anjo do Lago, Bia que tanto lia, Tempo de Caju e muitos outros. Por seus livros infantojuvenis já recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e o prêmio de Melhor Obra Infantil do Governo do Estado do Ceará.

Mateus Rios é carioca, mas mora e trabalha em São Paulo. Fez faculdade de cinema e hoje trabalha com ilustração de livros, projetos de animação e publicidade. Gosta de descobrir e testar novos modos de contar histórias, experimentando diversos materiais, meios e modos de narrar, deixando os olhos descobrirem caminhos e cores neste jogo com o texto, e dando forma ao que as palavras inspiram. Além de Ela tem olhos de céu, ilustrou Planeta Bicho, Vozes da Floresta, Pedro Noite, A ideia que se esquecia, Inventário de Segredos, O Barba-Azul e muitos outros.

LiteraSampinha

Na semana passada participei de um encontro, quem me avisou foi a Bel do LiteraSampa, ela deixou um comentário no post anterior: “… Nesta sexta-feira (04/10) estarei no LiteraSampinha, na Biblioteca Monteiro Lobato com uma garotada de 06 a 12 anos. Vamos conversar sobre o PMLL. Falarei de você.” Não resisti e fui, pessoalmente, o encontro durou o dia todo, saí da escola e fui direto pra lá, deu tempo de pegar o lanche e os trabalhos da tarde. As atividades seriam dentro e fora da biblioteca, no jardim da praça onde fica a Lobato, mas como naquele dia estava chovendo em São Paulo, só teve as atividades internas, mas, mesmo assim, foi bem gostoso.

Teve mediação de leitura, contação de história e duas atividades em grupo. Na primeira atividade, os grupos conversaram sobre “um elemento da narrativa essencial para uma história: o personagem”. Desenhamos no papel e cada um construiu a identidade de seu personagem, se era idoso, mulher, homem, jovem, animal, que tempo ele viveu ou vive, como é sua família, o que gosta de fazer, qual é o seu nome, que planeta vive e onde nasceu. Depois, escolhemos em que gênero literário de histórias estaria o nosso personagem, num romance, história em quadrinhos, fábula, conto, poesia. No final, nosso personagem ficou construído e desenhado.

A segunda atividade começou com uma contação, a escritora Thayame Porto contou uma história de seu livro Carrego Comigo!. Depois o grupo conversou sobre os dois primeiros eixos do PMLL, “democratização do acesso” e “fomento à leitura e à formação de mediadores” e todo mundo teve que desenhar o lugar onde mais gosta de ler, teve de tudo, gente que desenhou uma árvore, uma casa, uma biblioteca, um jardim, um bosque, o sítio do avô, uma montanha, um rio, um banheiro, teve até desenho de privada, mas o curioso, mesmo, é que ninguém desenhou uma escola. Daí todos começaram a falar como queriam que fosse a sua escola.

A escola tem que ter mais espaço, pra ir pra fora e não ficar só dentro da sala; as salas deveriam ser mais espaçosas, com puffs e tapetes; no mesmo espaço da sala, estante de livros; sala de leitura mais silenciosa; biblioteca aberta direto, quando a gente pode ir na biblioteca da escola, ela está fechada; acesso direto ao livro, ir lá e poder pegar; aulas diferentes, fora da sala; lugar de leitura no pátio, mais dias para pegar livro e biblioteca aberta todos os dias. No final, perguntei pra a Bel se essas reivindicações seriam encaminhas para o grupo de trabalho do Plano Municipal do Livro e da Leitura. A Bel respondeu que sim, que o PMLL precisa ouvir todo mundo, inclusive crianças e adolescentes.

Entrevista coletiva no Clube de Leitura

No próximo post vamos fazer o clube de leitura com o professor Carlos e os alunos da EMEF Profa. Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José dos Campos. O livro será O Gênio do Crime, de João Carlos Marinho e ainda vamos publicar uma entrevista coletiva que fizemos (eu e os alunos do professor Carlos) com o autor. Não percam!

PMLL, Grupo de Trabalho e próximo post

Já faz três semanas que não publico nada aqui, provas na escola, já contei que quando é assim, meus pais me regulam a internet e dizem que é para o meu bem. Hoje tive uma folga, amanhã não tem nenhuma prova, e resolvi começar a por em dia os meus posts. Vou falar do encontro municipal para organizar a construção do Plano Municipal do Livro e da Leitura (PMLL) na cidade de São Paulo, que aconteceu no último dia 13, anunciei no post anterior e participei.

Livro e Leitura

O encontro foi o dia todo, fiquei lá, desde o comecinho até o final, fiz algumas anotações e agora vou contar um pouco do que ouvi.

A abertura foi com o secretário-adjunto da Secretaria da Cultura, Alfredo Manevy, e o diretor de orientação técnica da Secretaria de Educação, Fernando José de Almeida. O Alfredo Manevy disse que a base da construção do PMLL é a articulação de todas as forças ligadas a questão do livro e da leitura, disse também que a leitura tem que ser encarada como um direito de todos e o plano deve criar condições para isso.

Disse ainda que as duas secretarias tem que se unir nesse trabalho, que as bibliotecas devem ter usos mais amplos, integrar escolas e comunidades, envolver as editoras, livrarias e bibliotecas estaduais, e criar políticas que busquem o leitor e não fique esperando ele chegar. O representante da Educação, Fernando José de Almeida disse que a Secretaria tem 750 salas de leitura, bibliotecas nos CEUs, promove a formação de mediadores de leitura, e que devemos dar atenção especial para as crianças da educação infantil na formação de leitores.

A outra mesa foi com o José Castilho, secretário-executivo do Plano Nacional do Livro de da Leitura, do Ministério da Cultura, e a Cida Fernandes, coordenadora-executiva do Centro de Cultura Luiz Freire, de Pernambuco. O Castilho disse que o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é resultado da união entre os ministérios da Educação e da Cultura, e que o objetivo é construir uma “política de Estado” para o livro e a leitura, disse que o governo municipal deve cumprir o seu papel para que Estado e sociedade trabalhem pela construção de um Brasil de leitores, que o Estado tem que financiar as políticas públicas, e que a leitura não se faz do dia para a noite,  assim como a cidadania. “É preciso pensar a longo prazo.”

Cida Fernandes disse que a participação da sociedade foi fundamental na construção dos planos municipais de Recife e Olinda, disse que a presença de saraus na cidade de São Paulo é um exemplo que onde inexiste política pública, a cidade reage e busca seus caminhos, contou que houve um desmonte das bibliotecas públicas em 2012, em Pernambuco, e que os eventos Seminário de Literatura e Encontro Estadual de Bibliotecas Públicas foram muito importantes para o Plano de lá.

Na parte da tarde houve quatro oficinas. A primeira foi sobre a “Democratização do acesso” e quem coordenou foi a Vera Saboya, Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. A segunda foi sobre “Fomento à leitura e à formação de mediadores”, coordenada por Neide A. de Almeida, socióloga e consultora nas áreas educacional e editorial. A terceira, “Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico”, coordenada por Sandra Medrano, da Revista Emília, e a última foi sobre “Desenvolvimento da economia do livro”, coordenada por Kim Doria, da Libre – Liga Brasileira de Editores. Eu fiquei na segunda mesa e aprendi muita coisa sobre mediação de leitura. Um dia ainda vou falar sobre mediação de leitura aqui no blog.

No final ficou decidido que o GD – Grupo de Discussão que vem se reunindo desde o ano passado será ampliado e transformado em GT – Grupo de Trabalho. O GT será formado por representantes das entidades ligadas ao livro e a leitura nas diversas regiões da cidade, por meio de uma portaria intersecretarial (Cultura e Educação) da Prefeitura do Município de São Paulo. Para definir os pontos dessa portaria e a composição do GT, foi marcada uma reunião para o próximo dia 7 de outubro, segunda-feira, às 14h00 no auditório da Biblioteca Pública Viriato Corrêa, que fica na rua Sena Madureira, 298, na Vila Mariana. Todos estão convidados!

Eu vou, queria tanto participar desse grupo de trabalho, mesmo que fosse como simples observador, tipo café-com-leite, nem ligo, só quero mesmo é acompanhar de perto, mais essa luta em defesa do livro e da leitura na minha cidade.

Próximo post

Hoje também ia falar de um livro bem legal que li, escrito pelo meu amigo Jeosafá Fernandes Gonçalves, que conta a história de Nelson Mandela e de sua luta contra o apartheid, e que se chama O jovem Mandela. Outro livro que li e queria falar também é o Ela tem olhos de céu. Escrito por Socorro Acioli e ilustrado por Mateus Rios, ele foi indicado para concorrer ao prêmio Jabuti de melhor livro infantil. Agora já tenho pra quem torcer no Jabuti deste ano, vou torcer para o livro da minha amiga Socorro!

Mas tenho que deixar pra falar desses dois livros no próximo post, pois este já está grande e o meu tempo na internet, por hoje, já acabou.