Susana Ventura, língua portuguesa e as minhas resenhas

Hoje vou falar da nossa língua portuguesa, de dois livros da Susana Ventura e de como vou virar um resenhista

Nossa língua portuguesa

Nesses dias, enquanto procurava minha identidade, me lembrei de um post que escrevi, sobre um passeio que fiz ao Museu da Língua Portuguesa, em que vi uma exposição sobre Fernando Pessoa, aprendi o que é heterônimo, e achei que eu era isso. Mas hoje não quero falar de identidade, já superei essa fase, quero falar da língua portuguesa. Pois nessa visita que fiz ao Museu, me senti parte de um povo muito maior que a população do Brasil, o povo de todos que falam e escrevem em Português no mundo.

Fiquei curioso por esse assunto, fui pesquisar na internet sobre livros e língua portuguesa e descobri que a Susana Ventura tinha acabado de lançar um infantil que se chama De onde vem o Português?. Fui atrás desse livro, queria descobrir de onde vem a nossa língua. Sei que a Susana é especialista nessa área, em 2010 ela foi contratada pelo Museu da Língua Portuguesa, pra fazer uma seleção de textos de literaturas africanas de língua portuguesa.

Então, hoje vou falar desse e de outro livro da Susana Ventura, que já tinha lido um tempo atrás e que também tem a nossa língua-mãe como tema, O Tambor Africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa.

De onde vem o Português

O livro De onde vem o Português?, escrito por Susana Ventura, ilustrado por Silvia Amstalden e publicado pela Editora Peirópolis começa assim:

Era uma vez, há muito, muito tempo, uma terra perto do mar.

Aquela terra ficava tão junto dele, que era como se o mar fosse quase tudo.

A história segue, bonita assim, e faz uma viagem pelas origens da nossa língua portuguesa, começando pelos documentos ainda escritos em Latim, que apresentaram os homens, mulheres e crianças que viviam nessa terra. E continua…

Pelos poemas, que contam, em galego-português – idioma já bem parecido com a língua portuguesa, quem eram e o que sentiam algumas dessas pessoas; passa pela história de Portugal, contada por Fernão Lopes, ainda em português arcaico; pelo teatro de Gil Vicente; e pelos poemas de Luís de Camões, navegador e poeta português, que contou suas histórias, na língua que falamos e escrevemos hoje, em 10 países, Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Macau e Goa.

Contos de países africanos de língua portuguesa

O Tambor Africano e outros contos de países africanos de língua portuguesa, publicado pela Editora Volta e Meia, reúne contos dos cinco países africanos que tem o português como língua oficial: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, e São Tomé e Príncipe. O livro tem quinze contos que foram selecionados e adaptados por Susana Ventura. Essas histórias são contadas e recontadas há séculos, em diversas línguas, inclusive em português.

Eu fui ao lançamento  desse livro, foi no SESC Vila Mariana, nesse dia a Susana lançou também O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses, no final do evento, sortearam um exemplar de cada. Eu fui sorteado! Ganhei o dos contos africanos e ainda levei o autógrafo da Susana. Foi nesse dia que eu conheci a Susana Ventura, depois a encontrei na Flip, conversamos e fiquei amigo dela. Adoro conversar com a Susana, aprendo bastante, ela fala tantas coisas importantes e bonitas sobre literatura.

Cinco países

O orelha desse livro explica como foi feita a seleção dos contos “recontados à brasileira” por Susana Ventura. São histórias de povos bem diferentes e com muitos temas, “desde contos que buscam justificar as origens do mundo como o conhecemos, ou contar a história do primeiro tambor africano, até narrativas de natureza filosófica, além dos esperados contos de animais”. Gostei de todos, mas não vai dar pra eu falar de todos os contos do livro, então, também vou fazer a minha seleção, vou escolher um conto de cada país e falar um pouquinho de cada.

De Angola, escolhi o A rã Mainu, o filho de Kimanauaze e a filha do Sol e da Lua. É a história do menino que cresceu, chegou à idade de se casar e escolheu como sua esposa, a filha do Sol e da Lua. Seu pai achou a ideia impossível, “quem poderia ir ao céu, onde está a filha do Sol e da Lua?”. O menino disse ao pai, que deixasse, que “ele mesmo trataria do assunto”. Escreveu uma carta, buscou a ajuda de muitos animais, até encontrar a rã Mainu, que depois de muitos truques, conseguiu aproximar o menino de sua pretendente.

De Cabo Verde, escolhi História do boi Blimundo. Blimundo era um boi grande, forte, qua amava a vida e a liberdade, era muito querido, respeitava tudo e todos e vivia em harmonia com o mundo. Mas o rei cismou com Blimundo, dizia que o boi era um irreverente, livre pensador, vagabundo que anda aí à vontade pelos campos, senhor de si mesmo. Concluiu que Blimundo era uma ameaça terrível à ordem estabelecida, declarou guerra e passou a perseguir o boi. O rei perde as primeiras batalhas, até essa história terminar numa grande tragédia.

De Guiné-Bissau, escolhi o conto que dá o título ao livro, O tambor africano. “Um dia, na mata, um bando de macaquinhos brancos começou a macaquear e inventar brincadeiras.” Um deles teve a ideia de ir à lua, mas como fazer pra chegar lá. Depois de muitos palpites, decidiram subir, uns nas costas dos outros, dos maiores para os menores, até que o menorzinho de todos alcançasse a lua. Deu certo! O difícil foi voltar, mas com a ajuda de um o tambor, “algo nunca antes visto por ninguém na Terra”, que ganhou de presente da Lua, o macaquinho voltou pra casa.

De Moçambique, escolhi O princípio do mundo. “No tempo sem tempo do início dos tempos, Céu e Terra estavam juntos. Não havia nem noite, nem dia. Não havia nuvens, trovoada ou chuva. Só Céu e Terra juntos e a profundeza das águas.” Nessas águas profundas vivia a Cobra Grande e pairando entre o Céu e a Terra, ficavam o Sol e a Lua, juntos, vivendo como marido e mulher. O casal teve problemas, Cobra Grande se aproximou da Lua e se apaixonou por ela. Do romance nasceram dois filhos, o homem e a mulher, Sol e Lua se separaram e nunca mais se encontraram.

De São Tomé e Príncipe, escolhi A história do cãozinho fiel e de seu dono. Há muitos anos, um casal de jovens vivia num povoado distante, perto da floresta. Um dia, o marido saiu para caçar, levou seu cão, abateu três macacos e dois porcos selvagens, e a caça ficou pesada para carregar de volta para casa. O rapaz pediu a ajuda de seu cãozinho que lhe respondeu: – Pois não, meu amo. Vamos dividir o peso, eu o ajudo… mas com uma condição. O rapaz ficou espantado, o cão falava e pediu segredo, mas ele contou à mulher, e nunca mais nenhum cão voltou a falar com um ser humano.

A autora

Susana Ramos Ventura é mestre e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo na área de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa e Literatura para Crianças e Jovens. Ela faz parte do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ e desenvolve um trabalho de pós-doutorado. Pesquisadora do CLEPUL (Centro de Estudos de Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa) e do CRIMIC (Centro de Investigação sobre os Mundos Ibéricos Contemporâneos), de Sorbonne, Paris IV.

Além de O Tambor Africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa, é autora de O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses, Convite à navegação – uma conversa sobre literatura portuguesa, entre outros. Desde 2007, trabalha em diversos projetos com o SESC como curadora, palestrante, professora e moderadora. Em 2010 foi contratada pelo Museu da Língua Portuguesa e Ministério das Relações Exteriores para seleção de textos de literaturas africanas de língua portuguesa e composição de material sobre escritores e países de Língua Portuguesa para a exposição Linguaviagem do Itamaraty.

Um dia desses, estava conversando com a minha mãe, sobre uns planos que tenho para o meu futuro. Foi depois de uma conversa dessas, que de personagem de blog, virei personagem de livro, ela me incentivou a correr atrás do meu sonho, isso tudo está contado no livro Os meninos da biblioteca.

Desta vez meu sonho era outro, gosto de escrever e escrevo aqui no meu blog, mas gostaria de escrever também para outros lugares. Queria escrever sobre livros e fazer resenhas, do meu jeito, para outro blog, por exemplo. Quem sabe o blog de alguma editora!? Mas me sentia inseguro, daí a conversa com ela:

– Mãe, queria tanto escrever para outro lugar.

– Como assim?

– Sei lá, escrever para outro blog, pensei em falar com alguma editora.

– Fale com suas amigas da Biruta, lendo sua entrevista (http://www.blogbirutagaivota.com.br/papeando/papeando-com-heitor/), percebi que elas acreditam em você.

– Você acha que elas acreditam, mesmo, em mim?

– Claro, que acreditam!

– Mas se elas não toparem?

– Você vai ter que se conformar e procurar em outro lugar, mas só vai saber se conversar com elas.

No mesmo dia liguei lá e elas toparam! VIVA! Vou fazer resenhas para o blog da Biruta, vou ter uma coluna com meu nome, minha coluna vai se chamar “Resenhas do Heitor”. Fizeram uma vinheta especial para abrir as minhas resenhas, que eu apresento em primeira-mão, aí acima.

Já acertamos os detalhes e escolhemos o primeiro livro que vou resenhar, será o Piscina, já!, do Luiz Antonio Aguiar, que também conta a história de uma luta política, assim como o meu livro. Vou virar um resenhista, minha primeira resenha será publicada no próximo dia 29 de outubro, no blog da Biruta, eu aviso quando sair.

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Fernando Sabino e os meninos da biblioteca

Hoje vou falar de um livro do Fernando Sabino, que acabei de ler e gostei muito, mas antes quero mostrar o que estamos fazendo para divulgar Os meninos da biblioteca. A conversa franca que tive com o autor do livro, como contei no post anterior, me ajudou a sair da crise, parei de “chorar as pitangas”, como ele mesmo disse, fui à luta e conseguimos organizar muitos eventos, vamos até participar de um seminário internacional sobre bibliotecas públicas e comunitárias e mostrar o nosso livro.

Ações para divulgar o livro

Escrito por João Luiz Marques, ilustrado por Rômolo, publicado pela Editora Biruta e narrado por mim

Outro dia fizemos um passeio pela história do bairro, organizado pelo Preserva São Paulo e pelo Grupo Memórias do Itaim Bibi, com o Helcias e o Jorge, que também são personagens do livro, e no final teve um pequeno lançamento na biblioteca. Na semana passada participamos do Sarau Roda da Palavra, na biblioteca Anne Frank, organizado pela minha amiga contadora de histórias, Joyce Néia. Também fomos a um Sarau que acontece na cidade de Caieiras, o pessoal da Sintaxe que nos convidou.

No dia 27 de outubro, vamos a outro sarau, o Encontro de Utopias, que acontece na biblioteca Monteiro Lobato, quem nos convidou foi a Regina Tieko. No dia 5 de novembro vou participar de outro evento na bibloteca Anne Frank, é o Encontro com o Escritor, vou pedir para acrescentar a palavra personagem ao título desse evento, quero que minha presença também seja anunciada. Pretendo marcar mais Encontros com o Escritor (e o Personagem), vou visitar outras bibliotecas da cidade e continuar a minha batalha.

A Biruta fez uma divulgação bem bacana do livro, conseguimos muitos posts nos blogs parceiros da editora. Eles também me mostraram um book tour que está acontecendo com o livro, um blogueiro lê, faz a resenha e passa o livro pra outro blogueiro, que faz o mesmo, e o livro viaja pelo Brasil. Também foram publicadas duas matérias bem legais, uma no UOL e outra no Brasil Atual, a TV Câmara fez uma entrevista com o autor, que deve ir ao ar em breve. A Biruta também fez uma entrevista com o autor e outra comigo, que foi publicada no blog da editora. Vou organizar esse material para mostrar aqui.

Seminário de Bibliotecas Públicas e Comunitárias

Outro evento da hora que vamos participar é o 8º Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, que vai acontecer nos dias 9, 10 e 11 de novembro, aqui em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças, que fica na avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 23, próximo à estação Clínicas do Metrô. Esse evento é realizado pela Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Inscrevemos o livro como um relato de experiência realizada em biblioteca pública e ele foi selecionado. Vamos apresentar Os meninos da biblioteca nesse seminário internacional! Nossa apresentação será no dia 11 de novembro, das 8h30 da manhã, até às 13h30, no Salão Lilás. O trabalho será exibido em tela de LCD no formato pôster digital, eu e o autor estaremos lá, pessoalmente, pra falar do nosso livro.

As aventuras e as lorotas do menino Fernando

Além dos livros que tenho que ler pra escola, pego sugestões de leitura com o pessoal da biblioteca, com meus pais e com amigos. Às vezes também dou uma garimpada nas estantes aqui de casa, meus pais guardam livros de quando ainda eram bem jovens. E foi numa dessas pesquisas, nas estantes dos meu pais, que encontrei três livros do Fernando Sabino, O menino no espelho, O gato sou eu e O encontro marcado.

Li as orelhas e logo me interessei pelo O menino no espelho, que conta a história do escritor quando criança. Como ele mesmo diz, neste livro o autor apresenta as “várias proezas, aventuras, peripécias, tropelias (e algumas lorotas)” do tempo em que era menino. Antes de ler o livro fui pesquisar um pouco da vida de Fernando Sabino.

Escritor e jornalista mineiro, nasceu em Belo Horizonte em 1923 e morreu no Rio de Janeiro, em 2004. No início da década de 1940, ainda jovem, começou a trabalhar como jornalista, na Folha de Minas, convidado por outro escritor mineiro, o Murilo Rubião.

Com Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, formava o grupo literário conhecido como “os quatro mineiros”. Foi a convivência com esse grupo, com os debates literários e os passeios pela cidade de Belo Horizonte, que o inspirou a escrever uma de suas obras mais conhecidas e premiadas, O encontro marcado. Este será o meu próximo Fernando Sabino, pois O menino no espelho já li, adorei e hoje vou falar um pouco dele.

O menino no espelho

O exemplar que eu li de O menino no espelho é da 4ª edição, acho que esse livro já está na 90ª edição. Como já disse, o encontrei aqui na estante de casa, junto de outros dois livros do autor. Escrito por Fernando Sabino, com desenhos de Carlos Scliar e publicado pela Editora Record, o livro foi lançado em 1982.

Ele começa com o prólogo e termina com o epílogo (Os meninos da biblioteca também tem prólogo e epílogo). O prólogo se chama “O menino e o homem”, nele o menino conta a conversa que teve com um homem bem mais velho, que apareceu do nada, enquanto ele brincava no fundo do quintal de sua casa, depois de uma chuva. O homem lhe ensina o segredo de ser um menino feliz, para o resto da vida. Já o epílogo se chama “O homem e o menino” e conta essa mesma história, só que, desta vez, quem conta é o homem, e o “mistério” que aparece no começo do livro, é revelado no final.

Mas entre o prólogo e o epílogo, o livro traz 10 capítulos que contam as aventuras do autor, quando era menino e morava numa casa de quintal bem grande, com muitas árvores, que ficava na praça da Liberdade, número 1458, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua casa só não tinha galinheiro, “como quase toda casa de Belo Horizonte naquele tempo”. Fernanda, sua galinha de estimação, que tinha sido encomendada para o almoço de domingo, de galinha ao molho pardo, mas foi salva da panela, numa de suas proezas, corria solta pelo quintal.

Entre outras proezas, teve um dia, que depois de assistir a um filme no cinema, ele aprendeu e passou a fazer milagres. Em outro, seu pai o levou pra assistir às acrobacias de aeroplanos, como se chamavam os aviões naquele tempo, e ele descobriu uma técnica para voar, também. Em outra aventura, ele, a amiga Mariana, seu cachorro e um coelho, formam uma organização secreta, ocupam uma casa abandonada, que depois até vira notícia de jornal.

Tem uma em que ele se perde na selva, em outra, enfrenta o valentão da escola. Algumas são lorotas (mentira, de antigamente), como ele mesmo disse. Eu acreditei em todas! São muitas aventuras, uma mais divertida que a outra, e contada de um jeito bem legal. É muito gostoso ler Fernando Sabino, vou ler outros livros dele, como já disse, meu próximo será O encontro marcado.

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O bibliotecário do imperador e uma conversa com o autor

Já faz muito tempo que não escrevo aqui, tanto tempo, que devo explicações. Vou tentar… Como disse no post anterior, eu andava em crise, foi difícil me acostumar com esse lugar (como diz minha mãe) de personagem e narrador de um livro. Não sabia mais como me portar, antes eu vivia sossegado aqui no meu cantinho, podia fazer e escrever o que quisesse, planejava meus passeios, buscava minhas leituras, sem ter que dar satisfação a ninguém.

Claro que nunca fui irresponsável, fiz clubes de leitura, por exemplo, com algumas escolas, e acho que os professores não têm nenhuma queixa de mim. Lógico que eu fiquei muito feliz com a publicação do livro, afinal, ele também é meu, mas me gerou muitos conflitos e uma forte crise de identidade. Eu tinha que fazer alguma coisa, não estava mais suportando essa situação.

Como sempre acontece nessas horas, um livro me salvou, e olhem que foi um livro para adultos, que me deu muito trabalho de ler e entender. Mas como eu aprendi que nada na vida é fácil, eu encarei o desafio. Peguei esse livro emprestado do meu pai, ele leu e me contou um pouco da história, o livro se chama “O bibliotecário do imperador”, adorei o título, no final do post vou falar um pouco mais dele, agora só vou adiantar uma passagem, que me encorajou a tomar uma decisão.

Tem uma parte da história em que o personagem vem conversar com o autor do livro e ainda tira umas satisfações, nunca tinha visto isso acontecer, e me deu uma boa ideia: Vou conversar com o autor do meu livro, vou ter uma conversa com ele, de homem pra homem, ou melhor, uma conversa de personagem pra autor.

Outros dois personagens presentes ao lançamento, Helcias, à esquerda, e o bibliotecário João Gabriel, já lendo o livro

A nossa conversa

– O que está pegando, Heitor?

Ele me conhece, só de olhar pra mim, já percebe que não estou bem.

– Eu queria conversar umas coisas com você.

– Pode se abrir… Você sabe que entre a gente não tem segredo, não sabe?

– Sei.

E contei tudo pra ele, tudo que eu estava sentindo. Fui duro em algumas partes, precisava reconquistar o meu espaço, o acusei de me deixar de lado, nesse período de lançamento do livro, fui esquecido. E ele também não deixou por menos, disse que eu estava “viajando”, que o espaço foi sempre meu e se andei sumido, foi por minha culpa.

– Você participou de todos os eventos, foi ao Rio, esteve no lançamento da Biblioteca Mario de Andrade, que foi um sucesso, vendemos 141 exemplares naquele dia e teve até fila para o autógrafo. Não entendo por que não contou tudo isso no seu blog.

– É que eu estava meio perdido, crise de identidade é fogo. Vai me dizer que você nunca sentiu isso?

– Senti, mas você tem que reagir. Nunca ouviu nenhum autor falar que seus personagens tem vida própria?

– Ouvi.

– Então, você é o maior exemplo disso, Heitor, a vida é sua, cuide bem dela! Conversa com seus amigos, vai na editora Biruta, na biblioteca Anne Frank, na Monteiro Lobato, combina algum evento pra gente fazer e levar o livro. Não fique aí chorando as pitangas, vamos divulgar o nosso livro.

Segui os conselhos do meu amigo, o autor de Os meninos da biblioteca, o nosso livro e já comecei a fazer alguns contatos. No próximo post vou contar muitas novidades.

O bibliotecário do imperador

O bibliotecário do imperador, escrito por Marco Lucchesi e publicado pela Editora Globo conta a história de um personagem real, o Inácio Augusto César Raposo, bibliotecário responsável pela coleção de livros do imperador dom Pedro II. Como já disse, é um livro para adultos e que foi difícil de ler. Algumas partes, li mais de uma vez, outras, em voz alta, pesquisei sobre os autores que são citados no livro, tudo pra ver se conseguia entender melhor.

Fiz todo esse sacrifício, pois gostei do assunto e fiquei muito interessado pela história, já sabia que o dom Pedro II tinha uma biblioteca valiosa e eu quis saber o que tinha acontecido com ela, depois da Proclamação da República, quando o imperador foi exilado.

Além da conversa estranha do personagem com o autor, que eu disse e já já vou citar um trecho, o livro começa de um jeito bem diferente, o primeiro capítulo é um prefácio do revisor. Ele detona o livro que a gente está começando a ler, achei muito engraçado isso. O revisor diz que entende muito pouco de literatura moderna, e pelo que tem visto, quer entender cada vez menos.

Diz que esse livro “sofre os mesmos sintomas” da literatura moderna, que o seu autor deixa tudo pela metade, e ainda ri do trabalho do leitor, “este sim, paciente e laborioso, fazendo o que caberia à narrativa, abrir caminhos e atalhos que levam a uma clareira.” Foi o que eu fui lendo esse livro, “paciente e laborioso”, mas gostei do resultado, principalmente porque essa leitura me tirou da crise de identidade.

Trecho salvador

O trecho que me salvou está no capítulo 27, quase ao final do livro. O personagem principal da história, Inácio Augusto César Raposo, o bibliotecário do imperador, morto em 12 de maio de 1890, seis meses depois da Proclamação da República, bate à porta do autor, entra em seu escritório e diz: “Eis-me aqui, Marco Lucchesi”.

E protesta “contra a sem-cerimônia deste livro, a desfaçatez de viver dos outros, sem prejuízo de si mesmo, sanguessuga da história, curioso como as comadres de Windsor, pérfido e desleal como um Iago, cheio de ciúmes de um passado que jamais desnudou e possuiu.”

Eu nunca achei essas coisas do autor do meu livro, mas também tinha as minhas queixas. E se o personagem bibliotecário pôde dizer esses desaforos para o seu autor, por que eu também não poderia dizer umas verdades para o meu? – Eis-me aqui, João Luiz Marques.

Marco Lucchesi

Nasceu no Rio de Janeiro, escritor, poeta, ensaísta, tradutor, e membro da Academia Brasileira de Letras. Além de O bibliotecário do imperador, publicou Nove cartas sobre a divina comédia, O dom do crime, Ficções de um gabinete ocidental, A memória de Ulisses, Sphera, Meridiano celeste & bestiário, entre outros. Traduziu diversos autores como, Rûmî, Khlébnikov, Rilke e Vico, e foi traduzido para diversas línguas. Ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti, o Prêmio Alceu Amoroso Lima, pelo conjunto de sua poesia, o Prêmio Marin Sorescu, na Romênia, e o prêmio do Ministero dei Beni Culturali, na Itália.

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Minha primeira entrevista

Fui ao Salão FNLIJ no Rio de Janeiro para lançar Os meninos da biblioteca, no dia 30/6 tem lançamento aqui em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, e já dei minha primeira entrevista

– Você está se achando com esse seu livro.

Esse é o meu amigo Lipe! Não sei por que ele me diz essas coisas. O Lipe é meu amigo desde criança, meu melhor amigo, já falei dele, muitas vezes. O Lipe sempre me ajuda nos clubes de leitura que faço aqui no blog, no livro tem participação especial, é o personagem coadjuvante mais importante da história e me acompanhou em todos os momentos importantes da nossa luta.

Ele ficou assim depois que leu a entrevista que dei para o blog da editora Biruta, minha primeira entrevista. Se eu apareço mais é só porque sou o narrador da história, vou conversar direitinho com o meu amigo, ele tem que deixar de lado essas questões pessoais, como diz a minha mãe, é “pura vaidade”. Temos que pensar que a luta em defesa da biblioteca do nosso bairro, que é o tema desse nosso livro, é de todos nós, é uma luta coletiva.

Crise de identidade

Ao invés de ficar dizendo essas coisas, o Lipe devia me ajudar a entender e superar a crise que estou passando. Sou um personagem que escreve um blog e agora virei também um personagem que conta a história de um livro. No blog sou o autor, no livro sou apenas o narrador. Estou vivendo uma crise de identidade! No faz de conta do blog, sou um menino que escreve, de verdade. Mas o faz de conta do livro tem os seus limites, posso dizer que escrevi esse livro, como de fato escrevi e está contado lá na história, mas não posso dizer que sou o autor.

Todo livro tem que ter um autor de verdade, para assinar o contrato e receber os direitos, posso até sair por aí dando entrevistas, mas nunca vou poder dizer que sou o autor do livro. O autor do meu livro, como já disse no post anterior, é o meu amigo João Luiz Marques, o mesmo que me deu este blog de presente, e o ilustrador é o Rômolo, adorei o jeito como o Rômolo me desenhou, acho que ele também vai poder me ajudar a resolver minha crise de identidade.

Lançamento

Na semana passada fui com o autor para o Rio de Janeiro, ele participou do Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, foi lançar o nosso livro em um bate-papo na Biblioteca FNLIJ para Jovens. Lá eu encontrei muitos amigos, o Luiz Antônio Aguiar, a Luciana Savaget, a Rosinha, a Anna Claudia Ramos, a Sandra Pina, o Maurício Veneza, a Lenice Gomes, a Sonia Rosa e a Flávia Côrtes.

Já fui outras vezes ao Salão, mas desta vez foi diferente, das outras vezes fui só como leitor e blogueiro, desta vez fui também como personagem e narrador de um livro que foi lançado lá. Saí pelo Salão encontrando os amigos e exibindo Os meninos da biblioteca, estava muito feliz, quer dizer, continuo feliz, pois no próximo dia 30 o lançamento será em São Paulo, na biblioteca mais importante da minha cidade, a Mário de Andrade.

Minha primeira entrevista

Papeando com o Heitor

(do blog da Editora Biruta)

Esse garoto fez o que muitos leitores já desejaram: encontrar pessoalmente os personagens de seus livros favoritos. Todos os detalhes estão lá no livro “Os meninos da biblioteca”, que será lançado no dia 30/06, em São Paulo. Enquanto você se prepara para esse grande lançamento, conheça um pouco mais sobre o jovem (Le) Heitor, com quem papeamos essa semana.

Quem quiser ler minha primeira entrevista, ela está no blog da Editora Biruta no link: http://www.blogbirutagaivota.com.br/papeando/papeando-com-heitor/

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Vou virar personagem de livro!

Agora eu posso contar, já saiu até no jornal

Folha de S. Paulo – sábado, 23 de maio de 2015 – Painel das Letras por Raquel Cozer: Biblioteca – O movimento de moradores do Itaim Bibi que culminou, em 2012, com a desistência do então prefeito Kassab de demolir a biblioteca Anne Frank, em terreno que seria entregue a construtora, originou um romance. Será o primeiro juvenil do jornalista João Luiz Marques. “Os Meninos da Biblioteca” sai pela Biruta em junho.

Uma vez ouvi uma professora dizer uma frase, que me fez ficar horas pensando: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”  Lembrei dessa frase, pois no post de hoje vou falar de mim. Não gosto de ficar falando só de mim e acho muito chatas essas pessoas que só falam de si. Mas será que quando eu falei dos livros que li, dos escritores que conheci, e dos passeios e amigos que fiz, não estava falando mais de mim, também? Vou pensar… Enquanto isso, peço licença pra falar de mim e do meu livro! Acho que hoje eu posso, tenho direito, pois daqui uns dias, vou realizar o maior sonho da minha vida: Vou virar personagem de livro! Quer dizer, já virei, vi o PDF, está lindo, o livro já está na gráfica e fica pronto no começo de junho.

Os Meninos da Biblioteca

O livro em que sou o personagem principal e o narrador se chama Os Meninos da Biblioteca, foi escrito pelo meu amigo João Luiz Marques, o mesmo que me deu de presente e ajuda a divulgar este blog; ilustrado pelo Rômolo, que ainda não o conheço pessoalmente, mas estou louco pra conhecer – adorei o jeito como ele ilustrou a mim e toda história; e editado pela Biruta, que já conheço quase todos que trabalham lá, e adoro os livros que eles publicam.

Os Meninos da Biblioteca conta a história da luta que participei, minha primeira luta política, a luta em defesa da biblioteca do meu bairro, a Anne Frank. O prefeito queria demolir todo o quarteirão onde ela fica e entregar o terreno a uma construtora, para fazer prédios de apartamentos de luxo para poucos. Algumas cenas dessa história eu contei aqui no blog, na época em que ela aconteceu, mas no livro é “outra história”, lá eu conto todos os seus detalhes, que foi até notícia de jornal, e conto também a outra parte da história, que só eu e meus amigos conseguimos ver.

Travamos uma verdadeira guerra com os homens do prefeito para defender nossa biblioteca do ataque inimigo! Além dos meus amigos da escola e da biblioteca, também participaram das batalhas personagens de outros livros, que trouxeram para nossa luta, todo o conhecimento que adquiriram nas suas próprias histórias. A ajuda desses personagens foi fundamental para colocar em prática nossa estratégia de luta. Nos próximos posts, conto mais.

O dia que recebi uma homenagem da Câmara Municipal de São Paulo por minha “contribuição para preservação das memórias e defesa da qualidade sócio-cultural da região.” Esta história também estará no livro!

Lançamento

O lançamento de Os Meninos da Biblioteca será no dia 30 de junho, terça-feira, às 19h30, na biblioteca Mário de Andrade. Vamos mandar convites para todos os nossos contatos, mas já vai reservando o dia.

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Três livros de Jorge Miguel Marinho e as plenárias do PMLLLB

Depois de algumas semanas longe daqui, volto pra falar de três livros de Jorge Miguel Marinho, e da elaboração do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, que tenho acompanhado e participado. O Plano será finalizado e nos próximos dias vão acontecer plenárias regionais por toda cidade.

Antes, uma conversa com minha mãe

– Você vai abandonar seu blog, Heitor?

Toda vez que fico um tempo sem escrever aqui, minha mãe me faz esta pergunta.

– Não, mãe! É que estava ocupado com trabalhos da escola e um pouco chateado, também.

– Chateado com aquela resposta que não saía?

– É.

– Mas agora já saiu… Você não disse que conseguiram a última autorização?

– Disse.

– Então… Logo você vai poder realizar seu sonho, de que tanto fala.

– Tanto falo… Até parece… Nunca contei nada no blog.

– Por que te proibiram! Mas aqui em casa você não fala de outra coisa.

– Quer saber? O que eu queria, mesmo, era contar tudo no blog, mas me pediram pra esperar “só mais um pouquinho”.

– Espera, meu filho… O mais difícil já passou!

– Não sei por que, na minha vida, tudo é sempre tão difícil!

– Reclama de barriga cheia… Depois, você vai ver que sua espera, valeu a pena.

As mães sempre dizem essas coisas e a minha é meio exagerada.

Um infantil, um Jabuti e uma Cantada Literária

Como prometi no post anterior, hoje vou falar do livro infantil, Um passarinho me contou, de Jorge Miguel Marinho, ilustrado por Flávio Pessoa, mas não vou falar só deste; reli o Lis no peito, pra contar aqui, um juvenil do Jorge Miguel, que já tinha lido um tempo atrás; e li também o Escarcéu dos Corpos, um livro de contos do Jorge, que fez parte de uma coleção antiga, da Editora Brasiliense, chamada “Cantadas Literárias”, este eu peguei emprestado da estante dos meus pais. Vou falar de três livros de Jorge Miguel Marinho, um infantil, um Jabuti (Lis no peito ganhou Jabuti!) e uma Cantada Literária.

Isso é assunto pra criança?

Como contei no post anterior, fui ao lançamento desse infantil do Jorge Miguel, que teve um bate-papo com o autor, com o ilustrador Flávio Pessoa, e outros dois escritores, Edson Gabriel Garcia e Marcelo Donatti, dos quais já falei um pouco, naquele post. O Flávio disse que enquanto criava as ilustrações para o texto do Jorge, comentava com amigos sobre o assunto do livro, e todos ficavam espantados. O livro trata de suicídio e fala de morte! Como escrever um livro infantil com esse tema? Isso é assunto pra criança? Foram as perguntas que fiz a mim mesmo, assistindo ao bate-papo, e fiquei curioso pra ler o livro.

Um passarinho me contou, escrito por Jorge Miguel Marinho, ilustrado por Flávio Pessoa e publicado pela Edições de Janeiro começa assim:

“Esta é uma história triste demais, mas eu tenho que contar. Agora, você precisa ler com bastante cuidado, descobrindo palavra por palavra e, se for o caso e precisar, pode até mudar o final ou alguma coisa da história para ela nunca acontecer… Ah…, queria pedir também para você esperar um pouco só, que eu me apresento já, já… Combinado? Então me escute e preste toda a atenção.”

Esse é o narrador dessa história vivida pelo passarinho Par Dal, que, apesar de ser um pássaro discreto – não se metia na vida alheia e não gostava de ouvir conversas dos outros – por puro acaso, pousou na beirada da janela de dona Berta, uma velha senhora, e escutou tudo o que ela falava à sua amiga íntima, Isaltina, que estava do outro lado da linha do telefone. Elas tinham um compromisso para aquele dia, iam “lá fazer aquela visita para a dona Morte”.

O que acontece depois, eu não vou contar, o próprio narrador pediu para que não contasse: “deixa os outros descobrirem sozinhos esta história e não conte para mais ninguém”. Só posso dizer que gostei muito dessa nova história do Jorge e acho que dá pra falar, sim, desse assunto num livro pra criança. Como disse o Flávio Pessoa, que criou as ilustrações que fazem a gente entrar ainda mais no clima da história: “O texto do Jorge tem um humor leve, mas o tema da morte é muito denso, um contraste que confere tom poético à leitura.”

Um livro que pede perdão

Quando conheci o Jorge Miguel Marinho, entre muitas coisas que ele me disse, uma nunca mais esqueci: O escritor escreve para ser amado! Ele me contou que essa frase é de Mário de Andrade. Adorei, e confesso que saí por aí, repetindo essa explicação. Depois, quando li o Lis no peito, decobri que ele cita essa frase no livro, numa versão mais completa:

“Ninguém escreve para si mesmo a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve para ser amado, para atrair, para encantar”.

Esta citação está no começo da história, em um diálogo entre o narrador, que é escritor e escreve esse livro, e o personagem principal, Marco César. Não sei se o Jorge também escreveu esse livro para ser amado, só sei, – e é o que conta essa história – que ele foi escrito, a pedido do personagem principal, que pede perdão por um crime que cometeu.

Lis no peito – Um livro que pede perdão, escrito por Jorge Miguel Marinho e publicado pela Editora Biruta, recebeu diversos prêmios, Jabuti, Orígenes Lessa, White Ravens, e Altamente Recomendável pela FNLIJ. O livro conta a história de Marco César, um rapaz de 17 anos (ou mais), “tão jovem no corpo e quase velho nos acidentes do coração”, que se torna amigo do escritor e a ele conta toda sua história. Marco César havia cometido um crime, se arrependeu, confessou tudo ao seu amigo escritor e implorou para que ele escrevesse sua história.

O começo da amizade entre os dois não foi nada fácil, se viram pela primeira vez num encontro do escritor com os alunos da escola, Marco César não demonstrou nenhum interesse pela conversa do escritor, sentado bem na frente, “rabiscava uma página com um desprezo muito próximo da agressão”. Com o tempo foram se conhecendo, Marco César pôde se abrir com o personagem-escritor e dessa amizade nasceu esse livro.

A escritora Clarice Lispector percorre toda a história do livro, os nomes dos capítulos são frases suas: “Este livro nada tira de ninguém”; “Você me quer como amigo mesmo assim?”; “Tudo estava guardado dentro de mim”; “Nasci de graça”; “É preciso ser maior que a culpa”; etc.; e outra personagem da história, que também se chama Clarice, tem a escritora como sua preferida. Marco César se apaixona por Clarice (a menina), se sente muito atraído por ela, mas adia o primeiro beijo, vive essa espera com alegria e com a certeza de que ele vai acontecer.

Um acidente de percurso leva Marcos César a cometer um crime e esse livro é o seu pedido de perdão. Leiam e depois me contem se o Marco César deve ser perdoado ou condenado. Eu ainda estou em dúvida.

A Cantada de Jorge Miguel

Descobri esse livro de Jorge Miguel Marinho, quando estava escrevendo o post do clube de leitura da Escola Luiz Gatti, sobre o livro As Frangas, de Caio Fernando Abreu. Meu pai, que também leu As Frangas e participou do clube, me falou de outro livro do Caio F., o Morangos Mofados, que fez parte de uma coleção antiga, da Editora Brasiliense, chamada “Cantadas Literárias”, e que devia estar perdido na estante de casa. Procurei, não encontrei o Morangos Mofados, – ele deve ter emprestado pra alguém que não devolveu -, mas encontrei o Escarcéu dos Corpos, do Jorge Miguel, que foi lançado em 1984 e também fez parte dessa coleção. Fiquei curioso pra ler.

Escarcéu dos corpos, o livro de Jorge Miguel Marinho, publicado pela Editora Brasiliense, da coleção “Cantadas Literárias”, traz sete contos do autor: “A mulher azul”, conta a história de Dona Rebeca, que de repente começa a ficar azul e provoca a maior confusão; “Fornada”, é a história de um casal que não para de ter filhos, chegam a ter a cada três meses; “O complexo de Ephedron”, é a história de outro casal em que o marido acha que a mulher está se transformando em homem;

“Forquilhas” é a história de uma velha, com uma doença bem estranha, presa num quarto, refletindo sobre a vida; “A gorda do Carandiru” é a história de Norma, que começa a engordar por uma felicidade, depois busca diversos regimes, mas não para de engordar; “Circunstâncias de uma harmonia” é a história de uma mulher que tenta escrever um conto sobre seu marido, Anselmo, consegue isso e muito mais; e “Alívio”, a história de um velho, que vai morar com a filha e vive aventuras fantásticas com o neto.

Gostei de todos esses contos do Jorge, apesar de não ter entendido direito algumas partes, realismo fantástico, às vezes, é difícil de compreender. Mas, outro dia, ouvi dizer que não é preciso entender pra gostar, dá pra gostar, mesmo assim, não entendendo tudo. A gente pode gostar de como a história é contada, pelo som das palavras… É muito bonito o jeito como o Jorge escreve esses contos, li em voz alta e o texto ficou mais bonito ainda. Gostei mais de dois, do primeiro, “A mulher azul”, e do último, “Alívio”. O primeiro é muito engraçado e o último, triste.

O autor

Jorge Miguel Marinho nasceu no Rio de Janeiro e logo veio morar em São Paulo, onde vive até hoje, é escritor, cursou Letras e fez mestrado em Literatura na USP, professor de literatura brasileira e língua portuguesa, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista e ator. Escreveu e publicou livros infantis, juvenis, contos, poesia e ensaio.

Entre outros, é autor de, Um passarinho me contou; Uma história, mais outra e mais outra; Advinha o que tem dentro do ovo; A ideia que se esquecia; O menino e o fantasma do menino; Na curva das emoções; A visitação do amor; A maldição do olhar; Na teia do Morcego; Escarcéu dos corpos; e o premiado Lis no peito – Um livro que pede perdão, que em 2006, ganhou o Jabuti, recebeu o prêmio Orígenes Lessa, o prêmio White Ravens, e o Selo Altamente Recomendável da FNLIJ.

Plenárias regionais discutem o PMLLLB de SP

Como muitos já devem saber, a cidade de São Paulo está elaborando o seu Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB). Desde 2012, pessoas que atuam nas áreas do livro e da leitura, vêm se reunindo para discutir a necessidade desse plano. Em abril de 2014 foi formado um grupo de trabalho composto por representantes da prefeitura, da câmara e da sociedade civil para elaborar o projeto. Desde então, já foram realizados mais de 30 debates setoriais, envolvendo diversos segmentos do livro e da leitura, em que foram apresentadas diversas propostas.

Na próxima etapa, que começa neste sábado, dia 28 de março, vão acontecer as plenárias regionais, com consultas à comunidade de seis regiões da cidade (Centro, Norte, Sul, Sudeste, Leste e Oeste)

“Esta será mais uma oportunidade de toda a população debater e construir um Plano que reflita o direito ao livro, à leitura e à literatura, que não se restrinja a interesses corporativos e localizados. Essas plenárias regionais e o Encontro Municipal que definirá em abril a redação final do PMLLLB representam as últimas etapas do processo”.

Segue cartaz com o calendário das plenárias regionais. Eu vou à da regional oeste, que acontece no bairro Butantã, que fica na região onde moro. Também quero ir à do centro, que será na Biblioteca Mário de Andrade.

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Meus amigos escritores

Outro dia recebi um e-mail do escritor Jorge Miguel Marinho me convidando para o lançamento de seu novo livro, Um passarinho me contou. O Jorge Miguel foi o primeiro escritor de verdade que conheci, isso aconteceu quando visitei, pela primeira vez, uma editora, nesse dia aprendi como se faz um livro e de quebra, ganhei este blog. Quem me deu ele de presente e até hoje me ajuda a administrá-lo é o pessoal da Sintaxe, que na época fazia assessoria de imprensa para essa editora.

Com o blog conheci muitos escritores, ilustradores, editores, leitores e fiz muitos amigos. Na outra semana fui ao lançamento do novo livro do Jorge e na dedicatória que fez pra mim, ele escreveu: “Heitor, eu sou amigo do João e quero ser seu amigo também. Maior abraço do Jorge. Espero que você goste dessa história”. O João trabalha na Sintaxe, foi quem me apresentou ao Jorge Miguel e a outros escritores. Eu gostei muito do novo livro do Jorge, já quero contar no próximo post e vou adorar ser seu amigo!

No lançamento do Jorge, encontrei a Nice Ferreira, que trabalha na Edições de Janeiro, a editora que publicou esse seu livro, e conheci a Renata Nakano, a moça que editou Um passarinho me contou. Também conheci o ilustrador, o Flávio Pessoa, e dois escritores, amigos do Jorge, o Edson Gabriel Garcia e o Marcelo Donatti. O Edson tem um monte de livros juvenis, e o Marcelo escreveu um livro infantil. Um dia quero falar dos livros deles!

Fiz essa introdução para contar o assunto do post de hoje. Vou falar de dois livros, o De João para seis irmãos, da Roberta Asse, e o As mentiras do zodíaco, do Marcelo Jucá, dois escritores que conheci no final do ano. Adoro conhecer escritores e fazer novos amigos, meu amigo Lipe me chama de “comédia” quando começo a falar dos “meus amigos escritores”. As aspas são dele, que faz sinal com os dedos indicador e médio, fala com desdém, e diz que tudo não passa de ficção. Não é ficção, não, Lipe! Pode perguntar a eles.

A história de João, o pequeno marceneiro

No final do ano fui a um evento da Editora Jujuba, no parque da Água Branca, aqui em São Paulo, e encontrei muitos amigos: Daniela Padilha, Aline Abreu, Raquel Matsushita, Lúcia Hiratsuka, André Neves, Silvia Fernandes e Cristiane Rogerio. O Claudio Fragata também estava lá e me apresentou à Roberta Asse. Li muitos livros do Claudio e já falei dele aqui no blog, além de escritor ele dá cursos e coordena uma oficina de escrita criativa, a Roberta foi sua aluna nessa oficina.

O projeto do livro que eu vou contar hoje foi analisado em aula, o Claudio me disse que a Roberta tem outros textos, tão bons quanto esse, que também podem virar livro. Soube que a Roberta tem um jeito bem legal de trabalhar, ela viaja pelo Brasil, visita algumas comunidades, presta atenção no que as crianças comem, como brincam, cantam e dançam; e depois transforma tudo isso em histórias curtas. Adorei essa história que a Roberta escreveu, a história de João, e quero ler outras.

De João para seis irmãos

No dia que conheci a Roberta, ela me contou que tinha acabado de publicar esse livro, e eu falei do meu blog. Na outra semana, ela me mandou um e-mail, dizendo que gostou muito do blog, e me perguntou se podia me mandar um exemplar do livro, de presente. E eu respondi que sim. Claro, adoro ganhar livros!

O livro De João para seis irmãos, publicado pela Pólen Livros, foi escrito e ilustrado pela Roberta Asse, o projeto gráfico também é dela, ela é arquiteta e trabalha como designer gráfico. A história foi inspirada em seu pai, o livro é dedicado a ele, o pai da Roberta se chama João e é marceneiro. Gostei de saber disso, pois meu avô também foi marceneiro, não o conheci, quando nasci, ele já tinha morrido, mas meu pai me fala dele. Na nossa casa tem alguns móveis feitos pelo meu avô, inclusive uma estante de livros, aquelas de madeira trabalhada e portas de vidro.

Como já diz o título do livro, o João tinha seis irmãos, ele era o mais velho, cuidava e se dedicava tanto a todos, que às vezes parecia um pai. Quando criança, trabalhava fazendo vassouras, depois do almoço e da escola, e aos 12 anos aprendeu a marcenaria. Um dia pensou em fazer um presente para cada um dos irmãos. “Um presente lindo. Um presente de madeira. Um presente para sempre.”

Seus seis irmãos eram Alva (linda e sonhadora), Chico (travesso e aventureiro), Miro (gostava de assistir, era observador), Tito (atencioso e reclamador), Elizabeth (alegre, gostava de companhia) e Bento (esperto e engraçado), e os presentes que João fez para cada um tinham a cara deles.

Gostei muito do jeito como a Roberta escreve e como foi construindo essa história, é muito bonito ver cada presente se encaixar em cada irmão. Acho que a Roberta herdou isso de seu pai, pois o presente que ela me deu, esse livro, também se encaixou direitinho em mim. No final do livro tem um quadro com as técnicas de marcenaria usadas para fazer os presentes.

Um caçador de mentiras

Já fazia tempo que eu vinha conversando com o Marcelo Jucá, por e-mail, nosso papo começou quando ele descobriu o meu blog e me passou uma dica de leitura, um livro que tinha acabado de lançar, em formato e-book, pela Editora Pipoca, A Coleção de Maya. Ele me contou que esse livro tem narração, e recursos de animação e interação. O leitor pode brincar com a história do livro, compartilhar com os amigos e trabalhar com os professores, em sala de aula, ou com os pais, em casa. A Maya da história é doida pra começar uma coleção, e de foma curiosa, brincando, ela descobre algo bem divertido.

Eu não li esse livro do Marcelo Jucá, não tenho um tablet e meu pai é meio conservador com essa história de e-book. O Marcelo me disse que também dá pra baixar o aplicativo iBooks e ler A Coleção de Maya e outros livros da Editora Pipoca, no smartphone. A Coleção de Maya eu não li, mas li outro livro do Marcelo e adorei, As mentiras do Zodíaco, fui ao lançamento no final do ano, conheci o Marcelo, pessoalmente e ganhei um super-autógrafo:

Caro Heitor, fico muito feliz em finalmente te conhecer! Seu sorriso é sincero e revela muita sabedoria. Espero que esse livro faça você rir. Rir é a coisa mais gostosa do mundo. Então, a cada rima, ria muito. Não sei qual é o seu signo, e pra falar a verdade, eu sou ruim em lembrar as características de cada um. Mas, para este texto, estudei bastante e tentei criar uma história divertida com misteriosos seres do zodíaco. Espero revê-lo em breve pra trocarmos mais histórias. Um grande abraço! Marcelo Jucá. 6/12/14

As mentiras do zodíaco – 13º o signo da serpente

Eu também quero rever o Marcelo e trocar mais histórias com ele! Acabei de ler um livro da Socorro Acioli, A cabeça do Santo, é um livro para adultos. Fui ao lançamento e tenho um exemplar autografado por ela, no autógrafo ela escreve que é para eu ler daqui a dez anos. Fui desobediente! Já li, adorei e não vi nada que uma pessoa da minha idade não possa ler. Soube que o Marcelo Jucá também leu esse livro, quero marcar de tomar um suco com ele e compartilhar essa leitura.

O Marcelo Jucá é jornalista e mestre em comunicação, já trabalhou na Folha de S. Paulo, Editora Abril, Editora Escala e algumas agências de conteúdo. A história de seu livro, As mentiras do zodíaco, publicado pela Editora Patuá, começa com Gael, o personagem principal, deitado na grama, olhando o céu: “Há exatos 13 anos, Gael estava deitado na grama admirando as estrelas no céu. Olhava com os seus óculos binóculos as dezenas de luzinhas daquela infinita escuridão, buscando as respostas para as suas perguntas, para os acontecimentos, para a vida. E morte.”

Essa grama ficava no jardim da casa de seu avô Euclides, numa cidade do interior. Seu avô estava doente e de cama e esta notícia inconformou Gael, que ficou emburrado, sem muita reação. Gael gostava de se perder em pensamento, admirador do céu, seu passatempo era reconhecer cada constelação ou planeta, “ou até um avião sobrevoando se achando o dono de tudo”. De repente ele sentiu um vento estranho vindo de cima, parecia um chacoalhão.

Desse vento veio um brilho, e do brilho, uma serpente. O Marcelo conta essa parte de uma forma muito bonita, como é todo o livro. Fiquei totalmente envolvido na história do Gael, é bonita e engraçada, tem trechos que parecem poesia. A serpente conversou com o Gael, lhe fez uma proposta e passou 12 tarefas ao menino. Ele tinha que fazer 12 pessoas (uma de cada signo) contar 3 mentiras. Com isso seu avô ficaria curado e a serpente seria reconhecida como o 13º signo do zodíaco. Esse é só o comecinho da história, Gael sai para cumprir suas 12 tarefas e salvar o seu avô. Será que ele vai conseguir? Sim, o Marcelo perguntou o meu signo… Sou de escorpião!

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As perguntas da Mafalda

Hoje vou escrever o último post do ano e vou falar da Mafalda, do Quino, li dois livros e uma reportagem no jornal, e visitei uma exposição sobre ela. Depois vou sair de férias, mas pretendo voltar ao blog, logo no começo de janeiro, tenho muita coisa pra contar, nesses dias conheci dois escritores novos, a Roberta Asse e o Marcelo Jucá, e quero muito falar deles. Também tem outros livros que já li, que peguei na Bienal e na Flip e ainda não tive tempo de escrever aqui.

Estou ansioso pra chegar janeiro, no mês que vem, vou esperar a última resposta que pode mudar a minha vida, já foram quatro respostas positivas, falta a quinta, que se for positiva, também, vou ter um 2015 muito feliz, será a realização de um sonho, mas ainda não posso contar nada, me pediram segredo até a resposta final, assim que puder, venho aqui e conto tudo. Agora, vamos ao post de hoje, mas antes de começar, aproveito pra desejar boas festas a todos e um feliz Ano Novo.

Mafalda invade a Folha

Nunca tinha visto uma personagem fazer isso em um jornal, na semana passada a Folha de S. Paulo fez uma reportagem com a personagem Mafalda, e ela invadiu as páginas da “Ilustrada”! Fez perguntas para os colunistas Marcelo Coelho e Keila Jimemez, para o Marcelo, Mafalda perguntou, “com que idade ficamos velhos?”, e da Keila, que escreve sobre TV, ela quis saber se tem coisa boa em algum canal. O jornal ainda reservou uma página inteira com alguns ilustradores respondendo às suas “peguntas desconcertantes”.

Laerte, Caco Gualhardo, Mauricio de Sousa, Liniers, João Montanaro, Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, Alexandre Moraes e Fernando Gonsales, desenharam seus autorretratos ao lado da Mafalda e reponderam a todas as perguntas da menina. Teve também uma análise do professor Waldomiro Vergueiro, especialista em quadrinhos, falando da importância dessa personagem do quadrinista Joaquín Salvador Lavado, o Quino. Tudo isso para comemorar os 50 anos da Mafalda, que apareceu pela primeira vez, em setembro de 1964, e anunciar a mostra “O mundo segundo Mafalda”, que chegou a São Paulo, além do lançamento de alguns livros.

O mundo segundo Mafalda

Fui visitar a exposição “O mundo segundo Mafalda”, que está acontecendo aqui em São Paulo, na Praça das Artes, que fica na avenida São João, 281, no centro da cidade, funciona das 9h00 às 20h00, vai até o dia 28/2, nesses dias de festa está fechado, reabre no dia 6/1, e é grátis. A mostra, que já passou pela Argentina, Costa Rica, México e Chile, tem diversos ambientes, que contam a história da Mafalda, da sua família e dos seus amigos. Logo na entrada tem o carro do pai da Mafalda, com toda família dentro, um Citroen, que fez sucesso na Argentina nos anos 1960/70, como o Fusca fez no Brasil. Depois vem outra parte que mostra as invenções da Mafalda e dos seus amigos, como o garfo, que foi transformado em antena telepática para captar as boas ideias.

Tem um apartamento montado, com sofá, móveis, televisão, vitrola, igual aos apartamentos da classe média argentina dessa época, os objetos são todos originais. Tem uma oficina com papel e carimbos dos personagens da Mafalda pra gente criar os nossos próprios desenhos. Tem uma seção com os gostos e os desgostos da Mafalda, o que ela adora, e o que ela odeia, como sopa. Tem outra, com todos os mundos que a Mafalda imagina, como o “mundo doente” e “o mundo suicida”. Tem outra seção que descreve todos os personagens das histórias, o pai da Mafalda, Pelicarpo, a mãe, Raquel, o Felipe, o Manolito, a Susanita, o Gui, o Miguelito, e a Liberdade. Todas as seções têm galerias de tiras, passei a tarde toda vendo a exposição e lendo as tirinhas.

Li dois livros da Mafalda

Li dois livros da Mafalda, de uma coleção que a editora Martins Fontes, selo Martins, acabou de lançar, a coleção tem quatro livros e se chama “A pequena filosofia da Mafalda”. Eu li Como vai o planeta? e Injustiça, os outros dois títulos são Assim vai o mundo! e Guerra e paz.

Em Como vai o planeta?, Mafalda começa a refletir sobre a evolução do mundo, cobra de sua mãe por chorar ao descascar uma cebola, motivo tão pouco “altruísta”; olha para um globo terrestre e percebe que ele está enfraquecendo de tanto desgosto; coloca um aviso em outro globo, que ali há “irresponsáveis trabalhando”; e fica imaginando qual seria o aviso para colocar o mundo à venda, “seria bem difícil fazer um comercial convincente”.

Em Injustiça, depois de lamentar o desastre que é o mundo, Mafalda diz ao seu pai, que lê o jornal: “Sou toda ouvidos, papai. Pode me explicar por que em vez de mudar as estruturas todos só ficam remendando as peças”. Pede ao mundo que dure até ela crescer e diz que vai trabalhar como interprete da ONU. E ainda faz à mãe, uma de suas perguntas desconcertantes: “Mamãe, por que tem gente pobre?”. Quino criou seus personagens e histórias, quando a maioria dos países da América Latina vivia sob ditaduras, mas muitas das reflexões de Mafalda, ainda são bem atuais.

Joaquín Salvador Lavado, o Quino

Quino, ou Joaquín Salvador Lavado, nasceu no dia 17 de julho de 1932 na cidade de Mendoza, na Argentina, recebeu o mesmo nome de seu tio, Joaquín Tejón, pintor, desenhista e publicitário, com quem descobriu sua vocação. Ganhou o apelido de Quino, quando ainda era criança. Na década de 1940, perdeu sua mãe e seu pai, terminou a escola primária e decidiu se inscrever na Escola de Belas Artes de Mendoza, mas logo abandou o curso para se dedicar aos quadrinhos de humor.

Em 1954 se mudou para Buenos Aires e percorreu as redações de todos os jornais e revistas, a procura de emprego. Publicou pela primeira vez na revista Esto Es e, desde então, seus quadrinhos saem em diversos jornais e revistas da América Latina e da Europa. Em 1960 se casou com Alicia Colombo, a sua lua de mel foi no Rio de Janeiro, na primeira vez que saiu da Argentina. O Quino não teve filhos.

Em 1963 lançou seu primeiro livro de humor, Mundo Quino; em 1964 apareceu a Mafalda; depois disso, lançou vários livros na Argentina e no exterior; viajou pra muitos países divulgando seu trabalho; e ainda recebeu diversos prêmios, entre eles o de desenhista do ano, em 1982.

Mafalda é a obra-prima de Quino, com a personagem de uma menina aparentemente inocente e de seus amigos, o desenhista reflete sobre a política, a economia e a sociedade em geral, sempre com humor. Mafalda foi traduzida pra dez idiomas, exportada pra vários países, foi garota-propaganda de campanhas da UNICEF, e inspirou cartões-postais e selos argentinos.

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Caio Fernando Abreu no clube de leitura

Hoje vamos começar mais um clube de leitura com os alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte, desta vez será com duas turmas do sexto ano, no total são sessenta alunos do 6ºA e do 6ºB, e o livro é As Frangas, de Caio Fernando Abreu.

Quem organiza o nosso clube na escola e a professora Luciana, de Língua Portuguesa mas, nesta edição, a professora Gláucia, de artes, também participou, os alunos fizeram, na aula dela, galinheiros de massinha, inspirados na leitura do livro. A professora Luciana me mandou umas fotos e disse que os alunos adoraram fazer esse trabalho, publiquei algumas neste post.

Acho que não preciso contar como funciona o nosso clube de leitura, pois está tudo explicadinho no post anterior.

O sumiço dos Morangos Mofados

A escolha do livro As Frangas, de Caio Fernando Abreu, para o clube de leitura, aconteceu do mesmo jeito que a do Beatriz em trânsito, de Eloí Bocheco. A professora Luciana me mandou a lista dos livros do 6º ano, vi, e logo escolhi esse, por dois motivos. Primeiro é que há muito tempo ouço falar de Caio Fernando Abreu, mas nunca tinha lido um livro dele, nem sabia que tinha escrito livro infantojuvenil.

Meu pai me falou um pouco de Caio Fernando Abreu, e contou que nos anos 1980 havia uma coleção de livros da Editora Brasiliense, chamada “Cantadas Literárias”. Vários escritores que apareceram nesse tempo, publicaram seus livros nessa coleção, inclusive o Caio F., que era assim que muitas vezes ele assinava.

Paulo Leminski, Marcelo Rubens Paiva, Chacal, Ana Cristina César, e muitos outros autores, a coleção teve mais de quarenta títulos. O Jorge Miguel Marinho, que eu conheço e já falei dele aqui no blog, também escreveu pra essa coleção, o livro do Jorge se chama Escarcéu dos Corpos.

Tem livros que meu pai diz que nunca mais se esqueceu, como Porcos com Asas, Marcou, Dançou! e Feliz Ano Velho. Meu pai tem uns vinte títulos da coleção “Cantadas Literárias”, guardados na estante aqui de casa, e jura que tinha também o Morangos Mofados, o que o Caio publicou nessa coleção. “Devo ter emprestado pra alguém que não me devolveu”, ele ficou lamentando.

A vida íntima de Laura

O outro motivo que me fez escolher esse livro é que ele foi inspirado em um da Clarice Lispector, que eu já li. Uma vez estava pesquisando escritores que ficaram famosos, escrevendo para adultos, mas também publicaram livros infantojuvenis e encontrei diversos: Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, entre outros, até Tolstoi escreveu para crianças, também. Foi nessa pesquisa que descobri a Clarice Lispector, li três livros dela e contei aqui, no post “Li Clarice Lispector”. Um desses livros é o A vida íntima de Laura, que inspirou As Frangas, de Caio Fernando Abreu.

Nesse livro, depois de contar a história de Laura, a galinha do quintal da dona Luísa, que mais botava ovos e por isso, era aprotegida, Clarice Lispector faz um convite ao leitor: “Se você conhece alguma história de galinha, quero saber. Ou invente uma bem boazinha e me conte”. Caio Fernando Abreu, que leu o livro da Clarice, resolveu contar a dele e escreveu As Frangas. Ele disse que gostava muito da Clarice e queria agradá-la um pouco. Ela já tinha morrido, mas ele achava que a gente também pode agradar as pessoas que já morreram, “é só fazer coisas de que ela gostava”.

Uma roda a três e outra história de meu pai menino

Sempre que tem clube de leitura, peço para o meu amigo Lipe ler o livro, pra gente fazer, em dois, uma roda de conversa, e compartilhar nossas leituras.  Mas desta vez, nossa conversa teve mais um participante, meu pai também leu As Frangas e pediu pra entrar na roda.

– Não sabia que o Caio Fernando Abreu tinha escrito um livro infantojuvenil, li, gostei muito e só quero falar duas coisas.

– Pode falar quantas quiser, pai.

– A primeira é sobre o próprio autor, ele é o tipo de escritor que escolhe as palavras certas para compor uma frase, fica gostoso de ler, é muito prazeroso ler suas histórias.

– Que legal, tio, eu adorei esse livro, também! – O Lipe chama meu pai de tio, eu também chamo o pai dele, assim.

– Agora quero contar uma história de galinha, mas é bem rapidinha…

– A que a Clarice pediu, tio?

– Sim, Felipe, a que a Clarice pediu. A história do livro As Frangas me lembrou de minha casa na infância, ela tinha um quintal bem grande, com pés de frutas e muitos bichos, tinha galinhas, e também tinha patos. Minha mãe colocava os ovos da pata pra galinha chocar, principalmente nos tempos de chuva, ela achava que a pata andava muito pelo barro e os patinhos sofriam pra seguir a mamãe pata. Era muito engraçado, depois que os patinhos nasciam, ver um bando deles, junto dos irmãozinhos pintinhos, seguindo a mamãe galinha.

– Vovó devia ser uma figura!

– E era, Heitor… Mas às vezes era meio intrometida… Onde já se viu querer mudar a natureza dos patos?

Depois foi nossa vez de falar, contamos, eu e o Lipe, tudo que percebemos na leitura que fizemos do livro. Meu pai prestava muita atenção e sorria, a cada revelação que a gente fazia. Quer saber? Uma das coisas que mais gosto no meu pai é esse interesse que ele tem por nossas opiniões.

As oito frangas de Caio F.

O livro As Frangas, escrito por Caio Fernando Abreu, com ilustrações de Suppa e publicado pela Editora Vida Melhor começa com o autor dizendo que a melhor história de galinha que ele conhece é a da Clarice Lispector, contada no livro A vida íntima de Laura. Depois ele explica porque prefere chamar a galinha de franga:“Olha, para dizer a verdade, nem sei direito. Quando olho para uma galinha, acho ela muito mais com cara de franga. Acho mais engraçado.”

Então ele começa a falar da casa onde nasceu, tinha um pátio enorme, (que aqui a gente chama de quintal), tinha uma porção de árvores, “tinha também formiga, passarinho e cachorro”, o Faruque e a Cadeluda. No jardim tinha hortênsia, um jasmineiro e umas margaridas. Também tinha uma bergamoteira, que dava bergamotas, (que aqui a gente chama de mexerica).

Ele diz que o bom quando a gente conta uma história, “é poder chamar as coisas como a gente quer chamar, não como todo mundo chama.” E pede pra gente experimentar… Ele ainda continua contando muito mais sobre essa sua casa, de quando era criança e do seu pátio enorme, até chegar na história das suas frangas, que eram oito:

A Ulla; a Gabi; as três Marias, Maria Rosa, Maria Rita, Maria Ruth; a Otília; a Juçara e a Blondie. Cada franga tem sua história; a Ulla, por exemplo, nasceu na Suécia; a Gabi nasceu na Paraíba, mas foi encontrada no Rio de Janeiro; as três Marias são irmãs e vivem grudadas; a Otília, o Caio ganhou num parque de diversões.

A Juçara, ele acha a mais bonita, mas as outras não podem saber disso, senão rola um ciúme; e a Blondie, que quer dizer lourinha em inglês, é norte-americana, e por isso tem esse nome, pois ela é lourinha, também. Mas elas não vivem nessa casa do Caio, com um pátio enorme, suas oito frangas moravam em seu apartamento, em São Paulo e na maior parte do tempo, ficavam em cima de sua geladeira.

Caio Fernando Abreu (1948-1996) foi jornalista, crítico literário e escritor, considerado um dos representantes de sua geração, nasceu na cidade de Santiago, no Rio Grande do Sul, estudou Letras e Artes Cênicas na UFRGS, mas abandonou esses cursos para trabalhar como jornalista em revistas, como a Nova, Manchete, Veja e Pop.Também escreveu para os jornais Correio do Povo, Zero Hora, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Em 1968, durante a Ditadura, foi perseguido e refugiou-se em São Paulo, na casa da escritora Hilda Hilst. Nesse tempo morou na Espanha, Suécia, Países Baixos, Inglaterra e França, retornando a Porto Alegre em 1974.

Em 1983 mudou-se para o Rio de Janeiro, depois, em 1985, veio viver e trabalhar em São Paulo. Convidado pela Casa dos Escritores Estrangeiros, voltou à França, em 1994, mas quando descobriu que era portador do HIV, foi morar na casa de seus pais, em Porto Alegre, onde ficou até sua morte, no dia 25 de fevereiro de 1996. Escreveu romances, contos, peças de teatro, novelas, crônicas, e ainda fez traduções. Além de As Frangas e Morangos Mofados, publicou Onde Andará Dulce Veiga?, Pequenas Epifanias, Os Dragões não Conhecem o Paraíso, A Maldição do Vale Negro, Limite Branco, O Ovo Apunhalado, e muitos outros. Seus livros foram traduzidos para diversas línguas e receberam muitos prêmios, inclusive dois Jabutis.

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Eloí Bocheco no clube de leitura e mais PMLLLB

Hoje vamos começar outra edição do clube de leitura com os alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte, falaremos do livro “Beatriz em Trânsito”, de Eloí Bocheco, também vou publicar uma entrevista coletiva que fizemos com a autora. E, no final do post, vou pedir licença aos meus amigos da Luiz Gatti, para ocupar o espaço do nosso clube e contar algumas novidades do PMLLLB, o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, e da nova amiga que fiz do mundo do livro.

O CLUBE DE LEITURA

O clube funciona assim, eu posto a resenha sobre o livro e na sequência, os alunos que leram e trabalharam esse livro, em sala de aula, escrevem seus comentários. Se alguém mais quiser comentar, também pode, mesmo não fazendo parte do clube. Esse nosso clube é formado por 100 alunos do 7º e 8º anos, turmas 7ºG, 7ºH e 8ºJ. Quem organiza o clube na escola é a professora Luciana, de Língua Portuguesa, aqui no blog, somos eu e o meu amigo Lipe, ele sempre me ajuda, lê os livros do clube, depois fazemos uma “roda de conversa” e compartilhamos nossas leituras.

Nossa roda de conversa

Faz tempo que eu não falo do meu amigo Lipe aqui no blog, mas a gente se vê quase todo dia, moramos na mesma rua e estudamos na mesma escola, ontem mesmo ele passou aqui em casa:

– E aí Le, beleza?

– Beleza Lipe! E você? Já leu o livro Beatriz em Trânsito, do clube de leitura?

– Li, achei da hora, só não gostei de uma parte.

– Que parte?

– Poxa… foi sinistro o que aconteceu com o Samuel, achei que ia rolar um lance entre ele e a Beatriz.

– E rolou…

– Mas foi curto!

– As histórias dos livros são assim mesmo, Lipe, nem sempre acontece o que a gente espera.

– Não é só nos livros, Le, na vida real também.

– Pois é…

– Mas eu não me conformo, fico revoltado com essas coisas.

Foi bem legal essa minha conversa com o Lipe, durou a tarde toda, falamos muito mais do livro e descobrimos coisas da história que sozinhos não tínhamos percebido. O Lipe é o meu melhor amigo e adoro conversar com ele!

O livro escolhido

Este é o quarto clube de leitura que fazemos com a Escola Municipal Luiz Gatti, de Belo Horizonte, já é o quarto livro que leio com as turmas da professora Luciana, e compartilhamos nossas leituras aqui no blog. Já lemos A professora encantadora, de Márcio Vassallo, Os herdeiros do Lobo, de Nelson Cruz, e Meu pai é um homem-pássaro, de David Almond, e desta vez o livro é Beatriz em Trânsito, de Eloí Bocheco, neste ano ainda pretendemos fazer mais um clube de leitura, será com As Frangas, de Caio Fernando Abreu.

Quando a professora Luciana me passou a lista dos livros do semestre para eu escolher algum para o clube, vi o da Eloí Bocheco e respondi pra ela: Quero esse! Já tinha lido um livro da Eloí, gostei muito e contei aqui no blog, foi o Olha a Cocada!, ela até deixou comentário no post! Eu disse à professora Luciana que poderia consultar a autora, e fazer uma entrevista coletiva, como fizemos com o Nelson Cruz, a professora gostou da ideia, consultei a Eloí, ela topou e esse clube tem entrevista, também!

As perdas e as conquistas de Beatriz

O livro Beatriz em Trânsito, escrito por Eloí Elisabete Bocheco, com ilustrações de João Lin, e publicado pela editora In Pacto, em 2005, já tem um currículo de sucesso, Conquistou muitos prêmios, o Mário Quintana de 2005; foi selecionado para o Catálogo White Ravens da Biblioteca Internacional da Juventude, Munique, em 2006; selecionado para o Catálogo de Bolonha, Feira Del Libro Per Ragazzi, Italia, em 2006; selecionado para o Acervo Básico da FNLIJ, Brasil, em 2006; selecionado para o Programa Mais Cultura do MINC e Biblioteca Nacional; e também selecionado para o Kit Escolar da Prefeitura de Belo Horizonte, em 2013, com isso chegou aos leitores da Luiz Gatti e ao nosso clube de leitura.

A família de Beatriz vivia mudando, de lugar, de casa, de vizinhos, de escola, de amigos… Ela dizia que até já tinha se “desacostumado do costume” de viver sempre no mesmo lugar, mas não sabia por que mudavam tanto, achava que isso era influência de seu avô. Beatriz morava com a avó e os tios, sua mãe morreu, se matou, quando ela ainda tinha um pouco mais de um ano, e seu pai sumiu, suas lembranças da mãe eram “mais inventadas”, para sua avó, as lembranças eram “de verdade”, uma vez por ano, viajavam para levar flores para a mãe no cemitério.

Beatriz tinha alguns medos, o maior deles era o de ficar sozinha, “se morrerem todos aqui em casa e só sobrar eu”, ela também tinha uns sonhos esquisitos, desses que a gente tem quando dorme, sonhava com um boi sem cabeça, com igreja que corria atrás dela – esse ela contou para o seu tio Pedro, que comentou: “Isso é sonho ou literatura?”. Outra vez ela sonhou que era duas Beatrizes, uma tinha mãe e a outra não tinha.

Beatriz gostava de pensar nas palavras, mas, às vezes, algumas a perseguiam. Em casa, era muito querida, na escola adorava a professora Guiomar, que tinha um armário bege, cheio de livros, que os alunos liam com caras de contentes e até podiam levar pra casa. Foi nessa escola que Beatriz conheceu Samuel, ficaram muito amigos, mas logo ele foi passar uns meses em outra cidade, faria uma cirurgia, nesse tempo eles se comunicaram por e-mail, conversaram sobre a vida e sobre o mais gostavam, os livros.

Entrevista Coletiva

“Meu desejo era escrever uma história em que os personagens fossem leitores, apaixonados por literatura”.

Entrevistamos a Eloí Bocheco!

Os alunos da Escola Muncipal Luiz Gatti fizeram algumas perguntas, eu e o Lipe acrescentamos outra, enviamos para a autora e ela respondeu

Clube de Leitura – Qual foi sua inspiração para escrever esse livro, ele foi baseado em uma história real?

Eloí Bocheco – Meu desejo era escrever uma história em que os personagens fossem leitores, apaixonados por literatura.  Queria construir um cenário fictício em que o livro tivesse um lugar privilegiado, fizesse parte do imaginário dos personagens, como algo indispensável, misturado à vida, à rotina. Depois desta primeira ideia, apareceu uma menina, não lembro como ela chegou. Mas vi que se chamava Beatriz e mudava o tempo todo de lugar. Daí em diante, a narrativa foi puxando os outros personagens e tudo o que aconteceu com eles.  Embora o perfil de alguns personagens seja inspirado em vivências reais, a história de Beatriz é uma história de ficção.

CdL – Por que você escolheu o nome “Beatriz” para a personagem principal?

EB – Escolhi por achar este nome muito lindo. Uma coisa curiosa é que, muitos anos depois de ter escrito o livro, fiquei sabendo que Beatriz significa “viajante”, “peregrino”, segundo os estudiosos do significado dos nomes de pessoas. Digo que é curioso, porque a Beatriz vivia (…) “mudando de casa, de vizinhos, de escola, de amigos, de vista pro pôr-de-sol, de ares, de brincares…”

CdL – Você se inspirou em alguém para criar o Samuel e a história dele?

EB – Tive um aluno cadeirante que era um grande leitor, como o Samuel. Era um menino generoso, que ajudava os colegas nas tarefas da escola e era muito admirado por sua inteligência e sensibilidade.  O Samuel tem um quê desse menino.

CdL – Por que o Samuel morreu nessa história? Foram tantas aventuras vividas por Samuel e Beatriz, quase um romance. Por que, então, Samuel morreu?

EB – Olhem, eu não queria que o Samuel partisse. Me doeu muito essa partida. Como na vida, nas histórias, também há caminhos sem volta. A narrativa foi indo para um atalho que levou Samuel embora. A morte é uma realidade inevitável, contra a qual nada podemos fazer. Perder um amigo é uma grande dor.  Foi difícil para Beatriz enfrentar essa perda. Mas, ela enfrentou com a ajuda da arte e dos amigos que ficaram. As lembranças e a saudade ficam para sempre. O tempo faz a sua parte e, pouco a pouco, cicatriza as feridas para a vida prosseguir, apesar das perdas. Os e-mails que ela trocou com Samuel gravaram a memória de uma grande e inesquecível amizade.

CdL – Por que você tratou de temas tão graves como abuso, suicídio, bullying, violência doméstica e violência familiar?

EB – Porque os temas graves devem ser levantados, discutidos, comentados,  para que se reflita sobre eles,  para que se busque prevenir, antes que aconteçam, ou para enfrentá-los sem medo ou preconceitos.

CdL – Por que Beatriz sofre tanto e tem tantos problemas nessa história?

EB – A história de Beatriz encena, recria através da linguagem, a vida. E a vida tem perdas, sofrimentos, perplexidades, dúvidas, conflitos. Apesar da perda trágica da mãe, da ausência do pai e da perda do amigo, ela tem uma família composta pela avó e tios, que são amorosos, acolhedores, e lhe transmitem legados valiosos, como o amor aos livros e às artes, além de exemplos de  ética, de  sensibilidade para com os problemas do outro. Sem contar a professora Guiomar, com quem Bia tem longas e bem-humoradas conversas sobre a vida e sobre os livros do armário bege. A vida mistura alegrias e tristezas, como diz a própria Beatriz: “Amanhã é uma coisa que mistura o que aconteceu com o que vai acontecendo na vida da gente. Umas coisas se repetem nessa mistura, que nem os adeuses, outras nunca mais acontecem. Das coisas que os amanhãs misturam, para mim, a que mais dói é a saudade e a que mais alegra é a amizade”. (Pag. 85)

CdL – Como você foi tendo ideias para escrever Beatriz em Trânsito?

EB – Primeiro surgiu a Beatriz, que era uma menina sempre “em trânsito”, visto que seus tios mudavam o tempo todo de lugar. Daí em diante, uma ideia foi puxando a outra, um personagem foi levando ao outro, e a história foi surgindo e dando voltas, e me levando junto. Acho que as histórias brotam do fundo da memória, das profundezas, dos abismos,  das coisas gravadas na alma, de sentimentos que querem tomar forma através das palavras.

CdL – Foi difícil criar esse livro?

EB – Diria que foi trabalhoso. Levei muitos meses escrevendo e reescrevendo cada capítulo do livro. Procurei reler todos os livros que são citados pelo Samuel e por Beatriz para ter as histórias bem vivas na memória (Reinações de Narizinho, Alice no país das Maravilhas, A Menina que o vento roubou, A Menina e o Vento, O Jardim Secreto, etc.) Levei muitas semanas para compor o diário de João oleiro. Esta parte foi escrita com muita lentidão e refeita numerosas vezes. Também revisitei o folclore para inventar as despedidas de Bia e Samuel nos e-mails e  para compor a mitologia da lagoa verde esmeralda. Foi um livro demorado, mas valeu a pena, pois, desde que foi editado, em 2005, segue encontrando leitores sensíveis como vocês.

CdL – Você sempre gostou de ler livros literários?

EB – Desde que li meu primeiro livro literário, que foi Clarissa, de Érico Veríssimo, nunca mais parei de ler e de procurar os livros literários na biblioteca ou onde quer que pudessem ser encontrados. Na juventude, tive uma mestra de leitura maravilhosa, que lia livros aos capítulos para a turma e formou várias gerações de leitores. Devo a essa mestra a paixão pela literatura e pela biblioteca. Fiz, tempos atrás, uma homenagem a ela, através de uma crônica chamada “Doses de Sonho”, porque era assim mesmo que ela nos oferecia a literatura, como doses de sonho para viver. A crônica pode ser lida em meu blog Sala de Ferramentas.  Essa homenagem foi premiada pela FNLIJ, em 2013, com o Prêmio Leia Comigo! e eu fiquei muito feliz, pois pude homenagear duplamente esta querida mestra. http://wwwsaladeferramentas.blogspot.com.br/2011/05/doses-de-sonho-premio-leia-comigo-da.html.

CdL – Por que decidiu trabalhar com literatura? Você pretendia ser escritora desde pequena?

EB – Meu sonho, desde os sete anos, era ser professora. Realizei esse sonho e lecionei até me aposentar do magistério. Comecei a escrever no final da carreira de professora, durante um trabalho de alfabetização que eu fazia, na biblioteca, em 1998, com crianças da comunidade. Escrevi alguns poemas para auxiliá-los ludicamente nas dificuldades que apresentavam. Foi assim que surgiu meu primeiro livro Uni…Duni…Téia (esgotado).  Alguns poemas desse livro foram resgatados recentemente no livro Tá pronto, seu Lobo? E outros poemas, (Formato, 2014). (http://cantoriando.blogspot.com.br/)

CdL – Ser professora ajudou na sua carreira de escritora?

EB – Ajudou.  Antes de escrever literatura,  fiz a  experiência de compartilhar a literatura com crianças e jovens, e essa foi uma experiência marcante. O magistério me deu uma memória de escola muito rica, muito forte. Ao lecionar, lidamos com a palavra o tempo todo. Temos que procurar a palavra mais clara, mais objetiva, mais limpa para nos comunicar com as crianças, para nos fazer entender.  Esse exercício me deu certo traquejo para lidar, também, com a palavra escrita. Quando escrevo penso que aquele texto poderá ser lido para uma classe em voz alta e capricho para que fique o máximo possível limpo e soe bem aos ouvidos. Ao ler o livro Uma Clareira no bosque – Contar histórias na escola ( Papirus, 2014), da professora Gilka Girardelo, encontrei uma passagem sobre meu livro Contra feitiço, feitiço e meio, onde a autora diz assim: (…) “descobriremos que a autora nos ajuda nesse trabalho, como se tivesse escrito o livro pensando na professora que vai lê-lo em voz alta para a turma”. Ao escrever procuro deixar o texto em estado de ser lido em voz alta por uma professora em classe. A professora que fui sempre está olhando por cima do ombro quando escrevo.

Breve biografia da autora

Eloí Bocheco mora na cidade de Bombinhas, em Santa Catarina, escritora, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo-RS e pós-graduada em Alfabetização e Metodologias de Leitura. Atuou como alfabetizadora, professora de Língua Portuguesa e Literatura, trabalhou como animadora da biblioteca escolar, foi coordenadora de ensino de língua e literatura, dentre outras atividades ligadas ao ensino. Iniciou na literatura escrevendo crônicas para o jornal A Notícia, de Joinville (SC), e seu primeiro infantil foi o “Uni… Duni… Téia”, um livro de poemas, que está esgotado. Depois deste já publicou diversos livros e ganhou muitos prêmios. Se quiser saber mais sobre a autora, visite seus sites: http://wwwsaladeferramentas.blogspot.com.br/ http://wwwprosaseversos.blogspot.com.br/

Extra… Extra! Fotos das turmas da Escola Municipal Luiz Gatti no Clube de Leitura

Lendo o blog e o post do livro Beatriz em Trânsito na sala de informática

PMLLLB – DEBATES REGIONAIS

Na semana passada o pessoal da Sintaxe me ligou:

– E aí, Heitor, tudo bem?

– Tudo.

– Fomos convidados a participar de um debate do PMLLLB, é um debate regional da zona leste, será amanhã, no bairro de São Mateus, na biblioteca do CEU São Rafael. Quer ir comigo?

– Claro que eu quero… Quem vai?

– A Cristiane Rogerio, ela que convidou a gente, acho que você ainda não a conhece, a Cristiane é jornalista, foi editora de educação e cultura da revista e do site Crescer, da Editora Globo, tem um livro infantil publicado pela editora Cortez, o Carmela Caramelo, e agora promove projetos de leitura, tem um site bem bacana que se chama “Esconderijos do Tempo” e trabalha  no projeto “Quem lê sabe por quê”, da prefeitura de São Paulo, é tutora em três CEUs.

– Nossa! Quanta coisa legal ela faz, quero conhecer essa Cristiane.

No dia seguinte fomos a esse debate. Como já contei aqui no blog, até o mês de setembro, aconteceram os debates setoriais, e em outubro, começaram os debates regionais do PMLLLB. Nesses encontros são discutidas as propostas que serão encaminhadas ao GT, o grupo de trabalho que vai elaborar o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca da cidade de São Paulo. O Plano será construído de forma democrática, com a participação da população interessada.

O debate foi muito bom, adorei conhecer a Cristiane Rogerio, depois quero ler o livro dela e saber mais de todos os trabalhos que ela faz. Além da Cristiane, também estavam no encontro a Socorro, que é a gestora desse CEU, a Eliegi, a Josi, e a Priscila, que trabalham na biblioteca, o Abner, que frequenta essa biblioteca desde criança e hoje já está no ensino médio, e o Germano Gonçalves, que mora na região e é escritor. Ele leu pra gente um poema do livro que acabou de publicar, adorei o poema, e o livro tem um nome bem bonito, e sugestivo: O Ex-excluído. Discutimos diversas propostas, e a que eu mais gostei foi a do Germano: Que as bibliotecas públicas dos bairros da periferia tenham em seu acervo livros de autores da periferia. No final, a Socorro me levou pra conhecer o CEU. Adorei!

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