Hoje é dia de clube de leitura! O clube de hoje será com os alunos do sexto e sétimo anos, do professor Carlos, da EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José dos Campos, e o livro que lemos foi O gênio do crime, do escritor João Carlos Marinho. São aproximadamente 70 alunos que estão participando desta edição do nosso clube. O professor Carlos disse que leu O gênio do crime quando tinha 12 anos – a nossa idade, minha e dos alunos dele – e esse foi um dos livros que o incentivou à leitura.
Esta edição do nosso clube de leitura também vai ter uma entrevista coletiva com o autor, como a que fizemos no clube com o Nelson Cruz. Os alunos do professor Carlos mandaram algumas perguntas, eu e o meu amigo Lipe bolamos mais duas, enviamos para o João Carlos Marinho, e ele respondeu. Ele disse que as nossas perguntas foram ótimas e que foi um prazer responder!
Como foram as outras edições do nosso clube de leitura, hoje eu publico o post e nos próximos dias os alunos vão deixando os seus comentários. Quem não faz parte do clube e quer deixar um comentário, também pode.
Nossa roda de conversa
– Lipe, um aluno da professora Luciana, de Belo Horizonte, me perguntou se você é meu amigo imaginário ou é de verdade.
– E o que você respondeu?
– Que é de verdade, claro! Eu ia mentir pra ele?
Desta vez foi mais fácil fazer a roda de conversa com o Lipe, depois que fizemos as pazes, estamos sempre juntos, ele até já foi comigo às reuniões do PMLL.
– Você gostou do livro O gênio do crime?
– Adorei e quero ler os outros livros da Turma do Gordo, achei essa turma bem maneira! E você, gostou?
– Gostei muito e também vou ler os outros da Turma do Gordo.
Conversamos bastante sobre o livro, contei ao Lipe as partes que gostei mais, e ele me falou das suas preferidas, até que me lembrei da entrevista coletiva:
– Viu, Lipe, esse clube com o João Carlos Marinho também vai ter entrevista coletiva, os alunos do professor Carlos vão mandar as perguntas e nós podemos fazer duas. Você já sabe o que perguntar?
– Sei, quero perguntar se ele montava álbuns de figurinha quando era criança e se conseguiu completar algum, meu pai disse que era muito difícil encher um álbum, antigamente.
– Boa! Também já sei o que vou perguntar… Li que ele recebe visitas de escolas em sua casa, aqui em São Paulo, vem alunos e professores, até de outras cidades, e conversam com ele sobre seu trabalho e seus livros. Vou pedir pra ele falar dessas visitas, quem sabe o professor Carlos decide trazer os seus alunos pra visitar o João Carlos Marinho e a gente vai junto com eles.
O livro O gênio do crime, escrito por João Carlos Marinho e publicado pela Global Editora começa assim: “Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol. Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixam pensar em mais nada. Quem enchia o ábum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando. Batia-se de concha, de mão mole, de quina, com efeito, de mão dura, conforme o tamanho do bolo, o jeito do chão e o personalíssimo estilo de cada um.”
Havia as figurinhas difíceis, por isso pouca gente conseguia completar um álbum. No álbum do Edmundo só faltava o Rivelino, ele comprava toneladas de envelopinhos e o Rivelino não saía; foi jogar abafa na Vila Matilde e no Tucuruvi, e nada; foi ao treino do Corinthians falar com o Rivelino e nem o próprio jogador tinha a figurinha dele mesmo. Certo dia seu amigo Pituca chegou com uma novidade: “disseram que no largo São Bento tinha um cambista que vendia as figurinhas abertas; o fulano encomendava a figurinha que queria e no dia seguinte o cambista trazia. Custava caro, mas era garantido.”
O Edmundo encomendou o Rivelino e, finalmente, conseguiu completar o álbum. Foi à fabrica buscar seu prêmio e descobriu que as figurinhas que o cambista vendia estavam levando seu Tomé, o dono da fábrica, à falência, muitos álbuns cheios e tantos prêmios, que seu Tomé não estava dando conta. Depois de muita conversa e negociações o Edmundo, o Pituca, o Bolacha, que nem de futebol gostava, e depois a Berenice, formaram a Turma do Gordo e resolveram ajudar o seu Tomé a encontrar a fábrica clandestina e pegar o gênio do crime.
O livro quase não saiu
O livro quase não saiu e o João Carlos Marinho ia desistir de ser escritor. Ele publicou O gênio do crime em 1969, mas até o livro ficar pronto, muitas coisas aconteceram. Começou a escrever o livro em 1965, quando tinha 30 anos de idade, morava em Guarulhos (SP), tinha um escritório de advocacia, aonde ia trabalhar à tarde, e de manhã ficava em casa, brincando com o filho pequeno, cuidando do jardim, da horta, do galinheiro, pensando e se lembrando da infância.
Lembrava sempre dos concursos de figurinhas de futebol e dos álbuns que colecionava quando era criança, achou que podia escrever um livro infantil, envolvendo um mistério e que tivesse figurinhas de futebol. Primeiro fez o desenho do livro, uma fábrica de figurinhas honesta, outra desonesta e um grupo de meninos detetives, em seguida criou os personagens, encaixou os personagens no desenho da história e começou a escrever os primeiros capítulos.
Quando escrevia a parte da história em que o gordo tem a grande ideia para perseguir e pegar os cambistas criminosos, a imaginação dele “secou”. Ficou 20 dias pensando nessa ideia, pensava no livro o dia todo, mas não conseguia encontrar uma saída, “deu branco total”. Abandonou os rascunhos na gaveta e durante 10 meses não pensou mais no livro. Quase desistiu de ser escritor, pensou que o que aconteceu com ele foi um “fogo de palha, que acontece na vida de todo mundo”. Até que em janeiro de 1967, passando férias em uma praia, acendeu “uma lâmpada” em sua cabeça, que lhe revelou a grande ideia para continuar e terminar de escrever seu primeiro livro. Essa e outras histórias estão no site http://www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho.
Entrevista coletiva
“Nunca foi meu propósito seduzir o leitor e sim dar-lhe boa literatura”
Entrevistamos o João Carlos Marinho!
Fizemos algumas perguntas (eu, o Lipe e os alunos da EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José dos Campos), lhe enviamos e ele respondeu.
Clube de Leitura – Como é para você saber que tem milhões que gostam de seus livros?
João Carlos Marinho – Isso me deixa realizado como escritor, não tanto pela quantidade de livros vendidos, que sempre achei secundária em literatura (onde sigo a lição dos reais apreciadores), mas pela permanência no tempo. Já se passaram 44 anos do lançamento de O gênio do crime.
CdL – Você ganhou muito dinheiro com O gênio do crime?
JCM – Se somarmos esses 44 anos daria um soma alta, mas isso até com o salário de qualquer um. A renda que me dá não é grande, é modestamente confortável.
CdL – Em algum momento você pensou que o livro poderia não emplacar, por motivos como o contrabando de Edmundo ou pelo fato de Bolacha quase ser morto com uma facada, ou, ainda, por algum outro motivo?
JCM – Esses fatos citados são irrelevantes. Vamos substituir a palavra “emplacar” por “firmar-se na literatura”, que deixa mais claro de que nunca foi meu propósito seduzir o leitor e sim dar-lhe boa literatura. Nunca fiquei preocupado em ficar analisando se o livro ia ou não “firmar-se na literatura”. Deixei acontecer.
CdL – Você acha que seu livro pode ser lido por crianças menores de 8 anos?
JCM – A minha experiência pessoal como criança, a minha experiência de vida e a minha experiência de autor que há 44 anos conversa com leitores, individualmente ou nas classes que me visitam sucessivamente, me convenceram de que a organização cerebral meio simplória da criança dá um salto formidável a partir de aproximadamente 7 ou 8 anos (com raras exceções), que permite pensamentos bastante complexos. Por isso a idade ideal para ler meus livros, como eu constatei, é entre 9 e 12 anos ou 13. Quando começa a adolescência, pela minha experiência, a infância deixa de existir, o adolescente já é um adulto que se acha em um processo de metamorfose glandular violenta e a infância já acabou. Dos 12 ou 13 anos em diante o leitor pode entender perfeitamente meus livros, mas não entra no clima da infância, ele está fora do clima da infância, e não sente o mesmo prazer, não “veste a camisa”. Os professores também sentem isso e por isso nunca trazem classes de adolescentes para me visitar após a leitura. Os adolescentes (com exceções) fazem uma leitura “fora de foco”. Nesse ponto eu até prefiro a leitura dos menores de 9 anos, que já me trouxeram classes assim, inclusive de 7 anos, eles não tem um aproveitamento ótimo mas pegam umas coisas aqui e ali e, ao contrário dos adolescentes, estão “no foco”.
CdL – Você já recebeu alguma crítica, da qual não gostou? Pode revelar?
JCM – Não me recordo de nenhuma crítica que tenha me incomodado ou mudado o meu bom humor.
CdL – Já passou pela sua cabeça que os pais proibiriam as crianças de lerem o livro, pelo fato de os meninos da história mentir para os seus pais?
JCM – A literatura e de um modo geral toda a arte que chega até a criança sempre teve que passar pela vigorosa censura de pais e professores. É normal. Dentro disso também é normal que existam “transbordamentos” e “exageros de zelo”. Desde criança que eu sei disso e isso nunca me incomodou e nem me perturbou.
CdL – Hoje, você mudaria alguma coisa no livro O gênio do crime?
JCM – Não.
CdL – Qual foi a melhor opinião que lhe deram a respeito de O gênio do crime?
JCM – É uma que se repete sempre, de adultos me dizendo que meus livros abriram para eles os horizontes da boa leitura e que são guardados sempre na memória deles como inesquecíveis.
CdL – Você colecionava figurinhas quando era criança? Conseguiu completar algum álbum?
JCM – O fato de eu colecionar apaixonadamente figurinhas é que gerou este livro, junto com o fato de que era muito difícil encher um álbum por causa das figurinhas difíceis. Eu nunca enchi um álbum. Era uma emoção muito grande. Se quiserem saber como era o meu álbum é só acessar o vídeo MEU ÁLBUM que se acha no meu site.
CdL – Como são as visitas que professores e alunos fazem a você? Há um agendamento?
JCM – Os professores entram em contato comigo através do meu site que está impresso em todos os livros ou através dos divulgadores da Global e explicam que livro eles estão lendo, quantos alunos são e fica marcada uma data. O meu prédio tem um auditório muito agradável que fica no fundo de um grande jardim que as crianças devem atravessar para chegar até ele e por isso já chegam felizes. No mês passado esteve aqui o Colégio Maria Imaculada de Jacareí e na semana que vem receberei o Colégio Ceni de Taubaté. No ano passado recebi o Pequeno Príncipe (SEPP) de Jacareí, assim como recebo também escolas mais distantes do interior mas a grande maioria é daqui de São Paulo mesmo.
João Carlos Marinho nasceu no Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1935, e logo se mudou para Santos onde cursou o primário no Ateneu Progresso Brasileiro. Fez o ginasial em São Paulo no Colégio Mackenzie, e depois se mudou para Lausanne, na Suíça, onde cursou o colegial na Maturité Fédérale Suíça. Voltando ao Brasil morou em São Paulo e se formou em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco (USP). Formado passou a morar e advogar em Guarulhos, no escritório de Advocacia Trabalhista J.C. Marinho, até 1987, quando voltou pra São Paulo, onde mora até hoje, e passou a viver exclusivamente de literatura.
Em 1969, quando ainda advogava, publicou o livro O gênio do crime que virou um clássico da literatura infantojuvenil brasileira, já tendo passado a marca de 60 edições. Depois de O gênio do crime vieram outros livros da Turma do Gordo, Sangue fresco, Berenice detetive, O conde Futreson, O disco I – A viagem, O disco II – A catástrofe do planeta ebulidor, O gordo contra os pedófilos, Assassinato na literatura infantil, ao todo são doze os títulos da Turma do Gordo. Escreveu ainda quatro livros para adultos. Com o livro Sangue fresco ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio da Crítica APCA, e com o livro Berenice detetive, o Prêmio Mercedes Benz. O livro O gênio do crime virou filme de cinema em 1973, como O detetive Bolacha contra o gênio do crime, dirigido por Tito Teijido, e também foi traduzido para o espanhol, como El gênio del crimen. Em 2009 aconteceram muitas comemorações para festejar os 40 anos deste livro.