Quando eu era criança, apesar das advertências da minha mãe: “essa história é muito violenta para contar no blog, Heitor” — li “Festa no Covil”, romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos. Fui ler esse livro por causa do narrador. Era uma criança quem contava a história. Como já planejava contar a minha história, fui ver como Tochtli contou a dele. Minha mãe tinha razão, li o livro mas não contei no blog.
A história se passa no México, Tochtli é filho de um poderoso chefe do narcotráfico, mora numa fortaleza, vive trancado, observando, investigando e contando, sem filtros morais, os horrores que acontecem na sua casa. Mimado, mas privado de infância, gosta de colecionar chapéus e palavras difíceis. Faz pesquisas sobre samurais, reis da França, animais em extinção e pretende completar seu minizoológico particular, com o raríssimo hipopótamo anão da Libéria.
Nesses dias, fui ler outro livro desse escritor, “Salão de escrita e beleza”. Como o autor, o narrador dessa nova história também se chama Juan Pablo Villalobos, é escritor, casado com uma brasileira, tem dois filhos e mora em Barcelona. Muitas coisas me atraem para leitura de um livro, no caso desse, foi a curiosidade em ler uma história, com os bastidores da história que vai sendo contada. Por outros motivos, também já fiz o mesmo. Tanto em “Os meninos da biblioteca”, como em “Os caçadores do livro encantado”, publicados pela Biruta, falo um pouco da minha dificuldade em narrar. Acho que foi o jeito que encontrei para conseguir contar.
A história que o narrador-escritor conta, se passa em Barcelona e começa com um exame de colonoscopia. Ele vai ao laboratório buscar o atestado para sua mulher que o acompanhou na consulta. Além da mulher, a “brasileira”, seus dois filhos, “adolescente” e “menina”, também participam da história. Nenhum deles o autorizou a usar seus nomes. Também fazem parte da trama, uma cabeleireira bretã, que perde um pedaço do dedo, ao cortar seu cabelo; um segurança equatoriano, interessado no curso de escrita, entre outros, com quem ele interage, anotando e selecionando os acontecimentos, para evitar que a narrativa, no final, tome um rumo indesejado.
“A literatura é sempre assim, você escreve sobre uma coisa, quando na verdade, está falando de outra”.